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LIÇÕES - 3º trimestre 2001 - www.cpad.com.br 
Comentários Pr.Elinaldo Renovato de Lima, Natal - RN
Complementos, Ilustrações e Vídeos: Pr. Luiz Henrique de Almeida Silva - 99-99152-0454.
AJUDA -
http://www.apazdosenhor.org.br/profhenrique/licao1-asc-1tr18-a_carta_aos_hebreus_e_a_excelencia_de_cristo.htm
 
O LIVRO DE HEBREUS - Pr. Henrique - EBD NA TV - 99-99152-0454
 
Hebreus 1:1 Havendo DEUS antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

2 A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.

3 O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas;
 
Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram; Hebreus 2:3; 
 
Lições Bíblicas CPAD
Jovens e Adultos
 Lição 1: CRISTO, o resplendor da glória de DEUS - 3º Trimestre de 2001 - Título: Hebreus — “... os quais ministram em figura e sombra das coisas celestes”
Comentarista: Elinaldo Renovato
Data: 1 de Julho de 2001
 
TEXTO ÁUREO
 “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da Majestade, nas alturas” (Hb 1.3).
 
VERDADE PRÁTICA
 A revelação de DEUS aos homens teve sua plena expressão através de seu Filho, JESUS CRISTO, não restando mais qualquer revelação sobre a sua vontade para com a humanidade.
 
LEITURA DIÁRIA
 Segunda - Sl 96.6 Glória e majestade diante de DEUS
 Terça - Rm 11.36 Glória a CRISTO eternamente
 Quarta - 2 Co 4.4 JESUS, imagem e glória de DEUS
 Quinta - Ef 3.21 A CRISTO, glória na igreja
  Sexta - 1 Tm 3.16 JESUS, recebido em glória
 Sábado - Ap 4.11 JESUS, digno de receber glória
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - Hebreus 1.1-6.
1 - Havendo DEUS, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho, 2 - a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. 3 - O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou se à destra da Majestade, nas alturas; 4 - feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. 5 - Porque a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho? 6 - E, quando outra vez introduz no mundo o Primogênito, diz: E todos os anjos de DEUS o adorem.
 
PONTO DE CONTATO
Neste trimestre estudaremos a Epístola aos Hebreus que, entre outros assuntos importantes, enfoca a pessoa de CRISTO como “o resplendor da glória de DEUS”. Sua superioridade é destacada de forma magistral: excede a Moisés, Arão, Melquisedeque, os profetas e os anjos. Ademais disso, o presente tratado, ao alertar os destinatários da carta quanto aos desvios e a apostasia, estabelece as bases da verdadeira adoração, da fé e da comunhão com DEUS.
 
OBJETIVOS
Reconhecer que a revelação de DEUS aos homens foi completada e definida em JESUS.
Distinguir as diferenças entre a antiga e a última revelação dadas por DEUS.
Identificar as características da majestade de CRISTO.
 
SÍNTESE TEXTUAL
A Epístola aos Hebreus compara JESUS CRISTO com o Antigo Pacto, e o apresenta como o cumprimento de todas as promessas messiânicas. Tal comparação visa demonstrar a superioridade de CRISTO sobre tudo quanto o Antigo Testamento tem a oferecer. O tema que percorre a carta do princípio ao fim é: “JESUS CRISTO é superior a ...”. Ele é superior aos anjos, aos profetas, ao sacerdócio levítico e etc. É descrito como o Criador de todas as coisas, resplendor da glória e imagem de DEUS; aquele que tudo sustém com o seu poder, que nos purificou de todo o pecado e está assentado à destra de DEUS.
 
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA
Utilizando o quadro abaixo, dê aos seus alunos as diferenças entre os três tipos de mensageiros citados nesta lição: os profetas, os anjos e o Senhor JESUS. O quadro o ajudará a demonstrar a superioridade de JESUS não apenas como portador da mensagem definitiva, mas também como o Senhor de todas as coisas.
 
 
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
A epístola aos Hebreus contém alguns enigmas. Não esclarece quem foi seu autor; a quem foi realmente destinada, nem a data em que foi escrita. No primeiro século, os chamados pais da Igreja não esclareceram tais detalhes. Clemente de Alexandria e Orígenes entenderam que Paulo escrevera Hebreus. No Século II, Tertuliano discordava da autoria paulina, e cria que Barnabé era o autor da epístola. Agostinho, de início, julgou que fosse Paulo mas, depois, afirmou que ela era anônima. Martinho Lutero sugeriu que a carta poderia ter sido escrita por Apolo (At 18.24). Quanto à data, os estudiosos situam-na entre 68 a 70 d.C. Com relação aos destinatários da carta, Hebreus deve ter sido inicialmente dirigida a judeus helenistas convertidos ao Cristianismo. O propósito deste comentário não é discutir tais pormenores, pois a resposta só teremos no céu, quando nos encontrarmos com o escritor. É fundamental que nestas lições sobre a Epístola aos Hebreus, vejamos a pessoa de JESUS CRISTO como o resplendor da glória de DEUS, o Salvador perfeito.
 
I. DEUS FALOU DE MODO DEFINITIVO
1. A antiga revelação. No versículo primeiro, o escritor assevera que, “antigamente”, DEUS falou “muitas vezes, e de muitas maneiras aos pais, pelos profetas”. Moisés foi um profeta especial. No Salmo 103.7, lemos: “Fez notórios seus caminhos a Moisés, e os seus feitos aos filhos de Israel”. Na galeria dos profetas, destacam-se Isaías, que recebeu a revelação do nascimento, vida, ministério, morte e ressurreição do Messias; Jeremias, Ezequiel, Daniel, Joel, Malaquias, e outros, foram instrumentos da revelação, não só para Israel, mas para a Igreja e para o mundo. (Ver 1 Pe 1.12.)
2. DEUS falou de muitas maneiras (v.1b). Nas páginas do Antigo Testamento, vemos que DEUS não falou de modo uniforme pelos profetas. A uns, como a Moisés, Ele falou direto, “cara a cara”; a outros, como Daniel, falou por sonhos; a Jonas, em voz audível, e por meio do vento, do mar e do peixe. Por esses meios, DEUS se revelou de modo progressivo, nas diversas dispensações, até que chegasse “...a posteridade, a quem a promessa tinha sido feita” (Gl 3.19), e a posteridade era CRISTO.
3. A última e definitiva revelação. DEUS, “a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (v.1b). Essa afirmação é fundamental para a fé cristã. Primeiro, porque DEUS falou. Segundo, porque nos falou “pelo Filho”. A revelação pelos profetas foi divina e progressiva. Eles, com convicção, diziam: “Assim diz o Senhor” (Êx 5.1; Is 7.7; Jr 2.5; Ez 3.11). A revelação pelo Filho, JESUS, é divina e superior, visto ser conclusiva e definitiva. Em Hebreus, vemos a melhor e mais perfeita comunicação do Altíssimo. Ele, nestes “últimos dias”, falou pelo seu próprio Filho, de modo completo, direto e definitivo (cf. Lc 21.33; Mc 13.31). Os ímpios não entenderam esta revelação: os espíritas dizem que o espiritismo é a “terceira revelação”, depois de Moisés e CRISTO. Os adeptos da “Nova Era” dizem que virá a “Era de Aquários”, para substituir o Cristianismo. Com esse engodo, o Diabo engana os incrédulos, a fim de que sejam lançados no inferno (cf. Sl 9.17). JESUS é a última e definitiva revelação de DEUS aos homens. Ele falou e está falado! “Cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20). Nós cristãos, precisamos estar seguros, fundamentados na Palavra de DEUS, para refutar toda e qualquer doutrina falsa, que apresente qualquer outra revelação divina.
 
II. O PERFIL MAJESTOSO DE CRISTO
1. Herdeiro de tudo e criador do mundo. No v.2, lemos que DEUS constituiu JESUS como “herdeiro de tudo e criador do mundo”.
a) Todas as coisas foram feitas por JESUS. No evangelho segundo João (1.1), temos uma declaração profunda da divindade de CRISTO, quando lemos: “Todas as coisas foram feitas por ele, e nada do que foi feito sem ele se fez”. Ele foi o agente de DEUS na Criação, fazendo vir à luz as coisas criadas pelo poder do ESPÍRITO SANTO.
b) Todas as coisas foram feitas para Ele. JESUS teve do Pai a outorga para criar todas as coisas, e também para ser o herdeiro de todas as coisas criadas. Paulo, escrevendo aos Colossenses, diz: “Tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1.16). O Diabo usurpou parte da criação, mas, na sua vinda, JESUS tomará posse de tudo o que lhe pertence por direito de criação, de autoria e por direito de herança.
2. CRISTO, o resplendor da glória de DEUS (v.3). Esta é uma revelação da maior transcendência. No Antigo Testamento, DEUS manifestou a sua glória, em certas ocasiões, de modo terrível e aterrador. Em alguns momentos, a glória de DEUS se manifestou sobre o povo de Israel, deixando-o atordoado. Ezequiel viu a glória de DEUS junto ao rio Quebar de modo estranho e terrível. E concluiu, dizendo: “Este era o aspecto da semelhança da glória do Senhor; e, vendo isso, caí sobre o meu rosto e ouvi a voz de quem falava” (Ez 1.1-28). Tudo isso que o profeta viu foi apenas a “semelhança da glória do Senhor”. Mas em CRISTO, DEUS revelou “o esplendor da sua glória”.
3. CRISTO, “a expressa imagem” de DEUS (v.3). Essa revelação, no texto, amplia a visão de CRISTO, dada ao escritor. Mostra que Ele não é só o resplendor da glória de DEUS, mas tem a mesma natureza, o mesmo caráter. O termo, no grego, para “expressa imagem” ou “a expressa imagem de seu ser” é charakter, que dá idéia de um carimbo, uma gravação, de gravura indelével. Sendo o Filho do Homem quanto à sua condição humana, CRISTO apresentou-se ao mesmo tempo com a natureza do Pai, divina. Ele disse: “eu e o Pai somos um” (Jo 10.30).
4. CRISTO sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder (v.3). JESUS é o agente da criação de DEUS. Sua palavra criadora teve efeito não apenas imediato, mas transformou-se em lei, executada no momento em que, como DEUS, Ele disse: “Haja luz”; “haja uma expansão...”; “façamos o homem...” (Gn 1.1-26). O poder da palavra de DEUS foi tão grande, que sua eficácia continua por todos os séculos. O salmista diz: “tu coroas o ano da tua bondade, e as tuas veredas destilam gordura” (Sl 65.11). No Gênesis, lemos: “Enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite não cessarão” (Gn 8.22). Devemos agradecer a DEUS por todos os dias que despertamos, pois, vendo a luz do sol, sentindo o ar que respiramos, vendo as pessoas à nossa volta, cada animal que nasce, e cada ser humano que vem à luz, constatamos que isso é obra da criação de DEUS e de nosso Senhor JESUS CRISTO.
5. CRISTO, o Salvador, fez a purificação dos nossos pecados (v.3). O escritor aos Hebreus recebeu a revelação da obra redentora de CRISTO, como aquele que, pelo seu sangue, nos purifica de todo o pecado (cf. 1 Jo 1.7). As religiões feitas pelos homens e seus líderes não têm esse poder. Pelo contrário, as religiões orientais, como o Budismo, o Hinduísmo e o Islamismo, pregam uma salvação que pretende purgar os pecados, através de reencarnações, dum carma, ou de obras, levando o homem a crer na mentira da salvação efetuada pelo próprio homem. Com CRISTO é diferente. Ele é o agente eficaz da salvação, remindo o homem que o aceita como Salvador.
6. Assentado à direita de DEUS (v.3). Nos antigos impérios e reinos, o lugar de honra era ao lado do monarca, ou do imperador. A comunicação sobre a posição de CRISTO, quando elevado aos céus, evoca essa metáfora. Após sua ascensão, JESUS foi recebido à direita de DEUS (Mc 16.19); Estêvão viu JESUS à destra de DEUS, no momento de seu martírio (At 7.55); (ver ainda Rm 8.34).
 
CONCLUSÃO
Alegremo-nos por não servirmos a um deus qualquer, produto da mente humana, ou da necessidade imanente de se acreditar em algo ou em alguém superior, como os indígenas e outros povos tidos como primitivos. O nosso DEUS é o excelso Criador. O nosso CRISTO é o Verbo Divino, o Salvador, que, cumprida sua missão, assentou-se “à direita da majestade nas alturas”.
 
VOCABULÁRIO
Aterrorizador: Que aterroriza; pavoroso, aterrador, aterrorizante.
Imanente: Que existe sempre em um dado objeto e inseparável dele.
Indelével: Que não se dissipa, indestrutível.
Posteridade: Série de indivíduos procedentes da mesma origem.
Progressivo: Que se vai realizando gradualmente.
Purgar: Tornar puro; purificar, limpar.
Refutar: Dizer em contrário; desmentir; negar.
Transcendência: O conjunto de atributos do Criador que lhe ressaltam a superioridade em relação à criatura.
Usurpar: Apossar-se violentamente de, adquirir com fraude.
 
EXERCÍCIOS
1. Por que JESUS é herdeiro de tudo?
R. Porque todas as coisas foram feitas por Ele e para Ele.
2. De acordo com a lição, como DEUS falou na Antiga Aliança?
R. “Muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas”.
3. Como foi a revelação pelo Filho, JESUS?
R. Foi divina e superior, visto que foi conclusiva e definitiva.
4. Por que CRISTO é a expressa imagem de DEUS?
R. Porque tem a mesma natureza e caráter de DEUS.
5. Por que CRISTO sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder?
R. Porque a palavra que saiu de sua boca, no momento da criação, teve efeito não apenas imediato, mas transformou-se em lei.
 
AUXÍLIOS SUPLEMENTARES
Subsídio Teológico
 “‘Falou-nos... pelo Filho’ (Hb 1.1,2). Estes dois primeiros versículos estabelecem o tema principal deste livro. No passado, o instrumento principal de DEUS para sua revelação foram os profetas, mas agora Ele tem falado, ou se revelado pelo seu Filho JESUS CRISTO, que é supremo sobre todas as coisas. A Palavra de DEUS falada mediante seu Filho é final: ela cumpre e transcende tudo o que foi anteriormente falado da parte de DEUS. Absolutamente nada, nem os profetas (v.1) nem os anjos (v.4) têm maior autoridade do que CRISTO. Ele é o único caminho para a salvação eterna e o único mediador entre DEUS e o homem. O escritor de Hebreus confirma a supremacia de CRISTO ao enumerar dEle sete grandes revelações (vv.2,3).
‘Assentou-se à destra’ (1.3). Depois de CRISTO ter efetuado o perdão dos nossos pecados mediante a sua morte na cruz, assumiu o seu lugar de autoridade à destra de DEUS. A atividade redentora de CRISTO no céu envolve seu ministério de mediador divino (8.6; 13.15; 1 Jo 2.1,2), de sumo sacerdote (2.17,18; 4.14-16; 8.1-3) de intercessor (7.25) e de batizador no ESPÍRITO (At 2.33)” (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, pág.1899).
  
Subsídio Bibliológico
“Por designação divina, herdeiro de todas as coisas (1.1,2). DEUS, desde a eternidade, predestinou seu Filho para ser Possuidor e Soberano de todas as coisas. Mas foi pela encarnação que CRISTO alcançou o senhorio messiânico. Como resultado da encarnação, Ele veio tomar posse de algo antes não necessariamente disponível por sua condição de Filho. Era o seu direito de primogenitura, mas foi de sua humanidade, morte e ressurreição que surgiu o tipo de soberania que se tornou sua somente em razão de seu triunfo sobre o pecado na carne (v.3), e como resultado de sua identificação com os homens numa condição de irmandade. O senhorio messiânico não lhe poderia pertencer enquanto estivesse no seu estado pré-encarnado, visto ser uma questão relativa à função e não a poder e majestade inerentes. Em essência, sempre foi o ‘Filho de DEUS’, mas isto não o fazia Messias; era necessário que se tornasse o ‘Filho do Homem’” (Comentário Bíblico Hebreus, CPAD, págs.116,117).
 
 
Lições Bíblicas CPAD -  Jovens e Adultos - 3º Trimestre de 2001 - Título: Hebreus — “... os quais ministram em figura e sombra das coisas celestes”
Comentarista: Elinaldo Renovato
  
Lição 2: CRISTO, superior aos anjos
Data: 8 de Julho de 2001
 
TEXTO ÁUREO
 “Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hb 1.4).
 
VERDADE PRÁTICA
 CRISTO encarnou-se para cumprir sua missão salvífica, isto é, fez-se homem, tendo, porém, sua natureza divina, sendo um com o Pai, e superior aos anjos.
 
LEITURA DIÁRIA
 Segunda - Mt 4.23 JESUS, o ensinador
Terça - Lc 4.18,19 JESUS, o libertador
 Quarta - At 2.32 JESUS venceu a morte
Quinta - Sl 34.7 O anjo do Senhor
 Sexta - Sl 148.2  Os Anjos louvam a DEUS
Sábado - Hb 13.2 Hospedando anjos
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - Hebreus 1.4-14; 2.1-3.
Hebreus 1
4 - Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. 5 - Porque a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho? 6 - E, quando outra vez introduz no mundo o Primogênito, diz: E todos os anjos de DEUS o adorem. 7 - E, quanto aos anjos, diz: O que de seus anjos faz ventos e de seus ministros, labareda de fogo. 8 - Mas, do Filho, diz: Ó DEUS, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos, cetro de eqüidade é o cetro do teu reino. 9 - Amaste a justiça e aborreceste a iniqüidade; por isso, DEUS, o teu DEUS, te ungiu com óleo da alegria, mais do que a teus companheiros. 10 - E: Tu, Senhor, no princípio, fundaste a terra, e os céus são obras de tuas mãos; 11 - eles perecerão, mas tu permanecerás; e todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 - e, como um manto, os enrolarás, e, como uma veste, se mudarão; mas tu és o mesmo, e os teus anos não acabarão. 13 - E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? 14 - Não são, porventura, todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?
Hebreus 2
1 - Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas. 2 - Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição, 3 - como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram;
 
PONTO DE CONTATO:
Esta lição fala acerca da superioridade de JESUS sobre os anjos. Os crentes hebreus, baseados nos relatos e ensinamentos do Antigo Testamento, tinham os seres angelicais em alta estima e respeito, uma vez que os mesmos ocupavam proeminente lugar na economia divina. Eles sabiam que caso suas mensagens fossem desprezadas, conseqüências terríveis haveriam de vir. Era urgente e necessário para aqueles crentes entenderem que JESUS está acima dos anjos em todos os aspectos, pois sua mensagem e missão têm finalidade infinitamente mais sublime: a salvação de todos os homens em todas as épocas e lugares. Somente ao Senhor JESUS toda honra, glória e majestade.
 
OBJETIVOS
Afirmar que JESUS é superior aos anjos em todos os aspectos.
Definir os privilégios de JESUS como Senhor e Criador.
Explicar que não há salvação fora de JESUS.
 
INTRODUÇÃO
Na Antiga Aliança, os anjos eram muito considerados. Na epístola aos Hebreus, o escritor ressalta, de modo enfático, a superioridade de CRISTO em relação aos seres angelicais e, ao mesmo tempo, afirma que Ele, ao se encarnar, fez-se “um pouco menor que os anjos” (Hb 2.9). Nesta lição, estudaremos alguns aspectos importantes dessa superioridade, entendendo esse paradoxo numa análise exegética simples. 

I. MAIS EXCELENTE EM SUA NATUREZA E NO SEU NOME 
1. Os anjos na Bíblia.
Os anjos tiveram papel muito importante entre o povo de DEUS no Antigo Testamento. Ver Gn 19.1,15; 28.12; Êx 3.2; 23.20; Sl 103.20. No Novo, não foi diferente. Um anjo apareceu a José, revelando o nascimento sobrenatural de JESUS (Mt 1.20); um anjo removeu a pedra do sepulcro de JESUS, após sua ressurreição (Mt 28.2). Hoje, há uma verdadeira idolatria em torno desses seres celestiais. A Bíblia adverte: “Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade e culto dos anjos” (Cl 2.18). Outras referências demonstram claramente a ação dos anjos, não só em favor de Israel, mas de todos os 
servos de DEUS, em todo o mundo (cf. Sl 34.7). 
2. A natureza dos anjos (vv.7,14).
O texto bíblico nos revela alguns aspectos relativos à natureza dos anjos. No v.7, lemos que DEUS “de seus anjos faz ventos, e de seus ministros labaredas de fogo”. É uma citação de Salmos 104.4. Eles são ministros usados por DEUS segundo a sua vontade, submissos a cada convocação sua, portanto, ficam muito aquém da natureza e das funções do Filho de DEUS. Por maiores que sejam os anjos, em comparação com CRISTO são apenas bafos de ventos e fagulhas de fogo. Eles são criaturas. JESUS é Criador, inclusive dos anjos (ver Jo 1.3). No v. 14, os anjos são chamados “espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação”.

II. A SUPERIORIDADE DE JESUS EM RELAÇÃO AOS ANJOS 

1. Declarado Filho de DEUS, gerado pelo Pai.
No v.5, o escritor indaga: “a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho?” Estas perguntas trazem em seu bojo a afirmativa de que CRISTO é superior aos anjos, por ter sido gerado pelo Pai. Ver também Rm 1.4. O escritor sacro reporta-se a Salmos 7.2, que diz: “Recitarei o decreto: O SENHOR me disse: Tu és meu Filho; eu hoje te gerei”. Essa questão é realmente difícil de entender. Sendo DEUS, em que sentido JESUS poderia ser gerado? A resposta está no grandioso milagre e mistério da sua encarnação, incompreensível à mente humana, que só entende um pouco das coisas terrenas.
2. O Filho pela ressurreição.
O escritor Lucas, no Livro de Atos, declara: “E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, DEUS a cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a JESUS, como também está escrito no Salmo segundo: Meu filho és tu; hoje te gerei” (At 13.32,33). Sem ter deixado jamais de ser DEUS, JESUS foi  apresentado ao mundo publicamente, como Filho de DEUS, na ressurreição. Veja o que Paulo diz: “Declarado Filho de DEUS em poder, segundo o ESPÍRITO de santificação, pela ressurreição dos mortos - JESUS CRISTO, nosso Senhor” (Rm 1.4). De fato, se JESUS tivesse feito milagres, mas não houvesse ressuscitado, ninguém poderia crer que fosse o divino Filho de DEUS (Ver Mt 3.17; 17.5; Rm 1.4). Seria como Buda, Maomé, Chrisna, etc.
3. O Filho deve ser adorado pelos anjos (v.6).
“E quando outra vez introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de DEUS o adorem”; “...por isso lhe darei o lugar de primogênito; fá-lo-ei mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89.26,27). 
4. JESUS está à direita de DEUS (v.13).
Esta é a posição de honra, dada somente a CRISTO, e a ninguém mais: “E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?”. Estêvão, quando estava sendo martirizado, contemplou JESUS à direita de DEUS (cf. At 7.55). 
5. JESUS é Rei, Messias e Criador.
No v.8, lemos: “Mas do Filho diz: ó DEUS, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos, cetro de eqüidade é o cetro do teu reino”. Aqui o Filho é chamado DEUS, como de fato Ele o é, além de ser também Rei, cujo cetro (símbolo da autoridade real) é de retidão. Os anjos não têm poder de reino ou soberania. Nos vv.9-12, vemos que JESUS é apresentado como o Ungido, o Messias, e, ao mesmo tempo, como aquEle de quem a terra e “os céus são obra” de suas mãos. O v.13 prossegue exaltando a superioridade de CRISTO como o vencedor, pondo seus inimigos debaixo de seus pés.

III. A GRANDE SALVAÇÃO EM JESUS
1. Advertência contra o desvio (v.1-3).
Depois de apresentar o quadro da superioridade de CRISTO em relação aos anjos, o escritor aos Hebreus é levado a advertir os destinatários da carta (e a nós, também), quanto “às coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas” (v.1). E explica que, se “a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição”, indaga solenemente: “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação...?” (v.3). Esta salvação, trazida por JESUS CRISTO, não foi efetivada por meras palavras, e sim, autenticada por DEUS, por meio de “sinais e milagres, e várias maravilhas e dons do ESPÍRITO SANTO...” (v.4). Quem se desvia da sua fé em CRISTO, corre o risco de perder-se para sempre (v.3).
2. JESUS, homem, um pouco menor que os anjos (2.7-9).
Esse é um aparente paradoxo encontrado na carta aos Hebreus, relacionado à encarnação de CRISTO. “Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele JESUS que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de DEUS, provasse a morte por todos”. A dedução é simples. JESUS, feito homem, despojou-se voluntariamente de parte de seus atributos, e sujeitou-se a morrer, na cruz, para que “provasse a morte por todos”. Nessa condição, em sua natureza humana, tornou-se “um pouco menor que os anjos”. Se não fosse assim, a sua natureza divina não o permitiria morrer, pois DEUS não morre.

IV. JESUS, O FIEL SUMO SACERDOTE (2.9-18)
1. Tudo existe em função dEle (v.10a).
Para JESUS são todas as coisas, visto que elas existem por Ele e para Ele (Cl 1.16). E assim é, para que Ele traga “os filhos à glória”, e, pelas aflições, se tornasse “o príncipe da salvação deles” (v.10b). Os filhos, ou seja, os que o receberam, deu-lhes o poder (o direito) de serem feitos 
“filhos de DEUS” (Jo 1.12), e são chamados por CRISTO de “irmãos” (v.11). É sublime a declaração de CRISTO, em relação aos que são salvos por Ele. No v.13, Ele diz: “Eis-me aqui a mim, e aos filhos que DEUS me deu”. Esses são livres do “império da morte, isto é, do Diabo” (v.14), e da servidão (v.15).
2. Em tudo, foi semelhante aos irmãos (v.17).
Para poder cumprir sua missão salvadora, JESUS, “em forma de DEUS, não teve por usurpação ser igual a DEUS, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens, e, achado na forma de homem, humilhou-se até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.6-8). Assim, “feito um pouco menor que os anjos”, entregou-se a DEUS para, como “fiel sumo sacerdote”, expiar os pecados do povo (v.17)
3. Em tudo foi tentado (v.18).
Em sua condição humana, JESUS, o Filho do Homem, suportou a tentação, “para socorrer aos que são tentados”. Esta é uma afirmação consoladora para nós, os crentes, que durante a caminhada na Terra, somos acossados e ameaçados por várias tentações. Nosso DEUS, JESUS, não foi em sua 
missão um deus alienado dos seus ado-radores e fiéis, como prega o deísmo. Pelo contrário, Ele se colocou no meio dos pecadores e, como eles, foi tentado até à cruz para lhes dar vitória sobre as tentações. Na verdade, Ele, “como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15). Glória a DEUS, por isso!

CONCLUSÃO
A superioridade de CRISTO em relação aos anjos excede em muito a idéia distorcida, e difundida entre os incrédulos, de que os seres angelicais têm papel místico, ao ponto de serem venerados ou mesmo adorados pelos adeptos das falsas doutrinas.
Subsídio Teológico
O autor da carta aos Hebreus, iniciando seu escrito, fala acerca de três tipos de emissários que DEUS enviou ao mundo para transmitir a sua revelação: os profetas, os anjos e o Filho.Comparando-se os profetas e os anjos, deve se deixar claro que os primeiros foram muito usados por DEUS, falando com autoridade e convicção. Entretanto, seus oráculos, mesmo sendo da parte de DEUS, nem sempre eram bem recebidos. A rebeldia dos ouvintes fez com que diversos profetas fossem  assassinados, desprezados e passassem por adversidades. No caso dos anjos, não há relatos de terem sido desprezados ou apedrejados, pois eram tidos em grande temor por serem figuras sobrenaturais. (Note que as diversas aparições dos seres celestes causavam muito medo, motivo este que levava os anjos a começarem seus diálogos com a expressão “Não temas”.) Comunicações que exigiam decisão de uma pessoa eram transmitidas por anjos (veja os exemplos de Abraão, Gideão e Ló). Se o povo ouvia os anjos com certo grau de temor, mais temor deveriam ter diante do Filho de DEUS, por ser este maior do que os anjos. Ele criou todas as coisas, inclusive os anjos. Se o povo reverenciava os mensageiros celestes, estes, por sua vez, reverenciavam o Filho. O mundo vindouro não foi deixado sob os cuidados dos anjos, mas de JESUS. Eles são “espíritos ministradores”, que labutam em prol dos que “hão de herdar a salvação”, enquanto o Filho é o próprio executor da salvação. Até na forma de tratamento, a designação “anjos” é inferior ao “Filho”, pois são eles servos, criaturas, e JESUS é Senhor e Criador. Partindo desses argumentos, o escritor anuncia a superioridade de JESUS tanto sobre os profetas como sobre os anjos. O autor conclui que, se as palavras ditas pelos anjos foram firmes e, no caso de transgredidas, receberam punição, maior responsabilidade haverá para os que rejeitarem as palavras do Filho de DEUS, sem o qual não há salvação.
 
QUESTIONÁRIO:
1. Quando JESUS foi apresentado como o Filho de DEUS?
R. Publicamente, na sua ressurreição.
2. Qual a posição de honra de CRISTO no céu?
R. Assentado à destra de DEUS.
3. Qual o papel primordial dos anjos em relação aos crentes?
R. Eles são considerados “espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação”.
4. Porque a Bíblia diz que JESUS foi feito um pouco menor que os anjos?
R. “Por causa da paixão da morte, para que, pela graça de DEUS, provasse a morte por todos”.
5. Como se posicionou JESUS em relação à tentação?
R. Em tudo foi tentado, mas sem pecado.
 
 
 
LIÇÃO 3 - CRISTO SUPERIOR A MOISÉS
Entre em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/moisesvida.htm 
 
TEXTO ÁUREO:
“Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou” (Hb 3.3).
VERDADE PRÁTICA:
Se conservarmos firmes nossa fé e confiança em CRISTO JESUS, Ele será sempre o nosso fiel Sumo Sacerdote perante DEUS.
 
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Sl 103.7 A revelação de DEUS a Moisés
Terça  Sl 77.20 Moisés, o líder provido por DEUS
Quarta Êx 2.11,12 Moisés falhou ao agir segundo a carne
Quinta Dt 32.1-43 O canto de Moisés
Sexta Sl 105.26 Moisés, servo do Senhor
Sábado Js 1.1-7 Moisés reconhecido
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - HEBREUS 3.1-8,12,14. 
1 Pelo que, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a JESUS CRISTO, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão, 2 sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa. 3 Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou. 4 Porque toda casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é DEUS. 5 E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar; 6 mas CRISTO, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão-somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim. 7 Portanto, como diz o ESPÍRITO SANTO, se ouvirdes hoje a sua voz, entramos no repouso, tal como disse: Assim, jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo. 8 não endureçais o vosso coração, como na provocação, no dia da tentação no deserto, 
12 Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do DEUS vivo.

14 Porque nos tornamos participantes de CRISTO, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim.
 
PONTO DE CONTATO:
Você já resistiu a voz do ESPÍRITO SANTO alguma vez na em sua vida? Resistir a voz de DEUS tem sido a prática de muitos em nosso meio, que semelhantemente aos hebreus no deserto, tornaram-se insensíveis e desobedientes aos preceitos do  Todo-Poderoso: habituaram-se com as bênçãos, sem contudo, reverenciar, obedecer e servir ao Doador e Provedor de todos os benefícios. Ouvir a voz de DEUS e abster-se do mal são procedimentos de um coração bom e fiel. O Senhor está sempre pronto para agraciar seu povo com o suficiente “maná diário”, garantindo sobrevivência e crescimento espiritual. Podemos estar certos de que não pereceremos no “deserto desta vida”; nossa jornada culminará na prometida 
Canaã celestial.
 
OBJETIVOS:
Considerar CRISTO como nosso Sumo Sacerdote.
Reconhecer a superioridade de JESUS sobre Moisés.
Decidir não endurecer o coração ao ouvir a voz de DEUS.
Destacar a importância de ser um participante de CRISTO.
INTRODUÇÃO
Nesta lição, somos exortados a considerar JESUS CRISTO como “Sumo Sacerdote da nossa confissão”. Os israelitas tinham grande respeito aos profetas e sacerdotes da antiga aliança, destacando-se entre eles Moisés e Arão. Na Nova Aliança, JESUS é superior a todos eles, pois encarnou-se tomando a forma humana, ou seja, tornou-se o Emanuel, “DEUS entre nós”, concedendo a gloriosa e eterna salvação para todos os que nEle crêem. 

I. CONVOCAÇÃO DOS SANTOS À ADORAÇÃO A CRISTO (v.1)
1. “Irmãos santos”.
A palavra santo vem do latim, sanctu, que, originalmente, quer dizer aquele ou aquilo que “era estabelecido segundo a lei”, passando depois a significar aquele ou aquilo “que se tornou sagrado”. No Antigo Testamento, a palavra hebraica para santo é qodesh e seus derivados, que significam santo, santificado, santificar, separar, pôr à parte. No Novo Testamento, a palavra “santo”, no grego hagios, tem sentido semelhante ao da língua hebraica; santos, segundo o ensino bíblico, são somente aqueles que têm comunhão com DEUS e com seu Filho, JESUS. Estes são convocados para adorarem a CRISTO, separados do mundo.
2. “Participantes da vocação celestial”.
Os santos que vivem aqui na terra não são apenas os mártires, ou os que fizeram algum milagre, como ensina o Catolicismo. Os santos são pessoas de carne e osso, “participantes da vocação celestial”, por aceitarem a CRISTO como seu Salvador ao ouvirem o seu convite através do 
evangelho.
3. CRISTO, Apóstolo e Sumo Sacerdote.
Os santos são convocados para considerar “JESUS, apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão”. Ele foi, de fato, o Apóstolo por excelência. JESUS foi enviado por DEUS ao mundo, “não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele” (Jo 3.17). No Antigo Testamento, os sacerdotes intercediam pelo povo, tendo que oferecer, por todos os pecantes, sacrifícios com sangue de animais, que apenas encobriam o pecado. Na Nova Aliança, JESUS é o Sumo Sacerdote perfeito, pois ofereceu o seu próprio sangue para nos salvar e nos apresentar a DEUS com a nossa confissão. 

II. MAIOR GLÓRIA DO QUE MOISÉS
1. Moisés, fiel como servo (v.5).
Moisés foi fiel em sua casa, como acentua o escritor, na condição de servo, sendo o mensageiro que testemunhou das “coisas que haviam de vir”. Ele foi o porta-voz de DEUS ao receber as tábuas da Lei no Sinai, transmitindo, com fidelidade, a palavra que de DEUS ouviu no monte. Ele nada alterou do que recebeu do Senhor. Foi servo em sua casa, no âmbito do que lhe foi confiado, e desincumbiu-se muito bem de sua tarefa na “casa” de DEUS. Por isso, foi considerado um modelo entre os homens (cf. Jr 15.1).
2. JESUS, fiel sobre sua própria casa (v.6).
JESUS foi superior a Moisés. Este foi servo. Aquele é o Filho, o Sumo Sacerdote constituído por DEUS, posição que não foi confiada a mais ninguém. Moisés, mesmo sendo fiel como homem, não foi perfeito. Falhou em algum momento. No episódio em que DEUS mandou que ele falasse à rocha pela segunda vez, descontrolou-se emocionalmente e feriu-a, ao invés de falar (Nm 20.11). JESUS, no entanto, nunca falhou. “Em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15).
3. A casa somos nós (v.6).
Em nossa imperfeição, como poderíamos ser chamados “casa” de CRISTO para que Ele, nessa “casa”, fosse sumo sacerdote? Só a graça de DEUS pode explicar. A condição para que sejamos “casa” do Senhor, é que tão-somente conservemos “firme a confiança e a glória da esperança, até o fim”. O 
apóstolo Paulo teve de DEUS revelação semelhante. Na primeira Epístola aos Coríntios 6.19,20, lemos: “Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do ESPÍRITO SANTO, que habita em vós, proveniente de DEUS, e que não sois de vós mesmos?” Diante disso, é grande a nossa responsabilidade para com essa “casa”, em que, ao mesmo tempo, habitam CRISTO, nosso Sumo Sacerdote, e o ESPÍRITO SANTO, nosso intercessor, que nos tem como seu templo. 

III. ADVERTÊNCIA QUANTO AO ENDURECIMENTO CONTRA DEUS 
1. Ouvindo a voz do ESPÍRITO.
A advertência é grave e solene: “Portanto, se ouvirdes hoje a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na provocação, no dia da tentação no deserto...” (vv.7,8). Citando o Salmo 95.8-11 o escritor admoesta os destinatários da carta valendo-se de fatos constrangedores, relativos ao povo de Israel. Na advertência, o ESPÍRITO SANTO os lembra para não fazerem como seus pais, que provocaram a DEUS no deserto com graves atitudes: 1) Tentaram a DEUS; 2) Provaram a DEUS, mesmo tendo visto suas obras por 40 anos (v.9; Êx 15.22-25; 17.1-7). Esse aviso quanto a ouvir o ESPÍRITO SANTO é significativo e oportuno para nós em nosso tempo, pois há crentes tão insensíveis, em todos os sentidos, que suas consciências já se encontram irremediavelmente cauterizadas (cf. 1 Tm 4.2).
2. Não endurecer o coração (v.8).
O povo israelita, não obstante presenciar as maravilhas do poder miraculoso de DEUS no deserto, a começar pela passagem do Mar Vermelho, rebelou-se contra o Senhor. Em conseqüência, DEUS se indignou. Manifestou a sua ira e decretou seu juízo: “Não entrarão no repouso de DEUS”. Daquela geração rebelde, todos os que tinham mais de 20 anos não entraram na Terra Prometida. O endurecimento do coração é um obstáculo para o recebimento da bênção de DEUS.
3. Um coração mau e infiel (v.12).
Outra advertência é dada pelo ESPÍRITO SANTO através do escritor da Epístola aos Hebreus, para que neles não houvesse “um coração mau e infiel”, que viesse afastá-los “do DEUS vivo”. O verbo afastar, no texto, é apostenai (gr.), palavra que dá origem ao termo apostasia. No versículo seguinte vem um conselho divino: “Antes exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado” (v.13). Muitos, por falta de orientação e advertência (exortação), endurecem o coração para DEUS, desviam-se e até negam a fé, aceitando falsas doutrinas e envolvendo-se em práticas extra-bíblicas, semelhantes às do espiritismo, incluindo “regressão espiritual” e outras invencionices. 
4. Como nos tornamos participantes de CRISTO (v.14).
O escritor nos mostra como nos tornamos participantes de CRISTO: “Se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até o fim”. Essa afirmação é corroborada pelo que JESUS asseverou: “...mas aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10.22). “Até o fim...”. O homem só alcança a salvação plena quando aceita a CRISTO como Salvador e permanece em santidade, até a “redenção do nosso corpo” (Rm 8.23b). Se por um lado é difícil iniciar a carreira cristã, mais difícil ainda é continuar e terminá-la. Porém, todas as promessas futuras na eternidade estão reservadas para os vencedores, os que completam a carreira, como diz o apóstolo Paulo (2 Tm 4.7).

CONCLUSÃO
A superioridade de CRISTO em relação a Moisés é incontestável. Moisés era homem imperfeito e falho, mesmo tendo de DEUS uma missão tão grande. JESUS, nosso Salvador, mesmo na condição humana, em face de sua missão salvífica, “em tudo foi tentado, mas sem pecado”. Nós, cristãos, precisamos honrar a JESUS CRISTO, o 
Sumo Sacerdote da nossa confissão. 
Subsídios Teológico
“Havendo declarado o pensamento central do sacerdócio de CRISTO, e antes de desenvolvê-lo nos capítulos 5 a 7, o autor interrompe o assunto, a fim de estabelecer, sob outro ponto de vista, a superioridade do Novo Concerto sobre o Antigo. Ele já demonstrou que CRISTO é superior aos anjos, os mediadores espirituais da Lei; 
Agora demonstra que também é superior a Moisés, o homem que promulgou a Lei.
“O autor, ao abordar o assunto, emprega a expressão ‘o mundo futuro’, ou ‘o século que há de vir’ (2.5; 6.5) — que no grego é cukoumenen (literalmente “o mundo vindouro habitado”). Ele se refere ao reino de DEUS que será estabelecido entre os habitantes da Terra. Isso leva, naturalmente, à comparação entre os fundadores da velha teocracia judaica, sob Moisés e Josué, e JESUS, do novo Reino. A posição de Moisés para com o sistema judaico torna necessário o argumento, porque os cristãos hebreus estavam confusos sobre esse ponto.“O ponto de comparação, no versículo 2, prende-se ao fato de que tantos Moisés como CRISTO se ocuparam da administração de economia divina: aquele, sob a velha ordem da Lei; este, sob a nova ordem da graça de DEUS, tendo ambos cumprido fielmente suas responsabilidades. Mas o autor apresenta em seguida uma série de contrastes que demonstram a glória muito superior de JESUS.” (Comentário Bíblico Hebreus, CPAD, págs. 129-131
 
QUESTIONÁRIO:
1. Quais são os dois ofícios de CRISTO, apresentados nesta lição?
R. Apóstolo e sacerdote da nossa confissão.
2. Onde Moisés foi fiel?
R. Em toda a sua casa.
3. Em que condição somos casa de CRISTO?
R. “Se conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até o fim”.
4. Qual a advertência para quem ouve a voz do ESPÍRITO SANTO?
R. Não endurecer o coração.
5. Qual a conseqüência de um coração mau e infeliz?
R. Apartar-se do DEUS vivo.
 

LIÇÃO 4 - REPOUSO PARA O POVO DE DEUS
Mt 11.29 = Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas.
A alma é que precisa de repouso. O verdadeiro cansaço está na alma e não no corpo que basta uma noite de sono e já descansou.
 
TEXTO ÁUREO:
“Portanto, resta ainda um repouso para o povo de DEUS” (Hb 4.9).
VERDADE PRÁTICA:
Nosso Sumo Sacerdote, JESUS, preparou-nos um repouso sublime, no qual só teremos acesso se ouvirmos a sua voz, não endurecendo o coração.
 
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Js 23.1 DEUS deu repouso a Israel
Terça Is 32.17 Repouso, fruto da justiça
Quarta Rm 8.34 JESUS, nosso intercessor
Quinta Mt 11.29 JESUS dá descanso à alma
Sexta Êx 33.14 A presença de DEUS dá descanso
Sábado Ap 14.13 Os salvos descansarão
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:
HEBREUS 4.1-16 
1 Temamos, pois, que, porventura, deixada a promessa de entrar no seu repouso, pareça que algum de vós fique para trás. 2 Porque também a nós foram pregadas as boas-novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram. 3 Porque nós, os que temos crido, 4 Porque, em certo lugar, disse assim do dia sétimo: E repousou DEUS de todas as suas obras no sétimo dia. 5 E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. 6 Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas-novas não entraram por  causa da desobediência, 7 determina, outra vez, um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração. 8 Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria, depois disso, de outro dia. 9 Portanto, resta ainda um repouso para o povo de DEUS. 10 Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como DEUS das suas. 11 Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. 12 Porque a palavra de DEUS é viva, e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. 13 E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem  temos de tratar. CRISTO é superior aos sumos sacerdotes do antigo pacto  14 Visto que temos um grande sumo sacerdote, JESUS, Filho de DEUS, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa  confissão. 15 Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. 16 Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de  sermos ajudados em tempo oportuno.
 
PONTO DE CONTATO:
Você crê, realmente, que DEUS fará o que prometeu na sua vida? A Palavra de DEUS é digna de confiança? DEUS fez uma promessa ao povo de Israel: Ele se responsabilizaria pela sua segurança ao entrar em Canaã. Israel  respondeu com incredulidade: o povo duvidara da veracidade divina. No texto em estudo, o sacro escritor adverte aos crentes hebreus acerca do perigo da incredulidade e relembra-os que, dentre os que saíram do Egito, somente dois (Josué e Calebe) entraram no descanso prometido, na terra de Canaã. Mesmo tendo presenciado milagres portentosos, operados por DEUS, o povo duvidou da capacidade do Altíssimo para expulsar os poderosos habitantes daquela terra. Há também um descanso para os cristãos no campo espiritual, mas para tomar posse desse repouso é necessário ter fé, obediência e perseverança em DEUS.
 
OBJETIVOS:
Após esta aula seu aluno deverá estar apto a:

Reconhecer que a pregação sem a fé não atinge os objetivos propostos por DEUS.
Definir as principais características da Palavra de DEUS.
COMENTÁRIOS:
INTRODUÇÃO

Em conseqüência da desobediência do povo de Israel durante sua peregrinação, os que pecaram, rebelando-se contra o Todo-Poderoso, morreram, e seus corpos caíram no deserto. De acordo com o juramento de DEUS, os desobedientes não entraram no seu repouso. Que isto jamais venha a acontecer conosco! Nesta lição, veremos em que consiste o repouso espiritual reservado aos crentes fiéis.

I. AS BOAS NOVAS FORAM PREGADAS 

1. Ouviram mas não obedeceram. Segundo cálculos razoáveis, os israelitas tirados do Egito pela poderosa mão de DEUS foram cerca de três milhões de pessoas. Somente os homens de guerra somavam 600.000 (Êx 12.37). Desses, só entraram em Canaã, dois: Josué e Calebe (Dt 1.36,37). Por causa da desobediência e da incredulidade, o juízo de DEUS prostrou-os no deserto, impedindo-os de chegar à Terra Prometida. Isso mostra que DEUS dá mais valor à qualidade do que à quantidade. No Dilúvio, só oito escaparam. Na destruição de Sodoma e Gomorra, somente três ficaram vivos.
2. A pregação sem proveito (v.2). Os israelitas ouviram as “boas novas”. A razão pela qual muitos não entraram no “repouso”, ou seja, em Canaã, é que “a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” (v.2). Aí, vemos a importância da fé para a salvação. A Bíblia 
assevera que sem fé é impossível agradar a DEUS (Hb 11.6). Hoje, em todo o mundo, é grande a provocação ao Senhor. Os ímpios estão em rebelião aberta e declarada contra DEUS. Infelizmente, também há crentes que ouvem a Palavra nas igrejas, mas preferem continuar desobedecendo aos preceitos do Senhor.

II. O DESCANSO PARA O POVO DE DEUS 

1. A ilustração do descanso de DEUS. O escritor, no v.10, relembra o que está escrito em Gn 2.2, quando DEUS, no sétimo dia, descansou de suas obras: “Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como DEUS das suas”. Obviamente que aqui não se trata de descanso físico, pois por ser ESPÍRITO, 
DEUS não sofre desgaste. 
2. O descanso dos israeli-tas. O sofrimento dos israelitas no Egito após a morte de José foi cruel. Por mão de Moisés e pelo poder de DEUS, o povo foi libertado milagrosamente. Entretanto, por causa da incredulidade e rebeldia, grande parte deles não pôde entrar na Terra Prometida. Foram obrigados a passar 40 anos caminhando 
no deserto (Hb 3.19; 4.6,11; 1 Co 10.1-11). Somente por misericórdia, DEUS lhes destinou a terra de Canaã, onde enfim encontraram o descanso de seus sofrimentos. 
3. O descanso (repouso) do povo de DEUS (v.9). Aqui o descanso prometido não é físico, mas espiritual, celestial, mirífico, indizível e pleno para os salvos: “Ainda resta um descanso para o povo de DEUS”. Trata-se do bendito estado da alma e do espírito, em que os crentes, obedientes e santos, que ouvem a Palavra e a obedecem, terão direito à paz e a tranqüilidade perene, na comunhão com o Senhor. Lembremo-nos de que o descanso espiritual só se obtém através da nova vida em CRISTO (ver Mt 11.28,29). É preciso ouvir e obedecer a Palavra de DEUS. “Procuremos pois entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo 
exemplo de desobediência” (v.11). 

III. O PODER PENETRANTE DA PALAVRA DE DEUS 

1. Ela é viva. A Palavra de DEUS mostra quem vai entrar no repouso eterno. Ela não se constitui de meras argumentações humanas ou filosóficas, que atingem o intelecto, mas não penetram no coração, no mais íntimo do ser humano. A Palavra de DEUS é viva, poderosa e vivificante. JESUS afirmou: “as palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6.63). Somente Ele tem palavras de vida eterna (Jo 6.68). 
2. Ela é eficaz. A palavra de DEUS sempre produz efeitos: “Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, mas regam a terra e a fazem produzir, e brotar, e dar semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia; antes, fará o que 
me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (Is 55.11). Ninguém ouve a palavra de DEUS sem ser alcançado por seus resultados. Quem ouve e crê “tem a vida eterna” (Jo 5.24). Quem ouve e não crê “já está condenado” (Jo 3.18). 
3. Ela é penetrante. É comparada a uma espada cortante, que “penetra até à divisão da alma e do espírito e das juntas e medulas”. Sendo “espírito e vida”, a palavra de DEUS atinge a parte sensorial do homem. O espírito, a alma e o corpo são alcançados pelo poder penetrante da palavra divina. Por quê? Quando o homem ouve a Palavra e crê, no seu interior ocorrem modificações extraordinárias que beneficiam inclusive o 
funcionamento orgânico do seu corpo. 
 
4. Ela discerne pensamentos e intenções. Muitos filósofos, com seu intelectualismo frio e racionalista, têm confundido os homens afastando-os ainda mais do seu Criador. A Bíblia, no entanto, sendo a Palavra de DEUS, tem transformado a vida de inúmeras pessoas, elevando-as à condição de salvas e remidas pelo sangue de 
JESUS. No v.13 o escritor adverte que diante do poder penetrante da palavra de DEUS, “não há criatura alguma encoberta diante dele”, e todas as coisas estão “nuas e patentes aos seus olhos”, ou seja, não há nada velado diante do Todo-Poderoso.

IV. NOSSO GRANDE SUMO SACERDOTE (vv.14-16).

1. “JESUS, Filho de DEUS”. Ele é grande, no sentido absoluto. Os “sumo sacerdotes” de outras religiões jamais chegaram aos céus. Buda pregou que chegaria ao Nirvana (no budismo, estado de ausência total de sofrimento); Chrisna, mentor do Hinduísmo, também não foi aos céus; para seus adeptos, deve estar reen-carnando por aí. Os seguidores de Maomé imaginam que ele esteja num “paraíso”, onde há muitas 
mulheres e tâmaras. Os sumo sacerdotes do Antigo Testamento só adentravam uma vez por ano, no lugar Santíssimo, onde era manifestada a glória de DEUS. Eles não podiam permanecer lá. Mas JESUS, nosso Sumo Sacerdote por excelência, “penetrou nos céus”, “está à direita de DEUS, e também intercede por nós” (Rm 8.34b). 
2. Sacerdote compassivo. Em seu ministério terreno, JESUS sempre se preocupou com as multidões sofredoras (Mt 9.36; 14.14). Em sua missão sacerdotal, demonstra grande compaixão por nós: sendo “longânimo e grande em benignidade” (Sl 103.8), Ele suporta as nossas fraquezas, não querendo que ninguém se perca (2 Pe 3.9). 
Não perecemos unicamente em razão de sua infinita misericórdia. 
3. Em tudo foi tentado. Mesmo com a natureza divina, JESUS “em tudo foi tentado”, diz a Palavra de DEUS. Só conhece o que é tentação quem já passou por ela. As tentações de JESUS não partiam de seu íntimo, como ocorre com o “homem natural” (1 Co 2.14). Elas foram provações e provocações externas, advindas do 
tentador e seus agentes. Além das tentações no deserto, o Mestre certamente experimentou a opressão do Maligno em outras ocasiões. Para nós é muito significativo saber que JESUS, como homem, foi tentado em todas 
as coisas, “mas sem pecado”. A Bíblia nos assegura: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de DEUS” (2 Co 5.21). Diante disso, compreendemos o grande amor de JESUS por nós: Ele sofre conosco, colocando-se sempre ao nosso lado. 
4. Acheguemo-nos ao trono da graça (v.16). Tendo JESUS como nosso Sumo Sacerdote, podemos pela fé adentrar ao trono da graça, à sua santa presença a qualquer momento, e sermos “ajudados em tempo oportuno”. Glória a Ele para todo o sempre.

