O FRUTO DO ESPÍRITO
A BONDADE
(Gálatas 5.16-25 )
1. INTRODUÇÃO
Durante sua obra criativa, Deus fazia admiráveis pausas
nas quais refletia sobre o que fizera. Diz a Bíblia que
Ele classificou cada obra sua como boa. O resultado de
Sua ação lhe proporcionava uma satisfação estética.
A palavra bondade na Bíblia se aplica àquilo que
proporciona satisfação estética ou moral. No
hebraico, a palavra para expressar este conceito é
tobh, literalmente "agradável",
"alegre". No grego, há duas palavras para
traduzir essa idéia: a primeira é agathos (bom), que
é o termo usado por Paulo para indicar o fruto
espiritual da bondade; a segunda é kalos (belo), que
tem a ver com harmonia. Bondade, portanto, tem uma
dimensão ética e uma dimensão estética. Na dimensão
ética, significa viver de acordo com padrões elevados.
Na dimensão estética, pode ser entendida como beleza
interior.
A vida cristã é aquela
vivida no Espírito Santo. Na verdade, a vida cristã só
é possível no Espírito. Fora dEle, nossa vida é como
a de qualquer pessoa.
2. A BONDADE DE DEUS
O salmo 33.5 diz que a terra está cheia da bondade de
Deus. Esta bondade está presente na Sua criação.
O universo reflete a bondade de Deus. Eu gosto de ler as
páginas sobre ciência nos jornais e revistas. Um dos
temas que me fascina é a idade do cosmos. A cada dia
aparece uma teoria nova, dando alguns bilhões a mais ou
a menos para o nosso mundo. A sabedoria bíblica fala
que tudo começou "no princípio". Os astrônomos
querem datá-lo. Por isto, de vez em quando eles
fotografam alguma estrela nascendo. É fascinante saber
que ela está onde está há alguns bilhões de anos,
mas só agora conseguimos fotografá-la porque só agora
a sua luz pôde ser captada por algum telescópio
gigante espionando o cosmos. Nós sabemos pouco sobre o
cosmos, mas o pouco que sabemos mostra que nele está
presente a bondade de Deus, bondade ordenadora, bondade
harmonizadora. O ser humano reflete a bondade de Deus.
Alguns biólogos têm procurado uma explicação para a
natureza humana. Contra a corrente dos que acham que os
genes são egoístas, Matt Ridley escreveu um livro para
mostrar um paradoxo: os genes, embora egoístas, são
solidários para que possam sobreviver. O debate entre
esses autores apenas confirma que a biologia não pode
explicar a natureza humana, senão parcialmente.
Recentemente, o mundo assistiu a frustração dos
geneticistas encarregados de mapear os genomas humanos;
sua conclusão foi patética: ainda não dá para
entender a natureza humana. Nós sabemos pouco sobre a
natureza humana, mas o pouco que sabemos mostra que nela
está presente a bondade de Deus, bondade que injeta no
homem o desejo de ser bom. É por isto que o Espírito
Santo produz bondade. Ele produz algo que a natureza
humana deseja, mas não consegue produzir por si só.
Deus, portanto, está presente no desejo do bem e está
presente na capacitação para a prática deste bem.
Este desejo humano é uma decorrência da bondade de
Deus. A Bíblia afirma a sua bondade como algo que dura
para sempre (Salmos 106.1; 107.1; 118.1; 136.1; Jeremias
33.11). Diz mais ainda a Bíblia, agora pela boca do
Filho Jesus Cristo, que só Deus é bom (Marcos 10.18;
cf. Lucas 18.19) Só produzimos o bem pela presença do
Espírito conosco. Fora dEle, nossa inclinação é para
o caos, não para a beleza; é para a maldade, não para
a bondade. O caos e a maldade são naturais; a beleza e
a bondade são espirituais.
Estamos sendo naturais ou espirituais?
3. A BONDADE HUMANA
O apóstolo Paulo apresenta três sinônimos para fruto
do Espírito que guardam relação muito próxima entre
si. Conquanto todas sejam produções do Espírito em nós
e por nosso intermédio, são expressões com sentidos
complementares mas distintos. São elas: amor,
benignidade e bondade.
O amor é um sentimento a ser aprendido e que se
caracteriza pela entrega incondicional sem espera pelo
troco. A benignidade é a qualidade que uma pessoa tem
de fazer com que os outros se sintam à vontade em sua
presença; tem a ver, portanto, com empatia e simpatia.
A bondade é uma virtude interior que inunda todas ações.
A mais perfeita ilustração bíblica para a bondade é
a parábola contada por Jesus acerca de um homem caído.