CONCLUSÃO

Três das grandes mensagens da lição estudada são: a) DEUS tem preparado um verdadeiro descanso espiritual em CRISTO para os que a Ele vêm; b) DEUS tem um prometido lugar de descanso celestial para seu povo, em sua presença, na eternidade. Para chegarmos lá, só precisamos ser fiéis, obedientes e santos e c) JESUS é o nosso 
Sumo Sacerdote perfeito, que, como homem, “em tudo foi tentado, mas sem pecado”. Que o Senhor nos ajude a servi-lo conforme a sua vontade; e que jamais venhamos a dar lugar à desobediência.
Subsídio Bibliológico

“Pareça que algum de vós fique para trás’ (4.1). Deixar de perseverar na fé e na obediência a JESUS resulta em deixar de alcançar o prometido repouso eterno no céu (cf. 11.16; 12.22-24). (1) A expressão “pareça que algum de vós” é falada à luz dessa possibilidade terrível e do juízo de DEUS. (2) A perseverança na fé exige que 
continuemos a nos aproximar de DEUS, por meio de CRISTO, com sincera resolução (v.16; 7.25). “‘Entramos no repouso (4.3). Somente nós, que temos crido na mensagem salvadora de CRISTO, entramos no repouso espiritual de DEUS. Isto é, CRISTO carrega nossos fardos e nossos pecados, e nos dá o “repouso” do seu perdão, da sua salvação e do ESPÍRITO SANTO (Mt 11.28) Mesmo assim, nesta vida, o nosso repouso é apenas parcial, porque somos como peregrinos que caminham com dificuldade na penosa estrada deste mundo. Ao morrermos no Senhor, entramos no seu repouso perfeito no céu.“‘Resta ... um repouso (4.9). O repouso prometido por DEUS não é somente o terrestre, mas também o celestial (vv. 7,8 cf. 13.14). Para os crentes, resta ainda o repouso eterno no céu (Jo 14.1-3; cf. Hb11.10,16). Entrar nesse repouso final significa cessar do labor, dos sofrimento e das perseguições, tão comuns em nossa vida nesta terra (cf. Ap 14.13); significa participar do repouso do próprio DEUS e experimentar eterna alegria. Deleite, amor e comunhão com DEUS e com os santos redimidos. Será um descanso sem fim (Ap 21,22). (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, págs. 1902,1905)
 
QUESTIONÁRIO:
1. Por que a pregação das “boas novas” aos israelitas, no deserto, foi sem proveito?
R. Porque não estava misturada com a fé.
2. Qual o caráter do descanso para o povo de DEUS?
R. Espiritual. 
3. Quais as quatro características da palavra de DEUS, conforme Hb 4.12?
R. Viva, eficaz, penetrante e apta para discernir pensamentos e intenções.
4. Com relação ao acesso ao lugar santíssimo, qual a diferença entre JESUS e os sacerdotes do AT?
R. O sumo sacerdote, no AT, só entrava no lugar santíssimo uma vez por ano. JESUS penetrou nos céus eternamente. 
5. Por que JESUS é o nosso Sumo Sacerdote perfeito?
R. Em tudo foi tentado, mas sem pecado. 

LIÇÃO 5 - CRISTO, SUMO SACERDOTE SUPERIOR A ARÃO
Entre em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/LeisReferentesaoSacerdocio1.htm 
 
TEXTO ÁUREO:
“Como também diz noutro lugar: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 5.6).
 
VERDADE PRÁTICA:
O sacerdócio de CRISTO é infinitamente superior ao de Arão, por ser divino, eterno e por todos os salvos.
 
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Êx 4.14 Arão, irmão de Moisés
Terça  Êx 17.12 Arão, ajudador de Moisés 
Quarta Êx 32 Arão e sua falha
Quinta Hb 7.1-4 Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote de DEUS
Sexta Hb 6.20 JESUS, nosso eterno sumo sacerdote
Sábado Ap 19.16 JESUS, Rei dos reis e Senhor dos senhores
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:
HEBREUS 5.1-10 
1 Porque todo sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a DEUS, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados, 2 e possa compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados, pois também ele mesmo está rodeado de fraqueza. 3 E, por esta causa, deve ele, tanto pelo povo como também por si mesmo, fazer oferta pelos pecados. 4 E ninguém toma para si essa honra, senão o que é chamado por DEUS, como Arão. 5 Assim, também CRISTO não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas glorificou aquele que lhe disse: Tu  és meu Filho, hoje te gerei. 6 Como também diz noutro lugar: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque.7 O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte,  foi ouvido quanto ao que temia. 8 Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. 9 E, sendo ele consumado, veio a ser a causa de eterna salvação para todos os que lhe obedecem,10 chamado por DEUS sumo sacerdote, Segundo a ordem de Melquisedeque.
 
PONTO DE CONTATO:
Ainda utilizando o método de comparação, com a finalidade de exaltar o Filho de DEUS, o escritor destaca no presente texto a superioridade do sacerdócio de CRISTO. O trabalho sacerdotal no Antigo Testamento não era puramente humano, mas um ministério de intercessão instituído por DEUS em favor dos homens. O Eterno 
determinara, de antemão, que os sacerdotes viessem da família de Arão, prefigurando o surgimento de CRISTO como o verdadeiro Sumo Sacerdote; aquele que se ofereceria como oferta pelos pecados de toda a humanidade. Dentre outros, sua superioridade é aqui destacada no fato de Ele não se exaltar, mas glorificar aquele que disse: “Tu és meu Filho, hoje te gerei”. O Filho de DEUS viveu entre nós sem pecado, aprendeu pela obediência e trouxe-nos eterna salvação.
OBJETIVOS:
Após esta aula seu aluno deverá estar apto a:

Definir as diferenças entre JESUS e os sacerdotes do Antigo Pacto.
Reconhecer que o sacerdócio de CRISTO é superior ao de Arão.
Identificar JESUS como sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.
COMENTÁRIOS:
 
INTRODUÇÃO

Os sumos sacerdotes do Antigo Testamento, apesar de serem santos, eram limitados e imperfeitos. Arão, por exemplo, ainda que grandemente honrado ao ser separado para o ofício de sumo sacerdote, cometeu uma falha indecorosa: levantou um ídolo em forma de bezerro de ouro e levou o povo a pecar. Mas CRISTO, nosso Sumo Sacerdote, é superior a Arão, não somente por sua infalibilidade e perfeição, mas porque cumpriu cabalmente o plano divino de redenção de toda a humanidade.

I. O SUMO SACERDOTE DO ANTIGO TESTAMENTO

1. Características básicas (v.1).
a) “Tomado dentre os homens”. O sumo sacerdote na Antiga Aliança era uma pessoa comum que, apesar de separada por DEUS, levava para o sacerdócio suas virtudes e defeitos. Ele não era tomado dentre anjos ou espíritos, mas “dentre os homens”. E essa é uma característica muito importante. 
b) “Constituído a favor dos homens”. O sumo sacerdote não era eleito pelos seus pares, nem pelo povo em geral. Sua investidura no cargo era por nomeação direta da parte de DEUS. Hoje, há diversas formas utilizadas na escolha e consagração de um pastor, porém, acima de tudo é indispensável que o pastor seja constituído por DEUS.
c) “Nas coisas concernentes a DEUS”. O sacerdote falava e agia em nome de DEUS, no que concernia à sua expressa vontade. Por outro lado, ouvia os homens e intercedia por eles diante do Altíssimo. Em tudo, a missão sacerdotal era cuidar dos interesses de DEUS em relação ao povo e os do povo em relação a DEUS. Era um 
mediador, um representante do Eterno. 
2. Funções primordiais. De modo geral as principais funções do sumo sacerdote eram ensinar a lei de DEUS e interceder pelo povo. 
a) Oferecer dons e sacrifícios pelos pecados (v.1b). Na Antiga Aliança os oferentes não podiam dirigir-se diretamente a DEUS. Traziam suas dádivas e ofertas e as apresentavam ao sacerdote. Segundo estudiosos do Antigo Testamento, os dons eram ofertas de cereais e os sacrifícios eram “ofertas de sangue”. No Novo 
Testamento, JESUS, nosso Sumo Sacerdote quanto a nossa salvação, é tanto o oferente como a própria oferta vicária: “ofereceu-se a si mesmo [por nós] a DEUS”.
b) “Compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados” (v.2). O sumo sacerdote deveria ter simpatia, ou seja, capacidade para compartir as alegrias ou as tristezas das pessoas que lhe procuravam e, ao mesmo tempo, ter empatia, capacidade para se colocar na situação do outro. Só quem tem essas qualidades pode de fato ser um intercessor. Da mesma forma devem proceder os obreiros do Senhor no trato com os que erram por ignorância ou por fraqueza.

II. DIFERENÇA FUNDAMENTAL ENTRE CRISTO E ARÃO

1. JESUS, sacerdote perfeito. A Lei previa a possibilidade de erro ou pecado por parte dos sacerdotes (v.3; Lv 4.3). O próprio sumo sacerdote Arão tinha a orientação de DEUS para oferecer sacrifícios não só pelo povo (Lv 16.15 ss.), mas por si próprio (Lv 16.11-14). Enquanto o sumo sacerdote do Antigo Testamento estava sujeito a pecar, JESUS nunca pecou. Ele é perfeito. Satisfez todas as condições para o perfeito sacerdócio. Foi ungido como Rei, como Filho (Sl 2.6,7); e Sacerdote Eterno (Sl 110.4); foi enviado por DEUS (Jo 5.30); veio em nome do Pai (Jo 5.43). JESUS não se glorificou a si mesmo para fazer-se sumo sacerdote (v.6). Diante de todas essas qualificações, o Mestre nunca ofereceu sacrifícios por si próprio. Ele deu-se a si mesmo por nossos pecados (Gl 1.4).
2. Sacerdote eterno (v.6). O escritor aos hebreus faz referência a dois textos bíblicos no livro de Salmos para demonstrar o caráter especial do sacerdócio de CRISTO: um sacerdócio que não tem fim: “Tu és meu filho; hoje te gerei” (Sl 2.7); e “Tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4). 

III. A MISSÃO TERRENA DE JESUS 

1. “Nos dias de sua carne” (v.1). É uma referência direta à vida humana de JESUS. O escritor já houvera acentuado esse aspecto no cap. 2.14-17. Aqui, mais uma vez, ele demonstra que o nosso Sumo Sacerdote, mesmo provindo de uma linhagem especial, encarnou-se, tomando a forma de homem, como vemos no Evangelho de João (1.14): “E o verbo se fez carne...”. O Verbo refere-se a JESUS CRISTO (cf. Ap 19.13). 
Os gnósticos ensinavam que o corpo é intrinsecamente mau. Mas JESUS, o Verbo divino, provou o contrário. Ele se fez carne, “e habitou entre nós”, tornando-se homem completo, pleno, perfeito. E não apenas se fez carne, mas tomou a “forma de servo” (Fp 2.7); na semelhança da “carne do pecado” (Rm 8.3), suportou a “paixão da morte” (Hb 2.9). 
2. Clamor, lágrimas, orações e súplicas (v.7). A Escritura diz que JESUS clamou a DEUS, com “lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte”. No Evangelho segundo João 11.35 está escrito que JESUS chorou, mas aquela não foi a única vez, como atesta o v.7. É por isso que JESUS entende de lágrimas e, um dia, como DEUS, enxugará dos olhos toda a lágrima (Ap 7.17;21.4).
3. Aprendeu a obediência (v.8). Haverá prova mais autêntica da humanidade de JESUS? “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” (Hb 5.8). Ele, sendo divino, obedeceu a DEUS. A mente humana é, por vezes, levada a indagar: “Afinal, se Ele era DEUS, porque deveria obediência a alguém?” Esse é um mistério que só a fé pode aceitar. JESUS como ser humano teve um desenvolvimento humano normal: “E crescia JESUS em sabedoria, e em estatura, e em graça para com DEUS e os homens” (Lc 2.52). Como Filho de DEUS, Ele obedeceu ao Pai.
4. “Por aquilo que padeceu” (v.8b). A prova suprema da obediência de CRISTO foi a sua paixão e morte. O Diabo tudo fez para que JESUS não executasse o plano da salvação. Na tentação no deserto, seu objetivo era que o Senhor obedecesse suas sugestões (Mt 4.1-11); na crucificação, o inimigo usou alguém para lhe sugerir que “provasse” que Ele era o Filho de DEUS, descendo da cruz (Mt 27.40).
5. Trouxe eterna salvação (v.9). “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa de eterna salvação para todos os que lhe obedecem”. (grifo nosso) JESUS declarou ao Pai: “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” (Jo 17.4). Na cruz, no momento supremo de seu sacrifício em favor dos pecadores, Ele 
exclamou: “Está consumado...” (Jo 19.30). Nesse aspecto, é oportuno lembrar que alguns teólogos, baseados no versículo em foco e em outras referências, pregam a doutrina da predestinação absoluta, resumida na sentença “uma vez salvo, para sempre salvo”. Entretanto, o versículo mostra inequivocamente que a salvação não é eterna a priori, mas sim condicional. Ela é eterna para “todos os que lhe obedecem”. Desse modo, exclusivamente é salvo quem crê e segue a CRISTO em obediência.
6. Chamado por DEUS (v.10). JESUS pertenceu a uma ordem sacerdotal singular, diferente da de Arão. Nisto, vemos mais uma importante distinção entre o sacerdócio de CRISTO e o sacerdócio arônico. JESUS, como diz o v.10, foi “chamado por DEUS sumo sacerdote, segundo a ordem de Melqui-sedeque” (v.10). 

CONCLUSÃO

Como podemos constatar no capítulo cinco de Hebreus, o texto revela com clareza meridiana a superioridade do sacerdócio de CRISTO em relação ao de Arão. Outro ponto importante diz respeito a humanidade de CRISTO: o escritor assevera que JESUS foi humano o suficiente para buscar a DEUS, o Pai, em oração, súplicas e lágrimas, 
sendo obediente como Filho. Trata-se de um exemplo inigualável e uma lição incomparável para nós, mortais, que, às vezes somos relapsos em fazer a vontade do Senhor, em obediência irrestrita.
 
Subsídio Bibliológico

“Todo sumo sacerdote’ (Hb 5.1). Duas qualificações são necessárias para um verdadeiro sacerdócio. (1) o sacerdote deve ser compassivo, manso e paciente com aqueles que se desviam por ignorância, por pecado involuntário e por fraqueza (v. 2;4.15; cf. Lv 4; Nm15.27-29). (2) Deve ser designado por DEUS (vv. 4-6). 
CRISTO satisfaz ambos os requisitos.“A origem de Melquisedeque (5.6). Melquisedeque é uma personagem misteriosa do Antigo Testamento, que aparece em Gn 14 como o sacerdote de DEUS em Salém (que é Jerusalém, Gn 14.18; Js 18.28; Sl 110.1-4; Hb 7.1), antes dos tempos do sacerdócio levítico. O sacerdócio de CRISTO é do mesmo tipo que o de Melquisedeque. (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, págs.1905,1906)“Em relação a CRISTO, os cristãos hebreus não o reconheciam sob a figura de Sumo Sacerdote. Por isso, não compreendiam a aplicação desse título e ofício à sua pessoa. Não sendo Ele da linhagem de Arão, naturalmente não o contemplariam como sacerdote. Seu ministério também não lhes despertara tal pensamento, uma vez que não reivindicou nenhum privilégio de acesso ao templo, nem executou nenhuma função sacerdotal, e sempre criticou o concerto judaico do sacerdócio (Vicent).“O autor resumidamente apresenta as características e atribuições do sumo sacerdote (5.1-4), demonstrando que são perfeitamente satisfeitas em CRISTO (5.5-10). “Segundo o sistema levítico, todo sumo sacerdote é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens. Ele traz ao altar tanto sacrifícios cruentos como sem sangue (5.1). Exige-se dele que possa condoer-se ou ter compaixão do povo. A expressão significa ser “moderado” ou “tenro” em seu julgamento, nem severo demais nem tolerante demais. Não deve ser homem que se irrita diante do pecado e da ignorância, nem transigente com o mal (vv. 2.3) Ele deve ser chamado por DEUS (v. 4)” (Comentário Bíblico Hebreus, CPAD, pág. 135).
 
QUESTIONÁRIO:
1. Na lição, quais as características dos sacerdotes do Antigo Testamento?
R. “Tomado dentre os homens” e “constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a DEUS”.
2. Quanto ao oferecimento de sacrifícios, qual a diferença entre Arão e CRISTO?
R. JESUS nunca ofereceu sacrifícios por si próprio, como Arão.
3 . Quanto ao tempo, como é o sacerdócio de CRISTO?
R. Eterno.
4. Como deve ser entendida a eterna salvação a que se refere o escritor aos Hebreus?
R. Salvação com obediência.
5. Como foi a ordem sacerdotal de CRISTO?
R. Segundo a ordem de Melquisedeque, da qual nenhum outro foi consagrado.
 
LIÇÃO 6 - O PERIGO DA APOSTASIA
 
TEXTO ÁUREO:
“Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos” (Hb 6.9).
 
VERDADE PRÁTICA:
Há um grande perigo para aqueles que, uma vez conhecendo a verdade de DEUS, dela se afastam, negando sua eficácia e poder.
 
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Hb 12.16 Fornicação espiritual 
Terça  Hb 12.17 Arrependimento tardio 
Quarta Pv 24.16 O justo cai e se levanta 
Quinta Hb 3.10 DEUS contra os desobedientes
Sexta Hb 3.17,18 Mortos por desobediência
Sábado Fp 2.11 JESUS é o Senhor
 
LEITURAS BÍBLICAS EM CLASSE:
HEBREUS 5.11-14; 6.1,2,4-6,10,13,16-20 
11 Do qual muito temos que dizer, de difícil interpretação, porquanto vos fizestes negligentes para ouvir. 12 Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros  rudimentos das palavras de DEUS; e vos haveis feito tais que necessitais de leite e não de sólido mantimento. 13 Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. 14 Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal.
6.1 Pelo que, deixando os rudimentos da doutrina de CRISTO, prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em DEUS,2 e da doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno.

4 Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do ESPÍRITO SANTO, 5 e provaram a boa palavra de DEUS e as virtudes do século futuro, 6 e recaíram sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de DEUS e o expõem ao vitupério.
10 Porque DEUS não é injusto para se esquecer da vossa obra e do trabalho da caridade que, para com o seu nome, mostrastes, enquanto servistes aos santos e ainda servis.
13 Porque, quando DEUS fez a promessa a Abraão, como não tinha outro maior por quem jurasse, jurou por si mesmo, 
16 Porque os homens certamente juram por alguém superior a eles, e o juramento para confirmação é, para eles, o fim de toda contenda. 17 Pelo que, querendo DEUS mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento, 18 para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que DEUS minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta; 19 a qual temos como âncora da alma segura e firme e que penetra até ao interior do véu, 20 onde JESUS, nosso precursor, entrou por nós, feito eternamente sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque.
 
PONTO DE CONTATO:
Comece a aula perguntando a seus alunos se eles se consideram crentes espiritualmente maduros. Depois fale um pouco sobre a urgência da maturidade cristã. Os cristãos hebreus, destinatários da epístola em apreço, [eram ainda “criancinhas” quando, pelo tempo de crentes, deveriam ter alcançado certa maturidade. Já era tempo para eles serem mestres dos outros, enquanto na realidade, careciam de instrução elementar. Eram inexperientes, imaturos e mal preparados para participarem das discussões dos problemas de grande vulto do pensamento cristão.] O escritor pretendia deixar claro que não se consegue a maturidade cristã pelo retorno aos padrões dos primeiros estágios da instrução cristã. Para que o edifício espiritual seja concluído, é necessário ir além do lançamento dos alicerces, isto é, o arrependimento de obras mortas e fé em DEUS.
 
OBJETIVOS:
No término desta aula seu aluno deverá esta apto a:

Expressar a importância do crescimento espiritual para todos os cristãos.
Reconhecer o perigo terrível da apostasia.
Desejar manter-se firme diante de DEUS para não ser apanhado pela apostasia.
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA:
Peça a seus alunos para relacionarem no quadro de giz os passos que normalmente conduzem os crentes inadivertidos à apostasia. Depois, compare-os com os exemplos abaixo:
1. O crente por sua falta de fé, deixa de levar plenamente a sério as verdades, exortações, advertências, promessas e ensinos da Palavra de DEUS (Jo 5.44,47).
2. Quando as realidades do mundo chegam a ser maiores do que as do reino de DEUS, o crente deixa paulatinamente de aproximar-se de DEUS através de CRISTO (Hb 7.19,25).
3. Por causa da aparência enganosa do pecado, a pessoa se torna cada vez mais tolerante com ele na sua própria vida (1 Co 6.9,10).
4. Por causa da dureza do seu coração (Hb 3.8,13) e da sua rejeição dos caminhos de DEUS, não faz caso da repetida voz e repreensão do ESPÍRITO SANTO (1 Ts 5.19-22).
5. O ESPÍRITO SANTO se entristece (Ef 4.30); seu fogo se extingue e seu templo é profanado (1 Co 3.16). Finalmente, Ele afasta-se daquele que antes era crente (Hb 13.14). (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, pág. 1903.) 


COMENTÁRIOS:
 
INTRODUÇÃO

Quando o cristão estaciona na fé e não se aprofunda no conhecimento das coisas de DEUS, corre o risco de ser levado por ventos de doutrinas (Ef 4.14) e apostatar, vindo a perder-se eternamente por não se arrepender. O tema desta lição, por seu expressivo conteúdo doutrinário, merece cuidadosa análise à luz da Palavra de DEUS.

I. INFÂNCIA ESPIRITUAL

1. Negligentes para ouvir (5.11). É próprio das crianças em geral serem negligentes para ouvir. Faz parte da sua estultícia (Pv 22.15). Aqui o escritor dirige-se aos cristãos que já deviam “ser mestres pelo tempo”, ou seja, pessoas que não eram mais neófitas na fé. Aliás, os novos convertidos, vistos como crianças espirituais, 
normalmente são os melhores ouvintes. 
2. Necessitados de leite (vv.12,13). O crente “menino” não se desenvolve por não saber ouvir a Palavra de DEUS. Os leitores da Epistola aos Hebreus ainda careciam dos ensinamentos rudimentares da fé cristã: precisavam “de leite, e não de sólido alimento”. Aliás, em nossos dias, observa-se muita “meninice” em diversas igrejas. Trata-se de “movimentos estranhos”, embusteiros e perigosos, que não têm base na Palavra de DEUS. Essa gente precisa, se quer mesmo crescer e ser adulto na fé, do leite puro da Palavra de DEUS para crescimento, fortalecimento e imunização espiritual. 

II. OS RUDIMENTOS DA DOUTRINA

1. Arrependimento e fé (6.1). Constituem os dois pilares da doutrina da salvação. São elementos fundamentais que não podem faltar no ensinamento e formação do novo convertido. O escritor fala de “arrependimento de obras mortas”. Sendo eles judeus, convertidos ao cristianismo, provavelmente ainda queriam reviver os velhos conceitos da lei, tais como a guarda do sábado, a implementação dos sacrifícios, a observância das luas novas, etc., esquecendo-se da salvação somente pela graça, mediante a fé.
2. Batismos e imposição de mãos (v.2). A doutrina dos batismos faz parte do início da fé, e não dos estágios mais avançados do desenvolvimento espiritual. Hoje, ainda há “meninos”, ensinando que só se deve batizar em nome de JESUS, e não na forma trinitariana como JESUS ordenou (cf. Mt 28.19). Quanto à imposição das mãos, 
nos moldes do Antigo Testamento, que consistia num gesto simbólico de transmissão de bênçãos (como fez Jacó), os crentes daquela ocasião não deveriam mais preocupar-se. Agora, com CRISTO, o gesto de impor as mãos, no nome de JESUS, propicia a cura divina (Mc 16.18; At 28.8). 
3. Ressurreição e juízo (v.2). Todo crente em JESUS, desde o início de sua fé, em seu discipulado básico, deve saber que CRISTO morreu por nossos pecados, mas ressuscitou para nossa justificação (Rm 4.25), e para um dia julgar o mundo com justiça (At 17.31).

III. O GRAVE PERIGO DA APOSTASIA


1. O que é apostasia. Do gr. apostásis, afastamento, abandono da fé. Apostatar significa abandonar a fé cristã de modo premeditado e consciente. No texto em apreço o escritor adverte quanto ao perigo da apostasia.
2. O arrependimento impossível (vv.4,5). O capítulo em estudo contém uma solene advertência contra a apostasia deliberada e insensível. Nele são apresentados cinco motivos pelos quais um apóstata empedernido não pode mais arrepender-se: 
a) “Já uma vez foram iluminados”. JESUS é a luz do mundo (Jo 8.12); os que o aceitam de verdade, experimentam seu perfeito fulgor, e reconhecem que outrora encontravam-se nas trevas, no mundo, sem DEUS e sem salvação. Agora não são mais novos convertidos. São crentes que sabem diferençar as trevas do Diabo 
da luz de CRISTO.
b) “Provaram o dom celestial”. O texto não se refere a neófitos na fé, com limitada convicção do evangelho. Refere-se, sim, a crentes que tiveram uma experiência real com CRISTO (ver 1 Pe 2.1-3), provando a salvação que, pela fé, é dom de DEUS (Ef 2.8,9).
c) “E se fizeram participantes do ESPÍRITO SANTO”. Aqui a advertência é severa para aqueles que foram pelo ESPÍRITO SANTO imersos no corpo de CRISTO. O apóstolo Paulo diz que “todos temos bebido de um ESPÍRITO” (1 Co 12.12,13). Fica claro que o escritor dirigia-se a pessoas que conheciam muito bem o significado da comunhão com o ESPÍRITO SANTO.
d) “E provaram a boa palavra de DEUS”. O escritor repete o verbo provar, referindo-se a crentes que tiveram um conhecimento mais que superficial das verdades de DEUS, expressas em sua Palavra. Não apenas sentiram o 
“cheiro”, mas “comeram” a Palavra, experimentando-a e confirmando-a como verdadeira (cf. Jo 17.17).
e) “E (provaram) as virtudes do século futuro”. Os leitores da carta eram crentes que além da vasta experiência espiritual, puderam, ainda no presente, experimentar as bênçãos e as virtudes do porvir. JESUS disse: “E curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: É chegado a vós o Reino de DEUS” (Lc 10.9); “...o Reino de DEUS está entre vós” (Lc 17.21).
3. A recaída no fosso da apostasia (v.6). O escritor diz que para aqueles que possuíam as experiências descritas nos vv.4 e 5, e recaíssem, seria “impossível” (v.4a) serem “outra vez renovados para arrependimento” (v.6a). Não se trata de um crente que se afasta da igreja local por pecados relativamente comuns entre os 
homens. Quase sempre essas pessoas se arrependem e pedem perdão a DEUS e à igreja. A impossibilidade de arrependimento referida pelo escritor, diz respeito a crentes que, mesmo providos das experiências mencionadas acima, abandonam a CRISTO, negando-o e renegando-o de modo proposital e deliberado. Trata-se de uma pessoa que chegou a um estágio tão escrachado de desvio, que sua consciência encontra-se cauterizada (conforme 1 Tm 4.2), ficando insensibilizado a qualquer advertência por parte do ESPÍRITO SANTO. É uma situação tão difícil que a pessoa acaba blasfemando contra o ESPÍRITO de DEUS, não tendo mais condições de obter o 
perdão do Pai (cf. Mt 12.31). Este é o “pecado para a morte” de que trata o apóstolo João em sua epístola (1 Jo 5.16b).
4. Expondo CRISTO ao vitupério. 
a) Voltam a crucificar o Filho de DEUS. A morte de CRISTO foi por DEUS preordenada para ocorrer apenas uma vez, como de fato aconteceu. Os sacerdotes do Antigo Testamento ofereciam muitas vezes sacrifícios, inclusive por si mesmos (Hb 9.26). Mas CRISTO ofereceu-se uma única vez “para tirar os pecados de muitos” (Hb 
9.28). Quem o conhece, experimentou sua salvação, e mesmo assim, peca proposital e deliberadamente, volta a crucificá-lo, expondo-o ao vitupério.
b) Terra maldita. Usando uma trágica metáfora, o escritor dá a entender que o coração de quem tem conhecimento de CRISTO e o despreza, apostatando da fé, é como uma terra antes boa, mas tornando-se reprovada, “produz espinhos e abrolhos”, e só presta para ser queimada.

IV. A FIDELIDADE DE DEUS

1. DEUS não é injusto (v.10). O escritor considera os destinatários de sua carta como pessoas amadas, de quem espera “coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação...”. Isso prova que, embora a apostasia os ameaçasse constantemente, eles não tinham caído nela; estavam sendo advertidos. Em seguida, ele diz que “DEUS não é injusto” para se esquecer da obra, do trabalho e da caridade deles para com os santos, a quem serviam. 
2. DEUS cumpre suas promessas (v.13). DEUS fez promessa a Abraão e, como não tinha alguém maior por quem jurasse, jurou por si mesmo, prometendo abençoá-lo e multiplicá-lo na terra, ainda que sua esposa fosse estéril. E o patriarca alcançou a bênção, porque esperou com paciência (vv.14,15).
3. É impossível que DEUS minta (vv. 16-20). DEUS quis mostrar a “imutabilidade de seu conselho aos herdeiros da promessa”, fazendo um juramento. Certamente DEUS não precisa jurar, mas para que os homens não tivessem dúvida, Ele “se interpôs com juramento”. O escritor enfatiza que “é impossível que DEUS minta” e, por isso, devemos “reter a esperança proposta, a qual temos como âncora da alma, segura e firme, e que penetra até o interior do véu”, onde está JESUS, nosso mui amado e eterno Sumo Sacerdote. 

CONCLUSÃO

Aqueles que têm a experiência gloriosa da salvação precisam cuidar-se para não caírem no engano do Diabo. É indescritível o prejuízo de quem apostata da fé, negando a eficácia do sangue de CRISTO para a salvação dos pecadores. Tais desafortunados podem chegar à situação de arrependimento impossível, e se perderem eternamente.
Subsídio Bibliológico

“Neste ponto, o autor poderia ter procedido a comparação de CRISTO com Melquisedeque. Mas, temendo que o leitor não alcançasse o seu significado, uma vez que seria contrária às opiniões correntes judaicas, ele formula um aviso e só retoma o argumento a partir do capítulo 7.“Nos versículos 11-14 (Cap. 5), o autor alerta quanto aos perigos de estacionar na vida espiritual e menciona as possíveis conseqüências. A vida espiritual é semelhante à natural: em todos os seus estágios depende de fatores sem os quais não poderá ser mantida. Um crescimento sadio dá ao cristão condições de se apropriar do que seria impossível num estágio anterior e inferior. Contudo, essa constatação traz sérias responsabilidades:
a) O período de infância espiritual pode ser prorrogado de forma abusiva, como fizeram os hebreus, mantendo-se como “criancinhas” — estágio esse que já deveriam ter passado (vv.11,12).
b) Como conseqüência do primeiro item, a pessoa pode não estar preparada para a instrução mais madura (“sólido mantimento”), em tudo necessária, quando ministrada a seu tempo (vv.13,14).“Os hebreus eram ainda “criancinhas” quando, pelo tempo de convertidos, deveriam ter alcançado certa maturidade. Já era tempo de serem mestres e não de estarem buscando instrução elementar. Eram inexperientes, imaturos e despreparados para participar das discussões sobre problemas de grande vulto do pensamento cristão.“Segue-se uma exortação para avançarem na busca de um conhecimento mais elevado a que o autor os conduz, convicto de que o acompanharão (6.1-3): Pelo que, deixando os rudimentos da doutrina de CRISTO, prossigamos até a perfeição”. Os crentes hebreus precisarão de maior percepção espiritual, uma vez que o autor irá demonstrar que o sacerdócio de CRISTO significa a abolição da Antiga Aliança.“Não se consegue a maturidade cristã retornando aos padrões dos primeiros estágios da instrução cristã. Para que o edifício espiritual seja concluído, é mister ir além dos alicerces — o arrependimento das obras mortas pela fé em DEUS. (Comentário Bíblico Hebreus, CPAD, págs. 136,137.)

QUESTIONÁRIO:
1. Quem são considerados meninos espirituais?
R. Aqueles a quem se torna necessário ensinar os rudimentos da doutrina de CRISTO.
2. Que é apostasia?
R. O afastamento da fé.
3. Por que é impossível alguém que apostata deliberadamente arrepender-se?
R. Porque “de novo crucificam o Filho de DEUS e o expõem ao vitupério”.
4. A que tipo de terra é comparado o coração do apóstata deliberado?
R. A uma terra maldita.
5. O que é impossível a DEUS, segundo a lição?
R. Que Ele minta.
 
RUDIMENTOS DA DOUTRINA:
INTRODUÇÃO
"Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes novamente necessidade de alguém que vos ensine de novo quais são os princípios elementares dos oráculos de DEUS; assim vos tornastes como necessitados de leite, e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite, é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal. Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de CRISTO, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando de novo a base do arrependimento de obras mortas, e da fé em DEUS, e o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno". Hebreus 5:12-14 6:1-2
Este estudo foi inspirado no texto acima, do livro de Hebreus, e usa as seguintes fontes:
· *Bíblia Sagrada *Conhecendo as Doutrinas da Bíblia *Palestras em Teologia Sistemática
· As Grandes Doutrina da Bíblia
 
ESTUDO 1 - ARREPENDIMENTO DE OBRAS MORTAS
A - O QUE É O PECADO
O Novo Testamento Descreve o Pecado como:
1 - Errar o Alvo; como o arqueiro que atira e erra; Errar o caminho; como viajante que sai do caminho certo.
2- Dívida: O homem deve a DEUS a guarda de seus mandamentos; todo pecado cometido é contração de uma dívida. Incapaz de pagá-la, a única esperança do homem é ser perdoado, ou obter remissão da dívida (Mateus 6:12).
3 - Desordem: ''O pecado é iniqüidade, literalmente desordem (1º João 3:4):
a) o pecador é um rebelde e um idólatra, porque deliberadamente quebra um mandamento, ao escolher a sua própria vontade ao invés de escolher a vontade de DEUS; pior ainda, está se convertendo em Lei para si mesmo e, desta maneira, fazendo do ''eu'' uma divindade';
b) o pecado começou no coração de Lúcifer que disse: Eu serei; em oposição à vontade de DEUS.
c) o anticristo é o sem-lei (tradução literal de iníquo), porque se exalta sobre tudo que é adorado ou que é chamado DEUS.
d) o pecado é essencialmente obstinação e obstinação é pecado. O pecado destronaria a DEUS. Na cruz de JESUS, poderiam ter sido escritas estas palavras: O pecado fez isto!
4 - Desobediência: Literalmente, ouvir mal, ouvir com falta de atenção.
5 - Transgressão: Literalmente, ir além do limite. Os mandamentos de DEUS são cercas, que impedem o homem de entrar em território perigoso e, desta maneira, sofrer prejuízo para sua alma (Romanos 4:15).
6 - Queda: falta, ou cair para um lado, no grego donde a expressão: cair no pecado. Pecar é cair num padrão de conduta (Efésios 4:17).
7 - Derrota - é o significado da palavra queda, em Romanos 11:12. Ao rejeitar a CRISTO, a nação judaica sofreu uma derrota e perdeu o propósito de DEUS.
8 - Impiedade: de uma palavra que significa sem adoração, ou reverência. O homem ímpio é o que dá pouca ou nenhuma importância a DEUS e às coisas sagradas. Estas não produzem nele nenhum sentimento de temor ou reverência. Ele está sem DEUS porque não quer saber de DEUS (Romanos 1:18; 9 - O Erro: descreve aqueles pecados cometidos como fruto da ignorância, e, dessa maneira, diferenciam-se daqueles pecados cometidos presunçosamente, apesar da Luz esclarecedora. O homem que, desafiadoramente, decide fazer o mal, incorre em maior grau de culpa do que aquele que é apanhado em falta, a que foi levado por sua debilidade ( B - A CONDIÇÃO PECAMINOSA EM QUE NASCE O HOMEM
É chamada de pecado original. Ela é chamada assim:
1 - Porque se deriva de Adão, o tronco original da raça humana (Gênesis 3:6).
2 - Porque está presente na vida de cada um desde o seu nascimento, por isso não pode ser considerado resultado de simples imitação (Jeremias 17:9).
3 - Porque é a raiz interna de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem (Romanos 3:23).
4 - Segundo SANTO Agostinho, a natureza do pecador, tanto física como moral, está de todo corrompida por causa do pecado de Adão, e, de tal maneira, que o homem não consegue fazer outra coisa a não ser pecar.
5 - ''Pecados Atuais'': são as ações externas que se executam através do corpo. São também todos aqueles maus pensamentos conscientes. São os pecados individuais de fato. O pecado original é um só, enquanto o pecado atual desdobra-se em diferentes classes, tais como atos ou atitudes. O que o Apóstolo João escreveu, pode nos ajudar a compreender melhor a diferença entre o pecado original e pecados atuais (1º João 1:8-9; Gálatas 5:19-21).
6 - Nossos pecados podem ser diferentes, mas o motivo que nos leva a cometê-los é sempre o mesmo: a escolha de interesses próprios ao invés dos de DEUS. O ato público de Adão e Eva simplesmente expressa o pecado que já havia sido cometido no coração, ou seja, ''indisposição para fazer a vontade de DEUS''.
a) O pecado de Adão e Eva (Gênesis 2:16-17; 3:4-6)
b) O pecado de Satanás ( c) A hereditariedade do pecado (Romanos 5:12-18)
C - AS CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO
O pecado é tanto um ato como um estado.
Como rebelião contra a lei de DEUS é um ato da vontade do homem; como separação de DEUS é um estado pecaminoso, as escrituras descrevem dois efeitos do pecado sobre o culpado: primeiro é seguido por conseqüências desastrosas para sua alma; segundo trará da parte de DEUS o positivo decreto de condenação.
1 - Como resultado da queda do homem, o seu relacionamento com DEUS foi sensivelmente alterado. Destacam-se como conseqüências espirituais do pecado:
a) Morte Espiritual O termo ''morte'' é usado na Palavra de DEUS para falar da separação entre o homem e DEUS, por causa da queda do homem no princípio. Este ''é o estado em que se encontram todos os homens, até que permitam que CRISTO lhes toque, vivificando-os (Romanos 5:12).
b) Perda da semelhança moral com DEUS O homem foi criado para ser perfeito e para viver em perfeita comunhão com o seu ''Criador''. Contudo esse privilégio foi interrompido com a queda, levando o homem tantas vezes a níveis morais tão baixos, a ponto de identificar-se melhor com os irracionais do que com DEUS que o criou (Gênesis 1:26-27).
c) Incompatibilidade com a vontade de DEUS Após a queda, a mente do homem ficou bloqueada para a revelação da vontade de DEUS, e condicionada à prática do pecado (Romanos 8:7-8). d) Escravidão ao pecado e ao Diabo Negligenciando o mandado de DEUS e aceitando as insinuações do Diabo, o homem tornou-se escravo do pecado e do maligno (João 8:34,44)
2 - Conseqüências Físicas Além dos problemas ambientais e espirituais, a queda do homem trouxe conseqüências físicas de grandes proporções:
a) Existência Física Reduzida Destinado a viver eternamente, o homem teve reduzida a sua existência física (Gênesis 6:3).
b) Corrupção dos poderes do homem Um dos propósitos de DEUS para o homem era de que ele exercesse domínio sobre todas as coisas criadas. Porém, na queda, além de perder a semelhança moral que tinha com DEUS, todos os seus poderes se perverteram. Todos os seus pensamentos e desejos se corromperam
(Gênesis 1:26)
c) Ainda que nem toda enfermidade seja causada pelo pecado, todas as enfermidades existem em conseqüência do pecado de Adão. ''A transgressão do homem foi como crime, a pior enormidade. Quanto à sua natureza não foi mera desobediência à lei divina. Foi a mais crassa infidelidade, o dar crédito antes ao diabo do que a DEUS; foi descontentamento e inveja, ao pensar que DEUS lhe havia negado aquilo que era essencial para sua felicidade; foi um orgulho imenso, ao desejar ser igual a DEUS; foi furto, ao intrometer-se naquilo que DEUS havia reservado para si, como sinal de sua soberania; foi suicídio e homicídio, ao trazer a morte contra si e contra toda a sua posteridade''. (Emery H. Bancroft).
d) A dispensação da Lei (Êxodo 20:1-7)
1 - O significado da lei de DEUS é a expressão da vontade de DEUS executada por seu poder.
2 - O propósito da Lei:
a) Não foi dada como um meio através do qual o homem pudesse ser salvo (Gálatas 3:21).
b) Não podia dar vida porque ''estava enferma pela carne'' (Romanos 8:3).
3 - Sua finalidade era revelar ao homem a dimensão de seu pecado para:
a) revelar a Santidade de DEUS;
b) mostrar a incapacidade de o homem se salvar. (Romanos 3:19-20; 7:7).
e) A dispensação da Graça
1 - A aliança do antigo testamento com todos os seus preceitos e ordenanças era figura do sacrifício de JESUS para nossa salvação (Hebreus 9:1-15).
a) A Bíblia diz que todos pecaram (Romanos 3:23).
b) Herdamos, assim, de Adão uma natureza decaída, que tende para a desobediência a DEUS (Romanos 5:12).
c) JESUS morreu pelos nossos pecados, ressuscitou ao terceiro dia e nos providenciou perfeita salvação (I Coríntios 15:3-4; Romanos 10:9).
ESTUDO 2 - FÉ EM DEUS
Entre em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/salvação.htm 
A - A SALVAÇÃO DO PECADOR DEPENDE DE
a) a operação divina, na obra redentora de CRISTO, já efetuada;
b) o acolhimento dessa obra, por parte do pecador, ou seja, a conversão (1ºTimóteo 1:15).
VIMOS, NO ESTUDO ANTERIOR, A CONDIÇÃO DO HOMEM COMO PECADOR E, PORTANTO EM DESARMONIA COM DEUS. DA PARTE DE DEUS, ESTÁ REALIZADO TUDO QUE É NECESSÁRIO À SALVAÇÃO DO HOMEM (Romanos 1:16; Efésios 2:4-10; 1ºTimóteo 1:15).
B - A SALVAÇÃO ABRANGE PASSADO, PRESENTE E FUTURO.
a) Quanto ao passado, somos salvos das penalidades do nosso pecado (Romanos 5:9).
b) Quanto ao presente, salvos do poder do pecado (Romanos 5:10; 1º Coríntios 1:18).
c) Quanto ao futuro, libertos da presença do pecado (Romanos 13:11; Hebreus 9:28). A salvação é dom de DEUS (Efésios 2:8).
C) A CONVERSÃO COMPREENDE DUAS ATITUDES POR PARTE DO HOMEM:
a) seu arrependimento do pecado e
b) sua fé ou confiança no Salvador (Mateus 18:3).
c) Converter-se significa voltar-se de uma direção para o sentido contrário, dar meia volta e caminhar em direção a DEUS. O ponto de referencia é DEUS. (Atos 3:19; 22:4-16; 1º Tessalonicenses 1:9-10).
D) A CONVERSÃO COMPREENDE DOIS FATORES, UM NEGATIVO E O OUTRO POSITIVO, O ARREPENDIMENTO E A FÉ.
a) A palavra traduzida por arrependimento no novo testamento significa mudança de pensamento (<>Mateus 12:41; Atos 2:36-41).
b) É a revolta, consciente, do homem contra seu próprio pecado, que o leva a renegar esse pecado. Inclui três aspectos:
1) O aspecto intelectual O reconhecimento, pelo homem, de sua culpa diante de DEUS, e de sua incapacidade de agradar a DEUS (Mateus 3:1-2; Atos 17:30-31).
2) O aspecto emocional Pesar pelo seu pecado, como uma ofensa contra um DEUS SANTO e Justo (2º Coríntios 7:9-10)
3) O aspecto volitivo Mudança de propósito, resolução íntima contra o pecado e disposição para buscar de DEUS o perdão, purificação e poder (Atos 17:30-31; Romanos 2:4).
c) A fé é o aspecto positivo da conversão
1) No arrependimento já existe o fator fé (Lucas 7:30)
2) A fé em JESUS (Atos 20:21) além de reconhecer a verdade a respeito do Salvador, deposita n'Ele a confiança a ponto de receber d'Ele a Salvação, e de submeter-se integral e definitivamente ao seu domínio. Isto se chama ''obediência'' da fé (Romanos 1:5; 16:26).
3) O verbo ''crer'' no novo testamento tem este sentido, de se depositar confiança (João 3:15-16; 3:18;36; João 5:24; Atos 16:31).
E) A RECONCILIAÇÃO
PELA SUA REBELIÃO, O HOMEM VIVE DE RELAÇÕES CORTADAS COM DEUS. QUANDO, PORÉM, ACOLHE O TESTEMUNHO DE DEUS A RESPEITO DO PECADO (ARREPENDIMENTO) E DA OBRA REDENTORA EFETUADA POR CRISTO (FÉ), ESTÁ, DESSE MODO, ATENDENDO À SOLICITAÇÃO FEITA EM NOME DE CRISTO PARA QUE SE RECONCILIE COM DEUS (2º Coríntios 5:17-20).
Passa existir plena harmonia entre ambos; deu-se a reconciliação do pecador com DEUS:
a) Virá o dia em que essa reconciliação com DEUS se estenderá a todas as coisas (Colossenses 1:20-22).
b) Desfeita assim a inimizade do homem com seu Criador, passa a existir Paz entre ambos.
c) O homem, que estava errado e sem razão, passou a concordar integralmente com DEUS, dando a Ele razão em tudo.
d) Dessa reconciliação resulta a ''Paz com DEUS por Nosso Senhor JESUS CRISTO'' (Romanos 5:1).
F) O NOVO NASCIMENTO
É tão profunda a transformação que o ESPÍRITO de DEUS opera na pessoa que se converte, que JESUS a chama de Novo Nascimento (João 3:1-15)
a) É o principio da nova vida espiritual que DEUS dá a quem estava ''morto nos delitos e pecados, ou seja, espiritualmente morto para DEUS, e que agora passou da morte para a vida (1º João 3:14)
b) A conversão é o ato voluntário do homem; o novo nascimento é obra exclusiva de DEUS.
c) A nova vida que o homem receber ao nascer de novo é chamada Vida Eterna, o que indica a duração e profundidade dessa vida.
d) Trata-se não apenas da vida futura, além-túmulo (Tito 1:2; 3:7), mas de vida que o crente possui desde já (João 5:24; 6:47).
G) ADOÇÃO (FILHOS DE DEUS)
Pelo nascimento físico, o homem é membro da família de Adão e, excluído, pelo pecado, da família de DEUS. Nascido de novo, passa a fazer parte da família de DEUS, recebendo pela adoção direitos que CRISTO tinha por direito eterno ( a) Apenas excepcionalmente, a Bíblia fala de DEUS como pai de todos os homens, e isso no sentido de ser seu criador e preservador.
b) A Bíblia reserva o nome de Pai para designar a nova relação que Ele assumiu para com aqueles que adotou como filhos, ou seja, aqueles que, nascidos do ESPÍRITO de DEUS, são por Ele guiados (Romanos 8:14-17).
c) Estando o pecador identificado com CRISTO, o Cordeiro de DEUS que deu a vida para resgatá-lo possui da parte de DEUS:
1) o pleno perdão ou remissão dos pecados (Hebreus 10:17-18; 2º Coríntios 5:21);
2) A justificação legal da parte do justo Juiz (Romanos 8:33-34);
3) A Santificação que lhe possibilita a realização da nova vida.
H) A JUSTIFICAÇÃO
Veja em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/A_Justificacao.HTM 
 
Justificar significa declarar justo, atribuir justiça a alguém.
1) O Senhor diz que ''não há justo, nem um sequer'' (Romanos 3:10), como pode um DEUS Justo justificar o injusto? (Romanos 8:33).
2) O Apóstolo Paulo diz que podemos ter certeza da nossa justificação:
a) sobre que base? Pelo fato de ter CRISTO morrido por nós... Justificados pelo Seu sangue (Romanos 5:8-9; 3:26).
b) por qual princípio? Gratuitamente por sua graça (Romanos 3:24).
3) Somente os que pela fé se identificam com a obra redentora de CRISTO são justificados pela fé (Romanos 3:28).
a) A benção é oferecida a todos, porém, recebida só pelos que depositam sua confiança em CRISTO (Romanos 3:22, 4:16; Gálatas 2:16).
I) A SANTIFICAÇÃO
O termo santificado, na Bíblia, significa separado para determinado fim, e, especialmente, para o serviço de DEUS. O Senhor santificou (separou) o sétimo dia (Gênesis 2:3); determinou que lhe fosse santificado (separado) todos os primogênitos de Israel (Êxodo 13:2); falou de alguém santificar (separar) sua casa para ser santa ao Senhor (Levítico 27:14); JESUS foi santificado (separado) pelo Pai e se santificou (separou) a nosso favor (João 10:36; 17:19). Em todos estes casos o sentido é de pôr à parte, para um fim ou missão especial, destacar para o serviço de DEUS.
a) Identificado com CRISTO pela fé; perdoado, justificado, e separado para o serviço de DEUS, o homem convertido tem um novo interesse na vida.
1) o serviço de seu novo Senhor, para o qual foi destacado (Santificado);
2) o que mais o impede de realizar esse serviço é uma velha natureza considerada morta para DEUS, mas, na prática, travando luta com o novo princípio de vida que está nele, o ESPÍRITO SANTO.
1. A santificação é um ato imediato de DEUS, mas, na prática, embora já realizada no propósito divino, torna-se um processo de desenvolvimento espiritual, à medida que o ESPÍRITO SANTO vai dominando sua carne e transformando sua vida em verdadeiro culto (serviço) ao Pai (Romanos 12:1).
a) seu propósito é o de viver, não mais ele, mas CRISTO, que nele vive, e assim sua vida vai se tornando santa. (1º Pedro 1:15-16; 2º Coríntios 7:1; 1º Tessalonicenses 5:23).
ESTUDO 3 - A DOUTRINA DOS BATISMOS
A) O BATISMO NAS ÁGUAS
Veja em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/Batismo%20nas%20Aguas.HTM 
 
1) O batismo nas águas simboliza principalmente duas grandes verdades: identificação e purificação. Pelo batismo de João, os judeus, inclusive o próprio JESUS, identificavam-se com a atitude que João apregoava, com relação ao pecado e à justiça (Mateus 3:1-10) pelo batismo Cristão.
2) Identificamo-nos com nosso salvador em sua morte, sepultura e ressurreição, reconhecendo-nos,, pela fé, mortos e ressuscitados com Ele (Romanos 6:3-11).
a) O batismo deve ser precedido do arrependimento (Mateus 3:6; Atos 2:38).
b) Simboliza nossa morte para o pecado e ressurreição para DEUS (Romanos 6:3; Colossenses 2:12).
c) É uma ordenança de JESUS para todo o que crê (Mateus 28:19; Marcos 16:16).
B) O PROPÓSITO DO BATISMO
1) Uma vez que só os salvos podem ser batizados, o batismo não tem como finalidade à salvação do batizando. O ato do batismo se constitui num testemunho público de que, aquele que a ele se submete, foi regenerado pela fé em JESUS CRISTO. Assim, pelo batismo, o novo crente dá prova de haver morrido para o mundo, estando pronto para ser sepultado e ressuscitado para uma nova vida em CRISTO. No entanto, se o crente vier a morrer antes de ser batizado nas águas, a sua condição de salvo continua inalterada (Lucas 23:42:43). Uma vez que o batismo não se constitui uma opção, mas uma ordenação do Senhor, todos os que crêem devem ser batizados.
C) NO BATISMO, TAMBÉM, O CRENTE SE SUBMETE A AUTORIDADE DA IGREJA LOCAL, COLOCANDO-SE SOB SUA COBERTURA ESPIRITUAL E PARTICIPANDO DO SEU MINISTÉRIO:
1) A Igreja universal e local ''EKKLESIA'', traduzida por igreja, deriva-se de EKKALED, verbo que significa ''chamar a parte'' (Deuteronômio 23:3; Salmo 22:25; Atos 7:38).
2) A igreja, corpo de CRISTO (Romanos 12:4-8; 1º Coríntios 12:12-28), essa maravilhosa figura desenvolvida por Paulo, destaca as seguintes características:
a) a disposição dos membros no corpo pelo próprio DEUS (1º Coríntios 12:18);
b) a diversidade de dons e funções desses membros (Romanos 12:4-11; Efésios 4:12);
c) a dependência, por parte do todo, de cada componente; nenhum é dispensável (1º Coríntios 12:21-23);
d) sua coordenação por DEUS, para que não haja divisão no corpo (1º Coríntios 12:24b-25a);
e) a cooperação dos membros, com igual cuidado, em favor um dos outros (1º Coríntios 12:25b).
N.B: A obra que DEUS deseja realizar em nossas vidas será realizada através da igreja, daí a importância da igreja local para o desenvolvimento dessa obra. Por isso não devemos deixar de congregar-nos (Hebreus 10:24-25; Provérbios 18:1).
D) O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO
Veja em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/orarnoespíritosanto.htm 
 
Nesta seção trataremos de outro modo de operação do ESPÍRITO SANTO no crente: A sua obra vitalizante. Esta última fase da obra do ESPÍRITO SANTO é apresentada na promessa de CRISTO. ''Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o ESPÍRITO SANTO, e sereis minhas testemunhas'' (Atos 1:8).
1) A característica principal dessa promessa: Poder para servir e não regeneração para a vida eterna. Sempre que lemos acerca do ESPÍRITO SANTO vindo sobre, repousando sobre, ou enchendo as pessoas, a referência nunca se refere à obra salvadora do ESPÍRITO, mas sempre ao poder para servir.
2) A quem foi dirigida: A homens que já estavam em relação íntima com CRISTO. Foram enviados a pregar, armados de poder espiritual para esse propósito (Mateus 10:1).
a) A eles foi dito: ''Os vossos nomes estão escritos nos céus (Lucas 10:20).
b) Sua condição moral foi descrita nas Palavras: ''Vós já estais limpos pela Palavra que vos tenho falado'' (João 15:3).
c) Sua relação com CRISTO foi ilustrada com a figura: ''Eu sou a videira, vós os ramos'' (João 15:5).
d) Eles conheciam a presença do ESPÍRITO SANTO com eles (João 14:17), e sentiram o sopro de JESUS ressuscitado a dizer: ''Recebei o ESPÍRITO SANTO'' (João 20:22).
e) Estes fatos demonstram a possibilidade de a pessoa estar em contato com CRISTO e ser seu discípulo e,
contudo carecer do revestimento especial mencionado em Atos 1:18.
3) O que acompanhava o cumprimento da promessa: Houve manifestações sobrenaturais, sendo que a mais importante e comum foi o milagre de falar em outras línguas. Este dom acompanhava sempre a experiência sobrenatural do batismo no ESPÍRITO SANTO (Atos 10:44-47).
a) Essa experiência é descrita como ser cheio do ESPÍRITO SANTO. Aqueles que foram batizados com o ESPÍRITO SANTO no dia de Pentecostes também foram cheios do ESPÍRITO (Atos 2:1-4).
Os fatos acima expostos nos levam à conclusão de que o crente pode experimentar um revestimento de poder, experiência suplementar e subseqüente à conversão, cuja manifestação inicial se evidencia pelo milagre de falar em língua por ele nunca aprendida.
b) O propósito especial do ESPÍRITO SANTO é dar energia à natureza humana para um serviço especial para DEUS, e, resultando em uma expressão externa de caráter sobrenatural. De uma maneira geral, Paulo se refere a essa expressão exterior como a ''manifestação do ESPÍRITO (1º Coríntios 12:7).
4) Para receber o batismo com o ESPÍRITO SANTO, uma atitude correta é essencial:
a) Os primeiros crentes que receberam o ESPÍRITO SANTO ''perseveraram unânimes em oração'' (Atos 1:4).
b) A recepção do dom do ESPÍRITO SANTO, subseqüente à conversão, está ligado às orações dos obreiros-cristãos (Atos 8:14-17).
c) Também está ligado às orações em comum na igreja:
1) Depois que os cristãos de Jerusalém oraram para receber coragem para pregar a Palavra, ''moveu-se o lugar em que estavam reunidos e todos foram cheios do ESPÍRITO SANTO'' (Atos 4:31).
d) Um derramamento espontâneo, como foi o caso das pessoas que estavam na casa de Cornélio (Atos 10:44-47).
e) Oração individual: Saulo de Tarso jejuou e orou três dias antes de ser cheio do ESPÍRITO SANTO (Atos 9:9 e 17).
f) Obediência: O ESPÍRITO SANTO é a pessoa que DEUS deu àqueles que Lhe obedecem (Atos 5:32).
5) Donde concluímos que uma das características do verdadeiro cristão é ser submisso a autoridade do Senhor, da Igreja e a todas as outras autoridades, pois o princípio de DEUS é a autoridade (Hebreus 13:17; Mateus 28:18).
ESTUDO 4 - IMPOSIÇÃO DE MÃOS
A) AUTORIDADE É UM PRINCÍPIO DO REINO DE DEUS
1) DEUS criou todas as coisas. Tudo está sujeito à sua autoridade, uma vez que tudo foi criado por Ele e para Ele (Eclesiastes 3:11; Colossenses 1:16).
a) DEUS não exerce seu domínio pela força, mas pelo reconhecimento do seu amor para conosco. Só se sujeita incondicionalmente à vontade de DEUS quem confia plenamente nEle (João 4:34).
b) Aqueles que não estão dispostos a aceitar a vontade de DEUS, vivem em estado de rebelião o que caracteriza o pecado (Romanos 1:32).
2) O princípio de rebelião não pode conviver pacificamente com o princípio de autoridade. No coração do rebelde está o desejo de ocupar o lugar de DEUS, de ser seu próprio deus, de ditar suas próprias normas do bem e mal. Após o Juízo final estes dois princípios estarão eternamente separados, caso contrário, o caos reinaria eternamente na criação.
B) A REBELIÃO DO HOMEM E SUAS CONSEQÜÊNCIAS
1) A primeira criatura de DEUS que se rebelou foi Lúcifer, quando arregimentou um terço dos anjos do céu. Como conseqüência, foi destituído do seu cargo, expulso do céu e lançado na terra (Ezequiel 28:11-17).
a) Satanás e seus anjos tomaram uma decisão eterna de não reconhecer a autoridade de DEUS.
2) O segundo capítulo de Gênesis relata o fato da queda do homem, informando acerca do primeiro lar do homem, sua inteligência, seu serviço no jardim do Éden, as duas árvores e o primeiro matrimônio. Menciona especialmente as duas árvores, a do conhecimento do bem e do mal e a árvore da vida. Essas duas árvores pareciam dizer a nossos primeiros pais: ''Se seguirdes o bem e rejeitares o mal, tereis a vida'' (Deuteronômio 30:15).
a) Porque a árvore proibida foi colocada ali? Para prover um teste pelo qual o homem pudesse, amorosa e livremente, escolher servir a DEUS e dessa maneira desenvolver seu caráter (RGênesis 2:15-17).
b) A serpente, astutamente, semeia dúvidas e suspeitas no coração de Eva. (Gênesis 3:1-6) por meio da pergunta no versículo 1, lança a tríplice dúvida acerca de DEUS.
b.1 - dúvida sobre a bondade de DEUS;
b.2 - dúvida sobre a retidão de DEUS;
b.3 - dúvida sobre a Santidade de DEUS.
3) Quando Adão comeu do fruto, tudo que estava sob sua autoridade sofreu as conseqüências da rebelião. O casal sofre imediatamente a morte espiritual, a separação de DEUS, a morte passou a toda sua descendência. Além disso, Adão entregou ao Diabo todo domínio e autoridade que DEUS havia lhe concedido(Gênesis 3:6; Lucas 4:5-7).
C) A MISSÃO DE JESUS COMO HOMEM
1) Ao se fazer como a criatura, sendo gerado homem, JESUS atingiu três objetivos básicos relacionados ao princípio de autoridade:
a) submeter-se como criatura ao princípio de autoridade de DEUS (Filipenses 2:6-8);
b) substituir o homem no castigo que pesava sobre a rebelião (Isaias 53:5-6; Gálatas 3:13; 1º Coríntios 15:3);
c) reimplantar o princípio de autoridade na vida de todos que reconhecem o amor de DEUS (Romanos 5:19).
2) O primeiro objetivo JESUS cumpriu sendo obediente até a morte e morte de cruz. Apesar de tentado a desobedecer ao Pai como nenhum outro o foi, JESUS jamais satisfez sua vontade própria de homem. Sua plena submissão ao Pai aprovou definitivamente o princípio de autoridade para toda a criação.
3) O segundo objetivo, ele atingiu ao sofrer na cruz, sem nunca ter se rebelado, levando todo o castigo que pesava sobre os rebeldes. Sofreu a morte física e também a separação do Pai (Marcos 15:34).
4) O terceiro objetivo ele alcançou na ressurreição, sendo glorificado pelo pai como Senhor e cabeça de todas as coisas (Colossenses 1:17-19). É a vida de CRISTO em nós que nos permite a perfeita e suprema submissão à vontade de DEUS. Só pode fazer parte do Reino de DEUS aquele cuja cabeça é JESUS.
D) DEUS DELEGA AUTORIDADE
1) Toda autoridade procede de DEUS. DEUS governa seu reino, delegando autoridade aos que O servem.
a) Reconhecer a autoridade de DEUS implica reconhecer as autoridades levantadas por Ele em todos os âmbitos da vida: na família, no trabalho, no governo, na sua igreja, etc (Romanos 13:1-7).
b) Devemos entender que a autoridade não está na pessoa, mas na posição que ela ocupa.
c) Um governador tem autoridade de governar enquanto estiver no governo.
d) A autoridade em si é boa, pois procede de DEUS, mas a pessoa que a exerce pode ser boa ou má.
e) DEUS levanta e destitui reis. É Ele quem inclina o coração dos reis para onde quer.
E) O EXERCÍCIO DE AUTORIDADE
1) Sobre os Demônios:
a) JESUS venceu os principados e potestades, expondo-os publicamente à vergonha da derrota (Colossenses 2:15).
b) Obtemos plenamente os benefícios desta vitória quando exercemos toda a autoridade que JESUS concedeu-nos sobre eles.
c) Os Demônios são obrigados a obedecer a nossas ordens, pois quando ordenamos é como se o Senhor mesmo ordenasse.
d) Muitos crentes desconhecem a autoridade que têm e, quando se defrontam com o reino das trevas, buscam socorro em DEUS, mas o Senhor já lhes concedeu tudo o que necessitam para vencer e permanecer inabaláveis (Efésios 6:13-18).
2) Sobre as Enfermidades:
a) Toda as enfermidades resultam do pecado (Romanos 5:12).
b) É certo que o pecado não domina mais aquele que está em CRISTO. Mas também é certo que o pecado ainda habita em nossa natureza carnal, pelo que Paulo afirma: ''Esmurro meu corpo todos os dias''.
c) Devido à presença do pecado, este corpo será destruído para ressuscitar um corpo incorruptível (Mais sobre este assunto no Estudo 5).
d) A destruição do nosso corpo carnal faz parte do plano de DEUS e a enfermidade pode servir a este propósito.
e) Por outro lado, a enfermidade pode proceder de Satanás servindo para matar, roubar e destruir nossa alegria e paz.
f) JESUS concedeu-nos autoridade para curar os enfermos escravizados pelo Diabo, libertando-os dos seus sofrimentos. Por isso devemos sempre orar expulsando a enfermidade.
3) Na pregação do Evangelho:
a) A ordem de JESUS é para que o evangelho seja pregado por todo o mundo, quer queiram ouvir, quer não.
b) Ao anunciar JESUS, precisamos saber que DEUS sustenta sua palavra com sinais e prodígios, e que ela não volta ao Senhor antes de haver efetuado a obra para a qual foi designada. Pregar com autoridade significa confiar que DEUS se encarregará de provar ao incrédulo a veracidade do nosso testemunho (Marcos 16:17-18; Ezequiel 12:25).
F) O PRINCÍPIO DE AUTORIDADE NA IGREJA LOCAL
Veja em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/atos.htm 
 
1) Ninguém pode servir a DEUS de forma isolada. A congregação é o meio utilizado pelo Senhor para ensinar-nos a submissão e o exercício de autoridade (Hebreus 10:23-25):
a) Na igreja primitiva, as congregações estavam ligadas por um único espírito.
b) Cada congregação tinha um sistema de governo próprio e independente, formado pelo pastor, presbíteros, anciãos e membros.
c) Submeter-se a CRISTO implica em primeira instância, submeter-se às autoridades da igreja local. Ao conselho da igreja cabe a responsabilidade de zelar pela conduta de seus membros (Hebreus 13:7, 17)
ESTUDO 5 - RESSURREIÇÃO DOS MORTOS
Veja em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/FILHILHO.HTM 
 
A) A IMPORTÂNCIA DA RESSURREIÇÃO
1) Os Coríntios como os demais gregos eram um povo de grande capacidade intelectual e amantes de especulações filosóficas. O Apóstolo Paulo previu que, sob a influência do espírito grego, o ensino da igreja de Corinto poderia fazer com que o evangelho se dissipasse em lindo, porém impotente sistema de filosofia e ética:
a) O Apóstolo desafiou a veracidade desse ensino (1º Coríntios 15:12).
b) Tomando esse erro como ponto de partida, Paulo expôs a doutrina verdadeira, entregando ao mundo o grande capítulo da ressurreição (leiam em casa 1ª Coríntios 15).
2) No princípio DEUS criou tanto o ESPÍRITO como o corpo, e, quando se uniram espírito e corpo como unidade vivente, o homem tornou-se alma vivente (Gênesis 2:7):
a) O homem foi criado imortal no sentido de que ele não precisava morrer, mas mortal no sentido de que poderia morrer se desobedecesse a DEUS (Gênesis 2:16-17).
b) Se o homem tivesse permanecido fiel, possivelmente teria sido trasladado, pois a trasladação parece ser o meio perfeito que DEUS usa para remover da terra os seres humanos (2 Reis 2:11).
c) O homem pecou, perdeu o direito à árvore da vida, e em resultado disso começou a morrer, processo que culminou na separação do espírito do corpo (Gênesis 3:22).
d) A morte física foi à expressão externa da morte espiritual, a qual é a conseqüência do pecado.
e) Desde que o corpo é parte integrante da personalidade do homem, sua salvação e sua imortalidade não se completam enquanto não for ressuscitado e glorificado. Assim ensina o novo testamento. (1º Coríntios 15:53-54; Filipenses 3:20-21).
f) O homem se compõe tanto de alma como de corpo, sua redenção deve incluir a vivificação dos dois, da alma e do corpo. Embora o homem se torne justo perante DEUS e vivo espiritualmente (Efésios 2:1), seu corpo morrerá como resultado da sua herança racial de Adão.
B) O FATO E NATUREZA DO ESTADO INTERMEDIÁRIO:
1) O velho testamento ensina que há uma vida depois da morte:
a) Mostra que todos os homens vão ao SHEOL (O hades do novo testamento).
b) Os ímpios vão para lá (Salmos 9:17; Isaias 5:14).
c) Lemos que Coré e Abirão desceram vivos ao Sheol (Números 16:33).
d) Os justos também vão para lá (Jó 14:13; Salmos 6:5; 16:10).
e) Ezequias considerava a morte como ''entrar nas portas do além'' (Isaias 38:10).
2) Também o novo testamento mostra que tanto os maus como os justos desciam ao hades, antes da ressurreição de CRISTO:
a) Lemos que o rico desceu ao hades e ele e Lázaro estavam tão próximos que dava para conversarem um com o outro naquela região (Lucas 16:19-31).
b) O próprio JESUS desceu ao hades (Atos 2:27-31).
c) CRISTO tem agora as chaves da morte e do hades (Apocalipse 1:18).
d) Um dia, a morte e o hades devolverão os mortos que neles há (Apocalipse 20:13-14).
3) Se, então, as escrituras ensinavam que há uma existência depois da morte, esta seria uma existência consciente?
a) É o que é sugerido no velho testamento e ensinado claramente no novo testamento (Mateus22:31-32; Lucas 23:40-43).
b) O novo testamento indica que haviam dois compartimentos no hades, um para os maus e outro para os bons. O que era reservado para os bons chamava-se Paraíso.
c) Depois da ressurreição de JESUS, parece ter havido uma mudança. Agora os crentes vão à presença de CRISTO quando morrem (2º Coríntios 5:6-9).
d) Paulo expressou o desejo de ''partir e estar com CRISTO, o que é incomparavelmente melhor'' (Filipenses 1:23).
e) ''As almas dos que tinham sido mortos'' estavam debaixo do altar e conscientes (Apocalipse 6:9-11).
f) Quando JESUS ressuscitou, Ele levou não apenas as primícias daqueles a quem ressuscitou corporalmente (Mateus 27:52-53), mas também as almas de todos os justos que estavam no hades (Efésios 4:8; Salmos 68:18).
C) O ENSINAMENTO DO VELHO TESTAMENTO QUANTO À RESSURREIÇÃO DO CORPO
1) Para começar, o velho testamento registra a ressurreição do corpo de pelo menos três pessoas:
a) o filho da viúva (1º Reis 17:21-22);
b) o filho da Sunamita (2º Reis 4:32-36);
c) o homem que reviveu ao tocar os ossos de Eliseu (2º Reis 13:21). 2) Abraão esperava que DEUS levantasse Isaque dos mortos no Monte Moriá (Gênesis 22:5; Hebreus 11:19).
3) Jó esperava ver a DEUS em seu corpo (Jó 19:25-27).
4) Notamos ainda a expectativa de Isaías de uma ressurreição do corpo (Isaias 26:19).
D) O ENSINAMENTO DO NOVO TESTAMENTO QUANTO À RESSURREIÇÃO DO CORPO
1) O novo testamento registra a ressurreição de cinco pessoas:
a) a filha de Jairo (Mateus 9:24-25);
b) o jovem de Naim (Lucas 7:14-15);
c) Lázaro (João 11:43-44);
d) Dorcas (Atos 9:40-41);
e) Êutico (Atos 20:9-12).
2) O próprio Senhor JESUS ensinou sobre uma futura ressurreição (João 5:28-29; 6:39-40,44,54).
3) Os Apóstolos ensinaram isso (Atos 24:15; 1º Tessalonicenses 4:14-16; Apocalipse 20:4-6).
4) Finalmente, a ressurreição de CRISTO é a garantia de nossa própria ressurreição (1º Coríntios 15:20-22; 2º Coríntios 4:14; Romanos 8:11):
a) Ele não só destruiu a morte como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho (2º Timóteo 1:10).
b) Há, portanto, prova abundante de que, tanto o velho como o novo testamento ensinam a ressurreição do corpo.
E) A NATUREZA DA RESSURREIÇÃO
1) Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? e em que corpo vêm? (1º Coríntios 15:35).
2) Observemos primeiro que as escrituras falam de três tipos de ressurreição:
a) uma ressurreição judicial, na qual o crente foi ressuscitado com CRISTO (Romanos 6:4-5; Efésios 2:5-6);
b) uma ressurreição espiritual, equivalente à regeneração (João 5:25-26);
c) uma ressurreição física (João 5:28-29);
d) Estamos interessados agora na ressurreição física.
3) As escrituras indicam que o corpo será ressurreto de, pelo menos, quatro maneiras.
a) Em declarações claras a esse respeito (Jó 19:25-26; João 5:28-29; 1º Corintios 15:44).
b) Quanto aos dois tipos de corpos mencionados na última referência, STRONG diz: ''Esses adjetivos ''psíquico'' e ''espiritual'' não definem o material dos respectivos corpos, mas sim aqueles corpos em suas relações e adaptações, em seus poderes e usos. O corpo presente é adaptado e planejado para o uso da alma; o corpo da ressurreição será adaptado e planejado para o uso do espírito.''
c) Na declaração de que o corpo está incluído em nossa redenção (Romanos 8:23-26; 1º Coríntios 6:13-15).
d) Quando CRISTO morreu por nós, morreu pelo homem todo. Os benefícios completos de sua expiação não são cumpridos até que o corpo tenha sido tornado imortal por DEUS, o que se dará na ressurreição.
e) No tipo de corpo com que JESUS ressuscitou, Ele ressurgiu em um corpo físico (Lucas 24:39; João 20:27).
f) Na literalidade da volta e julgamentos do Senhor. O homem CRISTO JESUS voltará para julgar, não espíritos incorpóreos, mas sim homens corpóreos (1º Tessalonicenses 4:16-17; Apocalipse 20:11-13).
F) OS CORPOS DOS CRENTES
1) Diversas passagens declaram ou dão a entender que o corpo ressurreto dos crentes será semelhante ao corpo glorificado de CRISTO (Filipenses 3:21; 1º João 3:2; 1º Coríntios 15:49).
2) Alguns detalhes podem ser mencionados de 1º Coríntios 15:
a) Lemos que não será composto de carne e sangue (1º Coríntios 15:50-51).
b) Depois da ressurreição, JESUS diz que seu corpo é composto de ''carne e ossos'' (Lucas 24:39).
c) Novamente nossos corpos serão incorruptíveis, não estando, portanto, sujeitos à doença, decomposição e morte (1º Coríntios 15:42, 53-54).
d) Será um corpo glorioso, poderoso, espiritual e, finalmente, será um corpo celestial (1º Coríntios 15:43-44, 47, 49).
G) OS CORPOS DOS NÃO CRENTES
1) JESUS declarou que está chegando a hora quando todos que estiverem na sepultura sairão, alguns para a ressurreição da vida, e alguns para a ressurreição do juízo (João 5:28-29).
2) Diante de Félix, Paulo declarou que Israel tinha esperança em DEUS ''de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos''(Atos 24:15).
3) No livro de Daniel, está escrito que muitos dos que dormem no pó ressuscitarão ''para vergonha e horror eterno'' (Daniel 12:2).
4) No Apocalipse é ensinado que ''os não salvos'' serão ressuscitados, julgados e lançados no lago de fogo (Apocalipse 20:12-13).
5) A curiosidade nos levaria a uma investigação da natureza deste corpo ressurreto, mas o silêncio da escritura quanto a esse ponto indica que devemos nos contentar com as coisas que nos foram reveladas.
H) A BÍBLIA NOS ENSINA QUE HAVERÁ DUAS RESSURREIÇÕES (Apocalipse 20:4-6).
1) A primeira ressurreição terá lugar quando CRISTO vier nos ares (1º Tessalonicenses 4:16; 1º Corintios 15:23).
2) Não há dúvida de que todos os salvos dos tempos do velho testamento e do novo testamento até aquele momento, serão então ressuscitados.
3) Os que forem mortos durante a tribulação aparentemente serão ressuscitados no momento da vinda de CRISTO a terra. Assim, a primeira ressurreição estará completa (Apoc. 20:4-5).
I) A SEGUNDA RESSURREIÇÃO TERÁ LUGAR MIL ANOS MAIS TARDE (Apocalipse 20:5; 11:13)
1) Parece que DEUS é tão longânimo quanto possível com os que morreram sem ser salvos. Estão em tormento no estado intermediário, mas ainda não estão no lugar do castigo final. Assim, a bondade de DEUS faz adiar o dia do acerto final de contas para até depois do milênio. Mas, embora demore, certamente virá!
ESTUDO 6 - JUÍZO ETERNO
Veja em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/FILHILHO.HTM 
A) A BÍBLIA É UM LIVRO HISTÓRICO, DOUTRINÁRIO E PROFÉTICO. O ESTUDO DE APOCALIPSE ABRANGE ESTAS TRÊS ÁREAS:
1) O Aspecto Histórico:
a) O mundo já conheceu seis impérios: o Egípcio, o Assírio, o Babilônico, o Medo-persa, o Grego e por fim o Romano. Todos estiveram diretamente envolvidos com Israel, o Povo de DEUS.
b) O Egito tornou-se uma grande nação por causa de José, Filho de Jacó, e foi destruído quando perseguia Israel no mar vermelho (Gênesis 39:1-2; Êxodos 14:26-28).
c) O Babilônico foi levantado para castigar Israel através de Nabucodonosor. Foi destruído quando Beltsazar abusou do Senhor, bebendo vinho nos jarros santos, que seu pai havia tirado do templo em Jerusalém (2º Reis 25:8-10; Deuteronômio 5:1-4).
d) O Assírio foi derrubado por DEUS quando Senaqueribe cercou Jerusalém e zombou do Senhor (2º Reis 18:19).
e) O Império Medo-Persa, este intimamente relacionado ao povo judeu, conforme registram os livros de Neemias, Esdras e Ester, escritos nesta época.
f) O Império Grego e sua queda foi vaticinada por Daniel no capítulo 8:5, 16 e 21, onde é feita uma alusão a Alexandre, o Grande, como o Bode Peludo que destruiria o império Medo-Persa. Este império foi destruído quando um dos quatro reis, sucessores de Alexandre (Daniel 8:23-24), que eram seus generais, chamados Ptolomeu, Seleuco, Antípater e Filétero, invadiu Jerusalém e sacrificou uma porca no altar, zombando de DEUS (Daniel 11).
g) JESUS nasceu durante o império Romano, profetizado por Daniel como o quarto reino que se levantaria após o Babilônico (Daniel 2:39-40). Daniel profetizou que o império Romano destruiria Jerusalém e o templo, após o messias ter sido tirado (Daniel 9:25-26; Lucas 21:5-6), o que JESUS confirmou. Isto aconteceu 70 anos depois de CRISTO quando as legiões romanas cercaram Jerusalém e destruíram a cidade e o templo. Um terço dos judeus morreu dentro da cidade, outro terço foi crucificado ao redor da cidade e o último terço do povo foi espalhado entre todas as nações, conforme a profecia. (Ezequiel 5:12; Lucas 21:20).
h) Todo o desenrolar da história está profetizado na Bíblia e tem o povo de Israel como centro dos acontecimentos.
1- A profecia sobre a volta dos Judeus à terra prometida (Ezequiel 36:8-12; 37:21-23).
2 - Os conflitos entre Árabes e Judeus (Ezequiel 36:33-36).
3 - A possível guerra entre a Rússia e Israel (Ezequiel 39:1-9; 39:18-23).
i) O último império que o mundo conhecerá será o do anticristo. Ele será destruído quando se levantar contra os Judeus , quando então eles olharão para quem traspassaram, JESUS (Zacarias 12:10). Então o Senhor voltará e toda a nação se converterá a Ele.
1 - A pessoa do anticristo (2º Tessalonicenses 2:3).
2 - Seu poder sobrenatural (2º Tessalonicenses 2:7-10; Apocalipse 17:11-15).
2) O Aspecto Moral:
a) Ao sabermos que o Senhor breve virá para arrebatar a sua igreja, somos levados a preocupar com a nossa santificação. JESUS conta uma parábola sobre as dez virgens esperando a vinda do noivo, referindo-se à sua volta e ao arrebatamento da igreja. Numa parábola, cinco virgens não tinham azeite em suas lâmpadas, por isso não viram quando o noivo chegou e, como conseqüência não entraram nas bodas.O arrebatamento está para acontecer, quando a igreja do Senhor JESUS será tirada para não passar pela grande tribulação que virá sobre o mundo. Ele nos exorta a ficarmos alertas porque virá como um ladrão à noite naquele dia. JESUS virá para aqueles que O esperam.
1 - O arrebatamento. Como será, quando será e quem subirá (1º Tessalonicenses 5:1-11; Marcos 13:28-37).
2 - O arrebatamento será em um átomo de tempo. Primeiro os que dormem em CRISTO ressuscitarão, depois nós, os que estivermos vivos, teremos nossos corpos transformados e subiremos para encontrar o Senhor, nos ares (1º Tessalonicenses 4:13-18).
3 - O Aspecto Profético
a) Daniel profetizou que, nos últimos dias, a ciência se multiplicaria. Estamos vendo isto acontecer (Daniel 12:4).
b) Ezequiel profetizou que os judeus voltariam à terra prometida (Ezequiel 37:21-23).
1 - Depois de 1.900 anos espalhados pelo mundo, os Judeus retornaram em 1948 e lá estão até hoje, contra tudo e todos (Ezequiel 38:8).
c) Após o arrebatamento, o anticristo virá e estabelecerá o seu reinado com a ajuda de dez nações e do Império Romano, que nunca caiu, pois até hoje Roma possui um César cujo poder é reconhecido no mundo inteiro: o próprio Papa (Apocalipse 17). Este Império durará sete anos, quando então JESUS voltará para destruir as forças satânicas.
d) O Império do anticristo - 7 anos. (Daniel 9:26-27).
e) A procedência do Império - visão de Nabucodonosor (Daniel 2:1-5; 7:16-25).
1 - A 1ª fase do reinado do anticristo - falsa paz (Daniel 9:27).
2 - A aliança com as dez nações. (Apocalipse 17:3, 12-9).
3 - A aliança com a grande prostituta (Apocalipse 13:7-9; 17:1-9).
4 - A aliança com Israel e a reconstrução do templo (Daniel 9:25-27).
5) A 2ª fase do reinado do anticristo - dores (Apocalipse 9:1-12).
6) A guerra entre as dez nações (Daniel 2:42-43).
7) A destruição da grande prostituta (Apocalipse 17:15-17).
8) A marca da besta e a tecnologia atual (Apocalipse 13:16-18).
4) Cremos não haver dúvida de que a segunda vinda de CRISTO se dará em duas fases: Arrebatamento da igreja, e manifestação da pessoa de CRISTO em glória.
a) Na primeira fase, o arrebatamento da igreja, JESUS virá para os seus. Não tocará os seus pés na terra, tampouco será visível ao mundo. Ele virá até às nuvens, onde receberá a sua igreja para que com ele adentre às mansões celestiais (1º Tessalonicenses 4:17).
b) Já na segunda fase, a manifestação propriamente dita, sete anos após a primeira, JESUS virá com os seus. Nesse momento, sim, todo olho o verá, não como um CRISTO abatido e humilhado, mas exaltado e triunfante (Zacarias 14:4).
5) A Batalha do Armagedom
a) A palavra ARMAGEDOM significa monte de megido. Também conhecido como a planície de Jezreel. Nesse amplo e espaçoso lugar, os exércitos do anticristo estarão congregados para o ataque decisivo contra Jerusalém.
b) Quando Jerusalém estiver cercada pelos exércitos do anticristo e aos Judeus não restar escape, então eles clamarão angustiados pelo auxílio de DEUS. Nesta hora, dar-se-á a manifestação de JESUS, revestido com poder e glória (Isaias 52:8; Mateus 24:30).
c) O triunfo de JESUS sobre os exércitos do anticristo será esmagador. Destruindo os exércitos hostis a Israel, o anticristo e o falso profeta serão lançados no lago de fogo e enxofre (Apocalipse 19:20).
6) O Milênio
a) Ao aprisionamento de Satanás, seguir-se-ão mil anos de paz e de governo perfeito sob o reinado do Senhor JESUS, assinalando o começo de uma nova dispensação (Apocalipse 20:6).
b) Esse período não é o princípio de um mundo novo, mas o fim de um mundo antigo. O que o sábado judaico é para a semana, assim será o milênio para a era presente.
c) Dois grupos de povos distintos tomarão parte no milênio: os crentes glorificados, consistindo dos santos do antigo e do novo testamento, da igreja triunfante, dos santos oriundos da grande tribulação; e os povos naturais, em estado físico normal, vivendo na terra, a saber: judeus salvos saídos da grande tribulação, gentios poupados no julgamento das nações e o povo nascido durante o milênio propriamente dito.
d) No milênio, a igreja estará glorificada com CRISTO na Jerusalém celestial. A igreja exercerá a co-regência com CRISTO durante esse período (Apocalipse 21:22-23) revestidos de um corpo glorificado, os salvos estarão acima das limitações do tempo e do espaço sujeitos quando ainda em seus corpos mortais. Terão um corpo como o de CRISTO Ressurreto, que se locomove sem obstáculos e sem barreiras.
e) A própria terra passará por transformações que alterarão sensivelmente, para melhor, o seu clima e sua produtividade. Também os animais sofrerão mudança na sua natureza durante essa época áurea. A ferocidade deles será removida para dar lugar à docilidade. Não mais se atacarão, nem, representarão qualquer ameaça ao homem. (Isaias 65:25).
f) Toda criação, afetada que foi pela queda do homem, de igual modo participará das bênçãos decorrentes do governo milenar de CRISTO (Romanos 8:18-23).
7) Terminado o milênio, Satanás será novamente solto por um breve espaço de tempo (Apocalipse 20:7). Esta soltura de Satanás servirá para:
a) provar às pessoas que nasceram durante o milênio;
b) demonstrar pela última vez quão pecaminosa é a natureza humana, e que o homem por sí mesmo jamais se salvará, mesmo sob as melhores condições;
c) demonstrar que o Diabo é completamente incorrigível.
8) Satanás sai a ajuntar as nações da terra para a batalha, mas será derrotado e lançado no lago de fogo e enxofre onde está a besta e o falso profeta (Apocalipse 20:8-10).
9) Após este evento, será estabelecido o Juízo do grande trono branco, o Juízo Final. É nessa época que todos os ímpios mortos ressuscitarão para ouvir sua sentença final diante do trono de DEUS. Até mesmo a morte e o inferno serão lançados no lago de fogo, a segunda morte. (Apocalipse 20:11-15).
 
RESUMO:
HEBREUS 5.12-14; 6.1,2
1-ARREPENDIMENTO DE OBRAS MORTAS: Ef 2.8-10
2-FÉ EM DEUS Ef 2.8
3-A DOUTRINA DOS BATISMOS (NAS ÁGUAS Mt 3- NO ESPÍRITO SANTO At 2 - DE MORTE Mc 10.38)
4-IMPOSIÇÃO DE MÃOS (AUTORIDADE – Mc 16.15-18
5-RESSURREIÇÃO DOS MORTOS – 1 Co 15.12 Dn 12
6-JUÍZO ETERNO – AP 9.6; 13.7,8; 20.11-15
 
Complemento:
«...É impossível... » O que é impossível? A restauração dos apóstatas. O que é possível para o crente? A apostasia. Essas são as idéias do autor sagrado. E essa é a única interpretação honesta. É inútil, por exemplo, vermos qualquer exceção a isso, observando-se que, no sexto versículo, onde aparece o verbo principal («...e caíram... »), a idéia está condicionada à ação maligna de haverem «crucificado ao Filho de DEUS», essa ação está apresentada no particípio presente, que pode ser traduzido como «enquanto crucificam ao Filho de DEUS», o que poderia indicar que, se abandonarem tal atitude, sua renovação é possível. Seria uma observação vâ dizer que «É impossível renovar os apóstatas enquanto persistirem em crucificar novamente a CRISTO, com sua rebeldia». Isso é tão obvio que nem mereceria atenção. Mas o que precisa ser mencionado é que é «impossível» renovar os apóstatas, e que os verdadeiros crentes podem apostatar. E é exatamente esse o aspecto que dá a esta passagem sua urgência particular. Portanto, a tradução correta seria: «...É impossível restaurar ao arrependimento aqueles que antes foram iluminados... se cometerem apostasia, posto que assim crucificam ao Filho de DEUS, para seu próprio detrimento, expondo-o à ignomínia... ». Esse é o sentido claramente tencionado pelo autor sagrado. Ele meramente expressava uma comum interpretação rabínica, com base em Num. 15:28 e ss., onde se vê que havia perdão para os pecados de ignorância, através de sacrifícios cruentos, mas não havia perdão para pecados «voluntários» ou de «presunção», mediante aqueles sacrifícios. Naqueles casos o indivíduo era «cortado» de Israel, sem qualquer remédio. Que nosso autor tem em mente essa tradição é evidente com base em Heb. 10:26, onde ele menciona especificamente a «fatalidade» do «pecado voluntário». Para tal pecado não havia sacrifício – ficava fora do alcance expiatório dos sacrifícios. O que resta é apenas uma espera temível pelo juízo e pela indignação divina. Se os interpretes ansiassem por interpretar o autor sagrado com base no que ele provavelmente cria, devido suas conexões com a tradição judaica, e não com base no que «ele teria dito, para concordar com nossa teologia», não haveria dificuldade e nem confusão em torno deste texto. Naturalmente, o problema seguinte é: O autor sagrado estava com a razão? Em resposta a isso observamos que ha alguns conceitos do A.T. (como o presente) que o N.T. ultrapassou. A idéia inteira do julgamento é exemplo disso. O conceito judaico era tremendamente duro e inflexível, sem admitir qualquer modificação ou exceção. E há passagens do N.T. que refletem isso. Mas há outras passagens, como as de I Ped. 3:18-20; 4:6; Fil. 2:9-11 e o primeiro capitulo da epistola aos Efésios, que vão além dessa posição, mostrando que o Verbo eterno tem um alcance remidor que lança raios de esperança que iluminam o inflexível conceito de julgamento. É claro que isso não inclui a restauração de todos a uma posição igual à dos eleitos, mas indica que o julgamento envolveria mais do que mera retribuição – também tem aspectos disciplinadores e restauradores, até onde isso agradar a DEUS, a fim de que tudo redunde na glória de CRISTO. O trecho de Efe. 1.10, que alude ao «mistério da vontade de DEUS», alude a esse tipo de interpretação. Mas esse é um conceito extremamente sublime do N.T., que ultrapassa à visão do A.T. Assim, no presente contexto, embora o autor sagrado demonstre uma visão puramente judaica, sobre a total impossibilidade de recuperação dos apóstatas, contudo, há outras passagens do N.T., como aquelas que falam sobre a segurança final e necessária daqueles que confiam em CRISTO (segundo se vê no décimo capítulo do evangelho de João e no oitavo capitulo da epístola aos Romanos), que lançam um raio de esperança sobre o caso ate mesmo dos apóstatas.
O Progresso da Doutrina
1. Por que nos surpreenderíamos que um escritor do N.T. soubesse mais acerca de alguma questão ou doutrina espiritual do que outro? Por que teríamos de pensar que todos eles se achavam no mesmo nível de conhecimento? Admitimos livremente, que o N.T. transcende ao A.T. quanto ao conhecimento e à profundeza espirituais. Porventura Paulo não conhecia mais que os demais apóstolos, a respeito da graça e do destino humano, em CRISTO?
2. Se esse é o caso, então é possível que o autor da epístola aos Hebreus, na idéia que formava sobre a apostasia, como algo não somente possível a um verdadeiro crente, mas também absolutamente fatal e sem remédio, não tivesse tão completa visão do poder e da misericórdia de CRISTO, como se depreende de outros trechos do N.T.
3. É insensatez distorcer o texto presente, fazendo-o ensinar algo que ele não ensina, a fim de «reconciliá-lo» com outros trechos bíblicos. Isso faz-nos pensar no trecho de Num. 15:28 e ss., o qual, até onde posso ver, tem seus conceitos ultrapassados nas páginas do N.T.
4. O poder de CRISTO aparece como algo grandioso, na epístola aos Hebreus. Na realidade, porém, ainda é maior do que ali se retrata. Outras passagens do N.T. existem que nos fornecem visões que ultrapassam, em muito, ao entendimento refletido por essa epístola, quanto a certas particularidades. O autor sagrado, apegando-se a idéias judaicas, cria que um verdadeiro crente pode apostatar. Aferrado a essa mentalidade, ele via fatalidade absoluta na apostasia. Outras passagens do N.T. concordam com ele – a apostasia é possível (ver I Cor. 9:27, corretamente compreendida; e ver também Col. 1:23). Essa tradição e tão sólida no N.T. que sua veracidade precisa ser admitida. Porém, o novo pacto também frisa a idéia da eventual «segurança» para aqueles que conhecem a JESUS CRISTO como seu Salvador. De alguma maneira, CRISTO nunca permitira que se percam. Isso envolve uma eventual restauração, ou nesta esfera terrena ou em algum campo espiritual, onde o Verbo eterno os buscara. Mas, embora essa seja a verdade, não devemos permitir que tal fato suavize a advertência contra a apostasia. Pois esta é possível; e ela leva a alma à agonia e ao desastre, mesmo que a graça de DEUS venha eventualmente a aliviá-la.
 
As Muitas Interpretações Sobre Essa Passagem
Qual é a interpretação da presente passagem? Antes de apresentarmos a exposição geral sobre a dificílima passagem dos versículos quarto a sexto deste capitulo, consideremos os diversos tipos de interpretação que se tem vinculado à mesma:
 
1. A interpretação arminiana normal: A maior parte dos arminianos vê, nas Escrituras, o perigo real da apostasia. Esses entendem que esta passagem da epístola aos Hebreus da apoio h sua idéia. Ate esse ponta certamente estão certos, apesar de não verem a eventual restauração dos apóstatas como algo «necessário» (se esses foram, de fato, verdadeiros crentes). Porém, a maioria dos arminianos crê que a restauração dos apóstatas é possível, posto que não «necessária». E nisso entram em contradição com o autor sagrado, embora certamente estejam certos, com base em outras passagens do N.T. A fim de consubstanciar essa idéia, porém, precisam torcer o texto presente, de uma maneira ou de outra. É melhor dizermos simplesmente que este conceito foi ultrapassado pois revelações maiores, que revelam a vasta significação do oficio remidor de CRISTO.
 
2. A interpretação arminiana radical: Essa interpretação afirma exatamente o que o texto diz. A apostasia é possível para um crente verdadeiro, e é algo totalmente sem remédio. Essa interpretação ignora outras revelações neotestamentárias mais elevadas sobre o tema. Limita o ofício remidor de CRISTO aos conceitos judaicos. Interpreta corretamente o texto presente, mas não deixa penetrar luzes maiores dadas por outras passagens do N.T. Ver Num. 15:30.
 
3. A interpretação calvinista franca: Segundo essa interpretação, os indivíduos aqui referidos não podem ser crentes verdadeiros. Esses seriam contrastados com os verdadeiros crentes, aludidos no nono versículo «Quanto a vós outros; todavia, ó amados, estamos persuadidos das cousa que são melhores e pertencentes a salvação, ainda que falamos desta maneira». Os indivíduos aludidos na presente passagem seriam apenas iluminados, mas que ficaram aquém da regeneração. Se alguém chegar; esse estado, terá muitas vantagens; contudo, poderá cair, sendo «impossível» renovar os tais. Essa interpretação evita a questão inteira ignorando o fato evidente que o autor sagrado falava sobre «crentes reais», que a eles é que fez tais advertências. Não estava advertindo «leitores fantasmas». (Quanto a notas expositivas que abordam a questão, ver Heb. 3:6b e 4:1). Pensar que tais avisos não se destinam a crentes é contradizer a tese central consubstanciada neste tratado, fazendo com que o livro (que consiste essencialmente de uma advertência para não nos desviarmos e chegarmos a apostasia) não tenha qualquer aplicação aos crentes. Isso é um absurdo. Ninguém jamais teria pensado em tal interpretação, a não ser aqueles que precisam harmonizar tudo a um padrão teológico adredemente aceito, ao invés de modificarem sua «teologia» mediante idéias novas. Essa interpretação ignora o fato que o N.T. contem tanto a idéia de «possibilidade de queda» como a idéia de «segurança». Talvez tenhamos aqui um «paradoxo», isto é, um ensino «autocontraditório». É melhor aceitarmos ambos os aspectos da verdade bíblica, chamando-os de formadores de um paradoxo, deixando que a questão seja reconciliada quando tivermos recebido maior luz, do que rejeitarmos um ou outro aspecto da verdade. O tema é meramente uma subcategoria daquele «paradoxo» ainda maior, isto é, o do «livre-arbítrio versus determinismo divino», que é um dos principais problemas cientifico, filosófico e teológico. De algum modo, o homem e ao mesmo tempo livre e está sob obrigação. De alguma maneira DEUS usa o livre-arbítrio humano sem destruí-lo, embora não saibamos dizer como isso pode ser. O livre-arbítrio e o determinismo são ambos aspectos da verdade bíblica, mas não sabemos harmonizá-los. Contudo, a segurança eterna e a possibilidade de queda podem admitir certa reconciliação entre si. Pelo menos, poderíamos especular acerca desta ultima questão. Tal especulação aparece nas notas expositivas sobre Rom. 8:39, com comentários mais breves nas notas presentes e em Heb. 3:6b e 4:1.
 
4. A interpretação calvinista modificada: Essa diz que aqueles que foram «iluminados, mas ainda não foram regenerados» podem ser restaurados, porquanto a sua restauração só será impossível enquanto «continuarem a crucificar ao Filho de DEUS» (ver o sexto versículo deste capitulo, tirando proveito da interpretação possível do particípio presente).
 
5. Ainda dentro do campo calvinista, temos a interpretação hipotética . Segundo essa interpretação, as advertências constantes na epístola aos Hebreus, incluindo a presente, visam «crentes verdadeiros», mas meramente advertiriam contra a apostasia, usando essas advertências para «assustar» aos crentes. Porém, ao analisarmos de perto a questão, ainda segundo essa interpretação, nenhuma apostasia seria de fato possível. E as próprias advertências serviriam de instrumentos para impossibilitar a apostasia. Portanto, a apostasia seria apenas algo «hipotético». Essa interpretação, naturalmente, é totalmente ridícula. Faz com que o autor sagrado pareça um escritor desonesto. Este faria advertências, mas estas seriam apenas pílulas de açúcar, fantasmas terríveis mas sem qualquer substância real, embora tenham o poder de aterrorizar as pessoas. Com razão, pois, até mesmo a maioria dos próprios calvinistas repele essa noção.
 
6. Ainda dentro do campo calvinista: Há aqueles que dizem que esses avisos se destinam aqueles que tem muitas vantagens, como a criação em um lar crente, o terem sido batizados na idade infantil, o terem freqüentado escolas cristas, mas que, chegados a idade adulta, tomam suas próprias decisões, revoltando-se contra seus pais e seus mestres, abandonando a fé crista. Naturalmente, esses nunca foram verdadeiros crentes. mas apenas gozaram de vantagens próprias dos crentes. Essa interpretação eqüivale as de numero três e quatro, embora com a leve distorção que estaríamos tratando com membros jovens das igrejas, que finalmente se revoltam, ao chegar o tempo de assumirem responsabilidade diante de DEUS. Pouquíssimos intérpretes levam a sério essa interpretação. Nada há no contexto que sugira tal refinamento.
 
7. A teoria dos pouquíssimos apóstatas: Voltando as interpretações arminianas, encontramos a deste parágrafo. Alguns admitem que haverá «alguns apóstatas», os quais ficam inteiramente fora da esperança de restauração. Judas Iscariotes é salientado como um desses exemplos. Seriam indivíduos apóstatas quanto às doutrinas, que se revoltariam contra CRISTO, negando-o inteiramente, embora antes tivessem sido crentes autênticos. Não seriam os que entram meramente em uma vida pecaminosa, mas sua apostasia envolve a fé básica, e não a mera moralidade que não vive segundo os padrões do cristianismo. Isso é possível, mas teríamos de esperar um numero «extremamente reduzido» de casos; portanto, não haveria qualquer problema para a «igreja em geral». Trata-se de uma espécie de interpretação «arminiana-calvinista», que permite a apostasia (ponto de vista arminiano) mas que não lhe dá campo largo, de tal modo que, para todos os propósitos práticos, não se transforma em um problema (calvinismo). Mas que isso é uma noção falsa fica evidente diante do próprio fato que o autor sagrado se preocupava com «todos» os seus leitores, fazendo-lhes continuamente advertências severas no seu tratado. Certamente, ele sentia que o desvio para a apostasia representa um perigo real, para todos para quem escreveu, e não meramente para algum grupo de pessoas extremamente raras, nenhuma das quais se acharia entre seus leitores.
 
8. A interpretação do paradoxo: Tanto a possibilidade de queda como a segurança eterna são verdades bíblicas, ensinadas em diferentes lugares do N.T. O trecho do sexto capitulo da epistola aos Hebreus parece favorecer os arminianos, pois ensina a possibilidade de queda. Outras passagens, como o oitavo capítulo da epístola aos Romanos, parecem favorecer a idéia da «segurança eterna», sem qualquer qualificação. No presente não temos qualquer meio de reconciliar essas idéias. Nossa responsabilidade é aceitar a ambas, aplicando-as a nossa vida e deixando a questão da reconciliação nas mãos de DEUS. Essa talvez seja a maneira correta de ver o problema, embora este comentário tente uma reconciliação, que reputamos ser razoável, e não ate mesmo absolutamente certa.
 
9. Alguns supõem que a possibilidade de queda é uma realidade, mas que o juízo prometido para os que caem não e o juízo eterno, e, sim, alguma severa disciplina da parte de DEUS. Isso significaria que aqueles que caem não deixam de ser crentes, em qualquer sentido absoluto. Mas isso obviamente não está em foco no presente texto. A passagem de Heb. 10:27 mostra-nos que os apóstatas (e os referidos como tais realmente tinham apostatado) só podem esperar o temível fogo da indignação divina como sua sorte. Certamente está em foco o julgamento eterno. «Horrível cousa é cair nas mãos do DEUS vivo» (Heb. 10:31).
 