Por ele passaram várias pessoas, entre elas duas que não
eram boas. No interior deles não havia nada que as
impelisse em direção àquele viajante caído e
abandonado. Por ele, no entanto, passou uma pessoa boa.
Sua bondade abafou-lhe a lógica, segundo a qual a
imprudência daquele merecia ser punida como fora. Sua
bondade libertou-lhe do medo das conseqüências e dos
custos do seu gesto. Sua bondade livrou-lhe do
sentimento de impotência diante de um quadro tão
grave. Sua bondade falou mais alto que seus afazeres e
seus compromissos. Os dois viajantes deram o que tinham
para dar: nada, porque não eram bons. O terceiro
viajante deu o que tinha para dar: Há muitos crentes se
comportando como os dois primeiros viajantes. Há muitos
crentes que tocam suas vidas num plano apenas natural,
sem produzir o fruto espiritual da bondade. Crente
cansado de ser bom é crente que abafou o Espírito
Santo na sua vida. Ao contrário, a bondade deve estar
presente nos Seus filhos. Nossa tarefa, como seres
habitados pelo Espírito Santo, é encher a terra de
bondade. Se não o fizermos, o mundo não terá como ver
a bondade de Deus.
4. A MATRIZ DE NOSSA
BONDADE
Pelo Espírito Santo, podemos produzir bondade, embora não
sejams bons.
1. Produzimos bondade quando
reconhecemos a bondade de Deus, que nele significa
perfeição absoluta e generosidade completa. Este
reconhecimento implica que este é o padrão que
buscamos para nós mesmos. Se queremos produzir bondade,
precisamos meditar na bondade de Deus. O nosso louvor
deve ser parte desta contemplação. Quando exaltamos a
Deus, contemplamos a Sua bondade. Diante dela, eis o que
nos cabe fazer: meditar nela, esperando que ela nos
penetre.
2. Produzimos bondade quando
reconhecemos que a bondade Deus nos alcançou e nos
alcança. Quando achamos que somos o que somos porque
somos esforçados, não produzimos bondade. Ao contrário,
quando nos lembramos que é a bondade de Deus que
permite que estejamos vivos e ativos (Lamentações
3.22), nosso compromisso muda. Quando recordamos que Ele
nunca se cansou de nós, nem se cansa de nós, nossa
disposição muda.
3. Produzimos bondade quando
deixamos de nos considerar os crentes-padrões. A nosso
respeito, o apóstolo Paulo traça um retrato arrasador.
Eu tomo o que ele escreveu sobre os judeus, porque se
aplica completamente aos cristãos: Se, porém, tu, que
tens por sobrenome cristãos; repousas no evangelho; te
glórias em Deus; conheces a sua vontade e aprovas as
coisas excelentes, sendo instruído no evangelho; estás
persuadido de que és guia dos cegos, luz dos que se
encontram em trevas, instrutor de ignorantes, mestre de
crianças, tendo no evangelho a forma da sabedoria e da
verdade; porque (....) não te ensinas a ti mesmo? Por
que tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Por
que dizes que não se deve cometer adultério e o
cometes? Por qe abominas os ídolos e lhes roubas os
templos? Por que tu, que te glórias na lei, desonras a
Deus pela transgressão da lei? (Romanos 2.17-23) O
moralista tem dois pesos: um para si mesmo, brandíssimo,
e outro para o próximo: severíssimo. O moralista
produz justiça para os outros, nunca bondade, a não
ser para si mesmo; bondade para si mesmo não é
bondade, é auto-indulgência.
4. Produzimos bondade quando
temos interesse em perfumar a terra com ela. Podemos
pensar as nossas vidas como sendo frascos de perfume.
Enquanto o perfume está fechado, não passa de um
frasco de perfume. Ninguém sabe qual é o seu cheiro.
Às vezes, o frasco é lindo. Às vezes, a marca é
charmosa. Há muitos cristãos-frascos. Precisamos ser
cristãos-perfumes.
Quando queremos perfumar a terra, nós nos
desencapsulamos, nós nos desenfrascamos. É assim que
damos o fruto da bondade. Se nos contentamos em ficar
fechados em nós mesmos, não produzimos bondade.
5. CONCLUSÃO
Aqueles que vivem pelo Espírito devem encher a terra de
bondade, de modo que o mundo veja a bondade de Deus.
De que estamos enchendo a terra?
Esperemos que de bondade. É dela que o mundo precisa.
É ela que Deus espera de nós.
Israel Belo de
Azevedo, Pastor da Igreja
Batista Itacuruçá. Doutor em filosofia, dirige o
Programa de Pós-Graduação em Teologia (Mestrado e
Doutorado) do Seminário Teológico Batista do Sul do
Brasil (Rio de Janeiro).
E-Mail: israel@openlink.com.br
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