10. A única interpretação que parece adaptar-se tanto a esta passagem como a outras passagens do N.T. que a modificam, e aquela que leva em conta os pontos seguintes:
a. A que admite a interpretação arminiana: é possível a queda, e todos os crentes enfrentam esse perigo.
b. A que admite a interpretação calvinista: a segurança do crente e uma realidade, e haverá de caracterizar finalmente a todos os remidos.
c. Portanto, a queda é algo relativo a experiência da alma, antes de serem traçadas as linhas eternas, quando do juízo, por ocasião da «parousia» ou segundo advento de CRISTO.
Notemos que tais linhas serão traçadas quando da segunda vinda de CRISTO, e não por ocasião da morte física (o que e comentado em I Ped. 4:6), Portanto, até aquela oportunidade, sem importar se alguém se acha no campo físico ou espiritual, a restauração da alma é possível.
d. A segurança é absoluta porque, finalmente, deverá caracterizar a pessoa que se entregou confiantemente aos cuidados de CRISTO.
e. O ofício remidor pertence ao Verbo eterno, e não meramente a ele ao encarnar-se nesta esfera terrena; portanto, ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço. Os trechos de I Ped. 3:18-20; 4:6 e o primeiro capítulo da epistola aos Efésios ensinam tal necessidade, e não meramente a deixam implícita. O que foi dito aqui concorda com as linhas mestras de interpretação encontradas nos pais gregos e alexandrinos da igreja, como Justino Mártir, Pantaeno, Clemente de Alexandria e Orígenes, embora não tivessem expressado a questão exatamente com esses termos. Apesar de não termos resposta absolutamente certa para uma passagem como a presente, essa linha de pensamento parece ser a abordagem mais frutífera de todas. O próprio autor sagrado, entretanto, quis ensinar o que é expresso na segunda dessas dez posições. E ainda há outras interpretações que mesclam ou modificam aquelas que são aqui apresentadas. Cotton (in loc.), reconhecendo o fato evidente que o autor sagrado não aceitava a renovação após a apostasia como algo possível, diz o seguinte: «Tal é o claro sentido do escritor sagrado. Que se pode dizer sobre ela? Atitude vai a questão da apostasia sob perseguição, a igreja cristã não tem seguido o autor sagrado, mas antes, tem feito provisão para os caídos que depois se arrependeram, o que deu origem a instituição da penitência. Na prática, a igreja deixou de lado esta passagem. Podemos transformá-la em um vespeiro de argumento teológico – para a nossa vergonha». (Em seguida Cotton mostra a futilidade dos argumentos comumentes aplicados ao texto, ao dizer): «Se um homem realmente cai, e porque nunca participou deveras dos benefícios mencionados nos versículos quarto e quinto. Se ele realmente participou desses benefícios, então é que realmente nunca caiu, sem importar quais sejam as aparências externas. Se, após uma queda aparente, ele volta em penitência e manifesta os sinais de uma vida cristã fiel, realmente nunca caiu. Todo esse argumento é um circulo vicioso e fútil». Mas, finalmente, Cotton lança luz sobre a passagem, embora admitindo a sua severidade: «Nada existente nesta passagem deve levar-nos a duvidar da total misericórdia de DEUS; pois, do contrário, esta passagem destruiria o evangelho. É verdade que abusamos de JESUS quando pecamos. Mas o Senhor JESUS pode tolerar o ridículo. Ele orou por aqueles que zombavam de seus sofrimentos, na cena da cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Luc. 23:34). Pedro, um dos discípulos favoritos, que certamente estava qualificado, se alguém já o esteve, para os benefícios alistados pelo autor sagrado nos versículos quarto e quinto, também submeteu seu Senhor ao opróbrio. Contudo, depois disso foi recebido por JESUS, foi perdoado e se tornou pregador do dia de Pentecostes, um dos lideres da igreja. DEUS nunca fará ouvidos surdos para o clamor sincero da fé, por mais que tenhamos pecado. JESUS ensinou a seus discípulos que perdoassem ate "setenta vezes sete" (ver Mat. 18:22)... não admira que os apóstolos tivessem clamado: "Aumenta a nossa fé" (ver Luc. 17:5). Mas JESUS falava em favor de DEUS, e DEUS cumpre as suas promessas. Por conseguinte, quando qualquer pecador hesitante, sem importar quão profundamente tenha caído, e impedido de penitenciar-se, por esta passagem, ou por qualquer outra declaração da Bíblia, e que não estaremos "manuseando corretamente a palavra da verdade" (ver II Tim. 2:15). Esse autor, pois, diz indiretamente aquilo que digo diretamente neste comentário. Ele lança a luz de outras passagens neotestamentárias sobre a questão, e vê nisso uma constante e grandiosa esperança. Qual e a significação histórica desse tema da impossibilidade de arrependimento para os apóstatas? Esse tema é um dos assuntos distintivos deste tratado, e que só ocupa o segundo lugar antes do ensinamento sobre o sumo sacerdócio de JESUS CRISTO. (Ver também Heb. 2:2,3; 10:26 e ss.; 12:25 e ss., quanto a instâncias em que tal ensino é encontrado). A epístola aos Hebreus, acima de qualquer outro livro do N.T. enfatiza o sacerdócio de CRISTO (que é seu tema principal); e, além de outras coisas, ressalta a fatalidade da apostasia. Tertuliano, o montanista, e outras seitas rigorosas da igreja cristã tem usado esta passagem como «texto de prova» para seu costume de se recusarem a aceitar de volta na igreja os que se haviam «desviado», embora esse lapso tenha ocorrido debaixo de perseguição. (Quanto ao uso desta passagem pelas controvérsias montanista e novaciana, ver Tertuliano, de Pudc., cap. XX). Porém, a correnteza principal da igreja se recusou a permitir esse costume, recebendo de volta aqueles que se tinham desviado; mas não os rebatizavam, supostamente encontrando nesta passagem uma base para isso. (Ver Atanasio, Ep. ad Serap., §13, vol.). É possível que o autor sagrado concordasse com a idéia que o «desejo de ser reintegrado», após o lapso, é prova de que não houve verdadeira apostasia. Porém, não podemos ter certeza a esse respeito. Qual é a base desse ensinamento? Tal alicerce se acha na interpretação única, justificada em Num. 15: 28 e ss. Mas o autor sagrado, em sua forte fase sobre o aspecto de «finalidade» da revelação divina, em CRISTO, bem raciocina que se uma revelação é final, mas chega a ser rejeitada, nada mais existe para onde possa ir um homem. Terá rejeitado a única esperança, não havendo razão para supormos que retornará a uma esperança que ele mesmo rejeitou. Ele não atribui essa impossibilidade ao lado divino; ou pelo menos, isso não se evidencia no texto sagrado. Antes, parece que a impossibilidade reside na própria pessoa. Aquilo que um nem se recusa continuamente a fazer, não querendo obedecer à vontade de DEUS, finalmente se torna para ele uma «impossibilidade moral», não porque DEUS assim o decrete, mas porque já perverteu seu próprio senso moral até chegar a total insensibilidade. Qual é a relação que tem esse pecado de apostasia com o pecado imperdoável, referido em Mat. 12:31,32? (Ver as notas expositivas nessa referência, a respeito do «pecado imperdoável»). Se tomarmos a posição que este pecado é uma forma agravada de rebelião contra DEUS e seu CRISTO, uma espécie de produto final da revolta humana contra o Senhor, e que chegou ao extremo da apostasia, então certamente esses dois ensinamentos paralelos. Porém, se assumirmos o ponto de vista «dispensacional», que diz que o pecado imperdoável só podia ser cometido nos dias de JESUS na carne, exigindo a sua presença, quando os homens atribuíam suas obras miraculosas ao poder de Satanás, então não haverá qualquer paralelismo, exceto em atitude, entre esta passagem e o «pecado imperdoável», que aparece nos evangelhos sinópticos. Este comentário toma a posição que o pecado imperdoável» só podia ser cometido por pessoas da época de JESUS, que viram pessoalmente o seu ministério e o rejeitaram, atribuindo tudo a Satanás. Outrossim, é duvidoso que os piores inimigos de JESUS tivessem sido suficientemente iluminados quanto à «origem» das obras de JESUS, de modo a entenderem, pelo menos intuitivamente, que ele realmente provinha de DEUS. Assim sendo, é até mesmo possível que ninguém tenha jamais, cometido o pecado imperdoável. Consideremos o caso de Saulo de Tarso. Quem, dentre todos os inimigos de JESUS, foi tão amargo quanto ele, tão inclinado às blasfêmias? Contudo, é obvio que ele nunca se tornou culpado desse pecado. Julgo que ninguém jamais o cometeu, embora fosse possível. Provavelmente, pois, não há qualquer conexão entre esta passagem do sexto capitulo da epistola aos Hebreus e o «pecado imperdoável» que aparece nos evangelhos sinópticos. «A conexão entre esta passagem e a anterior, portanto, é que se alguém ficar satisfeito com sua presente e elementar possessão da verdade cristã, e que a entende de modo inadequado; a força da tentação é tão forte que essa familiaridade rudimentar não impedira que alguém caia; e aquilo que assegura a posição religiosa de alguém consiste em ver o pleno sentido do que JESUS é e faz. Esse é o sentido que o autor sagrado anelava por transmitir, e não como coisa extra, e, sim, como algo essencial. Essa situação é tão séria, deixa ele entendido, que somente aqueles que percebem plenamente o que JESUS significa, no campo do perdão e da comunhão serão capazes de manter-se firmes. E uma vez que alguém se torne relapso, argumenta ele, uma vez que abandonamos a fé, isso é fatal. As pessoas que deliberadamente abandonam sua confissão de fé cristã não podem mais ser recuperadas. Tal ponto de vista sobre a apostasia, como ofensa hedionda, já que destrói toda a esperança de recuperação, e característica deste tratado (aos Hebreus). Mas essa posição não se confina a este autor sagrado. A idéia que certas pessoas não podiam arrepender-se de seus pecados era admitida já pelos rabinos judeus. Por muitas e muitas vezes encontramos a declaração: "Para aquele que peca, e leva outros a pecarem, nenhum arrependimento é permitido ou é possível" (Aboth, v. 26; Sanhedrin, 107b). "Aquele que se entregou totalmente ao pecado é incapaz de arrepender-se, não havendo perdão para o tal, para sempre" (Midrash Tehillim sobre o Salmo 1 ad ! fin.). (Moffatt, in loc., o qual compreendeu bem a mensagem do presente texto). Essa atitude vai além do que diz Filo, o qual admite o perigo de quem não é aprovado em qualquer empreendimento moral, mas que nunca condena a quem tiver assim falhado à impossibilidade de recuperação. (Ver , de agricultura, 2S, comentando sobre Gen. 9:20). As pessoas aqui advertidas são crentes: Isso é patenteado pelo próprio fato que as coisas aqui alistadas são características dos crentes (iluminação, prova, etc.), como coisas paralelas aos «princípios elementares» do cristianismo, referidas nos versículos primeiro e segundo. Aqueles que são aqui aludidos já tinham ouvido e já participavam dessas bençãos. Portanto, eram crentes. Não há qualquer indício que fossem «pseudocrentes», que tivessem sido iluminados, mas que tivessem ficado sem a regeneração. Isso é estranho ao contexto e a mentalidade do autor sagrado, sendo idéia diretamente contrária a própria tese deste tratado, que visa advertir a crentes que se desviavam e que corriam o perigo de apostatar.
Qual é a natureza da apostasia em foco? Apesar de que a apostasia aqui aludida certamente e «doutrinária» e «espiritual», visto que envolvia a negação de CRISTO e de sua missão, é óbvio que isso é visto como algo «provocado» pelo desvio e pelo retrocesso moral. Toda a epístola aos Hebreus, até este ponto, serve de prova a esse respeito. O autor sagrado já mostrara que seus leitores tinham de progredir na inquirição espiritual, pois, do contrário, estagnariam, desviar-se-iam, e, em seguida, apostatariam. Portanto, o aspecto «moral» está incluído. Não se tratava de mera negação «doutrinária» de CRISTO. Eram ateus na vida diária, antes de sê-lo nas doutrinas; sua vida era rebelde, antes de se rebelarem em suas idéias; eram «incrédulos na prática», antes de o serem teoricamente. «...foram iluminados... » Essas palavras poderiam indicar uma das seguintes coisas: 
1. Ou que foram batizados, visto que o termo «iluminação» era freqüentemente empregado com o sentido de ser batizado. 
2. Ou talvez se refiram a iluminação do ESPÍRITO. 
3. Mas também podem estar incluídas ambas as idéias: a iluminação do ESPÍRITO por ocasião do batismo. O uso da palavra «iluminação», em alusão ao batismo, era bastante comum na época de Tertuliano, talvez como termo tomado por empréstimo das religiões misteriosas, que assim denominavam seus ritos de abluções e lavagens. 
4. Sem importar se temos aqui ou não uma alusão ao batismo, o autor sagrado indica definidamente uma autêntica iluminação do ESPÍRITO sobre o crente, o qual vem assim a reconhecer a CRISTO como seu Salvador, que é a Luz do mundo. (Ver o trecho de Efe. 1:18 e as notas expositivas ali existentes, sobre a «iluminação dada pelo ESPÍRITO»). Os intérpretes que fazem essa iluminação não equivaler e ficar aquém da «regeneração» fazem o texto ser uma zombaria, como se o mesmo não estivesse falando para crentes e nem se referisse a eles, mas como se tivesse aplicação a «leitores fantasmas», que não são identificados no tratado e nem tem qualquer conexão com os crentes que talvez lessem este livro. Não há justificativa, no próprio texto, que nos permita entender senão que o autor considerava seus leitores como crentes autênticos. Eram pessoas que tinham saído das trevas do paganismo para a luz divina, mas que começavam a interessar-se novamente pela sua vida anterior. Ou então eram crentes judeus que tinham chegado a perceber a real luz de DEUS, em CRISTO, prefigurado no A.T., mas que começavam a inclinar-se por retornar a religião judaica inferior, e, portanto, «sem luz». «Os quais de uma vez para sempre tinham deixado as trevas de sua vida anterior, tendo sido iluminados pelo ensinamento do evangelho» (Erasmo, in loc.).
A iluminação e o batismo: O primeiro desses vocábulos é usado para indicar o «batismo», nos escritos de Justino Mártir (Apol. I.62); Tertuliano (de Pudic., cap. XX); e Crisóstomo, em sua homilia, que se dirigia aos candidatos ao batismo: "Aqueles que estão prestes a serem iluminados" . A versão siríaca peshito, de séculos posteriores, traduz esta passagem como segue: «Os quais de uma vez por todas desceram ao batismo». Apesar de que o próprio N.T. nunca chama o batismo de «iluminação», as religiões misteriosas, anteriores ao cristianismo, já tinham tal expressão, que usavam acerca de seus vários tipos de «batismos». Portanto, é possível, embora não seja provável, que se pretenda fazer aqui tal equiparação. E que dizer sobre o testemunho do trecho de Heb. 10:32? Notemos que, nesse referido versículo, é usado o mesmo termo grego para indicar os cristãos hebreus: «...Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores em que depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos...». É realmente duvidoso que possamos aplicar a palavra «iluminado» a um incrédulo, a uma alma «não-regenerada», de acordo com o que se lê no N.T. Excetuando a necessidade que alguns tem de erigir um sistema teológico no qual não haja problemas – em que tudo fique em estado de harmonia e reconciliação – nunca teria sido ensinado que termos como os que se acham nos versículos quarto e quinto deste capitulo poderiam ser aplicados a incrédulos. Os mesmos termos, achados em qualquer outra conexão (além daquela que admite a possibilidade da apostasia), teriam sido reputados por todos nós como aplicáveis exclusiva e obviamente a crentes. «...uma vez foram iluminados...», isto é, houve um momento especifico quando foram iluminados, e nesse estado viveram por algum tempo. Algumas traduções dizem aqui «de uma vez por todas», salientando a realidade (e suposta «finalidade») da experiência. Esse sentido é possível, segundo se deduz do fato que vários autores usam o termo grego «apaks» desse modo. (Ver Hipocr. Eph. 27,41; Aeliano, V. H. 2,30; Salmos de Salomão 12:6; Filo, Ebr. 198; Josefo, Guerras dos Judeus, 2.158; Antiq. 4:140). O trecho de Heb. 10:2 também parece exigir esse significado.
«...provaram o dom celestial... » Alguns intérpretes chegam aqui ao extremo absurdo de estabelecer distinção entre «provar» e «beber», como se «provar» fosse uma experiência superficial do ESPÍRITO, ao passo que «beber» indicasse uma experiência mais plena e real. Porém, o termo «provar», nos escritos rabínicos, significa «participação», «experiência em», não havendo qualquer modificação da idéia. Notemos, em Heb. 2:9, como se diz que CRISTO «provou a morte por todo homem». Porventura ele apenas entrou «parcialmente» no estado de morte? Sofreu apenas parcialmente pelos homens? A palavra «provar» indica simplesmente uma verdadeira participação em algo, o que e poeticamente expresso. Conforme diz Moffatt (in loc.), essa palavra indica uma «metáfora grega helenista contemporânea para indicar experiência». (Ver Philo, quanto ao mesmo emprego, em de Abrah, 19; de Somniis, i.26; e também Josefo, Ant. iv.6,9).
«...dom celestial...» Há um grande número de estranhas interpretações sobre essa expressão, a saber: 
1. Alguns pensam na Ceia do Senhor, talvez por sugestão da palavra «provar», tal corno «iluminação» poderia sugerir o batismo. 
2. Outros imaginam a eucaristia vista sacramentalmente, como agente que transmite aos homens o corpo e o sangue de CRISTO. 
3. A regeneração em geral. 
4. A persuasão por aceitar as condições da vida eterna. 
5. A graça abundante do cristianismo. 
6. A fé. 
7. O evangelho. 
8. O dom celeste que produz a iluminação, ou seja, o ESPÍRITO SANTO. 
9. O próprio CRISTO (supostamente um paralelo de II Cor. 9:15). 
10. A vida eterna, vista como algo dado através de CRISTO (ver Rom. 6:23). 
11. O infinito amor de DEUS. 
Não há como identificar o que o autor queria dizer com plena certeza; mas algo como a vida eterna, através de CRISTO, mediante o ESPÍRITO adapta-se ao contexto.
«...participantes do ESPÍRITO SANTO... » (Ver sobre o «dom do ESPÍRITO» e o «batismo do ESPÍRITO SANTO», nas notas expositivas sobre Atos 2:4; ver a nota de sumário sobre o «ESPÍRITO», em Rom. 5:1). A questão de terem eles «participado» do ESPÍRITO significa que, tendo-se convertido, chegaram a ser habitados pelo ESPÍRITO, indicando que foram «dotados» por ele. Notemos que, no segundo versículo deste capítulo encontramos a «imposição de mãos», mediante o que o ESPÍRITO era dado, e através da qual ação os homens são espiritualmente «dotados». Tais coisas faziam parte do cristianismo «elementar». Portanto, não há razão alguma para supormos que esteja em foco qualquer coisa menor que a presença habitadora e os dons espirituais. No ESPÍRITO lhes foram dados todos os recursos necessários para a vida santa e para o sucesso final na inquirição espiritual. Porém, a rejeição voluntária de CRISTO pode reverter todas essas bençãos, já que o ESPÍRITO SANTO é o alter ego de CRISTO, permanecendo somente com aqueles que lhe são fieis. Não há aqui qualquer indício direto de algum «pecado contra o ESPÍRITO SANTO» (o «pecado imperdoável» que figura nos evangelhos sinópticos – ver Mat. 12:31,32). Mas o autor sagrado acreditava definidamente que «pecar» é desviar-se, o que leva à apostasia, exclui o ESPÍRITO.
O ESPÍRITO SANTO é o agente da totalidade da salvação; ele inspira fé, leva a conversão e produz a santificação; por igual modo transforma-nos segundo a imagem moral e metafísica de CRISTO. Rejeitar a CRISTO, pois, eqüivale a perder o ministério do ESPÍRITO SANTO em todos esses aspectos. O ESPÍRITO de DEUS é o agente de todos os benefícios enumerados nos versículos quarto e quinto deste capítulo.
Em defesa da posição calvinista, vários escritores se tem esforçado por mostrar que alguns incrédulos, que apenas imitam crentes reais em sua profissão religiosa, de algum modo «participam» do ESPÍRITO SANTO, ilustrando com casos como o de Judas Iscariotes, com a semente que cai sobre o solo rochoso, etc. Uma vez mais, porém, isso faz com que o texto tenha sido escrito para uma audiência fantasma, e não para uma audiência real e conhecida (o que é um absurdo), não reconhecendo o paralelismo entre os versículos quatro e cinco, por um lado, e primeiro e segundo, por outro, que descrevem como os leitores tinham participado dos princípios «elementares» do cristianismo. Para esses é que foi escrito este tratado, pois eram judeus cristãos. Acerca deles é que o autor sagrado se preocupava e a quem advertia, não visando algum grupo invisível e desconhecido de pessoas, que por acaso lesse este livro.
 
Extraído da Enciclopédia O Novo Testamento Explicado, de R.N.Champlim, Editora Candeia, 1998, vol. 5, págs. 537-540.
 
LIÇÃO 7 - CRISTO, SACERDOTE ETERNO E PERFEITO
Entre em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/LeisReferentesaoSacerdocio1.htm 
 
TEXTO ÁUREO:
“Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime do que os céus” (Hb 7.26).
 
VERDADE PRÁTICA:
JESUS CRISTO no céu é o nosso eterno Sumo Sacerdote, sempre intercedendo por nós perante a face de DEUS.
LEITURA DIÁRIA: 
Segunda At 2.32 JESUS venceu a morte
Terça  At 10.38  JESUS, o ungido de DEUS
Quarta At 16.31  JESUS, nosso Salvador 
Quinta 1 Co 3.11  JESUS, nosso fundamento
Sexta 1 Tm 2.5 JESUS, único mediador
Sábado Hb 2.9  JESUS, coroado de glória
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:
 
HEBREUS 7.1-3,11,12,24-27 
1 Porque este Melquisedeque, que era rei de Salém e sacerdote do DEUS Altíssimo, e que saiu ao encontro de Abraão quando ele regressava da matança dos reis, e o abençoou;2 a quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça e depois também rei de Salém, que é rei de paz;3 sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas, sendo feito semelhante ao Filho de DEUS, permanece sacerdote para sempre.
 
11 De sorte que, se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico (porque sob ele o povo recebeu a lei), que necessidade havia logo de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de Melquisedeque, e não fosse chamado segundo a ordem de Arão?12 Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei.
24 mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo. 25 Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a DEUS, vivendo sempre para interceder por eles. 26 Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime do que  os céus,
27 que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente, por seus próprios pecados e, depois, pelos do povo; porque isso fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo.
 
PONTO DE CONTATO:
Melquisedeque é descrito, em poucas palavras, como uma figura singular na história do Antigo Testamento. Sua 
genealogia é desconhecida, como também não é registrado nada depois do seu aparecimento até Abraão. O 
que se sabe de Melquisedeque é que era sacerdote do DEUS Altíssimo, rei de justiça e que recebeu os dízimos 
de Abraão. Se esse sacerdote foi honrado pelo patriarca, maior honra deve ter o Senhor JESUS, que é 
infinitamente superior a Melquisedeque. O autor da epístola aos hebreus demonstra a insuficiência da lei, que 
não podia salvar nem aperfeiçoar os homens em DEUS. JESUS CRISTO por sua vez, como sacerdote perfeito e 
definitivo, proveu-nos mediante a nossa fé a eterna salvação.
OBJETIVOS:
Após esta aula seu aluno estará apto a:

Explicar as características de Melquisedeque como uma prefiguração de CRISTO.
Descrever a mudança obrigatória do sacerdócio e da lei, feita por JESUS.
Valorizar o sacerdócio perfeito de CRISTO.
COMENTÁRIOS:
 
INTRODUÇÃO

São poucas, mas profundas as informações da Epístola sobre Melquisedeque, as quais fazem deste uma 
personagem enigmática, de difícil compreensão quanto à sua origem, desenvolvimento e consumação de sua 
obra. CRISTO JESUS, ao contrário, sendo DEUS, revelou-se de tal forma à humanidade, que dEle se pode conhecer 
o que DEUS quis revelar, tornando-se nosso sacerdote eterno, perfeito e imaculado.

I. QUEM ERA MELQUISEDEQUE

A Bíblia não provê detalhes sobre a pessoa de Melquesedeque; daí haver muitas especulações a seu respeito.
1. Era rei de Salém. “E Mel-quisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho...” (Gn 14.18a; Hb 7.1); “e este era 
sacerdote do DEUS Altíssimo” (Gn 14.18). Esta é a primeira referência bíblica a Melqui-sedeque. Ele aparece nas 
páginas do Antigo Testamento, quando foi ao encontro de Abraão, após este haver derrotado Quedorlaormer, 
rei de Elão, e seus aliados. Salém veio a ser Jerusalém após a ocupação da terra prometida por DEUS a Abraão e 
seus descendentes (Gn 14.18; Js 18.28; Jz 19.10). Rei de Salém que dizer “rei de paz” (v.2b).
2. Era sacerdote do DEUS Altíssimo. “...e este era sacerdote do DEUS Altíssimo” (Gn 14.18b; Hb 7.1). As 
funções de rei e sacerdote conferiam-lhe grande dignidade perante os que o conheciam. Estas duas funções 
são relembradas em Hb 7.1: “Porque este Melquise-deque, que era rei de Salém e sacerdote do DEUS 
Altíssimo...”.
3. Era de uma ordem sacerdotal diferente. Estudiosos da Bíblia supõem que Melqui-sedeque pertencia a uma 
dinastia de reis-sacerdotes, que tiveram conhecimento do DEUS Altíssimo pela tradição oral inspirada, 
transmitida desde o princípio, quando a religião era única e monoteísta e que conservava a esperança do 
Redentor da raça humana, conforme Gn 3.15. Ele não pertencia à linhagem sacerdotal arônica, proveniente da 
tribo de Levi.
4. Recebeu dízimos de Abraão (Hb 7.2). Isto nos mostra que a instituição do dízimo remontava ao período bem 
anterior à Lei. Esse fato indica “quão grande” era Melquisedeque (v.4). Ele abençoou Abraão, como detentor 
das promessas (vv.5,6). 
5. Era rei de justiça (v.2). Como um tipo de CRISTO, Melqui-sedeque tinha as qualidades de um rei justo e fiel.
6. Sem genealogia (v.3). O texto afirma ter sido Melquisedeque “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo 
princípio de dias nem fim de vida...”. O que o sacro escritor quer dizer é que não ficou registrada sua 
ascendência e sua descendência, bem como os dados referentes a sua morte. Pelo contexto, entende-se que 
ele era um homem com características especiais diante de DEUS.

II. A MUDANÇA DO SACERDÓCIO E DA LEI

1. O novo e perfeito sacerdócio (v.11b). O sacerdócio leví-tico era imperfeito (v.11a). Nele, os sacrifícios, as 
ofertas, o culto e a liturgia, eram apenas sombra do verdadeiro sacerdócio, que veio por CRISTO. O sacerdócio 
de CRISTO, não da ordem de Arão ou de Levi, mas “segundo a ordem de Melquisedeque”, trouxe a perfeição no 
relacionamento do homem com DEUS.
O primeiro sacerdócio, com suas imperfeições, não era capaz de salvar, mas CRISTO como Sumo Sacerdote, 
mediante o seu próprio sangue deu-nos acesso a DEUS, garantindo-nos a salvação plena. 
2. Mudança de lei (v.12). “Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei”. 
Com CRISTO, de fato, houve uma mudança não só do sacerdócio, mas também da lei. Antes, era a lei da justiça, 
a lei das obras. Com CRISTO, veio a lei da graça, a lei do amor. 
3. A lei era ineficaz. “O precedente mandamento”, ou seja, a antiga lei, foi “ab-rogado por causa de sua 
fraqueza e inutilidade” (v.18). Ab-rogar quer dizer anular, cessar, perder o efeito, revogar. Foi o que aconteceu 
quando CRISTO trouxe o evangelho, ab-rogando a antiga lei, a Antiga Aliança. 

III. O SACERDÓCIO PERPÉTUO E PERFEITO DE CRISTO

1. JESUS trouxe salvação perfeita (v.25). Os sacerdotes do antigo pacto pereceram (v.23). O sacerdócio 
arônico foi constituído por centenas de sacerdotes, que se sucediam constantemente, visto que “pela morte 
foram impedidos de permanecer”. Os sacerdotes arônicos apenas intercediam pelos homens a DEUS, mas não os 
salvavam. JESUS, nosso Sumo Sacerdote, não só “vive sempre para interceder” por nós, como nos assegurou 
uma perfeita salvação por seu intermédio (v.25; Rm 8.34). JESUS garante salvação plena (Jo 5.24), sem 
depender de um suposto purgatório ou de uma hipotética reencarnação.
2. JESUS, sacerdote perfeito (v.26). A Palavra de DEUS indica aqui as qualificações de CRISTO, que o diferenciam 
de qualquer sacerdote do antigo pacto. “Porque nos convinha tal sumo sacerdote”:
a) SANTO. O sacerdote do Antigo Testamento teria que ser santo, separado, consagrado. Até suas vestes eram 
santas (Êx 28.2,4; 29.29). Contudo, eram homens falhos, imperfeitos, sujeitos ao pecado. JESUS, nosso Sumo 
Sacerdote, era e é santo no sentido pleno da palavra.
b) Inocente. Porque nunca pecou, JESUS não tinha qualquer culpa. Ele desafiava seus adversários a acusá-lo 
(Jo 8.46).
c) Imaculado. O cordeiro, na antiga Lei, tinha que ser sem mancha (Lv 9.3; 23.12; Nm 6.14). JESUS, como o 
“Cordeiro de DEUS, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), não tinha qualquer mancha moral ou espiritual.
d) Separado dos pecadores. JESUS viveu entre os homens, comeu com eles, inclusive na casa de pessoa de 
baixa reputação, como Zaqueu, mas foi “separado dos pecadores”. Ele não se misturou, nem se deixou 
influenciar pelo comportamento dos homens maus. 
e) Feito mais sublime do que os céus. Tal expressão fala da exal-tação de CRISTO, como dele está predito na 
Bíblia: “Pela minha vida, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim, e toda língua confessará a DEUS” 
(Rm 14.11).
f) Ofereceu-se a si mesmo, uma só vez (v.27). Os sumos sacerdotes do Antigo Testamento necessitavam de 
oferecer sacrifícios, muitas vezes, primeiro por eles próprios e, depois, pelo povo. Mas JESUS, por ser imaculado, 
sem pecado, não precisou fazer isso por si. Tão-somente ofereceu-se num sacrifício perfeito, uma vez, pelos 
pecadores.

CONCLUSÃO

Nesta lição verificamos que, em todos os aspectos o sacerdócio de CRISTO, proveniente da ordem de 
Melquisedeque, é superior ao sacerdócio arônico. Com isto, devemos ser gratos a DEUS por fazermos parte de 
sua linhagem espiritual.
 
Subsídio Teológico

“Melquisedeque (Hb 7.1). Melquisedeque, contemporâneo de Abraão, foi rei de Salém e sacerdote de DEUS (Gn 
14.18). Abraão lhe pagou dízimos e foi por ele abençoado (vv.2-7). Aqui, a Bíblia o tem como uma prefiguração 
de JESUS CRISTO, que é tanto sacerdote como rei (v.3) O sacerdócio de CRISTO é “segundo a ordem de 
Melquisedeque” (6.20), o que significa que CRISTO é anterior a Abraão, a Levi e aos sacerdotes levítico, e maior 
que todos eles. 
“Sem pai, sem mãe (Hb 7.3). Isso não significa que Melquisedeque, literalmente, não tivesse pais nem parentes, 
nem que era anjo. Significa tão somente que as Escrituras não registram a sua genealogia e que nada diz a 
respeito do seu começo e fim. Por isso, serve como tipo de CRISTO eterno, cujo sacerdócio nunca terminará.
Vivendo sempre para interceder (Hb 7.25). CRISTO vive no céu, na presença do Pai. (8.1), intercedendo por 
todos os seus seguidores, individualmente, de acordo com a vontade do Pai (cf. Rm 8.33,34; 1 Tm 2.5; 1 Jo 
2.1). (1) Pelo ministério da intercessão de CRISTO, experimentamos o amor e a presença de DEUS e achamos 
misericórdia e graça para sermos ajudados em qualquer tipo de necessidade (4.15; 5.2), tentação (Lc 22.32), 
fraqueza (4.15; 5.2), pecado (1 Jo 1.9; 2.1) e provação (Rm 8.31-39). (2) A oração de CRISTO como sumo 
sacerdote em favor do seu povo (Jo 17), bem como sua vontade de derramar o ESPÍRITO SANTO sobre todos os 
crentes (At 2.33) nos ajudam a compreender o alcance do seu ministério de intercessão (ver Jo 17.1). (3) 
Mediante a intercessão de CRISTO, aqueles que se chegam a DEUS (i.e., se chega continuamente a DEUS, pois o 
particípio no grego está no tempo presente e salienta a ação contínua) pode receber graça para ser salvo 
‘perfeitamente’. A intercessão de CRISTO como nosso sumo sacerdote é essencial para a nossa salvação. Sem 
ela, e sem sua graça e misericórdia e ajuda que nos são outorgadas através daquela intercessão, nos 
afastaríamos de DEUS, voltando a ser escravos do pecado e ao domínio de satanás, e incorrendo em justa 
condenação. Nossa esperança é aproximar-nos de DEUS por meio de CRISTO, pela fé (ver 1 Pe 1.5).” (Bíblia de 
Estudo Pentecostal, CPAD, págs. 1907-1909)
QUESTIONÁRIO:
1. Quem era Melquisedeque?
R. Era rei de Salém e sacerdote do DEUS Altíssimo.
2. Por que se diz que Melquisedeque não tinha genealogia?
R. Porque não ficou registrada sua ascendência e sua descendência.
3. Qual o significado das ofertas, do culto e dos sacrifícios no AT?
R. Sombra ou cópia do verdadeiro sacerdócio, que veio com CRISTO.
4. O que mudava com a mudança do sacerdócio?
R. A lei.
5. Por que CRISTO foi considerado sacerdote imaculado? 
R. Porque não tinha qualquer mancha moral ou espiritual de que fosse acusado.

LIÇÃO 8 - CRISTO, MEDIADOR DE UMA MELHOR ALIANÇA
Entre em http://www.armazemnadia.com.br/henrique/ALIANCA.HTM 
 
TEXTO ÁUREO:
“Porque este é o concerto que, depois daqueles dias, farei com a casa de Israel, diz o Senhor: porei as minhas 
leis no seu entendimento e em seu coração as escreverei; e eu lhes serei por DEUS, e eles me serão por povo!” 
(Hb 8.10).
VERDADE PRÁTICA:
O Antigo Pacto cumpriu o seu objetivo e foi substituído por outro superior, sendo CRISTO o seu mediador.
LEITURA DIÁRIA:
Segunda 1 Tm 2.5 CRISTO, mediador entre DEUS e os homens 
Terça  Hb 8.6 Mediador de melhor concerto 
Quarta Hb 9.15 Mediador da Nova Aliança
Quinta Is 54.10 Aliança da paz 
Sexta Is 55.3 Aliança perpétua
Sábado Jr 31.31 Nova Aliança
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:
 
HEBREUS 8.1-4, 6-13 
1 Ora, a suma do que temos dito é que temos um sumo sacerdote tal, que está assentado nos céus à destra do trono da Majestade,2 ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem.
3 Porque todo sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios; pelo que era necessário que este também tivesse alguma coisa que oferecer.4 Ora, se ele estivesse na terra, nem tampouco sacerdote seria, havendo ainda sacerdotes que oferecem dons segundo a lei,
 
6 Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor concerto, que está confirmado em melhores promessas.7 Porque, se aquele primeiro fora irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para o segundo.8 Porque, repreendendo-os, lhes diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, em que com a casa de Israel e com a casa de Judá estabelecerei um novo concerto, 9 não segundo o concerto que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; como não permaneceram naquele meu concerto, eu para eles não atentei, diz o Senhor.10 Porque este é o concerto que, depois daqueles dias, farei com a casa de Israel, diz o Senhor: porei as minhas leis no seu entendimento e em seu coração as escreverei; e eu lhes serei por DEUS, e eles me serão por povo.11 E não ensinará cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior.12 Porque serei misericordioso para com as suas iniqüidades e de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais.13 Dizendo novo concerto, envelheceu o primeiro. Ora, o que foi tornado velho e se envelhece perto está de acabar.
 
PONTO DE CONTATO:
JESUS CRISTO é o Mediador da Nova Aliança. Que significa isso? Qual a importância desse fato? A aliança dada 
por Moisés deveria ser desprezada? Se todos os rituais e cerimônias do judaísmo haviam perdido o seu valor, o 
que existia para tomar o seu lugar? Qual seria a base para alguém se comunicar com DEUS? Estas eram as 
interrogações daqueles crentes hebreus. O presente estudo declara-nos a resposta: a base agora deveria ser 
JESUS CRISTO. Ele é o Ministro do “verdadeiro tabernáculo” (v.2); o Mediador de superior aliança (v.6). O 
tabernáculo é a morada de DEUS. Sendo Ministro, JESUS CRISTO nos leva à própria presença de DEUS, onde temos 
plena comunhão com Ele. Por ser de uma superior aliança, CRISTO nos prepara e equipa para entrarmos e 
morarmos no Lugar Santíssimo. Aleluia!
OBJETIVOS:
No final desta aula seu aluno deverá estar apto a:

Explicar o que é uma aliança.
Definir qual a posição de CRISTO no céu.
Valorizar CRISTO como Ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo.
VIDE http://www.armazemnadia.com.br/henrique/ALIANCA.HTM  
 
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA:
Divida a turma em dois grupos (A e B). O grupo A deverá ler Hebreus 8.1-5 e contrastar o ministério sacerdotal 
de CRISTO com o levítico. O grupo B deverá ler Hebreus 8.7-13 e contrastar a Antiga Aliança com a Nova. Dê a 
eles pelo menos 10 minutos para a execução desta tarefa. Utilize o esquema abaixo para orientar esta atividade.
G  R  U  P  O       A
Sacerdócio de CRISTO
Sacerdócio Levítico
Sacerdote perfeito
Sacerdote imperfeito
Sacrifício perfeito
Sacrifício imperfeito
Tabernáculo celestial
Tabernáculo terreno
Real
Sombra
G  R  U  P  O       B
Nova Aliança
Antiga Aliança
Escrita nos corações
Escrita em pedras
Graça
Lei
Incondicional
Condicional
Sem defeito
Defeituoso

COMENTÁRIOS:
 
INTRODUÇÃO

A Antiga Aliança implicava mandamentos, estatutos e juízos, os quais não foram observados pelo povo escolhido. Era um concerto transitório, como indica o escritor: “Porque se aquele primeiro fora irrepreensível, 
nunca se teria buscado lugar para o segundo” (v.7). Diante disso, JESUS trouxe uma Nova Aliança, que se estabeleceu, não em atos exteriores, rituais, mas no interior do homem, no entendimento e no coração. Por isso, é um melhor concerto. Que o Senhor nos faça entender esse tema, e que o valorizemos em nossa vida cristã!

I. A POSIÇÃO DE CRISTO NO CÉU
1. “Um sumo sacerdote tal…” (v.1a).
Com esta expressão, a Palavra de DEUS visa mais uma vez enfatizar a singularidade de CRISTO como Sumo Sacerdote, destacando-o e diferenciando-o dos sumo sacerdotes comuns, frágeis, mortais, da Antiga Aliança. A expressão “tal”, aqui, evidencia a incapacidade das palavras humanas para descrever a grandeza de CRISTO. É o que ocorre também em Jo 3.16 (de “tal” maneira).
2. “Assentado nos céus”.
Esta expressão que também aparece em 1.3; 10.12 e 12.2, indica CRISTO, como Sumo Sacerdote perfeito, que realizou sua obra de tal forma que tem o direito de assentar-se no seu trono, ao lado direito do Pai. Já os sacerdotes do Antigo Pacto não podiam assentar-se, pois sua obra nunca terminava. Por isso nunca são descritos como sentados.
3. “À destra do trono da majestade” (v.1b).
CRISTO, à direita de DEUS, está na posição da mais alta honra, nos céus. Em Mc 16.19, está escrito: “Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à direita de DEUS”. JESUS CRISTO é o único ser que tem essa posição de extremo destaque nos céus. Tal verdade nos é transmitida, para que saibamos que o nosso mediador não é um ser celeste qualquer, mas aquele que tem posição de honra, única e destacada, diante de DEUS. As nossas orações são levadas a Ele, que por nós intercede junto ao Pai.

II. O SACERDÓCIO DE CRISTO NOS CÉUS
 


1. “Ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo”. Não obstante estar CRISTO assentado à destra de DEUS, 
e tendo concluído sua obra, quando do seu ministério terreno, Ele é aqui descrito como “ministro do santuário e 
do verdadeiro tabernáculo” (v.2). Nos céus, o Mestre amado continua a executar seu ministério ou serviço 
divino, como nosso mediador, intercessor, advogado e Sumo Sacerdote perante o Pai, pois entrou no SANTO dos 
Santos. 
2. O que cristo faz nos céus. Abrindo um pouco o véu da eternidade, a Bíblia revela-nos algo sobre o trabalho 
de CRISTO nos céus. De lá, Ele controla todas as coisas, tanto as que estão nos céus, quanto as que estão na 
terra, no universo, enfim. Ele está assentado “à destra da majestade”, “sustentando todas as coisas pela 
palavra do seu poder” (1.3). É muita coisa! 
Em relação a nós, diz a Bíblia, que “ele está à direita de DEUS, e também intercede por nós” (Rm 8.34b). Há 
milhões de crentes, orando todos os dias, em todos os lugares, em todas as mais de 6.000 línguas conhecidas, 
e JESUS está ouvindo essas orações, e intercedendo por nós. Glória a DEUS! JESUS contempla todos os seus 
servos e trabalha em favor deles. (Leia Is 64.4.) 
3. Constituído por DEUS (vv.2-4). JESUS, como Sumo Sacerdote constituído por DEUS, no céu, exerce seu 
trabalho no verdadeiro tabernáculo, fundado pelo Senhor, e não pelo homem. O antigo tabernáculo, montado no 
deserto, deixou de existir. Sua exuberante glória desapareceu. Salo-mão construiu o majestoso templo, que 
substituiu o tabernáculo (2 Cr 7.1,11). Mais tarde, esse templo foi destruído e substituído por outro, que 
também desapareceu. Mas o tabernáculo celeste, no qual CRISTO está, é eterno e indestrutível. 

III. UM NOVO CONCERTO 

1. “Um ministério mais excelente” (v.6a). Mais do que um sacerdote, na terra, JESUS foi o “cordeiro de DEUS”, 
oferecendo-se a si mesmo como holocausto, entregando sua vida em nosso lugar (cf. Jo 10.15, 28). Agora Ele 
exerce as funções sumo sacerdotais lá no céu: “ministério mais excelente” (1.4), que o realizado por todos os 
sacerdotes e sumo sacerdotes terrenos, da Antiga Aliança.
2. “Mediador dum melhor concerto” (v.6.b). Numa aliança, existem três elementos envolvidos. As partes, no 
mínimo duas, e um mediador. No Antigo Pacto, vemos DEUS de um lado e o povo de Israel de outro. O mediador 
era o sacerdote ou o sumo sacerdote. Foi DEUS quem propôs e estabeleceu a Antiga Aliança. Os sacerdotes 
fizeram seu trabalho, mas fracassaram. Foram mediadores deficientes e falhos. O lado humano, representado 
por Israel, arruinou-se apostatando. Mas DEUS, por sua infinita misericórdia, proveu-nos um Novo e melhor 
Concerto, “confirmado em melhores promessas” (v.6), através de CRISTO.
3. O novo concerto aboliu o antigo (v.7). “Porque, se aquele primeiro fora irrepreensível, nunca se teria 
buscado lugar para o segundo”. Em Jeremias, lemos: “Mas este é o concerto que farei com a casa de Israel 
depois daqueles dias, diz o SENHOR: porei a minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração; e eu serei 
o seu DEUS, e eles serão o meu povo” (Jr 31.33). Ver Ez 36.25,26. Isto é muito significativo. 
No Antigo Pacto, o culto era mais exterior: havia os sacrifícios de animais, os rituais, a guarda dos sábados, das 
luas novas, etc. O Novo Concerto trazido por CRISTO, em tudo é superior. A lei de CRISTO é colocada no coração 
do homem. Em lugar de todos os sacrifícios do Antigo Pacto, CRISTO, entregando-se na cruz, efetuou um único e 
suficiente sacrifício, expiador e redentor. Glória a DEUS!

CONCLUSÃO

Não devemos ter nenhuma dúvida quanto a validade da Nova Aliança, perpetrada por CRISTO. O apóstolo Paulo 
escrevendo aos Coríntios, asseverou: “Assim que, se alguém está em CRISTO, nova criatura é: as coisas velhas 
já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17). Isso se refere a quem aceitou a CRISTO, deixando os velhos 
pecados e costumes, e que deve valorizar a cada dia a salvação em CRISTO JESUS, não voltando às velhas 
práticas. É preciso ter firmeza na fé.
 
Subsídio Bibliológico

“O novo santuário e a nova aliança (Cap. 8). Antes de considerar detalhadamente a obra sacerdotal de CRISTO (cap. 9;10.1-18), o autor apresenta um panorama geral, quanto à natureza, da relação entre o novo santuário (8.1-6) e a Nova Aliança (8.7-13).
1. O novo santuário
O autor inicia o argumento dizendo: “Quanto ao assunto em discussão, este ponto é principal (a essência do que temos dito) porque agora possuímos um Sumo Sacerdote, e Ele já está exercendo a obra sacerdotal condigna à sua posição no santuário celeste”. Este santuário foi divinamente estabelecido sobre o trono da majestade nas alturas (vv.1,2).
A obra de CRISTO como Sumo Sacerdote, nas regiões celestiais, de maneira nenhuma poderia cumprir-se na terra, pois no tempo que foi escrita a epístola ainda havia uma ordem sacerdotal (ultrapassada, contudo ainda funcionando) estabelecida pela lei mosaica. Uma vez que CRISTO não pertencia à tribo de Levi (7.13,14), naturalmente não podia atuar com eles (vv.5,6).
2. A nova aliança
O sistema levítico baseava-se numa aliança que até os profetas reconheceram imperfeita e transitória, pois falavam do propósito divino de estabelecer uma nova. Se a primeira fosse perfeita, não haveria procura por uma segunda aliança (v.7). Daí entendemos que havia no coração do povo santo que viveu no Antigo Testamento um senso de satisfação. Procuravam algo superior. E essa aliança melhor já fora prometida, como provam as Escrituras (Jr 31.31-34; Ez 36.25-29; vv. 8-12).
Características da Nova Aliança:
·Inclui todo o povo da Antiga Aliança — Israel e Judá — e mais os gentios (v.8)
·É distinta da Antiga Aliança, instituída no tempo do Êxodo (v.9), através da qual DEUS ordenou uma nação em tudo separada e exclusiva, para testemunho do seu poder. A nação de Israel veio servir de tipo à “nação santa” (assim representada pela igreja, 1 Pe 2.9), que seria levantada pela Nova Aliança.
·Possui características positivas, de ordem espiritual e subjetiva. Sua eficiente operação transformaria o 
coração daqueles que cressem, de um modo tão definitivo que os mandamentos fariam parte da personalidade deles (v.10).
·É universalmente eficaz em favor de todos os povos, incluindo a “casa de israel”, de quem o Senhor seria individualmente conhecido (v.11).
·Apoia-se na graça de DEUS, suficiente para prover um perdão absoluto. O pecado seria removido até da 
memória divina (v.12).” (Comentário Bíblico - Hebreus, CPAD, págs.145-147.)
QUESTIONÁRIO:
1. Que quis dizer o escritor da Carta aos Hebreus com a expressão “um sacerdote tal?”
R. Mostrar a singularidade do sacerdócio de CRISTO.
2. Que significa, no texto, CRISTO “assentado” no céu?
R. Significa que CRISTO, como Sumo Sacerdote perfeito, realizou sua obra de modo tão exato que tem o direito 
de assentar-se no seu trono, ao lado do Pai.
3. Por que JESUS é apontado como “Ministro do Santuário, e do verdadeiro Tabernáculo”? 
R. Porque Ele continua a executar seu ministério divino, pois entrou no lugar SANTO dos Santos. 
4. Por que o novo concerto substituiu o antigo?
R. Porque o antigo concerto envelheceu, perdendo sua finalidade com o tempo.
5. Onde DEUS prometeu escrever o novo concerto com Israel?
R. No interior do coração.
LIÇÃO 9 - CRISTO TROUXE MAIOR GLÓRIA NA ADORAÇÃO A DEUS
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TEXTO ÁUREO: 
“Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor concerto, que está confirmado em melhores promessas” (Hb 8.6).
 
VERDADE PRÁTICA:
Com CRISTO, o culto a DEUS passou a ter uma glória maior do que no antigo pacto, pois Ele substituiu os símbolos 
rituais pela realidade da verdadeira adoração.
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Êx 2.24 Um concerto com Abraão, Isaque e Jacó
Terça  Dt 4.13 Um concerto em tábuas de pedra
Quarta Jr 31.32 Um concerto invalidado
Quinta Jr 31.31 Um Novo Concerto com Israel
Sexta Jr 31.33 Um Novo Concerto no coração
Sábado Rm 8.1 Um Concerto sem condenação
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:
HEBREUS 9.1,2,11,12,15,22-28 
1 Ora, também o primeiro tinha ordenanças de culto divino e um santuário terrestre. 2 Porque um tabernáculo estava preparado, o primeiro, em que havia o candeeiro, e a mesa, e os pães da proposição; ao que se chama o Santuário.
 
11 Mas, vindo CRISTO, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação,12 nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção. 15 E, por isso, é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna.
 
22 E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão.23 De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios melhores do que estes. 24 Porque CRISTO não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de DEUS; 25 nem também para a si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santuário com sangue alheio. 26 Doutra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas, agora, na consumação dos séculos, uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.27 E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo,28 assim também CRISTO, oferecendo-se uma vez, para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação.
PONTO DE CONTATO:
Antes de falar sobre as glórias do sacerdócio de CRISTO, o escritor apresenta em retrospecto o ministério 
levítico, descrevendo o Tabernáculo com seus dois compartimentos, o Lugar SANTO e o SANTO dos Santos. Havia algo de belo e majestoso nessa antiga administração do culto e serviço sacerdotal, o qual, pelo contraste, enaltece a glória da nova ordem cristã. DEUS ordenou ao povo de Israel que construísse um santuário, e orientou-o em cada detalhe desta construção. Em razão de ser a habitação de DEUS no deserto, o povo o venerava. Entretanto, o tabernáculo e seus elementos eram passageiros e inferiores a CRISTO.
 
OBJETIVOS:
Após esta aula seu aluno deverá estar apto a:

Relacionar os elementos que compunham os móveis do tabernáculo.
Reconhecer CRISTO como sacerdote dos bens futuros e da nossa confissão.
Identificar o sacrifício de CRISTO como perfeito e absoluto.
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA:
Se possível, amplie no quadro de giz a figura abaixo. Em seguida convide sete dos seus alunos para colocarem o nome das peças do tabernáculo no lugar correspondente.

1. Altar do holocausto
2. Bacia de bronze
3. Mesa dos pães da proposição
4. Candeeiro de ouro
5. Altar do incenso
6. Arca da aliança
7. Propiciatório 



COMENTÁRIOS:
INTRODUÇÃO

Nas lições referentes aos capítulos de 8 a 10 da epístola em estudo, vemos a diferença marcante entre o 
ministério sacerdotal, no antigo pacto, e o de CRISTO, como Sumo Sacerdote no Novo Concerto. Nesta lição, que dá seqüência ao tema da anterior, veremos, mais uma vez, que, em todos os aspectos, o Novo Concerto é melhor e mais glorioso que o primeiro. 

I. O CULTO DIVINO EM SANTUÁRIO TERRESTRE

1. O culto no lugar santo do tabernáculo (9.1,2). O taber-náculo, onde as atividades do culto eram intensas, dividia-se em três partes: o Pátio, o Lugar SANTO e o SANTO dos Santos. O v.2 refere-se à segunda parte – o lugar santo, chamando-o “o primeiro”, pelo fato dele ser a primeira das duas partes cobertas: o Lugar SANTO e o SANTO dos Santos. O Pátio era descoberto.
2. Os elementos do Lugar SANTO. Após o véu da entrada, viam-se três elementos importantes na segunda parte do tabernáculo: “o candeeiro, a mesa e os pães da proposição” (v.2). O tabernáculo revelava que DEUS queria manifestar-se no meio de seu povo (Êx 25.8). Hoje, devemos valorizar o ambiente do templo, na igreja local, pois é consagrado ao culto a DEUS.
a) O candeeiro, castiçal ou candelabro. Era uma peça maciça, de ouro puro, cujas lâmpadas eram acesas diariamente (Êx 25.31; Lv 24.1-4), representando CRISTO, a luz do mundo (Jo 8.12);
b) Os pães da proposição. Ficavam sobre a mesa, que era um móvel de madeira de cetim, reves-tida de ouro. Os pães da proposição eram um tipo de CRISTO, o pão da vida (Jo 6.35). 
c) O altar do incenso. O escritor não fala do altar do incenso, mas este também estava no Lugar SANTO (ver Êx 30.1-3) representando CRISTO, nosso intercessor (Jo 17 1-26; Hb 7.25). Ele ocupava uma posição central no santuário, indicando que a vida de oração é fundamental no culto a DEUS. A negligência à oração revela imaturidade espiritual.
3. O lugar SANTO dos Santos (vv. 3-7). No seu interior, estava a arca do concerto, com a sua cobertura ou propiciatório, com querubins entalhados nas extremidades (Êx 25.10). A arca representava a presença de DEUS ou CRISTO, nosso Emanuel, que é DEUS conosco (Mt 1.23). Na arca, estavam o maná, em memória da provisão de DEUS, ou CRISTO, o “pão que desceu do céu” (Jo 6.58); a vara de Arão, lembrando a fidelidade de DEUS; e as tábuas do concerto, para que o povo não se esquecesse da importância da lei. Mas havia um véu, separando o Lugar SANTO do Lugar Santíssimo (vv.3,7,8). Aquele véu indicava “que ainda o caminho do Santuário não estava descoberto, enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo” (v.8). Quando oramos, não devemos ficar “no Pátio” (oração monótona). Precisamos passar ao “Lugar SANTO” (oração objetiva) e chegar ao “SANTO dos Santos” (oração no ESPÍRITO).

II. UM MAIOR E MAIS PERFEITO TABERNÁCULO
 


1. CRISTO, Sumo Sacerdote dos bens futuros (v.11). Esses “bens futuros” ainda não estão plenamente ao nosso alcance. A salvação é presente, mas depende de nossa perseverança até o fim (Mt 10.22; 24.13; cf. Rm 13.11). O reino absoluto de CRISTO e a feliz eternidade com DEUS nos aguardam. Os céus nos esperam. A Nova Jerusalém está preparada para os santos do Senhor.
2. Um perfeito tabernáculo (v.11). O tabernáculo celestial, “não feito por mãos”. Os utensílios do antigo 
tabernáculo desapareceram. Onde estará a arca? O altar do incenso? Não se sabe. Porém CRISTO, ao morrer, fez com que o véu do templo (em Jerusalém) se rasgasse de alto a baixo, demonstrando que o caminho para o verdadeiro santuário, que é a presença de DEUS, estava definitivamente aberto para o homem que nEle crê. 
3. Mediador de um Novo Testamento. 
a) O Velho Testamento foi superado. O Velho Testamento era a sombra das coisas celestes, providas por DEUS para a redenção do homem. A lei, que orientava o culto no antigo santuário, não justificou ninguém (Gl 3.11). Pelo contrário, os que estavam debaixo das obras da lei estavam sob maldição, por não poderem cumprir todas as suas cláusulas (Gl 3.10).
b) O Novo Testamento é superior. CRISTO tornou-se “Mediador de um Novo Testamento” (v.15), que contém as cláusulas marcantes e definitivas do novo relacionamento de DEUS com o homem, e deste com DEUS. Ele “entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção” (v.12). 
c) A morte do testador. O testamento só tem validade com a morte do testador (v.16). Uma vez que CRISTO morreu, o Novo Testamento passou a ter validade, garantindo-nos uma “herança eterna” (v.15). No antigo tabernáculo, a expiação dos pecados era temporária e parcial. No novo, com a garantia do Novo Testamento, a redenção é perfeita, definitiva e perene. 
d) Sacerdote imaculado (v.14). Os sacerdotes eram imperfeitos. CRISTO, nosso Sumo Sacerdote, com seu 
sangue, “pelo ESPÍRITO eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado a DEUS”, purificando as consciências “das obras mortas” para que sirvamos ao DEUS vivo (v.14). O Velho Testamento era validado pelo sangue de animais (v.19). O Novo legitimou-se pelo sangue de CRISTO, derramado em nosso lugar.

III. O SACRIFÍCIO PERFEITO DE CRISTO

1. “Sem derramamento de sangue não há remissão” (v.22). A Bíblia ressalta que, no antigo tabernáculo, “quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue”, enfatizando que “sem derramamento de sangue não há remissão” (cf. Lv 17.11). Aqui, vemos a importância do sangue para a expiação do pecado, no Velho Testamento. Isso quer dizer que, quando um animal era oferecido em sacrifício pelo pecado, DEUS aceitava a oferta por atribuir a ela o valor provisório do resgate do pecador ofertante. O sangue era símbolo da outorga da vida, que era dada em expiação. Tal sacrifício apontava para o sangue de CRISTO, que seria derramado em nosso lugar.
2. “Sacrifícios melhores” (v.23). O escritor diz que “era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem”, ou seja, deviam purificar-se com sangue. Cada animal morto, substituto do pecador, apontava para o “Cordeiro de DEUS, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Os sacrifícios antigos eram repe-titivos. O de CRISTO foi efetuado uma única vez, por ser superior e perfeito.
3. A entrada de CRISTO no céu (v.24). CRISTO entrou “uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção” (v.12). O sacerdote entrava todos os dias no santuário, isto é, no Lugar SANTO, mas só conseguia a remissão parcial e temporal do pecado. O sumo sacerdote entrava somente uma vez por ano no SANTO dos Santos e oferecia sacrifícios pelo povo e por si próprio, pois também era pecador (cf. v.7). No entanto, CRISTO entrou “no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de DEUS”. Ele é nosso intercessor perfeito (Rm 8.34), juntamente com o outro maravilhoso intercessor, que é o ESPÍRITO SANTO (Rm 8.27). 
4. CRISTO aparecerá pela segunda vez (vv.27,28). Aqui a Bíblia diz que CRISTO “uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo”, oferecendo-se para “tirar os pecados de muitos”, e que Ele voltará, pela segunda vez, “aos que o esperam para a salvação”. 

CONCLUSÃO

O Novo Concerto trazido por CRISTO realizou-se através de um sacrifício perfeito e único, que não precisa repetir-se, em substituição aos sacrifícios imperfeitos do antigo concerto. Assim, sejamos gratos a DEUS pela morte de CRISTO na cruz do Calvário, o qual por nós efetuou uma eterna redenção.
Subsídio Teológico

“A expiação da Nova Aliança (9.11-22). O tema de reforma introduz um santuário melhor, um sacrifício eficiente e uma salvação mais completa. O serviço do sumo sacerdote judaico no Dia da Expiação representava o clímax do sistema levítico. Nesse dia, todo ano, ele entrava na presença divina, num tabernáculo terreno, levando o sangue expiatório de animais. Sob a Nova Aliança, CRISTO, “o sumo sacerdote dos bens futuros”, entrou uma vez para sempre no próprio tabernáculo, levando o seu próprio sangue como expiação.O sangue de touros e de cabras efetuava apenas purificação ritualística e simbólica, de alcance limitado, mas o sangue de CRISTO, oferecido como sacrifício espiritual e vivo, executa a purificação interior, que traz comunhão com o DEUS vivo (vv. 13,14). 
O bispo Westcott observa o seguintes itens pelos quais o sangue de CRISTO é superior, partindo da análise de seu sacrifício, que foi:
a) voluntário, ao contrário dos sacrifícios exigidos pela Lei;
b) racional, e não como o dos animais (irracionais);
c) espontâneo, e não em obediência a ordens superiores;
d) moral, como oferta de si próprio por ação do supremo poder nEle residente (o ESPÍRITO Eterno), pelo qual mantinha comunhão com DEUS. Não seguiu meramente um rito, um esquema predeterminado. Não! Ele detinha os mais puros motivos.” (Comentário Bíblico — Hebreus, CPAD, págs. 148,149) 
QUESTIONÁRIO:
1. Quantas partes tinha o tabernáculo no AT?
R. Três partes.
2. Que significado espiritual tinha o véu, entre o lugar santo e o SANTO dos Santos?
R. Indicava que o acesso a DEUS não estava livre.
3. O que CRISTO fez, antes de entrar no santuário celeste?
R. Efetuou uma eterna redenção pelo seu próprio sangue.
4. O que é necessário para que um testamento tenha validade?
R. A morte do testador.
5. Por que CRISTO não ofereceu sacrifícios por si mesmo?
R. Porque não teve pecado.
LIÇÃO 10 - A EFICÁCIA DO SACRIFÍCIO DE CRISTO
 
TEXTO ÁUREO:
“Porque, tendo a lei a sombra dos bens futuros e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos 
sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb 10.1)
VERDADE PRÁTICA 
Os sacrifícios diários do Antigo Concerto não foram eficazes para a salvação dos pecadores. O sacrifício de CRISTO, oferecido uma só vez, garante-nos a certeza da eterna salvação, pela fé em seu nome.
 
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Cl 2.17 Sombra das coisas futuras
Terça  Lv 16.21 Pecados sobre um animal 
Quarta Mq 6.6,7  Dúvidas quanto ao sacrifício
Quinta Sl 40.6 Sacrifício rejeitado
Sexta Jo 17.19 JESUS santificou-se por nós
Sábado Hb 9.12 Uma eterna redenção
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:
HEBREUS 10.1,3,4 , 9-12,14 ,19,22-25 
1 Porque, tendo a lei a sombra dos bens futuros e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam. 3 Nesses sacrifícios, porém, cada ano, se faz comemoração dos pecados,4 porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados.
12 mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de DEUS, 14 Porque, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são santificados.
 
22 cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; tendo o coração purificado da má consciência e o corpo lavado com água limpa, 23 retenhamos firmes a confissão da nossa esperança, porque fiel é o que prometeu. 24 E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos à caridade e às boas obras, 25 não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns; antes, admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais quanto vedes que se vai aproximando aquele Dia.
 
PONTO DE CONTATO:
Os profetas anunciaram uma Nova Aliança. Em que ela se baseia? Qual a sua precípua finalidade? Ela indica o único caminho que conduz o homem a DEUS. A Nova Aliança propicia a entrada ao trono divino, mediante o perdão e o esquecimento de todos os pecados. CRISTO inaugurou-a com o sacrifício de si mesmo. Agora já não precisamos continuar fazendo os sacrifícios levíticos. O que aqueles sacrifícios não podiam fazer, foi feito pelo sacrifício de CRISTO sobre a cruz.
 
OBJETIVOS:
No final desta aula seu aluno deverá esta apto a:

Descrever a forma como o Velho Pacto foi substituído pelo Novo.
Enunciar os privilégios e responsabilidades dos crentes no Novo Pacto.
Valorizar o sacrifício perfeito de CRISTO.
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA:
O preparo da lição faz parte dos deveres do professor, e deve ser feito tendo em vista a necessidade do aluno, e não a do professor. O que interessa a um aluno adulto, não interessa a um jovem ou a uma criança. Preparar uma lição sem pensar nisso é ficar diante da classe pregando no deserto. O professor deve preparar a lição tendo em mira três propósitos para com o aluno: 1) O que desejo que meus alunos aprendam? 2) O que desejo que meus alunos sintam? 3) O que desejo que meus alunos façam? (A Escola Dominical, CPAD.) Para esta lição, peça a seus alunos que tentem identificar, no texto em estudo, quais as quatro fraquezas do sacrifício levítico. Observe o esquema abaixo:
Os sacrifícios levíticos...
1) Não podem tornar perfeitos os ofertantes (v.1);
2) Não podem satisfazer a consciência quanto ao pecado (v.2);
3) Não podem apagar a memória dos pecados (v.3);
4) Não podem tirar os pecados (v.4).
 
COMENTÁRIOS:
INTRODUÇÃO

No Antigo Testamento, os sacrifícios eram repetidos todos os dias por sacerdotes comuns. O sumo sacerdote entrava todos os anos no lugar santíssimo para oferecer sacrifícios por si mesmo e pelo povo. Mas, como tudo isso era “sombra dos bens futuros”, tais sacrifícios não aperfeiçoavam ninguém. Com CRISTO, nosso Sumo Sacerdote, temos a certeza da plena salvação que nos aperfeiçoa, até que um dia cheguemos “a varão perfeito, à medida da estatura completa de CRISTO” (Ef 4.13). E isso só ocorrerá no céu.

I. SACRIFÍCIOS INEFICAZES

1. A sombra dos bens futuros (v.1). O Antigo Pacto se constituía de sacrifícios, holocaustos, oblações e 
oferendas, que eram figuras “dos bens futuros”, ou seja, do evangelho de CRISTO, que nos trouxe as riquezas da graça de DEUS, a começar pela salvação de nossas almas, através do sacrifício vicário de JESUS. Por serem sombras e não a realidade, os sacrifícios de animais não puderam aperfeiçoar “os que a eles se chegam”. 
2. O sangue de animais não tirava os pecados (vv.2-4). Para que serviam aquelas ofertas, se o escritor diz que “é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados” (v.2)? Os sacrifícios não levavam os homens a DEUS, mas serviam, por antecipação, de meio para expiação. A palavra expiação no hebraico tem o significado de “cobrir” os pecados, num delito contra a Lei.
3. DEUS preparou um corpo para JESUS (v.5). Somente no corpo humano (encarnação), Ele poderia ser aceito por DEUS como oferta perfeita no lugar do homem pecador. No Antigo Testamento, os sacrifícios eram substitutos imperfeitos. O corpo de CRISTO foi a solução de DEUS para substituir todos os sacrifícios imperfeitos do Antigo Testamento. Seu sangue, derramado na cruz, não apenas cobriu os pecados, mas tirou-os, e lançou-os nas profundezas do mar (Mq 7.19). João exclamou: “Eis o Cordeiro de DEUS, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

II. O PRIMEIRO FOI TIRADO PARA O ESTABELECIMENTO DO SEGUNDO

1. CRISTO obedeceu a DEUS (v.9). JESUS foi obediente até à morte (Fp 2.8). Ele cumpriu todos desígnios divinos no intuito de salvar o homem da perdição eterna. Sua morte foi prova inconteste da sua total resignação, obediência e submissão à vontade de DEUS. Ele afirmou: “Eis aqui venho, para fazer, ó DEUS, a tua vontade”. 
Trata-se de uma lição de valor espiritual inigualável para todos nós: JESUS, sendo DEUS, voluntariamente 
despojou-se de sua glória, e apresentou-se ao Pai na disposição irrestrita de cumprir cabalmente o plano divino de redenção da humanidade (ver Fp 2.5-8). 
2. O Velho Pacto substituído pelo Novo (v.9). Ao dizer a Escritura “tira o primeiro para estabelecer o segundo”, vemos a substituição definitiva do antigo sistema legal mosaico, no qual os sacrifícios eram ineficazes para salvação, pelo Novo Pacto, estabelecido por CRISTO, com seu sacrifício perfeito. 
3. Comparação entre o velho e o Novo Concerto. A lei não transformava o homem em termos morais; o 
evangelho de CRISTO transforma, pois “é o poder de DEUS para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16); a lei apenas condenava o culpado; a graça de DEUS o liberta. A lei consistia de símbolos da realidade; a graça consiste na realidade dos símbolos; a lei era “o ministério da morte” (2 Co 3.7); a graça é “lei do ESPÍRITO de vida, em CRISTO JESUS” (Rm 8.2). 

III. UM SACRIFÍCIO PERFEITO

1. Santificados pela obla-ção do corpo de CRISTO (v.10). Oblações eram ofertas incruentas (sem sangue), 
inanimadas, oferecidas a DEUS tais como: vinho, azeite, flor de farinha, etc. Se de um lado, CRISTO ofereceu seu próprio sangue como holo-causto em nosso favor, por outro, Ele foi aceito como oferta de cheiro suave a DEUS, “feita uma vez”, de modo que, em CRISTO, somos aceitos por DEUS.
2. Sacrifício único (vv. 11-14). O escritor lembra que os sacerdotes, no Velho Pacto, diariamente ofereciam sacrifícios que não podiam tirar pecados. E acentua que CRISTO ofereceu “um único sacrifício pelos pecados”, demonstrando a eficácia do seu auto oferecimento a DEUS pelos pecadores. Acrescenta que CRISTO está “assentado para sempre à destra de DEUS” “...esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés”. 
3. Sacrifício que aperfeiçoa. Diferente dos sacrifícios do Antigo Pacto, que apenas cobriam temporariamente o pecado, mas não transformava o pecador, o sacrifício de CRISTO constituiu-se “numa só oblação”, que “aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (v.13; ver v.10). Aqui temos algo que a lei não podia fazer: santificar as pessoas. Com o advento da graça, somos santificados pela Palavra (Jo 17.17), pela fé em CRISTO (At 26.18) e pelo sangue de JESUS (1 Pe 1.2).

IV. PRIVILÉGIOS E RESPONSABILIDADES DO CRENTE EM JESUS

1. Entrar no santuário de DEUS (v.19). No Antigo Pacto, as pessoas comuns do povo não podiam adentrar no santuário propriamente dito. Só chegavam até ao pátio, que era a parte exterior do tabernáculo. Em CRISTO, no entanto, homens e mulheres salvos são “sacerdotes reais” (1 Pe 2.9), e têm “ousadia para entrar no Santuário pelo sangue de JESUS”. Este é um privilégio que só os fiéis lavados e remidos pelo sangue de CRISTO podem ter. 
Tais crentes não precisam de medianeiros, guias, orixás ou gurus. JESUS é “o único mediador entre DEUS e o homem” (1 Tm 2.5).
2. Como chegar a DEUS (vv.22-25). Não se pode chegar a DEUS de qualquer maneira. O escritor, em sua incisiva exortação, nos mostra os cuidados que devemos ter para chegarmos à presença de DEUS: 
a) “Com verdadeiro coração”. Só podemos ter acesso ao Pai e ser aceitos por Ele se tivermos um coração sincero, limpo e puro (Mt 5.8). 
b) “Em inteireza de fé”. O crente, ao buscar a presença de DEUS, não pode ter dúvida alguma de sua 
existência, do seu poder e de sua graça. 
c) “Tendo o coração purificado da má consciência”. Para DEUS não valem as aparências. Ele vê o interior do homem. O salmista disse que DEUS nos sonda e entende o nosso pensamento (Sl 139.1,2). Se dermos lugar à iniquidade, Ele não nos ouvirá (Sl 65.18).
d) “O corpo lavado com água limpa”. Certamente, o texto bíblico aqui refere-se à purificação do crente pela Palavra, como se lê em Ef 5.26: “purificando-a com a lavagem da água, pela Palavra”, isto em relação à Igreja. 
e) Retendo firmes a confissão da esperança. Em Hb 3.6 somos exortados a “conservar firme a confiança e a glória da esperança até ao fim”. A confissão da esperança indica a nossa fé nas gloriosas e infalíveis promessas de DEUS, “porque fiel é o que prometeu”.
f) Considerando uns aos outros, estimulando-nos “à caridade e às boas obras”. O bom relacionamento entre os crentes é condição importante para o acesso a DEUS. A caridade (amor em ação) é a marca do cristão. Boas obras são dever do salvo (Ef 2.10).
g) “Não deixando a nossa congregação”. Aqui não se refere ao sentido físico: deixar a igreja local para ir congregar-se em outro bairro; mas sim, que não devemos deixar de congregar-nos, de nos reunirmos, tendo em vista a necessidade da comunhão coletiva. Somos membros uns dos outros (Rm 12.5). É equivocada e carnal a idéia de que alguém pode ser “crente em casa”, a menos que esteja doente.
h) “Admoestando-nos uns aos outros”. Admoestar, aqui, tem no original o sentido de animar, encorajar. Essa prática, quando realizada com amor, tem grande efeito no fortalecimento e encorajamento espiritual da comunidade cristã. 

CONCLUSÃO

Diante do que estudamos nesta lição, cremos que não há lugar para qualquer dúvida quanto à superioridade do Novo Concerto, baseado no perfeito e único sacrifício de CRISTO em relação ao antigo, realizado na base de sacrifícios de animais, que apenas cobriam provisoriamente os pecados do povo.
Subsídio Teológico

“O sangue dos touros (Hb 10.4). O sangue de animais era apenas uma provisão ou expiação temporária pelos pecados do povo; em última análise, era necessário um homem para servir como substituto da humanidade. Por isso, CRISTO veio à terra e nasceu como homem a fim de que pudesse oferecer-se a si mesmo em nosso lugar (2.9,14). Além disso, somente um homem isento de pecado poderia tomar sobre si nosso castigo pelo pecado (2.14-18; 4.15) e, assim, de modo suficiente e perfeito, satisfazer as exigências da santidade de DEUS (cf. Rm 3.25,26).
“Aperfeiçoou para sempre os... santificados (Hb 10.14). A oferenda única de CRISTO na cruz e seu resultado (i.e., a salvação perfeita) são eternamente eficazes todos quantos estão santificados ao se chegarem a DEUS por meio de CRISTO (v.22;7.25) Note que a palavra no grego “santificar”, aqui e no versículo 10, são particípios presentes que enfatizam a ação contínua no tempo presente.
“Quando vedes que se vai aproximando aquele dia (Hb 10.25). O dia da volta de CRISTO para buscar os seus fiéis está se aproximando. Até chegar esse dia, enfrentaremos muitas provações espirituais e muitas falsificações na doutrina. Devemos congregar-nos regularmente para encorajarmos mutuamente e nos firmarmos em CRISTO e na fé apostólica do novo concerto.” (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, págs. 1914, 1915.)

QUESTIONÁRIO:
1. Por que os sacrifícios de animais não puderam aperfeiçoar os ofertantes?
R. Por serem sombras “dos bens futuros”, e não a realidade. 
2. Qual o significado da palavra expiação?
R. Significa “cobrir” os pecados, como exigência para a reparação de um delito.
3. Por que DEUS preparou corpo para JESUS?
R. Porque somente no corpo da carne (na encarnação), Ele poderia ser aceito por DEUS como substituto 
perfeito para o homem pecador.
4. Que significa a expressão: “tira o primeiro para estabelecer o segundo”?
R. Refere-se à substituição definitiva do antigo pelo novo concerto. 
5. Que significa a expressão “não deixando a nossa congregação”?
Que não devemos deixar de reunirmos, tendo em vista a necessidade da comunhão coletiva.
LIÇÃO 11 - O PECADO IMPERDOÁVEL:
 
TEXTO ÁUREO:
“Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” (Hb 10.26). 
 
VERDADE PRÁTICA:
Há situações específicas em que o pecador se coloca deliberadamente contra CRISTO, num estado tão tenebroso de iniquidade que se torna impossível sua restauração.
 
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Nm 15.30 A alma extirpada do meio do povo
Terça 2 Pe 2.20 O último estado pior do que o primeiro
Quarta 2 Pe 2.21 Desvio perigoso
Quinta Ez 36.5 Menosprezando a DEUS
Sexta Dt 17.2 Traspassando o concerto
Sábado Mt 12.31,32 Pecado que não será perdoado
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:
HEBREUS 10.26-31,38,39 
26 Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados,27 mas uma certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo, que há de devorar os adversários.28 Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas.29 De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de DEUS, e tiver por profano o sangue do testamento, com que foi santificado, e fizer agravo ao ESPÍRITO da graça?30 Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo.31 Horrenda coisa é cair nas mãos do DEUS vivo.
 
38 Mas o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele.39 Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que crêem para a conservação da alma.
 
PONTO DE CONTATO:
Os homens precisam aceitar o sacrifício de CRISTO, senão sofrerão o juízo eterno. Não há outra alternativa. O escritor aos hebreus apresenta a salvação como presente para os que esperam a CRISTO; mas para os que rejeitam o seu sacrifício, há apenas uma expectação terrível de juízo “prestes a consumir os adversários”. O apóstolo Pedro diria a essas pessoas: “Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado”. 
 
OBJETIVOS:
Após esta aula seu aluno deverá estar apto a:

Identificar o pecado considerado por DEUS como imperdoável.
Escolher não desprezar o sacrifício feito pelo Filho de DEUS.
Definir qual é o castigo reservado à quem apostata da fé e pisa o Filho de DEUS.
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA:
Divida sua turma em pequenos grupos de 2 a 4 alunos cada. Os grupos deverão discutir por 5 minutos sobre a parte “b” do versículo 26, que diz: “...já não resta mais sacrifício pelos pecados?” Perguntas para o início da discussão: Qual o significado dessa expressão? Qual a sua abrangência? Ao término do tempo estipulado para esta atividade, reúna os grupos e anote suas conclusões no quadro de giz. Observe se as respostas concordam com a afirmativa abaixo. Essas palavras devem ser entendidas em dois sentidos a saber: 1) Não pode haver outro sacrifício, além daquele que já foi feito – o de CRISTO – , que possa conferir perdão de pecados. Os sacrifícios levíticos foram abolidos; não têm valor para fazer expiação e não pode haver um novo sacrifício expiatório. 2) Mas além disso, o escritor sagrado indica que o pecado da apostasia é fatal; está fora do alcance do perdão divino.
 
COMENTÁRIOS:
INTRODUÇÃO

Nesta lição estudaremos sobre o pecado da apostasia, para o qual “não resta mais sacrifício”. Esse tipo de 
pecado era conhecido entre os rabinos do Antigo Testamento. Naquela ocasião, somente os pecados de 
ignorância podiam ser expiados; se um homem pecasse deliberadamente, com pleno conhecimento de sua 
maldade, não haveria mais sacrifício em seu favor; simplesmente seria excluído do seu povo. Sua iniqüidade 
permaneceria sobre ele e não teria direito ao perdão. Este assunto tem sido motivo de muitos questionamentos. 

I. PECADO VOLUNTÁRIO 

No capítulo 3 de Hebreus, está escrito: “Vede irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e 
infiel, para se apartar do DEUS vivo” (v.12). “O termo gr. aphistemi, traduzido ‘apartar’ é definido como decaída, 
deserção, rebelião, abandono, retirada ou afastar-se daquilo a que antes se estava ligado” (Bíblia de Estudo 
Pentecostal). Trata-se de apostasia. “Esse pecado consiste na rejeição consciente, maliciosa e voluntária da 
evidência e convicção do testemunho do ESPÍRITO SANTO, com respeito à graça de DEUS manifesta em JESUS 
CRISTO” (Oliveira). É nesse contexto que devemos entender o presente tema.
1. Tendo conhecido a verdade (v.26). O texto sagrado refere-se a um tipo de pecado espontâneo, consciente. 
O conhecimento da verdade aqui mencionado não é o rudimentar, experimentado pelo novo convertido, ou por 
aquele crente de vida cristã superficial, mas o conhecimento da verdade divina no sentido amplo (epignosis).
2. Não resta mais sacrifício. “Já não resta mais sacrifício pelos pecados”, assevera o texto sagrado. Trata-se 
dos pecados insolentes, que se constituem numa afronta inominável a DEUS. Pecar assim é um atentado à 
santidade do Altíssimo. É loucura que trará sérias conseqüências. 
A verdade divina liberta (Jo 8.32) quando o pecador a recebe de coração. No entanto, quando a verdade é 
desprezada de modo deliberado, consciente, doloso, reincidente e ofensivo, por quem a conhece bastante, 
torna-se impossível o perdão porque tal pessoa repudia e repele para longe de si a graça de DEUS, que pode 
levá-la ao arrependimento. No contexto iníquo já descrito, tal pessoa peca não somente contra o Filho, mas 
também contra o Pai, que o enviou, e contra o ESPÍRITO SANTO, que nos convence do pecado. Quem então 
convencerá tal pessoa do seu pecado?
3. Só resta uma expectação horrível (v.27). Não havendo mais sacrifício pelo pecado, o que resta? Só resta “a 
expectação horrível de juízo e ardor de fogo, que há de devorar os adversários”. Só lhe espera uma sentença: 
“Horrenda coisa é cair nas mãos do DEUS vivo” (v.31).

II. DESPREZANDO O ÚNICO SACRIFÍCIO QUE SALVA

1. Pisando o Filho de DEUS (v.29). Na lei de Moisés, a palavra de duas ou três pessoas era válida para que um 
sacrílego fosse condenado sem misericórdia (Dt 17.2-6). Para aquela pessoa, não havia mais apelação: a morte 
era certa. Quem pisar o Filho de DEUS, um “maior castigo” lhe sobrevirá. Desprezar o evangelho é considerar 
sem valor o sacrifício de CRISTO; é zombar da salvação, desprezar tudo o que há de sagrado na igreja de CRISTO 
depois de ter conhecido a verdade proveniente dos Santos Oráculos. 
2. Profanando o sangue do testamento (v.29b). Significa considerar o sangue do Filho de DEUS como sangue comum, profano, sem nenhum valor sagrado ou redentor. A Bíblia diz que “o sangue de JESUS CRISTO, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1 Jo 1.7). É por seu sangue que nos aproximamos dEle (Ef 2.13); o sangue de CRISTO purifica (Hb 9.14); resgata (1 Pe 1.19); lava de todo o pecado (Ap 1.5). Assim, se o deliberado transgressor profana o sangue de CRISTO, não há nada mais que o possa renovar ou purificar.
3. Agravo ao ESPÍRITO SANTO (v.29). Trata-se de um pecado múltiplo em sua prática: enquanto pisa o Filho de DEUS, profana o seu sangue e faz agravo ao ESPÍRITO SANTO (literalmente, insulto, insolência, ultraje). Para esse tipo de pecador, o Calvário não passa de uma encenação, de uma farsa. 
a) Blasfêmia contra o ESPÍRITO SANTO. Com o coração endurecido, o pecador ultraja conscientemente o ESPÍRITO 
SANTO. Quanto a isso JESUS advertiu severamente: “Qualquer, porém, que blasfemar contra o ESPÍRITO SANTO, 
nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo” (Mt 12.32; Mc 3.29; Lc 12.10). No texto de Marcos, 
depreende-se que blasfemar contra o ESPÍRITO de DEUS é o mesmo que atribuir a Satanás a obra de CRISTO. Como 
vemos, a Epístola aos Hebreus apenas corrobora o que JESUS já ensinara anteriormente.
b) O pecado imperdoável não é a simples incredulidade. O incrédulo de fato, se não aceitar a CRISTO, está 
condenado (Jo 3.18). No caso em questão, não se trata de um incrédulo qualquer, mas de alguém que já teve amplo conhecimento da verdade. O ESPÍRITO SANTO é que tem o poder de convencer o pecador de seus pecados (Jo 16.8). Se o miserável o despreza e lhe faz agravo, não há mais esperança para o tal.
c) Arrependimento impossível. No estudo referente ao capítulo 6 de Hebreus, já aprendemos que se torna 
impossível a renovação para arrependimento daqueles que “uma vez foram iluminados”; “provaram o dom celestial”; “se fizeram participantes do ESPÍRITO SANTO”; “provaram a boa palavra de DEUS, e as virtudes do século futuro” (vv.5,6). Qual a razão de tal impossibilidade? A resposta está claramente estampada no texto: por que “de novo crucificaram o Filho de DEUS, e o expõem ao vitupério”. Mais uma vez constatamos que o pecado imperdoável não é cometido por um desobediente desavisado qualquer; não se trata de pecado por ignorância. 

III. O JUÍZO DE DEUS É SEVERO E TOTAL


1. “Horrenda coisa é cair nas mãos do DEUS vivo”. Essa advertência nos mostra o quanto DEUS é severo em seu juízo: nenhum suborno poderá alterar seus propósitos; nem fama, nem riquezas e nem vantagens terrenas de qualquer espécie farão qualquer diferença no juízo celestial.
2. Lembrando dos dias passados (v.32). Aqui a admoestação aos destinatários da Epístola é para que se 
lembrem “dos dias passados”, nos quais eles deram seu testemunho diante de seus perseguidores. Aqueles crentes compadeceram-se dos que foram presos e perderam bens, sabendo que teriam “nos céus uma possessão melhor e permanente” (vv.33,34).

CONCLUSÃO

A apostasia, o abandono deliberado da fé em CRISTO, é algo de indescritível gravidade espiritual. Se rejeitarmos o sacrifício de CRISTO como paga pelos nossos pecados, nenhuma outra provisão haverá para a nossa salvação (v.26). O relativismo religioso e o secularismo que debilitam a igreja, afrouxando as regras e os limites entre o santo e o profano, constituem um sinal de alerta a todos nós. Não rejeitemos a CRISTO! 
Subsídio Bibliológico

“Aviso contra a apostasia. O pecado voluntário que ameaçava os hebreus consistia em abandonar o 
Cristianismo e voltar ao judaísmo. Não há nenhum sacrifício em favor dos que apostatam da fé em CRISTO — pela 
alma do homem só existe um único sacrifício, o de CRISTO (v.26). Ora, se o sacrifício de CRISTO é definitivo, 
também é o último. Rejeitá-lo voluntariamente implica “uma certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo” 
(v.27). O autor não limita a eficácia da obra de CRISTO em favor do penitente. Essa passagem deve ser 
estudada em conjunto com o capítulo 6.4-8.
Sob a Antiga Aliança, quem desprezasse a Lei de Moisés era punido com a morte (v.28). O mesmo princípio está 
em vigência, e com maior rigor ainda para quem apostatar da fé, pois constitui afronta a CRISTO, à eficácia do 
seu sangue e um insulto ao ESPÍRITO SANTO, através de quem a graça de DEUS se manifesta. Sobre os tais pesa 
o juízo de DEUS, do qual ninguém pode escapar (vv.29-31).” (Comentário Bíblico — Hebreus, CPAD, pág. 156.)

Subsídio Teológico

“Se pecarmos voluntariamente (Hb 10.26). O escritor de Hebreus volta a advertir seus leitores sobre o caso de 
abandonar a CRISTO, como fizeram em 6.4-8.
“Pisar o Filho de DEUS (Hb 10.29). Continuar a pecar deliberadamente depois de termos recebido o 
conhecimento da verdade (v.26) é: (1) tornar-se culpado de pisar JESUS CRISTO, tratá-lo com desprezo e 
menosprezar sua vida e morte; (2) ter o sangue de CRISTO como indigno da nossa lealdade; e (3) insultar o 
ESPÍRITO SANTO e rebelar-se contra Ele, o qual comunica a graça de DEUS ao nosso coração.
“O justo viverá da fé (Hb 10. 38). Este princípio fundamental, afirmado quatro vezes nas Escrituras (Hc 2.4; Rm 
1.7; Gl 3.11; Hb 10.38), governa o nosso relacionamento com DEUS e a nossa participação na salvação provida 
por JESUS CRISTO. (1) Esta verdade fundamental afirma que os justos obterão a vida eterna por se aproximarem 
fielmente de DEUS com um coração sincero e crente (ver 10.22). (2) Quanto aquele que abandona a CRISTO e 
deliberadamente continua pecando, DEUS “não tem prazer nele” e incorrerá na condenação eterna (vv.38,39).” 
(Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, pág. 1915.)

QUESTIONÁRIO:
1. No texto, qual o significado de apostasia?
R. Afastar-se deliberadamente da fé.
2. Por que, na lição, se diz que só resta uma expectação horrível para quem apostata da fé?
R. Por não haver mais sacrifício pelo pecado.
3. O que significa profanar o sangue do testamento?
R. É considerar o sangue de JESUS comum, sem nenhum valor sagrado.
4. Segundo Marcos, em que consiste a blasfêmia contra o ESPÍRITO SANTO?
R. É atribuir a Satanás a obra de CRISTO.
5. O que aguarda nos céus os crentes que perderam seus bens por amor a JESUS?
R. “Uma possessão melhor e permanente”.
LIÇÃO 12 - OS ELEMENTOS ESSENCIAIS DA FÉ:
 
TEXTO ÁUREO:
“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não vêem” 
(Hb 11.1).
 
VERDADE PRÁTICA:
A fé dá ao crente a certeza daquilo que ele espera, segundo a Palavra de DEUS, fazendo-o ver o invisível, 
contrariar a lógica, e superar os limites das fraquezas humanas.
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Rm 8.25 Esperando o que não vê
Terça Hc 2.4 O justo viverá da fé
Quarta Mt 6.30 Pequena fé
Quinta Mt 9.22 Fé que salva
Sexta Mt 15.28 Grande fé
Sábado Mt 21.21 Fé que remove montanhas
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:
HEBREUS 11.1-6 
1 Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não vêem.
2 Porque, por ela, os antigos alcançaram testemunho. 3 Pela fé, entendemos que os mundos, pela palavra de DEUS, foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.
4 Pela fé, Abel ofereceu a DEUS maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando DEUS testemunho dos seus dons, e, por ela, depois de morto, ainda fala. 5 Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte e não foi achado, porque DEUS o trasladara, visto como, antes da sua trasladação, alcançou testemunho de que agradara a DEUS.
6 Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de DEUS creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam.
 
PONTO DE CONTATO:
Na lição passada, vimos o perigo da apostasia e suas conseqüências. Nesta lição, estudaremos a base da vida cristã: a fé. Querendo apresentar uma parte da história antiga para demonstrar a eficiência da fé, o escritor aos hebreus principia seu relato dizendo que a própria criação do universo é uma ilustração da fé. “Pela fé entendemos que os mundos, pela palavra de DEUS, foram criados” (v.3) A fé se baseia na Palavra de DEUS. Esta palavra consiste num poder invisível que produziu do invisível o universo, de maneira que o visível vio a existir das coisas que não aparecem. 
CARACTERÍSTICAS
PERSONAGENS
Fé caracterizada pela obediência irrestrita ao Senhor 
Abraão
Recebeu uma revelação especial de DEUS relativa ao dilúvio
Noé
Agradou a DEUS por seu andar espiritual diante dEle
Enoque
Aos olhos de DEUS seu sacrifício teve maior valor
Abel
 
OBJETIVOS:
Ao término da aula seu aluno deverá estar apto a: 

Nomear os elementos que definem a fé.
Listar quatro heróis da fé mencionados nesta lição.
Estimar uma vida de fé ante as dificuldades da carreira cristã.
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA:
Trace uma linha no quadro de giz, dividindo seu espaço em duas partes. De um lado relacione as principais características dos heróis da fé descritas no cap. 11 da epístola em estudo (sem citar o nome do personagem). Do outro relacione os nomes das personagens, porém, fora da ordem especificada no texto. Esta atividade consiste em fazer os alunos identificarem as personagens tendo em vista suas características relacionadas à fé. 

Observe o quadro anterior. 
INTRODUÇÃO
Nesta lição, estudaremos um dos assuntos mais palpitantes da Bíblia: a Fé. Esta palavra tão pequena encerra em si grande conteúdo para os que de DEUS se aproximam. Sem ela não existiria a Igreja, não haveria salvos, esperança de vida futura, não poderíamos esperar um mundo melhor nem creríamos na Segunda Vinda de CRISTO. É por meio da fé que recebemos as bênçãos de DEUS. Esta preciosa e santíssima fé vem-nos através de CRISTO, para que ninguém tenha de que se gloriar (Hb 12.2).
I. CONCEITO DE FÉ
O escritor sacro não pretendeu simplesmente definir a fé, mas sim descrevê-la como elemento fundamental da vida cristã.
1. O firme fundamento.
Fundamento aqui significa muito mais que a mera certeza humana, fruto da lógica, ou do exercício da futurologia. Na visão cristã, tem o sentido de certeza inabalável, ou seja, temos convicção de que servimos a um DEUS onipotente, onisciente e onipresente, que vela por sua Palavra para a cumprir (cf. Jr 1.12; Is 43.13). Significa também certeza absoluta a respeito da nossa salvação. Ver 1 Jo 3.2. Assim, a certeza é o primeiro elemento essencial da verdadeira fé, isto é, “a fé que é por Ele” (At 3.16).
2. Das coisas que se esperam.
“A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam...”. O segundo elemento essencial da fé é a esperança. Esta é consubstanciada na forte convicção de que aquilo que se espera da parte de DEUS há de acontecer sempre, independente das circunstâncias. Abraão creu que teria um filho segundo a promessa divina, fruto de sua união com Sara, mesmo quando a lógica humana dissesse o contrário. 
3. A prova das coisas que não se vêem.
A “prova” tem o significado de “convicção”, que é o terceiro elemento da fé. Aqui temos um ponto muito importante a considerar. Pessoas há que manipulam este texto para justificar a prática mística do que eles chamam de visualização mental para obtenção do que se deseja. Nesse meio estão certas ramificações da Confissão Positiva. Tal prática não tem apoio nas Escrituras Sagradas. No contexto do capítulo 11 de Hebreus, “as coisas que não se vêem” são as coisas de DEUS, “os bens futuros” (Hb 9.11), “as melhores promessas” (Hb 8.6). Isso porque tais “coisas” foram prometidas por DEUS em sua Palavra, e esta não pode falhar em nenhuma hipótese. Há “crentes” que, iludidos pelo seu próprio coração, asseveram que podem aplicar esse texto (v.1) a qualquer coisa. Por exemplo: “eu creio que DEUS vai me dar um carro novo, e uma bela casa”. Ora, isso é um desejo, mas não uma promessa de DEUS. Pode tornar-se real ou não. É algo condicional e circunstancial.

II. EXEMPLOS MARCANTES DE FÉ
1. Abel.
Foi exemplo de fé sacrificial. A Bíblia não diz em Gênesis 4 por que DEUS aceitou seu sacrifício e não o de seu irmão, o homicida Caim. Mas em Hebreus 11.4 podemos constatar o final da história: enquanto a oferta de Abel foi movida pela fé em DEUS (ver Jd v.11), Caim trilhou seu “caminho” sem fé. A idéia de que a oferta de Abel foi aceita por tratar-se de oferta com sangue (apontava para o sacrifício de 
CRISTO) apesar de correta, é parcial, uma vez que a oblação de Caim, mesmo sendo de vegetais, também seria aceita por ser produto do seu trabalho como lavrador (Gn 4.3; ver v.7). Caim tinha má índole; era iracundo e “suas obras eram más” (1 Jo 3.12), por essas razões suas ofertas não foram aceitas pelo Senhor. 
2. Enoque.
Exemplo de fé agradável. O pouco que a Bíblia fala sobre esse homem de DEUS encerra a grandeza de seu caráter e de sua fé: “E andou Enoque com DEUS; e não se viu mais, porquanto DEUS para si o tomou” (Gn 5.24). Se ele “andou com DEUS”, ou seja, viveu em íntima comunhão com o Eterno e no centro da sua vontade, diante da extrema incredulidade de seu tempo, foi porque tinha uma fé viva, que via o mundo melhor. Por isso, ainda na terra, antes da sua trasladação, “alcançou testemunho de que agradara a DEUS”. Sem fé não agradamos a DEUS (Hb 11.6). 
3. Noé.
Exemplo de fé obediente e justa. Nunca ouvira falar de dilúvio, todavia, “divinamente avisado das coisas que não se viam, temeu” e obedeceu, preparando uma arca “para salvação da sua família”. Noé foi o primeiro homem na Bíblia a ser chamado justo. Isso nos traz uma lição de extremo valor: o homem de fé precisa ser justo diante de DEUS e dos homens.
4. Abraão.
É considerado o pai da fé provada. Quando foi chamado por DEUS, sequer imaginava para onde iria (v.8). Passou anos habitando em tendas, peregrinando “como em terra alheia” (v.9) e recebeu a promessa de que seria “uma grande nação” (Gn 12.2). O Todo-Poderoso mandou que ele olhasse para os céus e contasse as estrelas, se pudesse, dizendo que assim seria sua semente: “e creu ele no Senhor e foi-lhe imputado isto por justiça”. Mais tarde DEUS pediu-lhe em sacrifício seu único filho, Isaque. Sem relutar, o grande patriarca obedeceu piamente a voz do Altíssimo, crendo “que DEUS era poderoso para até dos mortos o ressuscitar” (v.17,18). O DEUS de Abraão é o nosso DEUS. Ele é fiel em cumprir sua palavra (cf.Jr 1.12).

III. VIRAM AS PROMESSAS DE LONGE
1. Todos estes morreram na fé.
Após destacar os quatro primeiros heróis da fé, o escritor declara que eles morreram na fé, “sem terem recebido as promessas, mas, vendo-as de longe...”. Como Paulo, combateram o bom combate, acabaram a carreira e guardaram a fé (2 Tm 4.7). 
2. Viram as promessas de longe.
Era a fé fazendo-os olhar para o horizonte ao longe, sem chegar lá, porém contemplando o cumprimento das promessas. Certamente eles usufruíam a salvação em CRISTO porque criam na vida eterna, na entrada nos céus, na vitória sobre o mal e, sobretudo, no reinado eterno de DEUS.
3. Crendo nas promessas, abraçando-as e confessando-as (v.13).
A fé daqueles homens era tão forte e poderosa que, mesmo sem verem o cumprimento das promessas de DEUS, nelas creram e as abraçaram (cf. v.1). Eles consideravam-se “estrangeiros e peregrinos na terra”, porque esperavam uma pátria melhor, definitiva, no futuro, sendo aclamados por DEUS, “porque já lhes preparou uma cidade” (vv.13-16).

IV. HOMENS DOS QUAIS O MUNDO NÃO ERA DIGNO
Na última parte do texto em estudo, a Palavra de DEUS fala de forma comovente sobre dois tipos de heróis da fé. São eles:
1. Os lutadores. As Escrituras apresentam vários exemplos de lutadores. Eles “venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, neutralizaram a força do fogo, escaparam do fio da espada”, tudo isso pela fé no Todo-Poderoso. 
2. Os martirizados. Foram os que, na luta pela fé, foram açoitados, apedrejados, presos, aflitos, torturados e mortos: “não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição” (vv.35-37). A história da Igreja registra outros grandiosos exemplos de fé e coragem entre os mártires do cristianismo.
3. Foram homens “dos quais o mundo não era digno”. O “mundo” que não é digno dos homens de DEUS é aquele que se opõe ao bem, e que dificulta a inquirição espiritual. Foi para esse mundo que JESUS apontou ao falar sobre a inevitabilidade das perseguições: “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim” (Jo 15.18). 
Os homens dos quais o mundo não era digno viram de longe as promessas, mas não as alcançaram, “provendo DEUS alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (vv.39,40). 

CONCLUSÃO
Hoje para muitos, principalmente crianças e adolescentes que não conhecem a DEUS, os heróis são os ídolos humanos ou virtuais da TV e do cinema. Esses não passam de falsos ídolos e heróis que desencaminham seus admiradores para o mal. Contudo, a Bíblia nos inspira fé e perseverança, necessárias para que confiemos nas promessas de DEUS. Ela nos mostra em suas páginas a vida de homens e mulheres, crianças e adolescentes, jovens e adultos, que nos legaram exemplos extraordinários da verdadeira fé em DEUS.
 
Subsídio Bibliológico
“Encorajamento palas vitórias da fé (Cap.11). O autor, neste capítulo, destaca a fé como sendo a grande característica e o denominador comum do verdadeiro povo de DEUS em todos os tempos (cf. 10.38,39). Ele 
menciona detalhadamente os heróis da fé que viviam sob a antiga aliança e cujos exemplos nos incentivam a sermos leais a DEUS, hoje.
O versículo 1 é muitas vezes citado como uma definição de fé, porém, na realidade é mais uma explicação das características da fé. Em poucas palavras, a fé é simplesmente confiança em DEUS e sua palavra (cf. Rm 10.17). Parafraseando o versículo, poderíamos dizer: “A fé significa que somos confiantes; temos a certeza (algo que serve de base ou apoio a qualquer coisa, como um alicerce, um fundamento, uma promessa ou um contrato) daquilo quer esperamos receber, a convicção da realidade das coisas invisíveis”.
Foi com essa atitude de fé que, naquele tempo, os heróis enfrentaram o futuro e aprenderam as coisas invisíveis. Os antigos alcançaram testemunho e o próprio DEUS também testificou da fé que possuíam, a qual 
superou todos os obstáculos, sendo seus feitos registrados na Bíblia como homens de fé (v.2). A crença em DEUS como Criador de todas as coisas do universo é imprescindível para a vida de fé, qualquer que 
seja sua manifestação (v.3). ‘Por isso, em primeiro lugar, o autor declara essa ação primária da fé, pela qual chegamos à plena certeza de que o mundo — a História e as eras — não resultou do acaso; é uma resposta à expressão da vontade de DEUS’ (Westcott).” (Comentário Bíblico — Hebreus, CPAD, pág. 158.)
“Creia que ele existe (Hb 11.6). Este versículo descreve as convicções integrantes da fé salvífica. (1) devemos crer na existência de um DEUS pessoal, infinito e santo, que tem cuidado de nós. (2) Devemos crer que Ele nos galardoará quando o buscarmos com sinceridade, sabendo que nosso maior galardão é a alegria e a presença do próprio DEUS. Ele é nosso escudo e nossa grande recompensa (Gn 15.1; Dt 4.29; Mt 7.7,8 nota; Jo 14.21). (3) Devemos buscar a DEUS com diligência e desejar ansiosamente a sua presença e graça.” (Bíblia de Estudo 
Pentecostal, CPAD, pág. 1916.)
QUESTIONÁRIO:
1. Que significado tem a expressão “firme fundamento”, em relação a fé?
R.”A certeza”, significando muito mais que a mera convicção humana, fruto da lógica, ou do exercício da 
futurologia.
2. Quais os três elementos essenciais da fé, segundo a lição?
R. A certeza, a esperança e a prova (convicção).
3. Quem é considerado o “pai na fé” dos que crêem?
R. Abraão.
4. Por que os heróis da fé consideravam-se “estrangeiros e peregrinos na terra”?
R. Porque esperavam uma pátria melhor. 
5. Por que os heróis da fé não alcançaram as promessas?
R. “Para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados”. 
 
LIÇÃO 13 - PERSEVERANÇA NA FÉ E NA SANTIDADE:
 
TEXTO ÁUREO:
“Portanto, nós também, pois, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo 
embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta” (Hb 12.1).
 
VERDADE PRÁTICA:
A vitória na vida cristã é para os que correm com paciência rumo ao encontro final com CRISTO nos céus.
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Mt 10.22 Perseverando até o fim
Terça  Cl 4.2 Perseverando na oração
Quarta Rm 12.13 Ajudando aos santos
Quinta 1 Co 7.14 Santificação conjugal
Sexta Jo 15.9 Permanecendo no amor
Sábado 2 Co 13.13  A graça, o amor e a comunhão
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - HEBREUS 12.1,2, 6-8, 12,13 
1 Portanto, nós também, pois, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta, 2 olhando para JESUS, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de DEUS.
12 Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados,13 e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja se não desvie inteiramente; antes, seja sarado.
PONTO DE CONTATO:
Depois de apresentar os homens de fé e a vitória que eles alcançaram, o escritor aos hebreus volta e dirigi-se aos seus leitores para estimulá-los a percorrer o mesmo caminho. Tanto os antigos crentes como nós somos aperfeiçoados em CRISTO. Eles alcançaram esta posição por sua fé apesar de sofrerem tantas provações. Nós, igualmente, devemos ter uma fé ativa, despojando-nos de todo o embaraço e do pecado que nos assedia, para corrermos com perseverança a carreira que nos foi proposta.
OBJETIVOS:
Identificar o pecado e o embaraço como elementos que podem atrapalhar a vida cristã.
Afirmar que a vida cristã é parecida com uma maratona.
Reconhecer que a vida de santificação é a vontade de DEUS para as nossas vidas.
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA:
Introduza sua aula com a seguinte pergunta: Que tipo de corredor deve ter maior resistência: o de uma corrida de cem metros ou o de uma maratona? Aguarde, por algum tempo, a resposta. Certamente responderão que o corredor de maior resistência é o que se dispõe a correr uma maratona. Informe-lhes que tais corredores, para chegarem ao final, precisam de muita resistência e paciência durante o percurso. Da mesma forma é a carreira cristã. Ela não é feita de rápidas corridas, mas de uma longa corrida de fé, paciência e persistência para não perder o rumo do “prêmio”. Não esqueça de dizer-lhes que os vencedores em DEUS são os que completam a corrida, e não apenas os que chegam em primeiro lugar.
INTRODUÇÃO
Os dois últimos capítulos de Hebreus encerram a epístola com exortações e orientações aos crentes sobre como perseverar na fé e na doutrina, com disciplina, amor e santidade. Estes temas atualmente são desprezados em muitos lugares, por causa do “vírus” do relativismo. Mas a Palavra de DEUS é como um “martelo que esmiuça a penha” (Jr 23.29), e dissipa os “ventos” contrários a sã doutrina, fortalecendo e edificando os que hão de concluir a carreira cristã.
I. A CARREIRA COM PACIÊNCIA
1. Uma nuvem de testemunhas (v.1).
O escritor nos leva a outros aspectos da vida cristã, ressaltando que estamos rodeados de “uma tão grande nuvem de testemunhas”. Quem são essas testemunhas? Pelo contexto entendemos que aqueles são heróis diante do Todo-poderoso que testemunham a sua fidelidade. Aqui, a palavra testemunha, originalmente martys, denota a experiência dos antepassados da fé. Por outro lado, podemos dizer que em nossa carreira cristã estamos sendo observados por muitas testemunhas. Umas visíveis: os homens, crentes e descrentes; outras, invisíveis: os anjos e os demônios. (Ver Sl 34.7; Hb 1.13,14; 1 Pe 5.8.) Diante dessa realidade devemos ter muito cuidado com o nosso comportamento.
2. Deixando o pecado e o embaraço (v.2).
Somos exortados a deixar “todo o embaraço e o pecado que tão de 
perto nos rodeia”. O embaraço certamente não é pecado, mas pode tornar-se num impedimento, ou num atraso à nossa vida e carreira espiritual, e aí sim, conduzir-nos ao pecado. Um crente embaraçado é facilmente atingido pelo Diabo. A televisão, por exemplo, mesmo transmitindo programas de cunho informativo ou cultural, 
pode embaraçar o crente se este deixar de ir à casa de DEUS para prostrar-se diante dela. Há crentes que se 
embaraçam com dívidas, amizades, esportes, lazer, etc. Ademais disso, não podemos esquecer que a Bíblia nos 
manda remir o tempo (Ef 5.15,16).
3. Correndo com paciência.
Aqui o escritor toma uma figura de linguagem emprestada, provavelmente dos jogos olímpicos, para comparar a vida cristã a uma maratona. Numa corrida, é necessário ter paciência para se alcançar a chegada (cf. Hb 10.36). No caso da fé, a carreira não é escolhida pelo cristão, e sim proposta por DEUS. O crente precisa correr e chegar ao final vitorioso. Para que isso aconteça só existe um segredo segundo as Escrituras: perseverança e paciência (Rm 5.3-5).
4. Olhando para JESUS (v.2).
Numa corrida de resistência, o atleta precisa olhar para frente, caso contrário, poderá perder o tempo e o rumo. Na vida cristã, mais ainda, o crente não pode perder de vista o alvo, JESUS. Ele é o autor e também o consumador de nossa fé. Deu-nos o exemplo, suportando a cruz, desprezando a afronta, até assentar-se à direita de DEUS, “pelo gozo que lhe estava proposto”. A historia da Igreja está cheia de exemplos de homens e mulheres, que corajosamente desprezaram os prazeres e as glórias do mundo por amor a CRISTO. 
5. A correção com amor (vv.3-11).
Nesta primeira parte do texto, o escritor exorta os crentes hebreus à perseverança, dizendo que ainda não haviam resistido “até o sangue no combate contra o pecado” (v.4). 
Parece que o escritor tinha em mente que seus destinatários poderiam ignorar um pouco da Palavra de DEUS, e cita Provérbios 3.11-12, onde a Palavra de DEUS anima os crentes a não se esquecerem da exortação do Pai, e a não desanimarem ao serem repreendidos. 
No v.6, o autor diz que se alguém está sem disciplina não é filho, mas bastardo, ou filho ilegítimo (vv.7,8). E conclui falando do valor da correção: “porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que o recebe por filho” (vv.10,11). Trata-se da correção com amor. 

II. EXORTAÇÃO À SANTIFICAÇÃO
1. Levantando as mãos cansadas (v.12).
Na vida cristã, pode haver momentos de cansaço e esgotamento espiritual. Mas existe um remédio para isso: Os que estão firmes pela graça de DEUS, ao invés de dificultarem ainda mais a caminhada dos mais fracos, devem ajudá-los a levantarem-se (cf. Jó 4.3; Is 35.3). E, DEUS tem o poder necessário para nos renovar e restaurar (Is 40.29-31).
2. Seguindo a paz e a santificação.
Santidade é o estado de quem se destaca pela pureza. San-tificação é a prática. E só é possível através da Palavra de DEUS e mediante o sangue de CRISTO (Jo 17.17; 1 Jo 1.7). A santificação é a salvação em andamento, em processo. A doutrina equivocada de que “uma vez salvo para sempre salvo” não passa de falácia, para justificar a pretensiosa doutrina da predestinação absoluta, segundo a qual uns nascem “carimbados” como “salvos” e outros como “perdidos”. Uma vez salvo, o cristão precisa fazer sua parte: separar-se do mundo e dedicar-se totalmente ao serviço do Reino de DEUS. 

CONCLUSÃO
Temos uma carreira a percorrer pacientemente, mas esta deve ser livre de embaraços, pois eles, mesmo não sendo o pecado, podem conduzir-nos a ele. Que possamos concluir esta carreira como santos filhos de DEUS, e receber do nosso Pai o galardão reservado a cada um de nós.
Subsídio Teológico
“‘A carreira que nos está proposta’. Esta corrida é o teste neste mundo, que dura a vida inteira (10.23,38; 12.25;13.13).
(1) A corrida deve ser efetuada com “paciencia” (gr. hupomone) ou seja, com perseverança e constância (cf. 10.36; Fp 3.12-14). O caminho da vitória é o mesmo que o dos santos no capítulo 11 — esforçando-se para chegar até ao fim (cf. 6.11,12; 12.1-4; Lc 21.19; 1 Co 9.24,25; Fp 3.11-14; Ap 3.21).
(2) Na corrida, devemos deixar de lado os pecados que nos atrapalham ou que nos fazem ficar para trás (v.1) e fixarmos os olhos, nossas vidas e nossos corações em JESUS e no exemplo que Ele nos legou na terra, de obediência perseverante (vv.1-4).
(3) Na corrida, devemos estar conscientes de que o maior perigo que nos confronta é a tentação de ceder ao pecado (vv.1,4), de voltar àquela pátria de onde haviam saído (11.15; Tg 1.12), e de nos tornar, de novo, 
cidadãos do mundo (Mc 11.13; Tg 4.4; 1 Jo 2.15; ver Hb 11.10).” (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, pág.1918)
“Portanto, tal como a CRISTO, há uma carreira proposta ao povo de DEUS, um alvo as ser alcançado, um caminho a ser percorrido. JESUS CRISTO é o príncipe, o Líder e o Aperfeiçoador da fé. AquEle que não se embaraçou com as coisas materiais desta vida, pois contemplava a eternidade, sabendo discernir o valor das coisas que não se viam. Tal deve ser a nossa paciência. A luta de CRISTO foi até a morte, e Ele a venceu. Animados por seu exemplo, podemos fazer o mesmo”. (Comentário Bíblico Hebreus, CPAD, p.167.)
 
QUESTIONÁRIO:
1. O que é embaraço, na lição?
R. Algo que dificulta o caminhar, e que pode levar ao pecado.
2. A que o escritor compara a vida cristã?
R. A uma carreira de resistência ou uma maratona. 
3. Para quem o crente deve olhar durante a sua carreira? 
R. Para JESUS 
4. Se alguém está sem disciplina, a que é comparado?
R. A um bastardo ou filho ilegítimo.
5. Segundo Hb 12.14, o que devemos seguir?
R. A paz com todos e a santificação.
 
LIÇÃO 14 - EVIDÊNCIAS DA VIDA CRISTÃ
 
TEXTO ÁUREO:
“E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios DEUS se agrada” (Hb 13.16).
VERDADE PRÁTICA:
A vida cristã não será completa se não for vivida com obediência, amor e submissão.
LEITURA DIÁRIA:
Segunda Hb 13.3 Lembrando dos presos
Terça  Hb 13.7 Lembrando dos pastores
Quarta Hb 13.4 O casamento na ótica de DEUS
Quinta Hb 13.8 O DEUS que não muda
Sexta Hb 13.9 Firmeza na Palavra
Sábado Hb 13.17 Obedecendo aos pastores
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - HEBREUS 13.1-3, 7, 17, 20-22 
1 Permaneça a caridade fraternal.2 Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram anjos.3 Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo.
7 Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de DEUS, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver.
17 Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.
20 Ora, o DEUS de paz, que pelo sangue do concerto eterno tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor JESUS CRISTO, grande Pastor das ovelhas,21 vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por CRISTO JESUS, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém! 22 Rogo-vos, porém, irmãos, que suporteis a palavra desta exortação; porque abreviadamente vos escrevi.
PONTO DE CONTATO:
Certas virtudes são consideradas essenciais à vida cristã, tais como, amor, hospitalidade, pureza, compaixão, submissão, obediência, etc. O escritor da Epístola aos Hebreus admoestou seus leitores a observá-las. Devemos buscar com diligência tais qualidades, se pretendemos genuinamente servir a DEUS. Com certeza foi extremamente difícil para aqueles crentes hebreus, que passaram por severa pressão diária aplicar essas admoestações em suas vidas. Ora, se eles deviam obedecer a essas admoestações, quanto mais nós, que conhecemos tão pouco de perseguição e oposição.
OBJETIVOS:
Destacar o amor cristão e a hospitalidade como mandamentos divinos a serem praticados.
Valorizar o matrimônio como instituição ordenada por DEUS.
Estimar a obediência aos pastores.
ORIENTAÇÃO DIDÁTICA:
Para tornar a aula mais dinâmica e participativa, peça a seus alunos que tentem fazer um esboço do conteúdo da lição, diferente do apresentado na revista. Esse exercício é extremamente importante por ampliar-lhes a capacidade de síntese e compreensão do tema. O esquema facilita a assimilação do conteúdo e permite ao aluno refletir melhor sobre o texto em estudo. Observe o exemplo abaixo:

Evidências ou características da vida cristã:
I. Nossa conduta (13.1-6)
II. Nossa submissão (13.7-16)
III. Nossa obediência (13.17-25)
INTRODUÇÃO
Nesta última lição, veremos que a vida cristã tem características importantes que precisam ser evidenciadas em nosso cotidiano, principalmente no que diz respeito às relações interpessoais.

I. VIRTUDES RELEVANTES À VIDA CRISTÃ
1. O amor fraternal (v.1). Essa virtude é tão importante que representa a marca, ou distintivo, do verdadeiro discípulo (cf. Jo 13.34,35). Sem o amor fraternal de nada servem os dons ou a realização de boas obras (1 Co 13).Visto que nossos irmãos fazem parte da família de DEUS, devemos amá-los incondicionalmente; desprezá-los é o primeiro passo para quem desconsidera a CRISTO, nosso irmão mais velho.
2. A hospitalidade (v.2). A hospitalidade deve ser prestada não somente aos estranhos (v.2), mas também aos pobres (Lc 14.13), e até mesmo aos inimigos (Rm 12.20).
Na época em que foi escrita a Epístola aos Hebreus, muitos cristãos haviam perdido todos os seus bens em conseqüência da perseguição que lhes movia as autoridades constituídas. Neste aspecto, a hospitalidade trazia alento a esses servos de DEUS, e demonstrava que outros crentes poderiam servir ao Senhor abrindo suas casas para lhes servirem de abrigo. Entretanto, essa simpática atitude, principalmente em nossos dias, não deve ser confundida com a de hospedar qualquer pessoa sem conhecê-la ou saber de suas reais intenções. 
3. O valor do matrimônio (v.4). A expressão “venerado seja” nesse texto, denota elevado grau de respeito e consideração para com o matrimônio. Muitos desprezam o casamento para viverem uma vida desregrada, 
dissoluta e descompromissada. A vida cristã exige compromisso sério não apenas com DEUS e a igreja, mas também com a sociedade e a família; e esta última começa com o nosso cônjuge. Quaisquer comprometimentos sexuais ilícitos — a prostituição, o adultério — são duramente condenados por DEUS, e quem pratica tais coisas receberá dEle o justo juízo. DEUS quer que seus filhos tenham vida sexual ilibada, não apenas por causa do testemunho, mas também por sermos o templo do seu ESPÍRITO.
4. O valor da beneficência (vv.3 e 6). O escritor não se esqueceu da importância da beneficência cristã. Exortou aqueles crentes a que se lembrassem dos que estavam presos e dos maltratados como se estivessem no lugar deles. Um crente perseguido facilmente seria lembrado por seus irmãos, mas os que permaneciam presos por muito tempo poderiam ser esquecidos. Há muitas pessoas que são perseguidas e presas por causa de sua fé em CRISTO, como há também aquelas que cumprem pena por terem transgredido a lei dos homens. Mas tanto um como o outro não podem ser desprezados pela igreja do Senhor.

II. EXPRESSÕES DA FÉ: SUBMISSÃO E OBEDIÊNCIA
1. Submissão à liderança (vv.7 e 17).
O escritor adverte a seus leitores sobre a maneira correta de tratar os que pastoreiam o rebanho do Senhor: 
a) Lembrando-se deles e imitando-lhes a fé (13.7). É dever dos membros da igreja lembrarem-se de seus pastores em suas orações diárias e não apenas em épocas especiais como a data reservada à comemoração do “dia do pastor”. Os pastores são modelos que precisam ser imitados, pois homens de fé servem de exemplo e impulsionam outros homens a terem fé. 
b) Atentando para a sua maneira de viver (13.7). A vida de um pastor sempre será observada: sua integridade, piedade, amor a DEUS e a sua obra servirão de exemplo principalmente para os novos obreiros. Daí a grande responsabilidade do pastor. 
c) Obedecendo-lhes (13.17a). A lembrança e a atenção dadas aos pastores de nada valerão se não forem acompanhadas pela obediência aos mesmos. Eles são responsáveis por trazer mensagens, orar por nós, 
administrar a igreja, aconselhar, visitar, ter a família como exemplo e prestar contas a DEUS do rebanho que lhe foi confiado. Será que, com tantas responsabilidades, eles não merecem a obediência de suas ovelhas? “A obediência e a fidelidade aos líderes cristãos, aos pastores e mestres, deve basear-se numa superior lealdade a DEUS” (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD).
Hoje em dia, muitos obreiros são desrespeitados. E essa é a estratégia de Satanás para enfraquecer a liderança eclesiástica. Que possamos ter em alta estima aqueles a quem DEUS escolheu para zelar por nós.
2. Obediência a CRISTO. “...
JESUS CRISTO, grande pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade...” (vv.20,21). (Grifo nosso.) Isso significa que aquele que nos salvou continua a 
realizar sua obra em nós, tornando-nos sensíveis à sua vontade para que tudo quanto fizermos seja agradáve aos seus olhos. A obediência ao Senhor JESUS deve ocupar o primeiro lugar na vida cristã. 
3. Obediência à Palavra (v.22).
O escritor exorta-nos a “suportar a presente palavra”. “Tenham paciência comigo”, pede ele, “quanto partilho a Palavra com vocês. Aceitem-na com paciência e digiram-na, porque a 
carta não é muito comprida” Quando DEUS fala, como o fez por meio desta epístola, devemos ouvir e aplicar o que ouvimos.

CONCLUSÃO
O escritor conclui sua Epístola, desejando que o Senhor JESUS CRISTO, “o grande pastor das ovelhas” aperfeiçoe 
os crentes em toda a boa obra, operando o que lhe é agradável, e roga que aqueles crentes suportem a 
exortação” (vv.20-25). Que o Senhor nos ajude a entender e guardar os preciosos e santos ensinos que 
estudamos durante este trimestre.
Subsídio Bibliológico

“O amor entre os irmãos pode ser comparado à “vara” que segurava as tábuas recobertas de ouro do antigo Tabernáculo, servindo para dar unidade ao recinto em que se manifestava a divina presença. O amor do cristão para com o seu próximo é universal. Que esse amor continue sempre entre nós (v.1). Nesse tempo era uma necessidade que houvesse hospitalidade particular, devido à falta de hotéis. A hospitalidade não é necessariamente uma virtude cristã, mas de qualquer maneira, a sociedade cristã deve provê-la. (v.2). De modo prático, o cristão deve procurar socorrer quem precisa dele, seja tal necessidade resultado de 
perseguição ou decorrente das circunstâncias adversas da vida (v.3). Os avisos sobre o caráter sagrado do matrimônio eram especialmente oportunos, devido à facilidade do divórcio entre os judeus, uma vez sancionados pelos mestres da escola do grande rabino Hillel (Westcott). DEUS julgará e condenará as violações dos laços matrimoniais, quer dos solteiros que vivem em fornicação, quer dos casados que praticam o adultério, independente de qual seja a opinião tolerante da sociedade da época. Como é necessária essa mesma exortação para os dias atuais (v. 4).
Esta seção inicia com uma referência aos líderes da igreja (v.7) e assim também se encerra (v.17). Da primeira vez, o autor ordenara aos crentes reconhecerem com gratidão os seus pais na fé, os fundadores da igreja, que possivelmente já haviam falecido, procurando seguir-lhes o exemplo. Agora ele manda que obedeçam àqueles que estão atualmente na direção, seus pastores. Tais homens não eram aventureiros inescrupulosos, mas homens de DEUS, cônscios de sua responsabilidade pastoral perante DEUS e a igreja. Portanto, que não lhes causassem tristeza, comportando-se como ovelhas desgarradas, pois isso não lhes seria proveitoso”. (Comentário Bíblico, Hebreus, CPAD, págs. 170-174.)
QUESTIONÁRIO:
1. Porque o amor fraternal é importante?
R. É a marca ou distintivo do cristão.
2. Segundo a Bíblia, a hospitalidade é uma opção ou mandamento para o cristão?
R. Um mandamento.
3. Que termo a Bíblia usa para demonstrar qual deve ser a nossa visão sobre o casamento?
R. Venerado.
4. A submissão aos pastores é facultativa ou determinada por DEUS?
R. Determinada por DEUS.
5. O que devemos fazer ao ouvir a palavra de DEUS?
R. Obedecê-la.
 
Bibliografia
CD CPAD - LIÇÕES - 3º trimestre 2001 - www.cpad.com.br 
Comentários Pr.Elinaldo Renovato de Lima, Natal - RN
www.aleluia.com.br/ceb/rudimentos
http://www.tagnet.org/jesuskids 
 
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A CARTA AOS HEBREUS - Introdução e Comentário por DONALD GUTHRIE - SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA E ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO
CONTEÚDO Prefácio da Edição em Português...... 6 Prefácio do A utor...... 7 Abreviaturas Principais ..... 8 Bibliografia....Seleta...... 9 INTRODUÇÃO O enigma da carta...... 13 A carta na igreja primitiva ...... 14 Autoria..... 17 Os leitores...... 19 O destino ...... 23 D ata...... 25 O propósito da carta ..... 28 A situação histórica...... 35 A teologia da c a r ta...... 42 ANÁLISE..... 54 COMENTÁRIO...... 57
 
PREFÁCIO DO AUTOR
Há alguns livros no Novo Testamento que têm um certo fascínio, não por terem uma atração instantânea, mas, sim, porque são mais difíceis do que o normal. Para mim, a Epístola aos Hebreus se enquadra nesta categoria. Isto, por si só, poderia ter fornecido uma razão apropriada para não escrever um comentário sobre ela. Suas dificuldades, no entanto, oferecem um desafio que não pode ser levianamente deixado de lado. Se meu primeiro alvo tem sido esclarecer meu próprio entendimento, isto deve servir de encorajamento para o leitor. Estou, na realidade, convidando você a me acompanhar na exploração de um livro que contém muitos tesouros de sabedoria espiritual e de entendimento teológico. Minha esperança é que esta busca leve a tanto enriquecimento espiritual para o leitor quanto tem levado para o escritor. Não se promete com isto que todos os problemas foram resolvidos, nem que este comentário pode alegar ter feito explorações originais. Escrever um comentário é um pouco semelhante a um testemunho pessoal. Embora tenha profundas dívidas de gratidão para com tantos outros que me antecederam na tarefa, minha própria contribuição pode alegar singularidade somente pela razão de ser o resultado de um encontro entre o texto e minha própria experiência de estudo do Novo Testamento e da vida cristã. DONALD GUTHRIE
 
INTRODUÇÃO
I. O ENIGMA DA CARTA
Por várias razões, este livro apresenta mais problemas do que qualquer outro livro do Novo Testamento. Há muitas perguntas que o investigador forçosamente tem de fazer, mas que não podem ser respondidas de modo satisfatório. Quem o escreveu? Quais foram os leitores originais? Qual foi a ocasião histórica exata em que foi escrito? Qual foi a data da escrita? Qual era a influência predominante por detrás da apresentação? Estas são algumas das perguntas para as quais nenhuma resposta conclusiva pode ser dada, embora algumas não sejam tão enganadoras quanto outras. O que é da maior importância para o comentarista descobrir é a mensagem e relevância atuais da carta, mas ele só pode fazer isso depois de ter investigado o pano de fundo histórico. Alguma tentativa deve ser feita, portanto, no sentido de responder às perguntas acima, ainda que seja apenas para fornecer algum arcabouço dentro do qual se possa empreender a tarefa de compreender a mensagem. Não se pode negar que a direção geral do argumento da carta mostrase difícil para o leitor. Isto é principalmente porque a seqüência do pensamento está revestida de linguagem e alusões tiradas do fundo histórico cultual do Antigo Testamento. O sacerdócio de CRISTO está diretamente ligado à antiga ordem levítica, mas visa claramente substituí-la. Mais do que a maioria dos livros do Novo Testamento, Hebreus exige explicações pormenorizadas da relevância das alusões ao seu fundo histórico. Esta é a tarefa principal do comentarista. Respondendo à pergunta, “Por que um livro tão difícil é incluído no Novo Testamento?” : é que trata daquela que deve ser considerada a pergunta mais importante que confronta constantemente o homem, i.é: como podemos nos aproximar de DEUS? É por causa da contribuição significante de Hebreus a este problema sempre presente que compensa o esforço necessário para esclarecer sua mensagem e expressá-la em termos contemporâneos.
 
II. A CARTA NA IGREJA PRIMITIVA
Iniciaremos olhando a maneira dos cristãos primitivos considerarem esta carta porque isto nos capacitará a seguir os passos pelos quais veio a se tomar parte do Novo Testamento. Mostrará, também, que até mesmo a igreja primitiva tinha algumas dificuldades por causa dela. No mais antigo dos escritos patrísticos que tem sido conservado, i.é, a carta de Clemente de Roma à igreja de Corinto (c. de 95 d.C.), há um paralelo notável (1 Ciem. 36.1-2; cf. Hb 1.3ss.), juntamente com uns poucos outros paralelos. A seguinte seleção de 1 Clemente 36 ilustrará este fato. Escreve acerca de CRISTO: “Ele, que é o resplendor da sua majestade, é tão superior aos anjos, quanto herdou mais excelente nome [cf. Hb. 1.3- 4], Porque está escrito assim: “Aquele que a seus anjos faz ventos, e a seus ministros, labareda de fogo” [cf. Hb. 1.7]. Mas acerca do Filho o Senhor disse assim: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” [cf. Hb 1.5] ... E, outra vez, diz-lhe: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés” [cf. Hb 1.13].” 1 Pareceria uma dedução razoável que Clemente tinha conhecimento de Hebreus, embora isto não tenha- passado sem ser questionado. A opinião alternativa, de que Hebreus citou 1 Clemente levanta dificuldades em demasia para ser considerada. A via media proposta, de que ambos usaram as mesmas fontes não pode atrair muito mais apoio, porque nenhuma evidência pode ser produzida para tais fontes hipotéticas, e, na ausência de evidências, deve ser considerada uma teoria insatisfatória. A conclusão de que Clemente deve ter conhecido Hebreus tem conseqüências importantes para a avaliação da data da Epístola e para um reconhecimento da sua autoridade antiga. Deve ser notado, também, que nos trechos que são virtualmente citações da carta, Clemente não menciona o autor. Em si só, isto não seria especialmente relevante, visto que Clemente cita outros livros neotestamentários (e.g. as Epístolas paulinas) sem mencionar o autor. É provável que Hebreus tenha agradado especialmente a Clemente, que descreve o ministério cristão em termos do sacerdócio arônico,2 embora adote uma abordagem bem diferente do escritor desta carta. Esta dependência antiga de Clemente de nossa Epístola é tanto mais notável por causa do período subseqüente em que parece ter sido negligenciada pelas igrejas no Ocidente. Não foi até o fim do século IV que recebeu, entre aquelas igrejas, a honra que lhe cabia. Hebreus não estava incluído entre os livros autorizados por Márciom, cuja coletânea alegava representar o ensino do Apostolikon, i.é, o apóstolo Paulo. Márciom, no entanto, quase certamente teria rejeitado Hebreus por causa da sua forte dependência do Antigo Testamento, o qual rejeitava categoricamente. O Cânon Muratoriano, que contém uma lista de livros que, segundo se pensa, representa o cânon da igreja em Roma perto do fim do século II, não contém referência alguma a Hebreus, embora inclua todas as cartas de Paulo, citadas pelos seus nomes. É possível que o texto da lista esteja deturpado e que alguma parte dela tenha sido omitida. Apesar disto, é estranho que nenhum apoio específico para a Epístola tenha sido conservado durante este período primitivo. Com a virada do século II, mais evidências em prol do uso de Hebreus são achadas na igreja ocidental, embora houvesse diferença de opinião quanto à sua origem. Clemente de Alexandria cita seu mestre “o bendito presbítero” (Panteno) como alguém que defendia a autoria paulina desta carta. Explicou a ausência de um nome pessoal no texto da carta pela razão de que o próprio JESUS era o apóstolo do Onipotente aos Hebreus, e que, portanto, por humildade, Paulo não teria escrito aos Hebreus da mesma maneira que escrevia aos gentios. Clemente continuou a tradição da origem paulina, e freqüentemente citava Hebreus como sendo da autoria de Paulo ou “do Apóstolo.” Seu sucessor Orígenes, no entanto, levantou dúvidas quanto à autoria paulina, embora não acerca da sua canonicidade. Considerava que os pensamentos eram de Paulo, mas não o estilo. Historiou a opinião doutros (os anciãos), de que Lucas ou Clemente de Roma fora o autor, e, embora fale favoravelmente acerca da sugestão de que Lucas escreveu os pensamentos de Paulo em grego, ele mesmo concluiu que somente DEUS sabe o autor. Subseqüentemente ao tempo de Orígenes, seus sucessores não acatavam sua decisão aberta, e logo ficou sendo a convicção indisputada da igreja oriental de que Paulo era o autor. Deve ser notado que Orígenes incluiu Hebreus entre as cartas paulinas, às vezes até citando-a como “Paulo diz;” não é totalmente surpreendente, portanto, que seus alunos seguissem este padrão. A grande influência de Orígenes na igreja oriental era suficiente para garantir a contínua aceitação da carta como sendo apostólica. Não há dúvida, no entanto, que foi a crença na sua origem paulina que lhe granjeou aceitação universal. No Papiro Chester Beatty das cartas paulinas, Hebreus está incluída, colocada depois de Romanos. Na igreja ocidental, a aceitação demorou mais tempo. Após a citação da carta por Clemente de Roma, a evidência é esparsa até os tempos de Jerônimo e Agostinho. Tertuliano, no fim do século II, considerava Bamabé como o autor, mas menciona esta opinião num só lugar. Claramente não considerava que esta Epístola estava no mesmo nível das cartas paulinas. Eusébio, que era diligente em colecionar as opiniões das várias igrejas acerca dos livros do Novo Testamento, relatou que a igreja em Roma não aceitava Hebreus como paulina, e reconheceu que isto estava levando outras pessoas a terem dúvidas. Cipriano, que pode ser considerado um representante típico dos meados do século III, não aceitava a Epístola. O primeiro escritor patrístico no Ocidente que aceitou esta carta foi Hilário, seguido, logo após, por Jerônimo e Agostinho. A opinião deste último revelou-se decisiva, embora levante uma questão interessante, porque Agostinho, nas suas primeiras obras, cita Hebreus como sendo paulina, e, nas suas últimas obras, como sendo anônima, com um período de vacilação no meio. Sua aceitação original da Epístola foi provavelmente em razão da autoria paulina; mas veio a aquilatar o valor da Epístola com base na própria autoridade dela, e sua abordagem claramente subentendia uma distinção entre a autoria paulina e a canonicidade. Esta distinção, no entanto, não foi mantida pelos seus sucessores. Este panorama da história algo diversificada desta Epístola levantou certos fatores que devem afetar nossa abordagem à sua exegese. Demonstrou que era crido de modo geral que Hebreus reflete uma autoridade apostólica, embora nenhum nome específico possa ser ligado a ela. Onde havia relutância para recebê-la, era, com toda a probabilidade, demasiadamente vinculada com a autoria apostólica. É também compreensí­ vel que o estilo e o conteúdo da carta seriam menos atraentes aos ocidentais mais prosaicos do que aos orientais, mais ecléticos. Sua aceitação final, a despeito das dúvidas sérias, testifica do poder intrínseco da própria Epístola. Uma nota de rodapé do período da Reforma para este panorama antigo pode ser acrescentada. Durante este período, a Epístola voltou a ser atacada no assunto da sua autoria paulina. Este foi especialmente o caso de Martinho Lutero, que sugeriu que Apoio seria um autor mais provável. Reagindo às suas opiniões, o Concílio de Trento declarou enfaticamente que a Epístola foi escrita pelo apóstolo Paulo, usando, assim, o carimbo da autoridade eclesiástica numa tentativa de resolver a questão.
 
III. AUTORIA
Tendo em vista a confusão na igreja primitiva a respeito da origem desta carta, não é surpreendente que a erudição moderna tenha produzido um monte de sugestões diferentes. Visto que a maioria delas não passam de pura conjectura, não é proveitoso dedicar muito espaço à sua discussão. Nosso alvo será demonstrar de modo breve por que a autoria paulina é quase universalmente considerada inaceitável, e dar algumas indicações das propostas alternativas.3 A opinião antiga da autoria paulina não é apoiada por qualquer referência a Paulo no texto da carta. Está, no entanto, incluída no título, que é claramente uma reflexão do conceito tradicional e, portanto, tem pouca importância. A anonimidade do texto é uma dificuldade imediata para a autoria paulina, visto não haver em lugar algum qualquer sugestão que Paulo teria escrito no anonimato. Um apóstolo que meticulosamente reivindica autoridade na introdução às epístolas existentes atribuí­ das ao seu nome, não tem probabilidade de ter enviado uma carta sem referência àquela autoridade especial da qual estava revestido. Além disto, não há sugestão, na maneira do autor de Hebreus escrever, de que conheceu aquela mesma experiência dramática pela qual Paulo passou na sua conversão, que nunca está longe da superfície nas suas cartas. Já nos tempos de Orígenes, a diferença entre o grego das Epístolas de Paulo e o de Hebreus estava sendo notada. Orígenes considerava que a Hebreus “faltava a rudeza de expressão do apóstolo” e que é “mais idiomaticamente grega na composição da sua dicção” (cf. Eusébio.Msf. Eccl, vi.25.11-12). A maioria dos estudiosos concordaria com o julgamento de Orígenes. A linguagem forma um bom estilo literário no grego koinê, e certamente contém menos irregularidades de sintaxe do que as Epístolas.4 O escritor sabe, além disto, a direção que seu argumento está tomando. Se faz uma pausa para exortar os leitores, retoma a seqüência dos seus pensamentos. Não sai numa tangente, conforme Paulo faz às vezes. Voltando para a opinião de Orígenes, pode ser notado que considerava que os pensamentos eram os do apóstolo. Muitos estudiosos modernos, no entanto, não concordariam. Alegariam que estão faltando vários dos temas caracteristicamente paulinos, e que muito daquilo que está presente não tem paralelo em Paulo (e.g. o tema do suma sacerdote), por isso é mais razoável supor que Paulo não foi o autor. Dois outros fatores apontam na mesma direção: o método das citações do Antigo Testamento, que é diferente do de Paulo; e a declaração em 2.3, que pressupõe que o autor não tinha qualquer revelação pessoal da parte de DEUS, mas que recebera uma “grande salvação” atestada por aqueles que ouviram o Senhor. Embora haja alguma possibilidade de interpretar esta declaração em 2.3 para incluir o apóstolo Paulo, não é a maneira mais natural de compreendê-la. Paulo nunca teria admitido que recebeu o núcleo do seu evangelho em segunda mão, como este autor parece fazer. Quais, pois, são as alternativas? O testemunho antigo menciona apenas três outras possibilidades, além de Paulo - Lucas, Clemente e Barnabé. Embora haja algumas afinidades entre os escritos de Lucas e Hebreus,5 não bastam em si para apoiar a autoria comum. Clemente pode ser excluído pela razão de que há amplas diferenças de conteúdo teoló­ gico entre este escritor e a carta aos hebreus, e pela suposição quase certa que citou diretamente de Hebreus.6 A única reivindicação de Bamabé para ser considerado é seu passado como levita proveniente de um meioambiente helenista (Chipre). Mas nosso autor está interessado no culto bíblico mais do que no culto no Templo.7 9, considera que Hebreus talvez seja mais típica do grego culto do que qualquer outro documento no NT. Das conjecturas mais modernas, Apoio tem tido o maior número de apoiadores, principalmente com base na suposição de que, como alexandrino, teria familiaridade com os modos de pensar do seu concidadão alexandrino, Filo, que supostamente estão refletidos na Epístola. Esta opinião, que originalmente foi proposta por Martinho Lutero, tem sido fortemente apoiada por aqueles que desejam manter alguma conexão paulina com a Epístola.8 Outras propostas são: Priscila,9 Felipe, Pedro, Silvano (Silas), Arístiom e Judas.10 Se não podemos ter certeza da identidade do autor, podemos notar suas características principais que seriam inestimáveis para nossa compreensão da sua carta.11 É um homem que meditou longamente acerca da abordagem cristã ao Antigo Testamento. O que ele escreve foi bem pensado. Sabe para onde vai sua linha de argumento. Quando faz uma pausa para exortar seus leitores, o faz com fina sensibilidade e tato. Prefere pensar o melhor acerca deles, embora faça fortes advertências de precaução. A despeito da sua anonimidade, é uma força a levar a sério na teologia cristã primitiva. Oferece-nos a mais clara discussão da abordagem cristã ao Antigo Testamento dentre qualquer dos escritores do Novo Testamento.
 
IV. OS LEITORES
O título ligado a esta carta no manuscrito mais antigo existente é “Aos Hebreus.”. Na realidade, não há manuscrito da carta que não tedenha este título. Já nos tempos de Clemente de Alexandria e de Tertuliano esta Epístola era conhecida por este título. Apesar disto, nenhuma indicação específica é dada no próprio texto da carta de que os leitores eram hebreus, e é possível, portanto, que o título não seja original. Em tal caso, pode ter sido baseado numa boa tradição, ou pode ter sido uma conjectura. Tem havido opiniões divergentes nesta questão, mas permanece o fato que nenhuma evidência patrística dá qualquer razão para duvidar da tradição. Devemos, no entanto, considerar os vários problemas que surgem como resultado desta tradição. A primeira consideração a ser notada é a definição da palavra “Hebreus.” Podia ser usada especificamente dos judeus que falavam hebraico (ou melhor, aramaico), e neste caso os distinguiria dos judeus de idioma grego. Esta sugestão tem algum outro apoio neo-testamentário (cf. At 6.1; 2 Co 11.22; Fp 3.5), mas não há meio de saber se o título tradicional desta Epístola visava ter este sentido. Pode ter significado nada mais do que judeus (i.é, judeus cristãos), quer de idioma aramaico, quer de grego. Este sentido mais geral deve ser preferido. Alguns, no entanto, sugeriram que o título seja totalmente desconsiderado e que se deve entender que a Epístola é endereçada a gentios. Claramente, a única maneira de decidir a questão é mediante um exame cuidadoso da evidência interna. Evidência em prol de um grupo especifico. Tendo em vista a natureza muito geral do título tradicional, é significante que são dadas algumas indicações de que uma comunidade determinada estava em mente. Certamente o autor sabe algo acerca da sua história e situação. Sabe que foram abusados pela sua fé e que reagiram bem ao despojamento das suas propriedades (10.33, 34). Tem consciência da generosidade dos seus leitores (6.10) e conhece o estado de mente atual deles (5.1 lss.; 6.9ss.). Certos problemas práticos, tais como sua atitude para com seus líderes (13.17) e questões de dinheiro e de casamento (13.4, 5) são mencionados. Parece mais razoável supor que o escritor tem conhecimento pessoal das pessoas específicas que tem em mente no decorrer da Epístola (cf. 13.18, 19, 23). Se esta for a verdade, o caráter vago do título é claramente enganoso. Mais um aspecto que confirma esta opinião é a menção específica de Timóteo em 13.23, porque Timóteo também deve ter sido conhecido dos leitores. Outra indicação da natureza do grupo pode ser deduzida de referências tais como 5.12 e 10.25. A primeira é dirigida àqueles que nesta altura já deviam ser mestres, e isto deu origem à sugestão de que os leitores eram uma parte pequena de um grupo maior de cristãos. A sugestão mais favorecida é que formavam um grupo numa casa que se separara da igreja principal. A exortação em 10.25 apoiaria esta opinião. Ali, o escritor conclama os leitores a não deixarem de congregar-se juntos. Parece razoavelmente conclusivo que a totalidade de uma igreja não teria sido considerada mestres em potencial, e é altamente provável que um grupo separatista pudesse ter se considerado superior aos demais, especialmente se foram dotados com dons maiores. O tema que nesta Epístola é argumentado de modo compacto está de acordo com a sugestão de que um grupo de pessoas com um maior calibre intelectual está em mente. Algum apoio tem sido reivindicado para o conceito de que o grupo consistia de ex-sacerdotes judeus que se tomaram cristãos. Fica claro no livro de Atos que números consideráveis de sacerdotes estavam entre as pessoas convertidas no período primitivo. Como questão de conjectura, pode ser suposto que estes naturalmente formariam grupos para o estudo da sua nova abordagem ao culto antigo. Seu interesse especial na ordem levítica seria, portanto, altamente inteligível. Nío há, no entanto, qualquer evidência a favor de quaisquer igrejas que consistiam em sacerdotes, e alguma cautela deve ser exercida a respeito desta opinião. Além disto, teríamos de discutir se a direção geral do argumento favorece esta opinião. Uma extensão da mesma idéia é ver no grupo de leitores membros antigos da comunidade dos essênios em Cunrã que se converteram ao cristinismo.13 À primeira vista, parece ser uma proposição atraente, mormente porque a Epístola aos Hebreus revela algumas correções das tendências de Cunrã (e.g., sua separação). Os Pactuantes de Cunrã tinham tido desavenças com os partidos judaicos principais no que diz respeito aos modos contemporâneos de procedimentos do Templo, e isto se encaixaria bem com a concentração da atenção desta carta no ritual do tabemáculo ao invés do Templo. Mas as evidências são passíveis de uma aplicação mais ampla do que este conceito limitado dos leitores permitiria. A teoria começa com a desvantagem de que não é feita nenhuma menção aos essênios em qualquer parte do Novo Testamento. Apesar disto, a comunidade de Cunrã tem fornecido algumas informações úteis de fundo histórico que lançaram alguma luz sobre a Epístola (mas veja mais discussão nas págs. 37-38). Evidência em prol de leitores gentios. O amplo apelo ao Antigo Testamento nesta carta não exige necessariamente um grupo judaico de leitores, tendo em vista que o Antigo Testamento era, universalmente, a Santa Escritura da igreja primitiva, judaica ou gentia. Na realidade, algumas partes do Novo Testamento endereçadas a leitores predominantemente gentios (e.g. Romanos, Gálatas) ainda se referem extensivamente ao Antigo Testamento. Não teria levado muito tempo para os convertidos gentios tomarem-se suficientemente familiarizados com o Antigo Testamento para suscitar perguntas acerca do significado do ritual levítico. Não é impossível que tais inquirições tenham levado à exposição do tema do sumo sacerdote, feita pelo autor. Outra linha seguida por alguns defensores de destinatários gentios é argumentar que a ausência de alusões à controvérsia judaica favorece tal teoria, mas esta consideração pareceria neutra, se é que tem alguma validez. De mais peso é o argumento de que os leitores corriam o perigo de apostatar “do DEUS vivo” (3.12), que seria inapropriado como referência a judeus pensando em abandonar o cristianismo para voltar ao judaísmo. Mas isto não é conclusivo, tampouco, se o autor estiver pensando em todas as formas da apostasia, seja da parte de cristãos judaicos, seja da parte de cristãos gentios, como um “afastamento do DEUS vivo.” O escritor menciona, ainda, “obras mortas” (6.1; 9.14) e os princípios elementares da doutrina de CRISTO (6.1) que, segundo se pensa, são inapropriados para os leitores judaicos. Pode ser razoavelmente sustentado que os gentios se encaixariam no contexto melhor do que os judeus, mas dificilmente pode ser alegado que as palavras nunca poderiam ser aplicáveis aos judeus. De modo geral, tendo em vista o estilo intricado de argumento, que exige uma vasta compreensão do Antigo Testamento (cf., por exemplo, o estilo de discussão em Hb 7: 11 ss.), parece que a opinião tradicional tem mais probabilidade de ser correta. Isto se tomará mais evidente quando o propósito da Epístola for discutido abaixo.
Tendo em vista a falta de informações específicas acerca do autor ou dos leitores, quaisquer sugestões acerca de onde os leitores habitavam forçosamente serão carregadas de incertezas. O melhor que podemos fazer é mencionar as mais viáveis. Começamos com a idéia de que a igreja em Jerusalém estava em mente.14 Alega-se que esta idéia é apoiada pelo título e pela ênfase dada ao ritual levítico. Além disto, a referência à perseguição (10.32; 12.4) nos “dias anteriores” pode muito bem referirse aos sofrimentos suportados pela comunidade cristã judaica em Jerusalém. Alguns têm visto alusões a uma desgraça iminente em 3.13; 10.25; 12.27, mas a fraseologia é muito geral para ter qualquer relevância. Outros argumentaram que, porque nenhuma igreja reivindicou as cartas aos Hebreus, os endereçados podem bem ter sido uma igreja num lugar que foi subseqüentemente destruído, como foi Jerusalém em 70 d.C. Mas podemos descontar o argumento; na realidade, não há evidência de que cada livro do Novo Testamento, cujo destino específico é conhecido, era especificamente reivindicado pela(s) igreja(s) endereçada(s). Se pudesse ser estabelecido que o autor tem o Templo em mente, ainda que fale em termos do tabernáculo, haveria algum apoio para um destino em Jerusalém, visto que o autor usa o tempo presente como se o ritual ainda estivesse sendo observado. Aqui entra uma questão da data, porque se a Epístola foi escrita depois de 70 d.C. (conforme sustentam alguns), o destino em Jerusalém seria mais difícil de sustentar. Há, porém, algumas objeções sérias à idéia de Jerusalém como sendo o destino. A declaração em 2.3 que nem o escritor nem os leitores tinham ouvido o Senhor pessoalmente é claramente difícil se a igreja de Jerusalém está em mente, porque é difícil imaginar que houvesse comunidades, tais como igrejas-casas, em Jerusalém, onde nenhum só dos membros ouvira a JESUS. Outra dificuldade é a predominância de idéias helenísticas, que são mais difíceis de imaginar em Jerusalém do que noutros lugares; esta linha de pensamento, no entanto, não deve receber ênfase demasiada, tendo em vista a evidência de Cunrã em prol de uma infiltração de idéias helenistas num meio-ambiente doutra forma judaico, às margens do Mar.
 
V. O DESTINO
Jerusalém foi sugerida por W. Leonard: The Authorship o f the Epistle to the Hebrews (Londres, 1939), pág. 43, e A. Ehrhardt, The Framework o f the New Testament Stories (Manchester, 1964), pág. 109. Este último data a Epístola depois da queda de Jerusalém. Morto, não muito distante de Jerusalém. O uso consistente da LXX é uma dificuldade adicional se os cristãos de Jerusalém estiverem em mente, porque é pouco provável que a igreja da Judéia usava esta versão. Do outro lado, pode ser ressaltado que Jerusalém tinha várias sinagogas helenistas (At 6.9), e não é impossível que estas tenham usado a Septuaginta. Mas levando em conta o caráter essencialmente grego da Epístola, deve ser concedido que um destino que não seja Jerusalém é mais provável. Uma consideração final pode ser mencionada, i.é, a referência provável à generosidade dos leitores em 6.10 não se encaixa bem demais com uma igreja cuja pobreza é mencionada noutros lugares do Novo Testamento em conexão com a coleta pelas igrejas gentias para prestar assistência àquela. É natural que Alexandria tenha sido proposta nos tempos modernos como o destino da Epístola, tendo em vista os paralelos que têm sido alegados entre esta carta e os escritos de Filo de Alexandria. Já foi notado que a igreja alexandrina nunca foi mencionada na antigüidade como a possível endereçada da Epístola. Mas uma dificuldade ainda maior é o fato de que em Alexandria era tomado por certo, em data bem antiga, que se tratava de uma carta enviada por Paulo aos hebreus. A sugestão que é apoiada pela quantidade maior de evidências, internas e externas é Roma. Foi em Roma que a Epístola foi primeiramente conhecida e citada, e visto que assim aconteceu durante a última década do século I, demonstra que a Epístola deve ter chegado ali numa etapa bem recuada da sua transmissão. Alguma conexão pode ser vista entre um destino em Roma e as saudações “dos da Itália” (13.24). O modo mais natural de entender esta expressão é com referência a pessoas cujo lugar de origem é a Itália, mas que estão morando noutro lugar e desejam enviar saudações para casa. A expressão vaga não teria razão de ser a não ser que o autor achasse que valeria a pena chamar a atenção aos compatriotas dos leitores que estavam com ele. Teria mais validade, portanto, se fosse endereçada a algum lugar na Itália ao invés de qualquer outro lugar. Não é conclusivo, no entanto, visto que a redação de 13.24 poderia ser entendida em termos da locação do autor ou, igualmente, da origem dos leitores. Nffo há necessidade alguma de entrar em detalhes acerca de outras sugestões. Apenas as notaremos de passagem — Colossos (T. W. Manson), Samaria (J. W. Bowman), Éfeso (W. F. Howard), Galácia (A. M. Dubarle), Chipre (A. Snell), Corinto (F. Lo Bue, H. Montefiore), Síria (F. Rendall), Antioquia (V. Burch), Beréia (Hostermann), Cesaréia (C. Spicq).15 A lista é suficientemente variada para demonstrar que as evidências escassas podem ser usadas para se prestarem ao apoio de um grande número de possibilidades. Deve, pelo menos, deixar-nos prevenidos contra sermos demasiadamente dogmáticos a respeito do destino da epístola. Concluiríamos que o destino mais provável é Roma, embora deixemos as opções abertas para outras possibilidades.
 
VI. DATA
Nossas discussões anteriores não devem nos ter deixado muito otimistas acerca da possibilidade de fixar uma data precisa para esta carta. Tudo quanto podemos fazer é sugerir limites dentro dos quais a carta foi provavelmente escrita. Podemos, pelo menos, concluir que foi escrita antes da carta de Clemente de Roma (95 d.C.), a não ser, naturalmente, que aleguemos que Hebreus usou Clemente,16 ou que os dois escritores usaram fontes em comum. Mas visto haver boa razão para supor que Clemente dependia de Hebreus, fixa-se assim uma data final para Hebreus, antes da qual deve ter sido escrita. Uma consideração intema é o relacionamento entre a carta e a queda de Jerusalém. Visto que o escritor não demonstra nenhuma consciência do evento, e que sugere, pelo contrário, que o ritual ainda continua, a carta teria de ser datada antes de 70 d.C. Conforme já foi indicado, no entanto, o autor apela ao tabernáculo mais do que ao Templo, e este fato poderia legitimamente ser reivindicado como evidência de que o Templo já não existia. Mas os tempos no presente, usados, por exemplo, em 9.6-9 (cf. também 7.8; 13.10) teriam mais razão de ser se o ritual do Templo ainda estivesse sendo observado.17 A distinção entre o tabernáculo e o Tem1 & 2 Peter (Londres, 1962), págs. 13-16; W. F. Howard: “The Epistle to the Hebrews,” Interpretation 5 (1951), págs. 80ss.; A. M. Dubarle: RB 48 (1939), págs. 506-529; A. Snell: New and Living Way (Londres, 1959), pág. 19; F. Lo Bue: JBL 15 (1956), págs. 52-57; H. Monteflore: Com., págs. 137ss.; A. Klostermann: Zur Theorie der biblischen Weissagung und zur Charakteristik des Hebräerbriefes (1889), pág. 55, citado por O. Michel: Com. pág. 12; C. Spicq, Com. 1, págs. 247ss. (16) G. Theissen: Untersuchungen zum Hebraerbrief (Gütersloh, 1969), págs. 34ss., discute o relacionamento entre Hebreus e 1 Clemente e conclui que uma dependência literária desta última daquela é improvável. (17) Sobre o uso dos tempos do presente deve ser notado que 1 Ciem. 61 também usa tempos do presente na descrição do Templo, claramente, no caso dele, um artifício literário e não o emprego histórico dos tempo próprio talvez não tenha sido tão nítida aos leitores originais quanto aparece ao leitor moderno. No cômputo geral, esta linha de evidência está mais a favor de uma data antes de 70 a.C., e não depois, especialmente se for dado o devido valor à estranha omissão da catástrofe se já tinha acontecido. Teria sido uma confirmação histórica valiosa da tese principal da Epístola o desaparecimento do antigo para ceder lugar ao novo. Se, do outro lado, a destruição da cidade estava iminente, daria muita força à exortação aos leitores no sentido de saírem fora do arraial (13.13). Além disto, a menção de Timóteo em 13.23, se for o mesmo homem que era companheiro de Paulo, deve exigir uma data dentro da sua provável duração de vida, mas nosso problema aqui é que nenhum conhecimento independente existe quanto à sua morte. Tudo quanto poderia ser concluído com segurança é que uma data no século II está totalmente fora de cogitação. Certamente o estado da igreja que pode ser detectado nesta Epístola é bastante primitivo, porque não há menção especí­ fica dos oficiais, mas apenas a expressão um pouco vaga: “vossos guias” (13.7, 17). Além disto, o nítido sabor judaico da teologia favorece uma data recuada. Outra sugestão é que a referência em 3.7ss. aos quarenta anos dos israelitas no deserto (citando SI 95.7ss.) pode ser mais aplicável se esta Epístola foi escrita quarenta anos depois da morte de JESUS. Mas a conexão do pensamento está longe de ser óbvia, e não pode fazer contribuição alguma à nossa discussão. O que mais vem ao caso é a referência em 12.4 ao fato de que “ainda não tendes resistido até ao sangue.” Pode ser entendida metaforicamente, e neste caso não ajudaria a fixar a data, mas se significa que ainda não tinha havido mártir entre eles, exigiria uma data antes da ocorrência da perseguição generalizada. Se os leitores estavam em Roma, isto pareceria requerer uma data antes das perseguições de Nero. Mesmo assim, se esta era uma igreja-casa separada do restante da igreja, pode ter escapado à itensidade da perseguição que o grupo principal dos cristãos sofrera. Outra consideração é a referência aos “dias anteriores” (10.32) quando os cristãos eram sujeitados à perseguição. Além disto, se estes dias se referem à perseguição de Nero, a Epístola teria de ser datada depois da queda de Jerusalém. Mas o mesmo problema surge de que não há sugestão de que qualquer deles tinha morrido18 e é difícil, portanto, apelar à perseguição de Nero como sendo uma explicação dos “ dias anteriores.” Seria mais seguro tomar por certo que não havia tanto um ataque oficialmente organizado quanto o tipo de molestamento constante do qual tanto Atos quanto as Epístolas testificam.19 De fato, os “dias anteriores” podem concebivelmente referir-se ao período que se seguiu o decreto de Cláudio que exilou os judeus de Roma, visto que os cristãos judaicos presumivelmente teriam sido implicados (cf. Áquila e Priscila, At 18.2). Entre este evento e a perseguição de Nero transcorreu um período de quinze anos, que fixaria os limites dentro dos quais a Epístola deve ter sido escrita. Não há maneira de saber se foi escrita antes da morte de Paulo, embora tenha sido inferido de Hebreus 13 que Paulo provavelmente já não estava com vida, com base um pouco precária na referência solitária a Timóteo. Aqueles que datam a Epístola antes da queda de Jerusalém são geralmente influenciados pelo seu conceito da ocasião como sendo decisiva para uma datação mais exata. Por exemplo, Montefiore sugere uma data semelhante à de 1 Coríntios 20 e T. W. Manson uma data semelhante a Colossenses, por causa dos seus respectivos conceitos da situação tratada na Epístola. A maioria, no entanto, não a data antes da década de 60, e preferem uma data imediatamente anterior ou durante as perseguições nerônicas se a Epístola foi enviada de Roma,ou imediatamente antes da queda de Jerusalém se foi enviada doutro lugar. Aqueles que consideram que a evidência não requer uma data antes da queda de Jerusalém, usualmente sugerem um período entre cerca de 80 e 85 d.C.
Há duas considerações principais. A primeira é o uso da epístola por Clemente de Roma. Deve obviamente ser datada antes daquela epístola, mas quanto tempo antes? Conforme a teoria de Goodspeed, (19) J. Moffatt: Introduction to the Literature o f the New Testament, pág. 453, sugere que pode ter sido violência das turbas. (20) H. Montefiore: Com., págs. 9-10. Cf. também J. M. Ford: CBQ 28 (1966), págs. 402-416. (21) T. W. Manson: BJRL, 32 (1949), págs. 1-17. (22) J. A. T. Robinson: Redating the New Testament (1976), págs. 200-220, prefere um destino romano e uma data c. de 67 imediatamente antes da morte de Nero., pensava que apenas um curto intervalo poderia ter separado Hebreus de 1 Clemente. H. Windisch: Com., págs. 329-348, fez uma conjectura de um período de pelo menos 10 anos.
Clemente escreveu em resposta a Hebreus 5.12, e neste caso, nenhum intervalo longo deve ter decorrido entre elas. Esta teoria, no entanto, é tênue. Se, doutro lado, Clemente não usou nossa Epístola aos Hebreus, já não haveria necessidade de limitar Hebreus para um tempo antes da carta de Clemente. O caráter primitivo da estrutura comunitária em Hebreus, no entanto, exige uma origem anterior ao tempo da epístola de Clemente. A outra consideração é a opinião sustentada por alguns que Hebreus demonstra dependência das epístolas de Paulo. Como é usual no caso de argumentos baseados em afinidades literárias, a dependência é de difícil comprovação. As afinidades paulinas são suficientemente explicadas pela suposição de que o autor era um associado do apóstolo. A evidência certamente não é suficiente para demonstrar que Hebreus não poderia ter sido escrita antes das cartas paulinas terem sido colecionadas. O efeito cumulativo destes argumentos em prol de uma data em fins do século I não convence.
 
VII. O PROPÓSITO DA CARTA
O escritor faz uma só declaração específica acerca do seu propósito, que está em 13.22 onde diz simplesmente: “Rogo-vos... que suporteis a presente palavra de exortação; tanto mais quanto vos escrevi resumidamente.” Se “palavra de exortação” significa aqui, como em At 13.15, uma homília, sugeriria que a estrutura da carta deve sua origem a uma pregação feita numa ocasião especial e mais tarde adaptada na forma de uma carta pelo acréscimo de comentários pessoais no fim. Esta sugestão tem muita coisa para recomendá-la e explicaria os apartes freqüentes que contêm apelos diretos aos ouvintes. Se a palavra “exortação” receber seu efeito literal, aquelas passagens que contêm tais apelos diretos devem ser consideradas os pontos cruciais no argumento do autor, ainda que sejam apartes, e devem ser levadas em conta ao decidir o propósito do autor. É surpreendente quantos estudiosos do NT adotam uma data avançada para esta Epístola sem prestar atenção detalhada à possibilidade de uma data recuada. Cf. Wickenhauser, Kümmel, Marxsen, Fuller, Klijn e Perrin nas suas Introduções. Mesmo assim, muitos comentaristas adotaram uma data recuada; e.g. W. Manson, C. Spicq, H. Montefiore, F. F. Bruce, J. Héring, G. W. Buchanan, A. Strobel. (25) Cf. F . Filson: Yesterday (1967), págs. 27ss., para uma discussão desta palavra de exortação. (26) Tem sido sugerido que se 13.22 for aceito como sendo o indício, o alvo no entanto, muita diferença de opinião acerca do que os leitores deviam refrear-se. As várias sugestões podem ser convenientemente classificadas de acordo com o suposto destino da carta: judaico ou gentio. Sugestões que supõem que os leitores eram judeus Visto que o conceito tradicional era que os leitores eram hebreus, começaremos com a explicação tradicional do propósito.27 Esta começa com as passagens de advertência (principalmente os caps. 6 e 10) e passa a interpretar a Epístola inteira em termos destas. As próprias passagens certamente contêm advertências expressas na maneira mais enfática. O perigo de “crucificar de novo o Filho de DEUS” (6.6) e de “calcar aos pés o Filho de DEUS” e de “ultrajar o ESPÍRITO da graça” (10.29) é colocado firmemente diante dos leitores. Diz-se que tais possibilidades ameaçam os que cometem a apostasia (6.6). Ao procurar entender a natureza da apostasia, apela-se à declaração em 2.3 que fala da calamidade de negligenciar a grande salvação que foi providenciada. Se o “arraial” em 13.13 for o judaísmo antigo, uma sugestão razoável é que estas pessoas eram judeus convertidos que mesmo assim mantiveram sua lealdade ao judaísmo, e corriam perigo de sentar-se entre duas cadeiras, ou até mesmo de deixar a igreja cristã e voltar à sua antiga fé judaica. Para apreciar a forte atração do judaísmo sobre os cristãos que anteriormente tinham sido judeus, deve ser lembrado que o cristianismo não podia oferecer paralelo algum à pompa ritual que eles conheciam como costume. Ao invés do Templo, que todos os judeus respeitavam como o centro do culto, os cristãos reuniam-se em lares diferentes sem sequer terem um lugar central para suas reuniões. Nío tinham nem altar, nem sacerdotes, nem sacrifícios. A fé cristã parecia desnudada de quaisquer evidências do tipo usual de observâncias religiosas. Não é de se admirar que houvesse judeus convertidos que explorassem a possibilidade de apegar-se às duas religiões, mormente porque tanto os judeus quanto os cristãos apelavam às mesmas Escrituras. Se retivessem a velha enquanto secretamente professavam a nova, possuiriam uma posição social negada àqueles que fizeram uma transferência total ao cristianismo. A atração da essencialmente prático do autor não seria apostasia no sentido de voltar a uma lealdade externa ao judaísmo teria sido forte para aqueles que achavam difícil enfrentar a oposição resoluta dos seus compatriotas judeus (cf. 10.32), embora estivessem dispostos a isto no início. Se a situação que acaba de ser esboçada for correta, é possível ver o que o escritor da Epístola tinha em mente ao esboçar seu argumento. Estava ocupado em assegurar seus leitores que a perda de glórias rituais era mais do que compensada pela superioridade do cristianismo. Sua linha de abordagem era que tudo, na realidade, era melhor — um santuário melhor, um sacerdócio melhor, um sacrifício melhor. Na realidade, visa demonstrar que há uma razão teológica para a ausência do velho ritual, por mais glorioso que tenha parecido aos judeus. A fé cristã declarava um cumprimento completo de tudo quanto a velha ordem esforçava-se por fazer. A própria ausência do ritual era a maior glória da nova fé, porque proclamava sua superioridade sobre a velha ordem. Além disto, o escritor vai além disto e sustenta que CRISTO era um sacerdote de um tipo diferente da linha arônica, tipificado em Melquisedeque. As passagens de advertência seriam, então, uma demonstração das conseqüências sérias para quaisquer pessoas que deliberadamente virassem as costas a este modo superior. Seria a mesma coisa que asseverar a superioridade da religião velha e identificar-se com os que eram responsáveis pela crucificação do Filho de DEUS. Este modo de entender a apostasia seria suficientemente sério para justificar os termos fortes usados nas passagens de advertência. Explicaria, também, a impossibilidade de restauração para aqueles que tão descaradamente viravam as costas às condições “melhores” da fé cristã. Em primeiro plano na mente do autor não havia tanto a questão de uma volta ao judaísmo quanto a questão da rejeição do cristianismo que semelhante volta acarretaria. Embora, de modo geral, esta maneira de compreender a apostasia forneça um modo razoável de compreender o propósito da Epístola, é necessária alguma cautela. Deve ser confessado que as passagens de advertência nada dizem acerca da apostasia para o judaísmo, mas, sim, somente uma apostasia para fora do cristianismo. A interpretação esboçada supra depende de uma inferência tirada da intenção geral da Epístola. É, naturalmente, possível interpretar as passagens de advertência de modo diferente, embora nenhuma outra sugestão pareça estar em tão estreita concordância com o contexto geral. Um desenvolvimento interessante desta opinião tradicional é a sugestão de que ex-sacerdotes judeus estavam em mente, sugestão esta que já foi notada na discussão sobre o destino da Epístola.28 Que luz lançaria sobre o propósito do autor? Os sacerdotes convertidos imediatamente perderiam a dignidade do seu cargo. Na realidade, tomar-se-iam pessoas sem importância, depois de terem sido respeitadas por sua posição oficial. Muitos deles devem ter enfrentado a tentação de abrir mão da sua nova fé a fim de reter sua antiga posição social. Estariam ainda mais perdidos sem o ritual do que os aderentes comuns do judaísmo. Podem ter esperado uma posição superior na igreja cristã em virtude da sua antiga posição profissional no judaísmo. Para tais pessoas, o tema do sumo sacerdócio de CRISTO e a interpretação espiritual do ritual seriam altamente relevantes. De todas as pessoas, estas necessitariam de ser lembradas nos termos mais enfáticos das conseqüências de uma volta ao judaísmo. As passagens de advertência, portanto, seriam da máxima relevância. Se os leitores fossem tentados a pensar que uma religião sem sacerdotes seria inconcebível, seria a mesma coisa que denegrir o cristianismo ao ponto de pronunciá-lo ineficaz. Sua apostasia ameaçada seria, portanto, a mesma coisa que voltar suas costas a uma fé sem sacerdotes. Mas o desafio do escritor é que, a despeito da ausência de uma linhagem de sacerdotes, o cristianismo não está, na realidade, despojado de sacerdote, porque tem um sumo sacerdote perfeito em CRISTO, que é infinitamente superior ao melhor dos sacerdotes arônicos. Ainda outra variação na compreensão do propósito da carta, se foi dirigida a judeus, é a opinião de que a Epístola foi dirigida a antigos membros da seita de Cunrã.29 Um propósito principal seria, portanto, apresentar um método verdadeiro de exegese do Antigo Testamento. Os Pactuantes de Cunrã eram estudiosos das Escrituras do Antigo Testamento, e muitos dos seus comentários foram preservados entre os achados de Cunrã. Mas tinham seu próprio estilo de exegese que se concentrava em relacionar a restauração da velha aliança em termos da sua própria comunidade. Se cristãos ex-Cunrã estiverem em mente podem muito bem ter necessitado de uma exposição mais verídica do Antigo Testamento baseada na nova aliança em CRISTO. Visto que a comunidade de Cunrã era essencialmente uma comunidade sacerdotal, a predominância do tema sumo-sacerdotal nesta Epístola também seria inteligível, assim como seria a referência aos batismos em 6.2, porque pensa-se que as lavagens rituais formavam parte importante dos procedimentos de Cunrã. Apesar disto, há problemas com esta hipó­ tese. Além da ausência de quaisquer evidências que confirmassem a existência de um grupo de cristãos ex-Cunrã (embora semelhante grupo não seja impossível), os paralelos entre Hebreus e a literatura de Cunrã não são impressionantes. A ausência de qualquer discussão acerca da Lei na primeira é uma dificuldade principal, porque era destacada entre os Pactuantes de Cunrã. No cômputo geral, a opinião que postula a ameaça da apostasia, ao judaísmo entre certos cristãos judeus quer sejam ex-sacerdotes, quer não, geralmente tem mais para recomendá-la do que opiniões alternativas.31 Porém, uma outra sugestão que ainda conjectura um destino a judeus, mas que não considera que as passagens de advertência forçosamente dizem respeito à apostasia ao judaísmo, deve ser considerada. É a opinião de que os cristãos judeus não estavam aceitando a missão mundial do cristianismo. Conforme esta teoria, os leitores estavam pensando em termos do cristianismo sendo essencialmente judaico e não estavam atribuindo importância alguma ao seu escopo universal. É sugerido que este grupo tinha um ponto de vista semelhante àquele dos membros mais restritos da igreja de Jerusalém. Talvez quisessem manter contato com o judaísmo por razões de segurança, porque o judaísmo era uma religião licita. Cortar as cordas da segurança deste ancoradouro e alargar as fronteiras para incluir os gentios introduziria um embaraço agudo. O dilema era indubitavelmente real. Seria muito mais fácil insistir que todos os cristãos deviam se colocar debaixo da égide do judaísmo. Aqui, porém, segundo é sugerido, a visão da extensão da missão cristã era demasiadamente restrita. Além disto, é alegado que foi este conceito demasiadamente estreito que Estêvão teve de combater. Certamente há algumas semelhanças entre o discurso de Estêvão em At 7 e nossa Epístola, especialmente na abordagem ao ritual feita por ambos. Esta opinião trouxe alguns dados interessantes para a compreensão da Epístola, mas não pode explicar adequadamente as passagens de forte advertência. É difícil perceber como alguém descreveria a falta de alargar a mente e adotar a missão mundial como sendo uma nova crucificação do Filho de DEUS ou como apostasia. Pode ter feito parte do propósito do escritor urgir a adoção da missão mundial, mas estava a voltas com um problema mais radical do que este. Sugestões que tomam por certo que os leitores eram gentios A teoria de os leitores serem gentios tem sido inspirada pela crença de que o pensamento helenista foima o fundo histórico principal desta carta. Alguns, no entanto, também postulam a influência gnóstica.32 Podemos dispensar rapidamente o conceito de que o escritor está combatendo o judaísmo especulativo que estava afetando seus leitores gentios. Cercados por muitas idéias religiosas, desejariam saber que o cristianismo era sem igual ao oferecer o único caminho aceitável a DEUS. Para responder a esta necessidade, o escritor apela ao Antigo Testamento para comprovar o caráter absoluto do cristianismo, que é superior não somente ao judaísmo como também a todas as demais religiões. Mas o problema desta teoria é que a Epístola não faz a mínima alusão a qualquer conhecimento de ritos especulativos ou pagãos. Realmente, o considerá­ vel interesse do autor pelos pormenores do ritual judeu dificilmente se enquadra num auditório gentio que não tinha contato prévio com o judaísmo. A forma.mais aceitável de semelhante teoria seria supor que os “Hebreus” eram judeus helenistas. A opinião de que idéias gnósticas permeiam a carta e que, com efeito, o autor está combatendo o gnosticismo incipiente tem tido alguns defensores persuasivos.33 Uma das opiniões é que os leitores pertenciam a uma seita de gnósticos judeus que estavam corrompendo a pura fé cristã mediante a infiltração de idéias gnósticas. Algumas idéias às quais se apelam no argumento podem ser resumidas da seguinte forma breve: a ênfase dada aos anjos, que estava solapando a singularidade da obra mediadora de CRISTO; a idéia da salvação através de alimentos selecionados (cf. 13.9), misturada com ensinamentos estranhos; a referência aos batismos; maus procedimentos deliberados (aos quais, segundo se diz, as passagens de advertência se aplicam, e refletem a confusão dos valores morais nalguns tipos de gnosticismo, cf. 12.16). Embora alguns destes paralelos sejam válidos, é extraordinário que o autor se dá tanto trabalho para fazer uma exposição da cultura judaica se o alvo principal do seu ataque era o gnosticismo. Uma crítica semelhante pode ser feita à opinião de que os capítulos três e quatro são a chave verdadeira a uma compreensão da carta, e que estes capítulos devem ser entendidos numa situação gnóstica.34 Daí, os leitores são vistos como sendo o povo de DEUS perambulante, e sua viagem é entendida em termos do mito gnóstico do redentor. A busca do “descanso” (katapausis) é o alvo principal da salvação. Diz-se que o conceito do redentor em que o próprio redentor deve ser redimido antes de ser autorizado a agir como redentor, e, de modo semelhante, o sumo sacerdote deve ser aperfeiçoado.35 Não há dúvida que fazer assim é atribuir ao texto da Epístola muito mais do que é justificado. Na mente do autor, a perfeição do sumo sacerdote tem relacionamento com sua perfeita obediência à vontade do Pai. É essencialmente moral e não mística. Mesmo que o tema gnóstico seja exagerado nesta teoria, colocar em relevo a importância dos capítulos três e quatro e o tema do “descanso” é uma introspecção valiosa, que não deve ser olvidada. Outra opinião é que algum desvio de um tipo semelhante àquele que Paulo combate em Colossos está em mente.36 Este provavelmente era ligado com alguma forma de Gnose, embora não com o gnosticismo desenvolvido. Há dois aspectos do desvio colossense que têm seu paralelo nesta carta. Um é a estima excessiva dada aos anjos e a necessidade de corrigi-la (cf. Cl 2.18 com Hb 1 e 2). A primeira seção da carta visa demonstrar a superioridade de CRISTO aos anjos. O outro aspecto é uma ênfase exagerada dada à lei cerimonial, que pode ser contrastada com a interpretação espiritual do ritual em Hebreus 5-10. Estes aspectos deram vazão à sugestão de que Apoio enviou esta Epístola à igreja de Colossos antes de Paulo escrever a sua carta com pleno conhecimento daquilo que Apoio escrevera. Embora apoio para um destino colossense seja pouco, a teoria tem algum valor em chamar a atenção a aspectos comuns que provavelmente eram muito divulgados na experiência cristã primitiva. Concluindo: inclinar-nos-emos para a opinião de que algum tipo de apostasia para o judaísmo está subentendido, mas será mantido em mente que houve outras correntes de influência que não podem ser desconsideradas ao interpretar corretamente o pensamento. Se o autor parece obcecado com a interpretação vétero-testamentária, seu interesse por ela é mais do que antiquário. Está ajudando cristãos perplexos a descobrirem o sentido verdadeiro do AT, sentido este que para ele se focaliza em CRISTO. É provável, no entanto, que também está preocupado em demonstrar sua relevância num mundo influenciado por idéias gregas.
 
VIII. A SITUAÇÃO HISTÓRICA
Qualquer escrito fica iluminado quando é colocado na sua situação histórica, e é necessário indicar de modo breve o meio-ambiente desta Epístola. Já foi indicado que os leitores eram quase certamente cristãos judeus. É lógico, portanto, notar em primeiro lugar os aspectos que se alinham especiámente com um pano de fundo judaico.
O Antigo Testamento 0 mais óbvio destes aspectos é a forte influência do Antigo Testamento sobre o autor.37 Não é preciso dizer que sua mente estava saturada do pensamento vétero-testamentário, mas fica claro que seu interesse principal fixava-se no testemunho do Pentateuco. Seu tratamento do ritual dá testemunho disto, porque não baseia suas observações, conforme poderíamos ter esperado, nos procedimentos contemporâneos do Templo, mas, sim, nos pormenores levíticos. Claramente deseja estabelecer uma abordagem cristã ao ritual do Antigo Testamento, e acha sua chave no pensamento da superioridade de CRISTO, tanto como sacerdote quanto como sacrifício. Até mesmo quando cita os heróis da fé, tira a maior parte dos seus exemplos do Pentateuco. Apesar disto, a mente do escritor também estava saturada doutras partes do Antigo Testamento, especialmente dos Salmos.38 De fato, pode ser dito que o Salmo 110 desempenha um papel-chave no desenvolvimento do seu argumento, fornecendo-lhe, em particular, seu tema de Melquisedeque. Outra passagem importante para ele é a seção da nova aliança em Jeremias 31, que cita extensivamente no capítulo 8. O modo das suas citações também é relevante, porque indubitavelmente considerava autorizado o texto do Antigo Testamento. Toma por certo que aquilo que o texto diz, DEUS diz, o que se revela de modo notável no capítulo 1. Até mesmo uma fórmula vaga como: “alguém, em certo lugar, deu pleno testemunho” para introduzir uma citação do Salmo 8 (2.6ss.) é em si mesma uma evidência de que o autor queria reforçar sua discussão da humanidade de JESUS com apoio bíblico, embora não especifique o contexto original. O fato de que o texto é considerado assim autorizado é de importância vital para uma compreensão correta do argumento e do propósito da Epístola. Se, conforme parece provável, um dos alvos do escritor é esclarecer as dificuldades que os leitores estavam tendo para tomar uma decisão sobre uma abordagem satisfatória ao Antigo Testamento, a própria Epístola fica sendo um guia útil, não somente para seus leitores originais, como também para o leitor moderno. Muita coisa que talvez pareça irrelevante num exame superficial encaixa-se no seu lugar apropriado quando a questão mais geral da abordagem cristã ao Antigo Testamento é focalizada. Uma pergunta que surge é se o escritor sempre trata condignamente o contexto vétero-testamentário. Alguns já sugeriram que, para ele, o contexto não tinha relevância alguma, mas isto seria um exagero.39 Certamente aplica o texto do Antigo Testamento às vezes de um modo novo, como quando aplica ao Filho palavras originalmente faladas acerca de DEUS (1.8), mas é questionável se pode ser sustentado que o autor desconsiderou o contexto. 0 mesmo se aplica ao desenvolvimento do tema do descanso a partir do Salmo 95 nos capítulos 3 e 4. Seria mais correto dizer que nosso autor ressalta o significado estendido e latente do texto original. Semelhante princípio permite-lhe a aplicação do tema de Melquisedeque de tal maneira que pareça, num exame superficial, que está baseando seu argumento no silêncio da Escritura, ao invés de nas suas declarações (cf. 7.3). Cunrã Nossa consideração seguinte deve ser descobrir se o tipo de desenvolvimento visto na seita judaica em Cunrã tem qualquer relevância como fonte para esta Epístola. Certos aspectos sugerem uma conexão, tal qual a dominância da casta sacerdotal em Cunrã e a evidência de que existia algum interesse entre os sectários no tema de Melquisedeque.40 A comunidade de Cunrã tinha algum interesse por anjos, o que talvez sugira uma conexão com os leitores desta Epístola. Mas o interesse por anjos era generalizado entre os judeus do período intertestamental. Além disto, aparece como parte da assim-chamada heresia colossense (Cl 2.18).41 Outro aspecto é o interesse extensivo entre os sectários pela exegese bíblica42 e certamente há algum paralelo com o escritor desta Epístola. Visto que os exegetas estavam mais ocupados em aplicar o texto aos seus próprios dias do que ao seu contexto histórico, assim também nosso autor tende a ressaltar a presente relevância sem, porém, desconsiderar o contexto. Pode haver alguns paralelos entre o Mestre da Justiça de Cunrã e JESUS CRISTO, mas o escritor desta Epístola não tem dúvida alguma de que JESUS é superior a todos os outros e é, de qualquer maneira, a revelação final de DEUS ao homem.43 Certo aspecto que talvez tenha aplicação à nossa discussão é a conjunção entre os aspectos sacerdotal e real do Messias na comunidade de Cunrã, embora, segundo parece, não estavam ligados à mesma pessoa. 0 Messias sacerdotal de Arão era distinguido do Messias de Israel.44 Como contraste, a apresentação de JESUS em Hebreus é de um sacerdote-rei segundo a ordem de Melquisedeque. A comunidade de Cunrã observava certos ritos que eram especialmente de natureza purificadora. Este tema da purificação ocorre em Hebreus, mas não é vinculado a ritos externos. Na realidade, os leitores são instados a avançar além das doutrinas elementares tais como as lustrações (“batismos,” 6.2). Mesmos assim, a idéia da purificação está presente, mas aplicada de modo espiritual, conforme demonstra a declaração em 10.22 acerca de corações sendo purificados de má consciência. Há alguma sugestão de que os ritos purificadores em Cunrã talvez tenham sido desenvolvidos como substituto pela cessação do sacrifício. Uma das razões da localização da comunidade no deserto da Judéia era porque os sectários ficaram insatisfeitos com as disposições para os sacrifícios no Templo em Jerusalém. Não é sem relevância que a Epístola aos Hebreus concentra-se no sacrifício “melhor” de CRISTO. Tendo em vista tudo isto, há alguma justificativa para a opinião de que a literatura e as práticas rituais de Cunrã lançam alguma luz sobre o meio-ambiente ao qual pertencem os leitores desta Epístola, embora seja questionável se algum contato direto pode ser pressuposto. Filo de Alexandria Há muito tempo tem sido sustentado por intérpretes desta Epístola que um fio de pensamento importante no pano de fundo é o helenismo,45 especialmente a variedade do helenismo vista nos escritos de Filo de Alexandria.46 Muita coisa tem sido escrita sobre o relacionamento entre nossa Epístola e os escritos de Filo, e será possível oferecer aqui somente um breve resumo dos pontos salientes. Filo como exegeta é de má fama pelo seu uso da alegorização numa tentativa de tomar o texto do Antigo Testamento relevantes para seus contemporâneos. Seu alvo nisto era fazer os conceitos principais do seu meio-ambiente grego remontarem a fontes judaicas. Para realizar esta intenção apologe'tica, prestava pouca atenção ao contexto histórico. Será imediatamente percebido, no entanto, que embora o escritor desta Epístola às vezes se aproxime de uma tendência alegórica, difere radicalmente de Filo por tratar com seriedade o contexto histórico. A totalidadade do seu argumento cairia por terra se a base histórica fosse negada. Ao discutir a busca dos israelitas pelo “descanso”, nunca sugere que as peregrinações no deserto não foram historicamente relevantes e, na realidade, baseia seu argumento no fato de que os israelitas chegaram a desobedecer a DEUS e foram excluídos da entrada na terra prometida pela descrença . Tanto Filo quanto nosso autor, a despeito dos seus métodos diferentes de exegese, compartilham de uma alta estima pela Escritura. Os dois usam exclusivamente a versão da Septuaginta e introduzem o texto com fórmulas semelhantes de citação. Além disto, há muitas palavras e frases significantes que aparecem tanto nos escritos de Filo quanto nesta Epístola. A relevância dos nomes fica clara em Hebreus 7.2 e este é um tipo de dedução familiar para Filo. Os dois escritores abundam em antítese tais como o contraste entre o terrestre e o celestial (cf. Hb 8.lss.; 9.23- 24), entre o criado e o não-criado (9.11) e entre o que é passageiro e o que é permanente (7.3, 24; 10.34; 12.27; 13.14). Esta predileção pela antítese levantou a questão de se nosso autor, como Filo, dependia da teoria platônica das idéias. Tem havido uma diferença de opinião sobre a resposta a esta pergunta. Alguns têm sustentado que esta teoria domina de tal maneira a Epístola que o autor deve ser considerado um judeu alexandrino que aprendeu sua abordagem do contato com o ensino de Filo. Talvez pareça, superficialmente, que haja alguns paralelos com a teoria platônica que considera o que é visto como irreal, apenas como sombra da realidade por detrás dele. Sem dúvida, boa parte da Epístola está ocupada com o conceito de que o cerimonial é apenas uma sombra da realidade superior que é CRISTO, e à qual a sombra aponta. Mas é questionável se esta idéia remonta à teoria platônica. É melhor explicada pela convicção do autor de que em muitos aspectos CRISTO é melhor do que a velha ordem — um melhor sacerdócio, um melhor sacrifício, um melhor santuário e uma melhor aliança. A abordagem deste autor é mais bíblica do que a de Filo, porque está trabalhando com uma chave diferente. Não se nega com isto a formação helenística do autor, mas, sim, afirma-se que ele não chegou à sua interpretação através da aplicação das idéias helenistas. Mesmo assim, sua formação equipou-o a expressar em formas helenistas aquilo que já deduzira da convicção cristã de que JESUS CRISTO era a chave ao entendimento do Antigo Testamento. O pensamento paulino Ainda dentro da nossa discussão do fundo histórico, devemos aplicar-nos ao problema do relacionamento entre esta Epístola e o pensamento paulino. Já vimos as razões para rejeitar a opinião de que Paulo foi o autor, mas isto não significa que é inconseqüente discutir se o autor tem algum contato com a teologia de Paulo, e se sua abordagem pode ser considerada um desenvolvimento da posição de Paulo. É valioso notar em primeiro lugar os muitos aspectos da teologia de Paulo que são compartilhados pela carta aos Hebreus.47 Certamente a cristologia é bem semelhante. A pré-existência de CRISTO e Seu papel na criação, que é um destaque principal naprocura, assim como Paulo tampouco, explicar o paradoxo; mas não há dúvida de que, para ambos, o lado divino e humano da natureza de CRISTO era uma convicção básica. Embora nossa carta exponha um aspecto da Pessoa e da obra de CRISTO que não ocorre em Paulo, sua cristologia é essencialmente a mesma. Ligada com a auto-humilhação de CRISTO há a idéia da Sua obediência (Rm 5.19; Fp 2.8; Hb 5.8), que para os dois escritores é contrastada com a desobediência doutros homens. Embora Paulo não trate do assunto de CRISTO como sumo sacerdote, retrata Sua obra na figura do sacrifício, e isto fornece uma ligação importante entre os dois autores (cf. 1 Co 5.7; Ef 5.2; Hb. 9.28). Visto que o sacrifício desempenha um papel tão importante em Hebreus, é importante notar que certamente não é uma idéia exclusiva: pelo contrário, era compartilhada pela igreja primitiva como uma maneira de explicar a morte de CRISTO. Outro aspecto comum entre Paulo e Hebreus é a importância ligada à nova aliança (cf. 2 Co 3.9ss.; Hb. 8.6ss.) Os dois demonstram que esta nova aliança é melhor que a antiga. Paulo fala do maior esplendor da nova, embora não negue que a antiga tinha um esplendor todo seu. Hebreus, no entanto, é um pouco mais franco ao declarar que a antiga é obsoleta (Hb 8.13). Não há diferença fundamental entre eles acerca da relevância de uma aliança mediada pelo próprio CRISTO. No seu catálogo dos heróis da fé, o escritor dá a primazia a Abraão. Já o mencionou anteriormente na Epístola com referência aos seus descendentes (2.16); com referência à promessa que DEUS lhe deu (6.13); e com referência ao seu relacionamento com Melquisedeque (7.1-10). Uma alta estima semelhante por Abraão é achada nas Epístolas de Paulo (Rm 4.lss.; 9.7; 11.1; 2 Co 11.22; G1 3.6ss.;4.22). Nesta conexão podemos notar que Hebreus às vezes cita passagens do Antigo Testamento que Paulo também cita, e.g., os dois citam Salmo 8 (Hb 2.6-9; 1 Co 15.27); Deuteronômio 32.35 (Hb 10.30; Rm 12.19); e Habacuque 2.4 (Hb 10.38; Rm 1.17; G1 3.11). As evidências supra bastam para demonstrar que a carta aos Hebreus, embora não tenha sido escrita por Paulo, pertence aos mesmos moldes teológicos. Não seria aceitável forçar uma cunha de separação entre eles, nem supor que Hebreus é um desenvolvimento posterior do paulinismo. É mais verdade dizer que, embora os dois sejam desenvolvimentos distintivos, não estão totalmente divorciados da corrente principal da opinião Cristã primitiva. Outros paralelos no Novo Testamento Resta apenas inquirir se há pontos de contato entre Hebreus e outros livros do Novo Testamento. Alguns têm visto paralelos com a literatura joanina, especialmente com a idéia de JESUS CRISTO como o intercessor em prol do Seu povo.48 A maioria concordaria que João 17 apresenta JESUS em semelhante papel, orando em prol do Seu povo de uma maneira que formaria muito bem um elo com a idéia de JESUS o Sumo Sacerdote intercedendo por Seu povo em Hebreus 7.25. Há força nesta comparação, que acrescenta mais peso ao argumento de que Hebreus tem ligações com as várias correntes da tradição cristã primitiva. Não pode ser afirmado com certeza que o autor de Hebreus conhecia o Evangelho segundo João, mas não está fora dos limites da possibilidade que tinha conhecimento de uma tradição que conservava pelo menos o fato, senão o conteúdo, da oração de CRISTO em prol dos Seus discípulos. O tema intercessório ocorre também em 1 João 2.1-2, onde aparece a idéia de CRISTO nosso Advogado. Â parte da literatura joanina, podemos notar, também, que há algumas semelhanças entre Hebreus e o discurso de Estêvão em Atos.49 Estas têm levado algumas pessoas a concluir que Lucas foi o autor das duas obras. Não obstante, à parte das questões da autoria, é relevante que os dois ressaltam a chamada de Abraão e os dois atribuem importância a um templo não feito por mãos humanas. Há alguma concordância entre Hebreus e Atos 7 na abordagem à história vétero-testamentária e na avaliação dela. À luz da discussão supra, pode haver pouca dúvida de que Hebreus não pode ser divorciada da corrente principal da literatura neotestamentá- ria. Nada há para sugerir que os leitores gerais da literatura cristã primitiva teriam tido dificuldade com a intenção do argumento desta carta, nem podemos supor que não teriam visto relevância nele.
 
IX. A TEOLOGIA DA CARTA
Não há dificuldade em localizar os temas principais desta carta, mas não é fácil ver como todos se encaixam. Esta é a tarefa principal do teólogo. É baseada na suposição razoável de que o autor não misturou uma massa de temas sem relacionamento entre si, suposição esta que é apoiada pela natureza ordeira da disposição literária. Fica claro que planejou cuidadosamente a sua obra. Sempre que digressões ocorrem na seqüência do seu pensamento, não têm licença de interferir com o desenvolvimento principal do seu argumento. Procuraremos descobrir, em primeiro lugar, se há uma idéia-chave, que explicaria porque o destaque é dado a temas tais como o Filho, o sumo sacerdócio, o sistema sacrificial, e a nova aliança. O que lhes dá unidade? Notamos imediatamente na introdução à Epístola (1.1-3) que o escritor está insistindo na qualidade definitiva da revelação cristã. Tudo quanto DEUS tomou conhecido antes agora é substituído por Sua revelação através do Seu Filho. O fato de que o escritor imediatamente introduz a singularidade do Filho sugere que não tem certeza, de modo algum, de que seus leitores têm esta convicção. Mas não fica imediatamente aparente porque o Filho é introduzido a esta altura, e porque é somente em 2.9 que Ele é identificado como JESUS. Isto não pode ser por acidente, e a razão disto deve fornecer algum indício para a direção do seu pensamento. Não há dúvida que a posição de JESUS como Filho desempenha um papel principal na Epístola como um todo, mesmo naquelas partes que se concentram em JESUS como Sumo Sacerdote. Talvez possamos ver a introdução precoce de JESUS como Filho como uma indicação de que é através dEle que uma nova era nos tratos de DEUS com os homens foi inaugurada. Tudo quanto acontecia na antiga aliança agora foi substituído por uma aliança melhor. São realmente as implicações desta nova aliança que formam o alvo principal da carta. Tomar-se-á aparente que o Filho é a figura-chave na inauguração da nova aliança, o melhor Mediador possível.
 
O caráter do Filho
Em primeiro lugar, exploraremos o caráter do Filho conforme Ele é demonstrado nesta carta. A apresentação de CRISTO é indubitavelmente de uma natureza exaltada, conforme fica imediatamente aparente nos versículos iniciais, que não somente introduzem o Filho, como também fazem declarações extraordinárias acerca dEle. Podemos resumir a cristologia de modo conveniente sob três aspectos: a pré-existência, a humanidade, e a exaltação do Filho. A pré-existência do Filho é enfaticamente afirmada pelo fato de que se diz que Ele é o agente através de quem todas as coisas foram criadas (1.2). Ele claramente existia antes da criação material. Antecedeu os períodos sucessivos da história do mundo (as eras). Esta cristologia exaltada, portanto, é o ponto principal para o argumento da Epístola. O tema da pré-existência também é apoiado imediatamente pelo caráter do agente na criação — como sendo a glória e a imagem de DEUS — e pelo fato de que Ele continua a sustentar todas as coisas pelo Seu poder. No curso desta Epístola há mais indícios que concordam com este conceito da pré-existência de CRISTO. Na aplicação do Salmo 8 feita pelo escritor em 2.9 há a implicação de que JESUS foi levado a adotar uma posição — menor que os anjos — que não ocupava por natureza. Em 7.3 Melquisedeque é feito semelhante ao Filho de DEUS, não vice-versa, que forçosamente significa que CRISTO era anterior a Melquisedeque. É possível também que 10.5ss. dê testemunho do fato de que na encarnação um corpo foi preparado para o Filho. Parece evidente que, quando o escritor fala em termos da pré-existência do Filho, está pensando no Filho como co-participante da natureza divina. Expressões tais como o resplendor (apaugasma) e a expressão exata (charaktèr) da natureza de DEUS (1.3) bastam para demonstrar este fato. Além disto, o fato de que o Filho desempenha um papel na criação demonstra que desempenha a mesma função que noutras partes da Escritura é atribuída a DEUS. Além disto, diz-se que a sustentação de todas as coisas é “pela palavra do seu poder,” que forma um paralelo com muitas referências ao poder de Javé no Antigo Testamento. Pode ser dito, na realidade, que o argumento inteiro da Epístola depende do fato de que o Filho tem uma posição sem igual em relação a DEUS, que é o sustentáculo da Sua eficácia como Mediador e Intercessor. Demonstra a razão básica para a superioridade de CRISTO como Sumo Sacerdote. Que o escritor não acaba de inventar esta idéia é visto no apoio vétero-testamentário que coleciona no capítulo 1, especialmente a passagem do Salmo 45.6, 7 que atribui em 1.8 a CRISTO, embora as palavras sejam dirigidas a DEUS. Nossa consideração seguinte deve sera humanidade do Filho. Esta decorre diretamente da necessidade da encarnação. Claramente, um Sumo Sacerdote que era divino não poderia representar a humanidade. Para ser um representante verdadeiro, o Filho deve tomar-Se homem. Este fato é compreendido em 2.17, onde o escritor demonstra que o Filho teve de ser feito semelhante aos Seus irmãos a fim de cumprir a função de um Sumo Sacerdote misericordioso e fiel. Se a pré-existência e a natureza divina do Filho são suposições básicas do escritor, assim também é a verdadeira humanidade. Não é sem relevância que o nome de JESUS, que leva consigo alusões à vida humana do Filho, ocorre nove vezes nesta carta. Na maioria das ocasiões em que ocorre fica no fim da cláusula, e, portanto, atrai ênfase adicional (cf. 2.9; 3.1; 6.20; 7.22; 10.19; 12.2; 24; 13.12, 20). Algumas das referências mais claras à vida terrestre de JESUS, fora dos Evangelhos, ocorrem nesta Epístola. A agonia em Getsêmane parece ser diretamente aludida em 5.7ss., onde se mencionam o forte clamor e as lágrimas de JESUS. Os sofrimentos de JESUS são de importância vital para o argumento da Epístola e são mencionados várias vezes. Diz-se especificamente que estes sofrimentos ocorreram “nos dias da sua carne.” O ministério de JESUS é aludido em 2.3. A hostilidade que foi despertada contra Ele é mencionada em 12.3. Eventos tais como a cruz (12.2), a ressurreição (13.20) e a ascensão (1.3) são tomados por certo como sendo conhecimento básico. Além disto, devemos notar aquilo que o escritor diz acerca das atitudes e das reações de JESUS. Por implicação, através de uma citação do Antigo Testamento (Is 8.17-18), diz-se que exerceu fé em DEUS (2.13). Além disto, também é visto como um homem de oração (5.7) e como alguém que demonstrou piedoso temor (5.7). Em seguida, deve ser enfrentada a questão de se o Filho de DEUS ao tomar-Se homem veio a ser um homem caído, e a resposta segundo nosso autor deve, enfaticamente, ser negativa. Duas vezes afirma a impecabilidade de JESUS (4.15; 7.26), ao passo que ao mesmo tempo concorda que JESUS foi tentado em todos os aspectos como nós. Isto demonstra que não considera que a impecabilidade foi o resultado de não ter sido exposto às provações e tensões da vida, mas, sim, a evidência de uma conquista positiva do pecado. Outro aspecto da humanidade de JESUS nesta carta é a ênfase dada à Sua perfeição. Embora o conceito do Seu aperfeiçoamento através do sofrimento (2.10) levante problemas, são diminuídos se é percebido que a idéia da perfeição consiste em completar tim processo. O escritor não pode conceber a totalidade do plano da salvação ficando de pé se JESUS não tivesse sofrido, e vê este fato como parte do processo da consumação. Outra passagem que ressalta o mesmo pensamento é 5.8-9, onde o autor diz que embora JESUS fosse um Filho, aprendeu a obediência. Isto não significa que era relutante em obedecer, ou que houve um tempo em que não era obediente, mas afirma que a experiência de JESUS demonstrou que o Filho era obediente. Foi somente por causa disto que Se tornou a fonte da salvação eterna para todos quantos Lhe obedecem. Há muitas passagens nesta carta que indicam a natureza representativa de JESUS CRISTO, aspecto este que é importante para Ele ser um Sumo Sacerdote eficaz. Diz-se que Ele compartilhou da mesma natureza dos homens a fim de derrotar aquele que mantém os homens na escravidão à morte (2.14). É pela mesma razão que se diz que convinha que JESUS Se encarnasse (2.10). A qualificação principal do sumo sacerdote era ser como seus irmãos (2.17). De nenhuma maneira mais clara o escritor poderia estabelecer sua lição acerca da necessidade da verdadeira humanidade de JESUS. Para ser um representante, tinha de experimentar o que o homem experimenta. Ninguém mais senão um homem verdadeiro poderia ter feito isto. Precisamos passar de uma consideração da Sua humanidade ao tema da exaltação de JESUS. Em pontos estratégicos do argumento, a posição do Filho à destra da majestade nas alturas é mencionada. Encontramos o Filho exaltado primeiramente nos versículos de abertura como se o autor, antes de delongar-se sobre a humilhação envolvida na encarnação, quisesse que seus leitores soubessem acerca da posição exaltada do Filho. Além disto, o fato de que o Filho está assentado demonstra que Sua obra já está completa. O enfoque recai sobre Sua realização após a ressurreição. É o modo do escritor, não somente de referir-se à ascensão, como também de demonstrar as vantagens positivas da missão de CRISTO. Estar assentado numa posição tão exaltada dá ao Filho a posição mais vantajosa para Sua obra de intercessão, embora a obra sumo-sacerdotal não seja realmente mencionada até uma etapa posterior. Antes de passar a discutir a nova aliança no capítulo 8, o escritor mais uma vez lembra aos leitores que nosso sumo sacerdote está assentado à destra de DEUS (8.1). O mesmo se aplica a 12.2, imediatamente antes da passagem sobre a disciplina. Além destas referências à entronização do Filho à destra de DEUS, descobrimos várias descrições do Filho que pressupõem Sua glorificação. É descrito como herdeiro de todas as coisas (1.2), que não aponta simplesmente para a frente para uma herança futura, como também indica aquilo em que Ele já entrou. Há um sentido em que a plena realização, pelo Filho, da Sua herança ainda não foi cumprida até que Ele tenha colocado todos os Seus inimigos debaixo dos Seus pés. Mas diz-se que até mesmo os crentes herdam as promessas (6.12) e algum aspecto da realização presente não pode, no entanto, ser negado ao Herdeiro supremo de todas as coisas. Outro aspecto do Filho é a idéia do precursor, que entra na descrição de JESUS como Sumo Sacerdote em 6.20. Isto é de interesse especial para o escritor, porque está ocupado na carta inteira com a aproximação do homem a DEUS, e serve bem seu propósito demonstrar que JESUS já entrou no santuário celestial. CRISTO como precursor é imediatamente visto como superior aos sumos sacerdotes judaicos, mas esta superioridade é um tema que ocupa o escritor em várias seções da Epístola. Era claramente de grande importância para ele demonstrar de modo preliminar as vantagens infinitas que CRISTO tinha, por natureza, na Sua obra de Sumo sacerdote. A superioridade do Filho sobre outros Até este ponto, temos concentrado nossa atenção naquilo que a carta diz sobre a natureza do Filho. Agora passamos a notar as várias maneiras em que a superioridade do Filho é ilustrada. Em primeiro lugar ressalte-se a superioridade do Filho aos anjos (1.5-2.9). Talvez não fique evidente, à primeira vista, porque o escritor está interessado em estabelecer este fato. Pode ser suposto que os leitores tinham uma estima especialmente elevada pelos anjos, e que não tinham conseguido apreciar até que ponto nosso Sumo Sacerdote lhes é superior. Parece provável que muitos estavam argumentando que os anjos eram superiores a JESUS CRISTO, e neste caso o problema deles não era que JESUS foi feito, por um pouco, menor que os anjos, mas que Ele sempre foi superior a eles. O fato de que esta comparação com os anjos fornece o impacto principal dos capítulos 1 e 2 demonstra a importância que o autor deu à comparação como um todo. Mas depois passa a superioridade do Filho a Moisés. Fá-loem 3.1-6, onde, tendo comparado Moisés, o fiel que mesmo assim era apenas um servo, com CRISTO como Filho, não tem hesitação em declarar a superioridade deste último. Enquanto desenvolve seu tema de Moisés para incluir as peregrinações dos israelitas no deserto, isto o leva a demonstrar que nosso líder é superior a Josué, que não tinha capacidade de dar descanso ao povo. Este tema de superioridade é desenvolvido ainda mais ao demonstrar que nosso Sumo Sacerdote é superior a Arão. Isto será especialmente demonstrado em nossa seção seguinte sobre o Filho como Sumo Sacerdote. Não somente o escritor demonstra a superioridade de JESUS, por causa das insuficiências da linhagem arônica com seus sacrifícios constantemente repetidos e sua sucessão, sempre em mudança, de sacerdotes, como também porque pertencia à ordem superior de Melquisedeque. Na realidade, o tema de Melquisedeque é introduzido principalmente para demonstrar uma alternativa viável para a ordem do sacerdócio, que ao mesmo tempo seria superior. Para aqueles que reverenciam o sacerdócio arônico como o único meio legítimo de aproximação a DEUS, a demonstração da superioridade de CRISTO a Arão seria uma linha indispensável de argumento. O Filho como Sumo Sacerdote Embora este tema seja de interesse primário ao escritor, não o introduz imediatamente. Na realidade, apresenta-o paulatinamente a fim de levar seu argumento para um clímax. É mencionado quase incidentalmente em 2.17 e 3.1, e depois não é aludido outra vez até 4.14. Mesmo então o tema é tocado brevemente a fim de introduzir o tema de Melquisedeque, para ser adiado mais uma vez pela digressão acerca da apostasia, que depois leva a uma volta do tema em 6.20. Este modo um pouco truncado de tratar do assunto não pode ser acidental e deve, portanto, ter o propó­ sito de concentrar a atenção do leitor na sua suprema importância. Nas referências iniciais, certos aspectos são ressaltados de passagem. O Sumo Sacerdote tinha de ser como seus irmãos (2.17); tinha de ser misericordioso e fiel (2.17); tinha de fazer expiação pelos pecados do povo (2.17); acima de tudo, tinha de saber simpatizar-se com o povo que representava (4.15). Na primeira passagem mais extensa em 5,lss., a qualificação principal ressaltada é a de ser nomeado por DEUS. O escritor não tem dúvida de que JESUS, o Filho, preenche todos os requisitos mencionados supra. O fato de que JESUS é visto, em razão destas qualidades, como sendo elegível para o cargo de Sumo Sacerdote leva para a discussão principal acerca de Melquisedeque, porque sejam quais forem as qualidades que possuía, a JESUS faltava uma qualificação essencial para a elegibilidade ao sacerdócio arônico: pertencia à tribo de Judá, não de Levi. Não havia maneira, portanto, de sustentar que JESUS era um Sumo Sacerdote do tipo levítico. Se haveria de ser um Sumo Sacerdote, teria de ser de um tipo diferente, e a inspiração do escritor leva-o a identificar essa nova ordem de sacerdócio com a de Melquisedeque. Provavelmente fora levado a esta idéia pela declaração explícita do Salmo 110.4, que depois o levou de volta para a referência original em Gênesis 14.17-20. Visto que sabemos que havia especulações acerca de Melquisedeque na literatura de Cunrã, não é impossível que os leitores talvez já tivessem sido preparados na questão de Melquisedeque, embora o autor levante questões e aplique a idéia de uma maneira totalmente nova. Os aspectos específicos do sumo-sacerdócio de Melquisedeque que o autor ressalta podem ser resumidos de forma breve com os seguintes títulos. Em primeiro lugar: é diferente do de Arão. A diferença não reside simplesmente na sua superioridade. Nem se acha nas funções sacerdotais, porque pela sua definição a função do sacerdote é agir em prol de DEUS diante dos homens e em prol dos homens diante de DEUS. Tanto Arão quanto Melquisedeque fizeram assim. Mas onde Melquisedeque difere radicalmente de Arfo é na ordem à qual pertence. A ordem de Melquisedeque forma uma classe separada. É diferente por basear-se numa qualidade diferente de vida (o poder de uma vida indestrutível, 7.15, 16). Em segundo lugar, notamos que a ordem de Melquisedeque é eterna. Seu sacerdócio é “para sempre” e, portanto, não está sujeito às muitas limitações que afetavam os sacerdotes arônicos. Este elemento eterno é desenvolvido de modo estranho a partir do silêncio do relato de Gênesis em relação ao começo ou ao fim da vida de Melquisedeque. Mas o escritor está convicto de que a Escritura tem a intenção de apoiar esta qualidade permanente. Em terceiro lugar, a ordem de Melquisedeque é real. Não somente o relato de Gênesis chama Melquisedeque de rei de Salém, como também acrescenta a interpretação “rei de paz.” A lição principal é que, diferentemente da ordem de Arão, existe outra que é real. Fomece-se, assim, outro aspecto que demonstra a superioridade desta última. Melquisedeque, de modo muito mais eficaz do que Arão, fornece um “tipo” para o sacerdócio real de CRISTO. Em quarto lugar, podemos notar que a ordem de Melquisedeque é imutável. Está em forte contraste com o pessoal que está sendo constantemente trocado na ordem de Arão. Disposições tinham de ser feitas para a continuidade de uma linhagem de sucessão, de modo que quando um sumo sacerdote morria, outro era levantado para tomar seu lugar. Semelhante mudança constante não era necessária na ordem de Melquisedeque. Vê-se, em tantos aspectos, que a ordem de Melquisedeque é superior à de Arão que se pode até estranhar porque nenhum uso eficaz tinha sido feito da idéia nos séculos intervenientes entre Melquisedeque e CRISTO. A razão deve ser que Melquisedeque somente recebe a atenção que lhe toca quando é visto o antítipo. Noutras palavras, Melquisedeque obtém sua relevância através de Gristo, e não vice-versa. Na realidade, diz-se que o pró­ prio Melquisedeque é feito semelhante ao Filho de DEUS. A obra do Filho como Sumo Sacerdote No pano de fundo de nosso Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, o escritor pensa no serviço que realiza e é especialmente influenciado pelo ritual seguido na ordem em Levítico sobre o Dia da Expiação. Este era o dia mais significativo para o sumo sacerdote arônico, porque era o dia em que ele, e somente ele, tinha licença de entrar no SANTO dos Santos. Era-lhe necessário levar lá para dentro o sangue sacrificial como expiação a ser aspergido sete vezes sobre o propiciatório (Lv 16). Esta idéia sacrificial fornece uma ilustração notável do significado da morte sacrificial de CRISTO. O fato de que o escritor entre em pormenores ao descrever o SANTO dos Santos (9.1 ss.) demonstra que para ele, havia uma estreita conexão entre o ritual arônico e o sacrifício que CRISTO fez de JSi mesmo. O ritual levítico era considerado uma “figura e sombra” (8.5) do santuário celestial. O pensamento passa do tabernáculo terrestre para o celestial. Mas não somente é diferente a localização da oferta, como também a própria oferta é de um tipo diferente. O Sumo Sacerdote, de modo totalmente sem precedentes, oferece a Si mesmo. Não preocupa o escritor o fato da analogia do Antigo Testamento ser rompida, porque o sacrifício que CRISTO fez de Si mesmo é o clímax da sua exposição e imediatamente toma a obra sumo-sacerdotal de CRISTO totalmente sem igual. Em 9.14 afirma que CRISTO Se ofereceu pelo ESPÍRITO eterno, o que destaca este sacrifício como algo incomparável ao ser colocado lado a lado com o derramamento do sangue de animais indefesos. Demonstra, também, que o sangue de CRISTO pode purificar a consciência, o que as ofertas levíticas não podiam fazer. De suprema importância para o escritor é a eficácia da morte sacrificial de CRISTO. Enfatiza várias vezes que foi de “uma vez por todas” (7. 27; 9.12, 26; 10.10). Nunca houve questão alguma de uma repetição. Seria totalmente inconcebível que semelhante oferta pudesse chegar a ser inadequada, nem seria inteligível a repetição de semelhante sacrifício (cf. 9.26). O escritor está convicto de que a qualidade sem igual do cristianismo achase no ato central de CRISTO ao dar-Se como oferta na cruz pelos pecados do Seu povo. Boa parte da seção 8.1-10.18 é ocupada com a demonstração do sacrifício superior que CRISTO ofereceu. Em nenhum outro lugar do Novo Testamento o aspecto sacrificial da obra de CRISTO é ressaltado com tanto impacto. Qualquer doutrina da expiação que se baseia no Novo Testamento deve levar plenamente em conta o testemunho desta Epístola acerca do significado do sangue de CRISTO. Há certos resultados do sacrifício que CRISTO fez de Si mesmo que são ressaltados, os quais dizem respeito à aplicação da Sua obra. Em primeiro lugar, notamos a purificação pelos pecados, que não somente aparece na introdução de 1.3, como também volta a ocorrer noutras ocasiões (cf. 9.23; 10.2-3). A remoção da culpa do pecado que é integral à idéia da expiação é um interesse especial desta Epístola. O escritor está confrontado com o fato de que a antiga ordem levítica não poderia remover os pecados (10.4), mas está convicto de que aquilo que falta na velha ordem tem ampla cobertura na nova, através de CRISTO. O tema da purificação chega ao seu clímax em 10.22, onde os leitores são exortados a aproximar-se de DEUS porque seus corações foram purificados da má consciência (cf. 9.14). Em segundo lugar, descobrimos que o tema da perfeição é ressaltado. Diz-se que CRISTO, “com uma única oferta aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (10.14). Este é outro aspecto da superioridade da oferta de CRISTO, porque a lei não podia aperfeiçoar coisa alguma (7.19). Deve ser notado, no entanto, que este aspecto da obra de CRISTO não dá apoio algum à teoria da perfeição impecável. O tema da perfeição em Hebreus forma um paralelo com a doutrina de Paulo da justificação, embora seja abordada de um ângulo diferente. Em terceiro lugar, o conceito da santificação precisa de mais ênfase, porque ocorre não somente na passagem que acaba de ser citada (10.14) como também em 2.11; 10.10, 29; 13.12. A santificação e a purificação também estão estreitamente vinculadas entre si, mas a primeira está especificamente ocupada com a separação para um propósito santo, para a qual um processo de tomar-se santo é indispensável. É importante, no entanto, notar que nas referências mencionadas supra não é o indivíduo que santifica a si mesmo. Esta é a obra de DEUS mediante CRISTO. Esta ênfase dada à santificação demonstra que, embora o oferecimento de CRISTO seja de uma vez por todas, Sua obra em prol dos homens não deixa de ser contí­ nua, como também é Sua obra de intercessão (4.15; 7.25). A inauguração da Nova Aliança, feita pelo Filho Nenhum panorama da teologia de Hebreus, no entanto, por breve que seja, estaria completo sem alguma menção da Nova Aliança. Visto que no âmago do memorial à morte de CRISTO na Ceia do Senhor, há referência à Nova Aliança, o ensino desta Epístola sobre o tema tem relevância especial. Embora o escritor declare que a antiga é obsoleta (8.13), há alguma continuidade entre a antiga e a Nova. A antiga, como a Nova, foi ordenada por DEUS. Era a provisão de DEUS para Seu povo. Imediatamente depois de mencionar o caráter obsoleto da Antiga Aliança, o escritor passa a falar com apreço evidente acerca da mobília do centro do culto segundo aquela aliança (9.1ss.). Além disto, tanto a antiga aliança quanto a nova eram providências da graça de DEUS para aqueles que não podiam fazer qualquer providência para si mesmos. Os que recebiam a Nova Aliança não tinham maiores reivindicações sobre DEUS do que os que tinham recebido a antiga. A maior significância da Nova não dependia de um acordo entre DEUS e um povo melhor. É superior somente por ter um Mediador melhor. É baseada numa remoção mais eficaz dos pecados. A citação extensa de Jeremias 31:31-34 em Hebreus 8.8-12 chama a atenção ao caráter interior da Nova Aliança. Seus resultados, portanto, serão de uma alta ordem ética. Quando as leis de DEUS estiverem escritas nos corações dos homens, serão desenvolvidas nas vidas dos homens. Este caráter interior, no entanto, demarca a Nova Aliança como sendo claramente superior à antiga. O que, então, o escritor pensa da aplicação do seu debate bastante teológico acerca da natureza do Filho, do Sumo Sacerdote e do sistema sacrificial? Quando chega à conclusão desta parte da sua carta, faz uma exortação tríplice em 10.19-25, que demonstra que tem uma abordagem nitidamente prática. 10.22 menciona a fé, 10.23 se refere à esperança, e 10. 24 ao amor. Estas três respostas resumem a reação do cristão a tudo quànto CRISTO fez (cf. o tratamento de Paulo das mesmas três qualidades em 1 Co 13). Além destas exortações específicas, o escritor dedica um capítulo inteiro (11) a ilustrações de fé. Além disto, faz seus leitores entenderem que sua nova posição não os absolveria da necessidade da disciplina (12). Há, na realidade, um equilíbrio perfeito nesta Epístola entre a doutrina e a vida prática, o que a toma valiosa e relevante não somente para os leitores originais, como também para seus equivalentes modernos. É dentro do contexto da nova aliança que as advertências contra a apostasia (2.14; 6.1-8; 10.29) têm relevância. Virar as costas contra uma aliança tão maravilhosa seria o equivalente de recrucificar o Filho de DEUS; importaria na rejeição total do cristianismo. Estas passagens não devem ser isoladas da Epístola como um todo. Visam advertir contra as graves conseqüências de rejeitar as graciosas providências de DEUS. O escritor faz muito caso do conceito de fé, e é importante comparar seu ensino sobre o assunto com outros escritores do Novo Testamento, especialmente com o apóstolo Paulo. A declaração em 11.1 de que a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem, demonstra que a idéia principal é uma estreita conexão entre a fé e a esperança. Este é, sem dúvida alguma, o aspecto mais distintivo dos heróis da fé alistados no capítulo 11. Estes grandes homens do passado olhavam para o futuro. Percebia-se que a base das suas proezas era confiar em DEUS que transformaria suas aflições presentes em vitória final. Há, portanto, uma estreita conexão entre a piedade vétero-testamentária e a fé em 52
DEUS. A fé fornecia a confiança em DEUS que era tio necessária nos tempos de aflição de Israel. Enquanto o escritor contempla a história do passado, não é inconsciente da existência da descrença, conforme demonstra tão vividamente nos capítulos 3 e 4. Precisamos, no entanto, inquirir de quais maneiras o escritor ressalta o aspecto especificamente cristão da fé. Claramente, CRISTO fez uma diferença. Ele é descrito como o Autor da nossa fé, bem como seu Consumador (12.2). Os leitores são exortados a olhar para Ele. Esta qualidade cristocêntrica da fé é um desenvolvimento da confiança vétero-testamentária em DEUS. As recompensas da fé, no entanto, devem ser compartilhadas igualmente pelos fiéis da antigüidade e pelos crentes cristãos do presente (cf. 11.40). É digno de nota que há uma ausência do conceito paulino característico da fé como um compromisso pessoal com CRISTO. Não se quer dizer com isto que este escritor propõe uma outra maneira de apropriar-se dos benefícios da salvação além da fé. Toma-a por certo, porém, ao invés de fazer uma exposição dela. Está preocupado com a compreensão daqueles que já se tomaram participantes do ESPÍRITO SANTO (6.4). Deseja assegurarse de que eles permaneçam firmes (cf. 3.6; 10.23). Conclusão Não podemos concluir melhor este breve esboço do ensino principal da Epístola senão por meio de chamar a atenção à oração magnífica com que a própria Epístola termina (13.20-21). Resume a estreita conexão entre os aspectos doutrinários e ético do tema inteiro. Menciona a natureza de DEUS (o DEUS da paz), a ressurreição de CRISTO, a função de CRISTO (Pastor), o sangue da aliança, e a aplicação prática (“para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele”). É tanto uma oração quanto uma declaração, numa só sentença.
 
ANÁLISE
I. A SUPERIORIDADE DA FÉ CRISTÃ (1.1-10.18)
A. A REVELAÇÃO DE DEUS ATRAVÉS DO FILHO (1.14)
B. A SUPERIORIDADE DO FILHO AOS ANJOS (1.5-2.18) (i) CRISTO é superior na Sua natureza (1.5-14) (ii) Uma exortação contra o desvio (2.14) (iii) A humilhação e a glória de JESUS (2.5-9) (iv) Sua obra em prol dos homens (2.10-18)
C. A SUPERIORIDADE DE JESUS A MOISÉS (3.1-19) (i) Moisés o servo e JESUS o Filho (3.1-6) (ii) Enfoque sobre o fracasso do povo de DEUS sob Moisés (3.7-19)
D. A SUPERIORIDADE DE JESUS A JOSUÉ (4.1-13) (i) O descanso maior que Josué não podia obter (4.1-10) (ii) A urgência em buscar o descanso (4.11-13)
E. UM SUMO SACERDOTE SUPERIOR (4.14-9.14) (i) Nosso grande Sumo Sacerdote (4.14-16) (ii) A comparação com Arão (5.1-10) (iii) Um interlúdio desafiador (5.11-6.20) (iv) A ordem de Melquisedeque (7.1-28) (v) O ministro da Nova Aliança (8.1-13) (vi) A glória maior da nova ordem (9.1-14)
F. O MEDIADOR (9.15-10.18) (i) O significado da Sua morte (9.15-22) (ii) Sua entrada num santuário celestial (9.23-28) (iii) Seu oferecimento de Si mesmo em prol doutros (10.1-18)
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A. A POSIÇÃO PRESENTE DO CRENTE (10.19-39) (i) O novo e vivo caminho (10.19-25) (ii) Outra advertência (10.26-31) (iii) O valor da experiência passada (10.32-39)
B. A FÉ (11.1-40) (i) Sua natureza (11.1-3) (ii) Exemplos do passado (11.4-40)
C. A DISCIPLINA E SEUS BENEFÍCIOS (12.1-29) (i) A necessidade da disciplina (12.1-11) (ii) Evitando a inconsistência moral (12.12-17) (iii) Os benef/dos da nova aliança (12.18-29)
D. CONSELHOS FINAIS (13.1-25) (i) Exortações que afetam a vida social (13.1-3) (ii) Exortações que afetam a vida particular (13.4-6) (iii) Exortações que afetam a vida religiosa (13.7-9) (iv) Acerca do novo altar do cristão (13.10-16) (v) Palavras finais (13.17-25)
 
COMENTÁRIO
 I. A SUPERIORIDADE DA FÉ CRISTÃ (1.1-10.18)
Os cristãos que tinham vindo de um passado judaico naturalmente comparariam sua fé recém-achada com a riqueza da sua herança tradicional judaica. Esta carta se propõe a demonstrar-lhes a maior riqueza da sua posição cristã. A cada etapa do argumento a nota tônica é que sua nova fé é melhor. Embora a direção deste argumento teria valor especial para ex-judeus que se tomaram cristãos, o tema da superioridade da fé cristã teria relevância também para aqueles que foram convertidos de um passado pagão, tendo em vista o fato de que os crentes gentios bem como os crentes judeus aceitavam a autoridade das Escrituras do Antigo Testamento e precisariam de uma interpretação verídica das mesmas.
 
A. A REVELAÇÃO DE DEUS ATRAVÉS DO FILHO (1.1-4)
Nesta breve seção introdutória, a revelação de DEUS através do Seu Filho é vista não somente como superior mas também como definitiva. Levado em conta que semelhante revelação conclusiva requer um meio muito especial, o escritor introduz seus leitores à natureza superior do Filho e também liga o que Ele é com o que Ele tem feito.
 
HEBREUS 1-2
1. A carta começa com uma declaração de um fato, a saber: que DEUS tem falado.
Pelo menos o escritor não vê necessidade alguma de demonstrar este fato. Não comprova que DEUS fala, afirma. Isto significa que a carta não tem relevância para aqueles que não aceitam que DEUS falou ao homem? A resposta deve ser sim. A fé não somente na existência de DEUS, bem como na comunicação de DEUS, são tomadas por certas. É um dos princípios sobre os quais baseia-se a totalidade do argumento da carta. É inútil ler mais se DEUS não faz revelação alguma aos homens.
A carta oferece, do outro lado, alguma ajuda em prol de uma melhor compreensão daquilo que DEUS tem feito. Outra suposição que o autor faz é que aquilo que aconteceu no passado tem aplicação ao presente. Semelhante suposição seria rejeitada por muitos pensadores contemporâneos. Há, realmente, no mundo secular uma reação contra o passado como se qualquer apelo às suas lições fosse inadmissível. Sempre há, porém, uma seção da sociedade que vive no futuro e está contra o presente e o passado — um tipo de atividade permanentemente contrária à situação em vigor. Mas os mais sábios reconhecem que alguma continuidade é inescapável. Este princípio é básico para o Novo Testamento, e em nenhum lugar é enfocado tão claramente quanto em Hebreus. Aquilo que prende a atenção do escritor é a variedade de maneiras segundo as quais DEUS tem falado no passado. Não as alista, mas usa a expressão muitas vezes, e de muitas maneiras. -Qualquer pessoa com conhecimento do Antigo Testamento imediatamente conseguiria preencher os pormenores — os modos diferentes (visões, revelações angelicais, palavras e eventos proféticos) e as ocasiões diferentes (espalhando-se, por todo o panorama da história do Antigo Testamento). As revelações mais iluminadoras vinham através dos profetas. Estes eram homens levantados por DEUS para desafiar seus próprios tempos. Seu emblema de ofício era a convicção inabalável de que falavam da parte de DEUS. Sua capacidade de dizer: “Assim diz o Senhor,” dava às suas palavras uma autoridade sem igual. Eram maltratados (conforme Hb 11.33ss. demonstra) mas, mesmo assim, persistiam na sua mensagem. As suas histórias formam uma leitura heróica, mas aquilo que diziam era incompleto. O escritor de Hebreus sabia qüe era necessário um método melhor de comunicação, e reconhece que este veio em JESUS CRISTO. Sendo assim, poderíamos querer saber porque o antigo não pode ser esquecido. Afinal das contas, aquilo que JESUS revela é melhor do quê os profetas. Apesar disto, a continuidade é mantida. Aquilo que foi falado outrora (palaij preparou o caminho para a comunicação mais importante de todas (i.é., a revelação pelo Filho). Este é o tema real da carta inteira: o passado cedeu lugar a coisas melhores. É por esta razão que o passado (as idéias religiosas do Antigo Testamento) sempre volta a aparecer no quadro pintado por esta Epístola, para então voltar a desvanecer-se à medida em que idéias melhores o cumprem e o expandem. É fácil perceber porque o escritor começa desta maneira. Vê valor no passado (porque DEUS falou através dele), mas também vê suas imperfeições. O que ele diz não pode deixar de lançar luz sobre a abordagem cristã no Antigo Testamento. Isto toma sua carta valiosa para hoje, e não somente para os tempos dele.
 
2. Nestes últimos dias pode ser entendido no sentido e ao fim destes dias, que aponta muito claramente para uma crise, uma nova revelação decisiva contrastada tanto com a variedade de modos quanto com a necessidade da repetição no passado.
Uma revelação dada de uma vez por todas é claramente superior. Talvez o escritor estivesse pensando nos últimos dias como sendo os dias finais do período pré-cristão, de modo semelhante à divisão que os mestres judaicos faziam entre a era presente e a era do Messias. Segundo este ponto de vista, visto que os cristãos acreditavam que JESUS era o Messias, os “últimos dias” eram o fim da velha era. Mas tendo em vista a expressão correspondente “ao se cumprirem os tempos” em 9.26, é mais provável que “estes últimos dias” se refira à era cristã, que envolve uma nova era comparada com a antiga. Quando DEUS falou aos homens pelo Filho, o propósito era marcar o fim de todos os métodos imperfeitos. A cortina finalmente descera sobre a era anterior, e a era final agora tinha raiado. Quando, no texto grego, o escritor diz um Filho ao invés de Seu Filho, fá-lo para demonstrar o meio superior usado. Certamente não está dizendo que DEUS tinha mais de um Filho. Está subentendendo que o melhor dos profetas não pode ser comparado com um Filho como meio de revelação. Naturalmente, a idéia do Filho de DEUS vindo aos homens é uma pedra de tropeço para muitos, mas o escritor não defende sua declaração. Não vê necessidade de fazer assim, a despeito do fato de que seus próprios contemporâneos não estariam mais acostumados à idéia do que nós. Os pagãos às vezes pensavam na prole dos deuses, mas esta é uma idéia muito diferente de JESUS como Filho de DEUS. Nosso escritor deve ter tomado por certo que seus leitores reconheceriam esta fato sem questioná-lo. Mas não diz logo de início que está pensando em JESUS. Isso vem mais tarde, em 2.9 Há, naturalmente, um problema de linguagem aqui. Pode ser questionado, no entanto, quão significativa é a idéia do pai-filho com referência a DEUS, por mais valiosa que seja nos assuntos humanos. Mas na tentativa de colocar a verdade divina em linguagem humana, o melhor que se pode fazer é usar a aproximação humana mais à mão; enquanto isto for mantido em mente, esta linguagem fica cheia de sentido. A essência da revelação cristã é que DEUS é melhor visto no Seu Filho. A analogia humana é imperfeita, naturalmente, porque nenhum pai humano é completamente refletido no seu filho. Mas JESUS CRISTO demonstra perfeitamente tudo que possa ser sabido acerca do Pai. Não admira que nosso escritor está impressionado pela superioridade deste tipo de mensagem comparada com os meios usados no passado! Sabe que se os homens não podem aprender do Filho acerca de DEUS, nenhuma quantidade de vozes ou ações proféticas os convenceria. Antes de identificar o Filho esmo sendo JESUS CRISTO, o autor dá uma descrição do Filho. É uma descrição profunda, porque nos conta acerca daquilo que Ele é, e não acerca da Sua aparência. O escritor quer que saibamos em primeiro lugar acerca do relacionamento entre o Filho e o mundo da natureza. É compreensível que ele comece aqui, porque o mundo da natureza é nosso meio-ambiente, nosso lar. Para muitos, esta verdade vai até tal ponto que se sentem presos neste meio-ambiente, e não podem conceber dalguém que seja mais poderoso. O conceito que este autor tem do mundo concorda com aquele que é visto em todas as partes do Novo Testamento. É um conceito que começa com DEUS como Criador e passa a ver JESUS CRISTO como estando estreitamente vinculado com Ele no ato da criação. Desta maneira, o universo impessoal imediatamente se toma pessoal. O escritor declara que DEUS constituiu Seu Filho, que é um ato de iniciativa pessoal aqui (o aoristo grego ethêken deve ser considerado intemporal). A verdade importante nesta passagem é que tudo remonta a DEUS. Por que é dito que DEUS constituiu o Filho herdeiro de todas as coisas? Significa que veio a ser aquilo que não era antes? Os elementos de tempo tendem a confundir. É melhor pensar na ordem criada conforme ela é, e depois ser lembrado de que ela pertence a JESUS CRISTO. É acerca da realidade presente da nomeação que o autor se ocupa, e não acerca de quando foi feita. Na realidade, fica claro que o escritor quer que entendamos que nunca houve um tempo em que o Filho não era o herdeiro. As duas idéias, a Filiação e a qualidade de Herdeiro, estão estreitamente vinculadas entre si. Nos negócios humanos, o filho mais velho é o herdeiro natural. Na analogia, um pensamento mais profundo é introduzido. O herdeiro também é o criador. Não está herdando aquilo com que não tem conexão. Herda aquilo que Ele mesmo criou. O escritor imediatamente nos mergulhou em pensamentos profundos acerca da origem do mundo. Mesmo assim, seu interesse por eles não é teórico mas, sim, prático, e nos faz lembrar dos ensinos de JESUS acerca de DEUS e da criação. É Sua criação, Ele até mesmo nota quando um pardal cai. É consolador saber que o Filho tem o mesmo interesse pessoal no mundo em nosso redor. 0 que esta carta passa a dizer acerca de JESUS CRISTO está claramente baseado num alto conceito dEle. A declaração de que DEUS fez o universo por meio do Filho é estonteante. Não se pode negar que DEUS poderia ter feito o universo à parte do Seu Filho, mas o Novo Testamento esmera-se em demonstrar que DEUS não agiu assim. Os cristãos estavam convictos que a mesma Pessoa que vivera entre os homens foi Aquele que criara os homens. Uma carta tal como Hebreus, escrita a partir desta convicção, não poderia deixar de apresentar um quadro mais do que humano de JESUS CRISTO. É digno de nota que este escritor usa a palavra para “eras” (aiõnes) e não a palavra usual para mundos (kosmoi) quando fala acerca dos atos criadores de DEUS. A razão é que a palavra para “eras” é mais compreensiva, e que inclui em si mesma os períodos de tempo através dos quais a ordem criada existe. Quanto mais a ciência descobre acerca do universo, tanto mais maravilhoso é o pensamento de que CRISTO é o agente através de quem foi criado. Os racionalistas podem argumentar que as descobertas científicas tomam insustentável a cosmovisão do Novo Testamento, mas o cristão declara o inverso. Quanto maior for a compreensão do homem das maravilhas do universo, tanto maior a necessidade de uma compreensão adequada da sua origem. A crença num Criador pessoal não é menos crível à medida em que aumenta a penetração do homem no espaço.
 
HEBREUS 3-4
3. Tendo já mergulhado seus leitores em pensamentos teológicos profundos, o escritor ainda vai mais fundo enquanto comenta sobre CRISTO e DEUS.
Qual é o relacionamento entre eles? Como resposta, três coisas nos são ditas; a primeira pode ser resumida como o Filho e a glória de DEUS. Ele ê o resplendor da glória de DEUS. Para compreender esta declaração, precisamos recaptar o fundo histórico do pensamento. A idéia é a da radiância que irrompe de uma luz brilhante. É um quadro marcante, como o surgimento repentino de uma aurora gloriosa no levantar do sol. Os raios penetram em todos os restinhos da escuridão para espatifá-la. Até mesmo este quadro explica de maneira pobre o sentido em que JESUS CRISTO reflete a glória de Seu Pai, porque os raios de luz, por mais esplêndidos que sejam, são, afinal das contas, impessoais. Talvez alguns dos leitores tenham se lembrado de que no Livro da Sabedoria (7.26), judaico, a mesma palavra foi aplicada à sabedoria, considerada personificada. De qualquer maneira, nosso escritor quer que saibamos que a glória de DEUS podia ser vista em JESUS CRISTO.s Uma idéia semelhante aparece em João 1.14, onde uma testemunha ocular declara ter visto a glória. Isto somente pode querer dizer que a totalidade do ministério de JESUS era evidência da glória de DEUS. João chega mesmo a dizer isto acerca do primeiro milagre que JESUS operou (Jo 2.11). Era claramente uma convicção firme entre os cristãos primitivos de que, dalguma maneira, a glória de DEUS era vista numa vida humana. A ocasião mais óbvia foi quando JESUS foi transfigurado, mas Sua missão inteira, inclusive Sua morte, era gloriosa para aqueles que vieram a crer nEle. Refletir a glória de DEUS desta maneira pressupõe que o Filho compartilha da mesma essência do Pai, e não somente da Sua semelhança. A segunda declaração acerca do Filho é que é a expressão exata do seu Ser. Isto vai consideravelmente além da primeira declaração, embora seja vinculada a ela. Isto ressalta especificamente o fato de que Aquele que reflete a glória de DEUS compartilha da Sua natureza. A palavra usada aqui para “expressão exata” (charaktêr) é a palavra para um carimbo ou uma gravação. É altamente expressiva, porque um carimbo num selo de cera terá a mesma imagem que a gravura no selo. A ilustração não pode ser forçada longe demais, porque não deve ser suposto que o Filho é formalmente distinto do Pai como o carimbo é diferente da impressão que produz. Há, apesar disto, uma correspondência exata entre os dois. Esta declaração em si mesma contém uma verdade profunda, porque a semelhança exata tem relacionamento com a natureza de DEUS (hypostaseòs). A declaração não é sem importância para o pensador teológico, porque apóia a opinião de que JESUS era da mesma natureza de DEUS. Se for assim, nenhuma diferença pode ser feita entre a natureza do Pai e a natureza do Filho. O escritor rapidamente mergulhou seus leitores na teologia profunda, mas não pára a fim de discuti-la. Toma por certo que seus leitores aceitarão sem questionar este conceito de JESUS CRISTO. A terceira declaração diz respeito ao papel presente do Filho na criação. É dito que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder. Duas perguntas surgem imediatamente. Em que sentido devemos compreender o sustentar, e de que maneira a palavra transmite poder? A palavra para “sustentando” (pheròn) tem o sentido de manter no alto ou sustentar, o que demonstra que JESUS CRISTO é visto no centro da estabilidade constante do universo. Não há lugar aqui para a idéia do deísta acerca de DEUS como relojoeiro que, tendo feito um relógio, deixa-o funcionar sozinho com seu próprio mecanismo. O conceito neotestamentário é que DEUS como Criador e o Filho como agente na criação estão dinamicamente ativos na ordem criada. Mas como o Filho exerce o Seu poder?6 Deve ser notado que a palavra seu (autou) podia referir-se ao poder do Filho òu ao poder do Pai, mas isto faz pouca diferença à interpretação. A palavra relembra a palavra de oídem de DEUS na criação (e.g. “Haja luz”) e a idéia em João 1.1-3 de que todas as coisas foram feitas pela Palavra (JLogos), termo este [traduzido “Verbo” ] que se refere ao próprio JESUS CRISTO. Da mesma maneira que a Palavra criou, a Palavra sustenta. A estabilidade assombrosa da ordem criada é testemunha do “poder” por detrás dela. Depois desta série de ditos grandiosos acerca de JESUS CRISTO, o escritor dá um indício do tema predominante da sua carta. A purificação dos pecados é uma busca religiosa que já durou muitas eras. Sempre que há qualquer consciência do pecado, geralmente está presente um forte desejo de ser purificado dele. As várias tentativas humanas de obter semelhante purificação apresentam um amplo espectro de idéias, desde os mais desesperados esforços-próprios até à supressão de todos os esforços e até mesmo de todos os desejos. A maioria dos sistemas começa com o homem e depende da força da vontade dele mesmo. De má fama entre tais sistemas correntes nos tempos de JESUS era o dos fariseus que geralmente faziam das boas obras e do esforço-próprio a medida da devoção religiosa. A idéia de que os pecados poderiam ser purificados sem semelhante esforço lhes era estranha. Certamente, a idéia de que JESUS CRISTO podia purificar os pecados era considerada incrível. JESUS viu-Se confrontado com este conceito quando perdoou o pecado de um homem, e Lhe foi dito que somente DEUS podia perdoar os pecados. Mas nesta carta a idéia vai mais longe do que o perdão, porque a purificação envolve a limpeza, no sentido de tornar puro. É estranho que o escritor desta carta não dê indício algum a esta altura acerca da maneira em que JESUS CRISTO purificou os nossos pecados. Nada há para mostrar como ele lidou com o pecado, ainda que, à medida em que a carta prossegue, este fato fica sendo cada vez mais claro. Parece que a esta altura é suficiente para ele mencionar um ato completado (o tempo aoristo (poièsamenos) exige assim7) para resumir o que o Filho fez em prol dos homens. A ligação entre a idéia de sustentar o universo com a de purificar os pecados é muito notável. A qualidade remota a inspiradora de temor de sustentar o universo é contrabalançada pela intimidade da purificação dos pecados. Com uma tela tão grande quanto o universo para pintar, é notável achar a mínima menção dos pecados. Mas é este último tema que dominará a carta inteira. Deve ser mantido em mente que o Antigo Testamento demonstra que providências foram feitas para a expiação mediante o sacrifício, e visto que esta carta é endereçada a “Hebreus” pressupõe-se, sem dúvida, que os leitores vinculariam a “purificação” com o Dia da Expiação, quando, então, enfatizava-se que a purificação dos pecados do povo somente poderia ser feita mediante o sacrifício. O escritor demonstra mais tarde que o sangue de touros e de bodes não pode remover pecados (10.4). Por enquanto, contenta-se com o resumo o mais conciso possível. Depois de tratar dos pecados, o Filho sobe ao trono. Mais uiha vez, a ação é específica. Aconteceu depois do evento de purificar os pecados, o que sugere que a importância da entronização acha sua chave no ato da purificação.8 Mais uma vez, trata-se de um resumo brevíssimo. A mão direita era tradicionalmente o lugar de honra. A idéia aqui é tirada da prá­ tica dos reis orientais de associar com eles mesmos o herdeiro no exercí­ cio do governo. Apesar disto, a idéia do Messias estar assentado à direita de DEUS provém do Salmo 110.1. A associação deve ter estado na mente do autor, porque várias vezes cita este Salmo mais tarde na Epístola. Realmente, pode ser dito que este Salmo forma uma parte importante do pano de fundo da carta inteira. Evidentemente, o escritor tinha meditado sobre ele, porque é dele que desenvolve a idéia de uma ordem diferente de sacerdócio. Para o momento, no entanto, tem outras coisas em mente antes de chegar àquele assunto. O ato de sentar-se (assentou-se, ekathisen, aoristo) leva consigo um forte sentido de realização, porque a posição assentada é mais sugestiva de uma tarefa acabada do que uma posição em pé. Na realidade, esta ênfase no CRISTO assentado, que é apoiada por outras evidências neotestamentárias, demonstra conclusivamente que a obra sacrificial está feita. Já não há necessidade alguma de semelhante sacrifí­ cio. A posição sentada também pode denotar uma posição de alta honra.9 Há apenas uma referência a CRISTO em pé no céu: quando Estêvão viu o Filho do homem no céu, viu-0 em pé à direita de DEUS (At 7.56). Isto refere-se à Sua obra de intercessão, não à Sua obra de sacrifício. O pecado já foi tratado, mas o povo de DEUS ainda precisa de um intercessor pra pleitear por ele — o que é outro tema desenvolvido posteriormente nesta carta. Vale a pena notar que a Majestade nas alturas é uma maneira especialmente respeitosa de falar acerca de DEUS. Reflete a reverência judaica para com o nome de DEUS que levou os judeus devotos a evitar o seu uso e a colocar no lugar dele alguma frase de respeito. O escritor usa uma frase quase idêntica em 8.1. A presente declaração é apenas uma indicação da exposição mais completa que está para seguir. O escritor claramente tem um conceito majestoso de DEUS.
 
4. Este versículo cumpre dois propósitos: conclui a declaração introdutória e prepara o cenário para a primeira seção principal.
Tendo em vista tudo que já foi dito, a superioridade do Filho aos anjos não é surpresa alguma. Mas não fica tão claro por que a comparação é feita com anjos a esta altura. Pode ser que o escritor tinha meditado sobre as passagens do Antigo Testamento que passa a citar, com interesse especial pelo Salmo 8 (citado no cap. 2) e no Salmo 110, porque os considerava messiânicos. Do outro lado, é possível que a idéia da superioridade de CRISTO aos anjos lhe tenha ocorrido primeiro, e que as passagens relevantes tenham, então, surgido na sua mente. Esta última sugestão é provável, tendo em vista o grande interesse que os judeus tinham pelos anjos. É compreensível que, numa época em que os anjos eram tidos em alta estima, o escritor desejasse demonstrar que DEUS agora falara através do Seu Filho de uma maneira muito mais eficaz do que através deles. O homem moderno não tem tanta certeza acerca dos anjos, e a relevância desta passagem requer alguma discussão. Os anjos aparecem várias vezes nas histórias dos Evangelhos, e não se pode negar que os evangelistas consideravam estes seres sobrenaturais como seres reais. Na realidade, JESUS mesmo falou dos anjos da guarda dos filhos. Boa parte da crítica moderna dispensa os anjos ao chamá-los de seres mitológicos, i.é, algum tipo de personificação das mensagens de DEUS. Se esta opinião fosse certa, haveria pouca relevância na discussão da superioridade do Filho aos anjos, a não ser para demonstrar a ineficácia dos seres mitológicos. Mas se há dimensões espirituais representadas por anjos que não podem ser consideradas no mesmo nível da experiência natural, fica sendo imediatamente relevante definir a posição do Filho nestas esferas espirituais. O homem de fé pode às vezes penetrar nas esferas que estão bloqueadas para muitos por causa da sua descrença. O “anjo” no Novo Testamento é invariavelmente um mensageiro de DEUS e é este aspecto que é importante para o presente argumento do escritor. Concentra-se primeiramente no nome, que outra vez é surpreendente. O ditado moderno: “O nome não importa” certamente não era aplicá­ vel então, porque os nomes eram mais do que um meio de distinguir as pessoas; eram o meio de dizer algo acerca daquelas pessoas. O nome descrevia a natureza. Mas qual é o nome que Ele herdou? Visto que JESUS já foi introduzido como o Filho, idéia esta que é o tema das citações do Antigo Testamento que se seguem, fica claro que o nome mais excelente é o de Filho, que subentende o relacionamento mais estreito e mais íntimo. Visto que para o mundo daqueles tempos o nome de “anjo” era tão altamente honrado como símbolo de mensageiro divino, é possível que alguns estivessem chamando JESUS CRISTO pelo nome de “anjo” e fazendo-O não mais alto do que os seres espirituais que, segundo se acreditavam, influenciavam os negócios dos homens. A idéia dEle como Filho é muito mais sublime. Claramente, o cristianismo teria tido um caráter bem diferente se a posição de JESUS não tivesse sido mais alta do que a de um anjo. Os leitores podem ter pertencido a um grupo semelhante àquele em Colossos que realmente estava adorando anjos (Cl 2.18), ou a um grupo que anteriormente estivera sob a influência de Cunrã, onde os anjos eram altamente respeitados. Era essencial para o evangelho cristão ser libertado deste tipo de abordagem. A excelência do nome dado a JESUS CRISTO é achada também em Filipenses 2.9ss., onde é considerado um sinal de honra sublime.
 
B. A SUPERIORIDADE DO FILHO AOS ANJOS (1.5-2.18)
Os leitores judeus certamente devem ter tido alta estima pelos anjos e o escritor considera necessário demonstrar a superioridade de CRISTO a estes mensageiros celestiais reverenciados. 0 caráter glorificado de CRISTO pressupunha Sua superioridade aos anjos, mas um problema surgiria acerca da Sua humanidade. Nesta seção, o escritor leva seus leitores a reconhecer porque JESUS tinha de tomar-Se um homem verdadeiro a fim de ser eficaz como Sumo Sacerdote em prol dos homens, função esta que nenhum anjo poderia cumprir.
 
(i) CRISTO é superior na Sua natureza (1.5-14)
HEBREUS 1: 5
5. Agora começa uma lista de citações do Antigo Testamento que se propõem a demonstrar a extensão da superioridade do Filho.
O escritor não usa suas citações exatamente da mesma maneira como o contexto original. Por exemplo, toma palavras que originalmente se aplicavam a um rei israelita e aplica-as a JESUS CRISTO. Considera que este modo de proceder é legítimo. Nisto não está sozinho, porque há outros exemplos entre os escritores do Novo Testamento. O Evangelho segundo Mateus contém vários. Mateus 2.5-6 e 22.44 são exemplos em que passagens do Antigo Testamento são citadas de modo messiânico. Alguns dos cumprimentos de Mateus, no entanto, são passagens que os judeus nunca consideraram como messiânicas (e.g. Mateus 2.15 que cita Oséias 11.1), mas que o ESPÍRITO levou os cristãos primitivos a reconhecer como tais. Fica claro que as Escrituras do Antigo Testamento possuíam considerável autoridade para a era do Novo Testamento, e, de fato, a totalidade desta carta aos Hebreus testifica disto. Deve ser notado, ainda, que o escritor introduz as citações neste capítulo com a fórmula simples: “Diz,” que deve referir-se a DEUS. As Escrituras para ele são a voz de DEUS.
Para uma apreciação da abordagem cristã ao Antigo Testamento, é necessário ter em mente este conceito flexível do cumprimento da profecia. A idéia de um cumprimento imediato e de um outro cumprimento remoto é comum, e isto explica como uma predição que tinha relevância no passado poderia ter um cumprimento mais completo no futuro. Isto está em harmonia com a natureza de DEUS que vê o tempo de um modo diferente do conceito que o homem tem dele. Para Ele, mil anos é apenas um dia, que não deve ser considerada uma correlação exata, conforme supõem alguns milenistas, mas, sim, como uma indicação de uma diferença essencial de cálculo.
A primeira passagem a ser citada é Salmo 2.7, salmo este que reflete uma situação de guerra e que provavelmente pertence à situação histórica descrita em 2 Samuel 7.
 Nosso escritor, no entanto, não está interessado no evento histórico, mas, sim, na propriedade das palavras para serem aplicadas ao Messias.10 No Salmo, as palavras: Tu és meu Filho aplicam-se a Davi, mas claramente somente têm uma aplicação imperfeita a ele. Os cristãos primitivos reconheciam as palavras como messiânicas. São citadas no discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia (At 13.33). Os judeus no seu auditório teriam apreciado a força desta citação; acrescentava autoridade bíblica às declarações que Paulo estava fazendo. O que impressiona o escritor aos Hebreus é que, ao passo que as palavras de aplicam a JESUS CRISTO, não podem aplicar-se a um anjo. Se DEUS Se dirige ao Messias desta maneira, o Messias deve, portanto, ser superior aos anjos. Mas em que sentido se deve entender as palavras eu hoje te gereP. Na sua aplicação a Davi, podem referir-se ao aniversário da sua coroação. Ou, talvez a palavra “gerei” (gegennêka) deva ser entendida com referência à paternidade de DEUS, sem indicar qualquer ponto específico de tempo. Quando é aplicada a JESUS CRISTO como Messias, a mesma coisa se aplica. Pode referir-se à encarnação ou à ressurreição. De fato, é neste último sentido que é aplicada em Atos 13.33. Do outro lado, não fica claro que em Hebreus qualquer importância é atribuída ao elemento tempo. O escritor claramente está mais interessado em demonstrar a relevância da geração em termos da posição do Filho, ao invés de prendê-la a uma ocasião específica.
A segunda citação é uma passagem que era geralmente aceita como sendo uma referência ao Messias. Vem de 2 Samuel 7.14, de um oráculo dado a Davi.
Há uma estreita ligação entre esta passagem e a anterior. A idéia contida nela captou a imaginação de muitos escritores do Antigo Testamento, conforme é visto na sua crença num Messias vindouro. O relacionamento entre Pai e Filho mais uma vez é a idéia-chave para nosso escritor, porque marca o Messias como estando separado do relacionamento Criador-criatura que há entre DEUS e os anjos. Historicamente, pode-se dizer que as palavras acharam um cumprimento parcial em Salomão, o filho de Davi, que completou a edificação do primeiro templo. Mas o cumprimento perfeito não veio até o tempo do Filho maior de Davi. Tanto o reino quanto o templo precisavam de uma reinterpretação em termos espirituais, e era um dos temas principais de nosso escritor fazê-lo em referência ao tabernáculo que era o prenúncio do templo. Vale a pena notar que há alguma menção de um relacionamento pai-filho em Salmo 89.26-27, seguida por uma referência ao primogênito, uma combinação de idéias que também é achada nos versículos 5 e 6 deste capítulo. Já que nosso autor está profundamente instruído no Antigo Testamento, é provável que sua familiaridade com o Salmo 89 também tenha influenciado sua seleção dalgumas das outras passagens do Antigo Testamento citadas aqui.
 
HEBREUS 1: 6-7
6. As palavras: E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, que introduzem a citação seguinte, também ecoam a passagem véterotestamentária mencionada supra (i.é, SI 89.27). Ali, a palavra primogê­ nito é usada (“Fá-lo-ei... meu primogênito”) para Davi. Fica claro que na mente do escritor o “Primogênito” (prõtotokos) do v. 6 é o Filho dos versículos anteriores. É sugestivo que o mesmo termo é usado a respeito de JESUS CRISTO pelo apóstolo Paulo (Cl 1.15, 18; Rm 8.29), qualificado da seguinte maneira: primogênito de toda a criação, primogênito dentre os mortos, primogênito entre muitos irmãos. A expressão claramente fica revestida de profundo significado quando é aplicada a CRISTO. Aqui o escritor não entra em detalhes sobre a superioridade de CRISTO, conforme faz Paulo. Contenta-se, pelo contrário, em fazer declarações que produzirão uma impressão profunda de superioridade. A referência primária deve ser à encarnação, para chamar a atenção ao fato de que quando JESUS CRISTO nasceu, a função dos anjos era adorar. Na opinião do escritor, a homenagem dos anjos é prova de que consideravam o Filho como superior. Seu significado fica bastante claro, mas um problema surge a respeito da citação. A fórmula diz (legei), que introduz a citação, é familiar nesta Epístola. 0 sujeito é omitido, mas claramente trata-se de DEUS. As citações das Escrituras não são simplesmente declarações formais do Antigo Testamento, mas, sim, o próprio DEUS falando pessoalmente no texto. Isto dá uma indicação do conceito da inspiração das Escrituras sustentado pelo escritor. Pretende que seja compreendido que a citação que faz vem com autoridade, embora a citação exata: E todos os anjos de DEUS o adorem não apareça na Bíblia hebraico. Em duas passagens da Septuaginta (SI 97.7 e Dt 32.43) há uma estreita aproximação; esta última passagem inclui a conjunção “e” (kai) que está presente no original grego do nosso versículo, mas é omitida na maioria das traduções atuais. Deuteronômio faz parte do cântico de Moisés que olha para o futuro, para o triunfo do Senhor de Israel sobre Seus adversários.Nosso escritor transfere o triunfo deste cântico para o Messias, a quem ele vê como o “Primogênito.” A mesma passagem do Antigo Testamento é citada por Paulo em Romanos 15.10 onde os gentios são conclamados a regozijar-se. Vale a pena notar que Paulo introduz sua citação de Deuteronômio 32.43 com a mesma fórmula (legei) que é usada em Hebreus, tanto mais significante porque não é usual para o Apóstolo usar a fórmula sem declarar o sujeito. Outro paralelo interessante entre as duas passagens do Novo Testamento é o uso duplo de novamente (palin) [ARA reveza várias traduções] em citações sucessivas como se a intenção fosse ressaltar a estreita conexão entre elas. A prática de amontoar citações das Escrituras da maneira de Paulo e do escritor aos Hebreus tem seu paralelo na literatura judaica. Nas passagens sendo comparadas, Paulo acha uma palavra de ligação em “os gentios,” ao passo que Hebreus faz a mesma coisa com a idéia de anjos. A declaração de que os anjos são ordenados a adorar o Primogênito sugere que este é seu dever apropriado.
7. Tendo estabelecido a superioridade de JESUS CRISTO sobre os anjos, que representam as máis exaltadas entre as criaturas de DEUS, o escritor inculca sua lição com referências adicionais ao Antigo Testamento. A primeira é tirada de Salmo 104.4, mas não no sentido achado no texto hebraico, que não faz referência a anjos. O escritor claramente reconhece a autoridade do texto grego que interpretou o texto hebraico da mesma maneira que fizeram os escritores rabínicos. As palavras .Aquele que a seus anjos faz ventos, visam demonstrar um forte contraste entre os anjos e o Filho. Ao passo que se diz que o Filho foi gerado, diz-se que os anjos foram feitos. A distinção não é acidental. Os anjos, como criaturas, podem funcionar somente dentro dos limites para os quais foram criados, ou seja: para levar a efeito os desejos do seu Criador. Tanto os anjos (angeloi) quanto os servos (“ministros” — leitourgoi) têm uma função bem diferente da do Filho. A tarefa deles e' servir. A tarefa do Filho é de exercer soberania (conforme demonstram os w . 8 e 9). É sugestivo que a descrição dos anjos é feita em termos do mundo natural. Ventos e fogo são melhor vistos como representantes de agências naturais poderosas, do que como ilustração de coisas que não tem substâncias. Há paralelos vétero-testamentários à idéia de agências sobrenaturais por detrás dos elementos da natureza (e.g. SI 18.10; 35.5). Há alguma sugestão de poder irresistível na linguagem figurada usada, porque tanto o vento quanto o fogo podem ser irresistivelmente destruidores, ou, se devidamente captados, poderosamente construtivos. Mas o pensamento principal do escritor nesta Epístola é o reconhecimento pelos anjos de um poder maior do que eles mesmos, a saber: o próprio poder que os nomeou. Embora estes agentes espirituais sejam mais poderosos do que os homens, não deixam de ser ultrapassadas pelo poder do Filho. Se alguém pensar que por detrás desta idéia há um conceito antiquado do mundo como estando sujeito a influências pessoas invisíveis, ao invés da idéia moderna da causa e efeito, que não deixa lugar para a manipulação sobrenatural, deve ser lembrado que aqui o escritor não está fazendo um comentário científico sobre fenômenos naturais como “vento” e “fogo.” Seu propó­ sito é inteiramente espiritual, uma demonstração da suprema importância do Filho sobre todas as criaturas. Ao mesmo tempo, o que ele diz não está em conflito com um conceito científico do mundo.
 
HEBREUS 1: 8-9
8-9. O contraste entre os anjos e o Filho é ressaltado de modo inconfundível na construção da frase grega (rnen... de).
A citação que expõe a soberania do Filho vem do Salmo 45.6-7. O contexto original do Salmo era bem diferente, e se referia às bodas dalgum rei de Israel. Mesmo assim, era geralmente reconhecido que tinha um significado muito mais extenso, e, de fato, era considerado messiânico. É neste último sentido que é citado aqui. As palavras iniciais: O teu trono, ó DEUS, épara todo o sempre, causam um problema, porque podem ser entendidas ou como um tratamento direto ao Filho, e neste caso não se pode evitar a implicação de que o Filho está sendo descrito como DEUS;13 ou, menos provavelmente, as palavras podem ser entendidas no sentido de “O trono do Teu DEUS,” ou “DEUS é Teu trono,” e neste caso a implicação de que o Filho é DEUS é evitada. Se um contexto histórico for levado em mente, seria difícil imaginar um rei terrestre sendo diretamente tratado assim, a não ser num sentido restrito, e, portanto, é melhor considerar que a declaração acha seu único cumprimento verdadeiro em CRISTO. Deve ser notado, no entanto, que a deificação do rei tem paralelos na literatura pagã (cf. também Jo 10.34- 35). Mesmo assim, visto que no pensamento hebraico o ocupante do trono de Davi era considerado o representante de DEUS, é neste sentido que se poderia dirigir-se ao rei chamando-o de DEUS.14 As palavras seguintes: Cetro de eqüidade é o cetro do seu reino, focalizam-se no caráter da soberania do Filho. O Antigo Testamento freqüentemente enfatiza a idéia da justiça, não somente a justiça de DEUS, como também a necessidade de justiça da parte do povo. O tema é especialmente relevante para o assunto principal desta Epístola. O Filho não dá Sua aquiescência a um padrão justo com má vontade. Forma o centro dos Seus afetos. Faz parte da Sua natureza — Amaste a jus? tiça. Semelhante abordagem à justiça envolve uma rejeição específica do seu oposto: a iniqüidade fahomia). É típico do estilo poético hebraico declarar uma idéia seguida por uma negação do seu oposto. Os que amam não têm alternativa senão odiar a iniqüidade, mas somente JESUS CRISTO o Filho já cumpriu perfeitamente os dois objetivos. A unção do Filho não deve ser considerada em conexão com os ritos da coroação, mas, sim, como simbolizando a alegria de ocasiões festivas, quando, então, era seguida a prática de ungir. Este fato explica uma forte sensação de alegria. A mesma idéia ocorre no Salmo 23.5, onde a unção é um sinal de favor. As palavras como a nenhum dos teus companheiros no Salmo original provavelmente se referem a outros reis e ressaltam a superioridade do rei a quem se dirige a palavra (cf. SI 89.27). Pode, no entanto, ser menos formal e referir-se aos companheiros na festa.
Seja como for, aqui serve o propósito de focalizar a atenção em um outro aspecto da superioridade do Filho. A transferência da idéia ao Filho não precisava de explicação alguma, visto que o título familiar “CRISTO” (como o título correspondente “Messias”) significa “O Ungido.” Pedro fixou-se neste pensamento na sua exposição diante de Comélio (At 10.38). Além disto, a idéia de ungir é importante numa Epístola cujo tema é o sumo-sacerdócio de CRISTO, porque todos os sacerdotes da linhagem de Arão eram ungidos ao assumirem suas funções.
 
HEBREUS 1: 10-12
10-12. Os próximos três versículos criam um problema, porque a passagem citada de Salmo 102.25-27 não contém referência alguma ao Filho.
Na Septuaginta, os w. 1-22 são dirigidos a DEUS, mas os w. 23-28 consistem na resposta. O escritor entende que DEUS está falando aqui. Na sua mente, era legítimo transferir ao Filho aquilo que se aplicava a DEUS, visto que já chamou atenção ao caráter eterno do Seu trono. A passagem tem muitos aspectos interessantes • que são aptos quando aplicados a JESUS CRISTO. O escritor já falou do papel do Filho na criação, e, em vista disto, a passagem do Salmo 102 é apropriada. Ao aplicar esta passagem, o escritor chama a atenção a uma idéia profunda acerca do Filho, i. é, Sua imutabilidade. A terra e os céus parecem ser bastante substanciais, mas eles perecerão. Havia uma crença generalizada no mundo greco-romano de que o mundo, e mesmo o próprio universo, era indestrutível. O conceito cristão expressado aqui estaria em rigoroso contraste. Esta transitoriedade da criação material aparentemente imutável, serve para ressaltar o contraste com a estabilidade divina. Há um som majestoso nas palavras: tu, porém, permaneces. Esta declaração focaliza a atenção na estabilidade inabalável, que é ressaltada ainda mais pelo quadro impressionante de DEUS enrolando os céus e a terra, agora esfarrapados como uma veste envelhecida, por não terem mais utilidade. Este vislumbre magnífico do salmista da consumação da presente era visa levar ao clímax: tu, porém, és o mesmo. Diante da desintegração em todos os outros lugares, o cará­ ter imutável do Filho destaca-se em contraste inconfundível. Os leitores cristãos não teriam dificuldade em aplicar ao Filho as palavras citadas, embora no Salmo se refiram ao Pai. Seria diferente para os leitores judeus visto não haver evidência alguma no sentido de que consideravam este Salmo totalmente messiânico. Apesar disto, a convicção do escritor de que CRISTO é eterno é um aspecto essencial da sua abordagem teológica no decorrer desta Epístola. É uma das distinções mais dramáticas entre a ordem de Melquisedeque e a ordem de Arão, que forma a chave à parte central do seu argumento.
 
HEBREUS 1: 13-14
13. Já foi notado que Salmo 110.1, que passa agora a ser citado, estava na mente do autor no começo da sua Epístola quando falou acerca do Filho assentando-Se à direita da Majestade no céu (v. 3).
A idéia da entronização agora é repetida para ressaltar o contraste mais óbvio entre JESUS CRISTO e a ordem mais alta de seres criados. Em nenhuma ocasião já foi concebido que os anjos ficam sentados, e, portanto, a entronização de JESUS imediatamente estabelece a Sua superioridade. Não somente é ressaltada a Sua soberania, como também Seu poder absoluto sobre Seus inimigos. Que esta idéia está destacada na mente do escritor fica claro no fato dele repetir a declaração no capítulo 10.12, 13. Tanto no capítulo 1 quanto no capítulo 10 a entronização e a vitória estão ligadas com a expiação que JESUS CRISTO faz pelos pecados. Além disto, este tema é achado noutros lugares no Novo Testamento. Ocorre no sermão de Pedro no Pentecoste (At 2.34-35), onde mais uma vez é contrastado com a ação dos judeus ao crucificarem a JESUS. Apesar daquilo que os homens fazem, DEUS nomeou JESUS tanto Senhor quanto CRISTO. Foi esta declaração de Pedro, baseada neste mesmo Salmo, que resultou na notável convicção em massa entre o seu auditório. Aqueles que responderam no dia do Pentecoste teriam motivo de lembrar-se do uso válido que Pedro fez deste Salmo. Não somente eles, mas também Paulo ecoa a mesma idéia na sua carta a Corinto (1 Co 15.25) quando procura comprovar que CRISTO deve ter a soberania absoluta, até mesmo sobre a própria morte. Uma reminiscência do uso do Salmo por Pedro pode ser notada na sua primeira Epístola (1 Pe 3.22). A idéia da supremacia de DEUS sobre Seus inimigos também é achada no Salmo 8.6 que Paulo realmente cita em conjunção com o Salmo 110.1 em 1 Coríntios 15. Não há dúvida, portanto, que o Salmo 110 tem um lugar especial no pensamento deste autor, visto que volta a ocorrer várias vezes na sua exposição.
14. Há um contraste marcante entre o Filho entronizado e os anjos ministradores.
A função destes últimos é essencialmente de serviço, e todos eles (pantes) inclui, de modo significante, todas as categorias dos anjos. Até os mais nobres são enviados para serviço. Há um contraste aqui entre a posição temporária do Filho como Servo no Seu ministério (cf. Fp 2.7) e Seu descartar daquela posição depois de ter completado a Sua missão. Os anjos, por outro lado, estão dedicados ao serviço constante e nunca serão entronizados. O escritor certamente não está querendo diminuir a função dos anjos, porque nota que seu serviço é a favor dos que hão de herdar a salvação.
Talvez pareça estranho que nenhuma definição da salvação seja dada, o que sugere que os leitores já sabiam o que significava. Nem sequer é definida como sendo salvação cristã, embora isto seja claramente tomado por certo. O ponto principal da carta toda aplica-se a explicar a salvação em termos de ofertas e aquilo que realizam. Ademais, o escritor ecoa o tema quase imediatamente na passagem seguinte. O que é importante no momento é observar que os mensageiros celestiais estão ocupados num ministério dirigido em direção à salvação dos homens. O enfoque do plano de DEUS da salvação está sobre as pessoas, consideradas como herdeiras. A idéia de herdar está clara no grego (klêronomein). É familiar no pensamento do Novo Testamento, porque a salvação cristã é concebida como algo que vale a pena ser possuído. Os crentes são chamados herdeiros, até mesmo co-herdeiros com CRISTO (cf. Rm 8.17). A idéia da herança, ademais, volta a ocorrer em Hebreus 3 e 4 (com a metáfora de um descanso), em Hebreus 9 (na linguagem figurada de um testamento) e em Hebreus 11 (em relação às promessas dadas à fé). Pode ser declarado com justiça que neste primeiro capítulo de Hebreus encontram-se muitas das idéias dominantes que voltam a ocorrer na Epístola. Embora não sejam expressas num sentido formal, não deixam de ser uma introdução eficaz à discussão seguinte.
 
HEBREUS 2:1-2
(ii) Uma exortação contra o desvio (2.1-4)
1-2. Embora ainda seja cedo, no decurso da discussão, para o escritor dar uma exortação específica, não deixa de ser uma característica dele incluir breves apartes. Um pormenor interessante é a expressão introdutória (Por esta razão, dia touto). Nenhuma interrupção é pretendida entre a discussão do capítulo 1 e o começo do capítulo 2. A conexão, no entanto, não fica imediatamente transparente. A ligação real parece ser a salvação que se toma o desafio crucial desta exortação (v. 3). Além disto, o papel desempenhado pelos anjos ao estabelecerem a dignidade da mensagem é outro elo. A palavra falada por meio de anjos relembra o que Paulo fala da lei em Gálatas 3.19: “foi promulgada por meio de anjos.” Nos dois casos a agência de anjos visava demonstrar que a mensagem de DEUS é demasiadamente importante para ser desconsiderada — não provém dos homens. Na presente declaração, a dignidade da Lei17 é demonstrada pelo fato de que qualquer violação dela certamente será castigada. A palavra traduzida castigo (misthapodosia) é peculiar a Hebreus. Em 10.35 e 11.26 significa “galardão.” [“Retribuição” serviria como tradução geral da palavra].
O propósito do autor é despertar a consciência às graves conseqüências de negligenciar a mensagem de DEUS. Não tem dúvida de que a retribuição, quando vier, será fusta. O desafio para os leitores prestarem atenção é expressado enfaticamente no v. 1. Tendo em vista a importância daquilo que foi ouvido, os leitores são conclamados a “prestar mais atenção” (importa que nos apeguemos, com mais firmeza), palavras estas que indicam uma observação cuidadosa daquilo que foi falado.18 Não é surpreendente que a exortação é seguida por uma advertência solene, a primeira de muitas nesta Epístola. Demonstra claramente que o escritor não tem intenção alguma de escrever um tratado puramente acadêmica, mas, sim, visa do começo ao fim enfatizar a relevância prática das considerações que faz. Está consciente de que está tratando de uma situação que poderia esvaziar o evangelho do seu significado essencial. Não está pensando em uma recusa deliberada de prestar atenção, mas, sim, de um desvio irresistível — literalmente ir à deriva como madeira flutuando num rio. Daí as palavras: para que delas jamais nos desviemos ou RSV: “a fim de não flutuarmos para longe.”
 
HEBREUS 2:3
3. A pergunta crucial passa, então, a ser introduzida, e fornece um indício para a compreensão do propósito do autor. Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? Evidentemente, havia um
perigo sério de negligência da parte dos leitores, porque doutra forma este desafio não teria sido introduzido tão cedo. Qual, pois, era a natureza desta negligência? É definida somente por contraste. Dalguma maneira ou doutra, a grandeza da salvação estava sendo afetada. Realmente, é altamente provável que, na mente do escritor, os leitores corriam o perigo de virar as costas completamente contra o evangelho cristão. Se assim for, a grandeza da salvação somente aumenta a tragédia. O tipo de pergunta retórica feita aqui é típico desta Epístola. A resposta é tida por certa: não há nenhum escape. A idéia do escape ligado com a salvação expressa a salvação em termos de livramento, conceito que ocorre noutros lugares no Novo Testamento. Volta a ocorrer em Hebreus 2.14-15 (18) Westcott: Comm., pág. 36, entende que o advérbio expressa um excesso absoluto mais do que relativo. Teria o sentido de “com a mais cuidadosa atenção” e não “com mais atenção.” A primeira interpretação é claramente mais enfática e ressalta mais eficazmente a distinção entre aquilo que CRISTO oferece e aquilo que os leitores tinham conhecido anteriormente. no sentido do livramento do poder do diabo. Em comum com outros escritos do Novo Testamento, Hebreus vê a vida não-cristã como uma vida de escravidão contínua. Os pormenores dados para explicar como o escritor e seus associados chegaram a saber acerca da salvação fornecem informações valiosas
acerca da experiência do escritor. O originador básico da mensagem é o Filho, descrito aqui como o Senhor, um título neotestamentário significante para JESUS CRISTO que liga-0 com o nome véterotestamentário para DEUS (Kyrios). Não há dúvida alguma aqui de que o próprio JESUS declarou primeiramente o significado da Sua própria missão. Sua mensagem, por ser pessoal e direta, era superior à mensagem transmitida por anjos. O escritor, porém, claramente não tinha sido pessoalmente um ouvinte do Senhor, o que o distingue dos doze apóstolos e, na realidade, de todos aqueles que acompanharam JESUS durante qualquer parte do Seu ministério. A mensagem aparentemente fora passada adiante por outros: foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram. Segundo o modo mais natural de compreender esta declaração, eram sem dúvida os apóstolos, embora outras testemunhas fidedignas não fossem excluídas. Muitos estudiosos consideram estas palavras conclusivas contra a identidade de Paulo como o escritor, pela razão de que este não teria reconhecio que recebeu seu evangelho doutras pessoas. Além disto, pode ser argumentado que a primeira geração dos cristãos já passara, e que o escritor e seus associados dependem daquela geração anterior para sua compreensão do evangelho.
 
HEBREUS 2:4
4. Houve confirmação divina da mensagem por sinais, prodígios e vários milagres, e por distribuições do Espirito SANTO. Nos Evangelhos Sinóticos há muitos exemplos de “prodígios” e “milagres” acontecendo
no ministério de JESUS, ao passo que o Evangelho segundo João descreve de modo distintivo os acontecimentos sobrenaturais como sendo “sinais.” Estas três palavras, portanto, apresentam uma descrição compreensiva dos milagres nos Evangelhos. O que é importante notar é que estes eventos sobrenaturais têm um valor específico como confirmação da mensagem. Não há sugestão de que os milagres comprovam os fatos básicos do evangelho, tal como o caráter de JESUS CRISTO. Alguns apologistas têm baseado suas declarações acerca da divindade de JESUS na abundância dos milagres, mas isto é inadequado. JESUS ainda teria sido divino mesmo se não tivesse operado milagre algum. Até mesmo recusava-Se a dar sinais mediante pedido. Os homens deviam primeiramente crer nEle antes dos milagres se tomarem, em qualquer sentido, “sinais.” Mesmo assim, conforme João demonstra tão claramente no seu Evangelho, os sinais têm valor confírmatório, e indicam a glória de JESUS CRISTO. É impossível cortar todos os milagres da mensagem, como alguns procuram fazer, porque a própria mensagem é uma comunicação sobrenatural do DEUS para os homens. Além disto, os sinais e as maravilhas continavam a ser operados durante
a primeira era cristã à medida em que as primeiras testemunhas contavam a mensagem. O livro de Atos não pode ser desnudado dos seus milagres sem empobrecer a história do cristianismo primitivo. Se estes milagres não fossem mais do que mitos, o escritor aos Hebreus deve ter ficado grosseiramente enganado ao reconhecer neles o testemunho de DEUS. O verbo traduzido dando... DEUS testemunho juntamente (synepimartyrountos) deve referir-se a DEUS testificando juntamente conosco. Realmente, o escritor não teria apelado aos milagres se tivesse havido qualquer possibilidade dos leitores sustentarem que nunca os viram nem ouviram dizer deles. Trata-os como assunto conhecido a todos. As distribuições do ESPÍRITO SANTO estão numa categoria algo diferente, embora estreitamente associada. O escritor está consciente de que as primeiras testemunhas não declararam a mensagem com sua própria força ou com sua própria engenhosidade. A palavra aqui usada não é aquela para “dons” (charismata) que se usa no Novo Testamento, mas, sim, a palavra mais geral para distribuição (merismoi). A ênfase, portanto, recai sobre quem distribui. Os dons do ESPÍRITO também são mencionados em Atos e especialmente por Paulo em 1 Coríntios, e eram uma característica destacada do cristianismo primitivo. Eram evidências da aprovação de DEUS da proclamação do evangelho. Há uma indicação de diversidade (distribuições) e soberania  segundo a sua vontade). Nosso escritor tem um alto conceito da atividade do ESPÍRITO, e esta primeira menção dEle será seguida por várias outras declarações importantes (cf. 3.7; 6.4; 9.9, 14; 10.15, 29). A ênfase dada aos dons remove toda a justificativa para o orgulho humano entre os cristãos primitivos, visto que a distribuição não dependia das capacidades do homem, mas, sim, da vontade soberana do ESPÍRITO (cf. a declaração semelhante em 1 Co 12.11).
 
HEBREUS 2:5
(iii) A humilhação e a glória de JESUS (2.5-9).
5. O escritor passa agora a lembrar seus leitores de que, apesar da posição de dignidade dos anjos, não é a eles que o mundo vindouro será sujeitado. Isto, também, visa ressaltar a superioridade do Filho, conforme demonstra a citação do Salmo 8.4-6. O pensamento-chave é que DEUS sujeitou, i.é, Ele tomou a iniciativa. O sujeito da sentença nâfo está presente no grego, mas claramente é transportado do v. 4, conforme demonstra a palavra inicial Pois (gar); e deve, portanto, ser DEUS. O significado de o mundo que há de vir é questão de debate. A expressão grega (hè oikoumenê hè mellousa) pode ser entendida de várias maneiras, como, por exemplo,
(i) a vida do porvir, (ii) a nova ordem inaugurada por JESUS CRISTO, i.é o cumprimento da “era vindoura” tão esperada, que agora veio no reino de DEUS presente, ou (iii) o fim da era atual. Pode haver verdade em todas as três, mas a segunda parece estar mais claramente enfocada pelo contexto. Vale a pena notar que a palavra usada aqui para “mundo” não é kosmos (o mundo como sistema), mas, sim, o mundo dos habitantes (oikoumenê). O escritor está mais interessado no que é pessoal do que naquilo que é abstrato. Vê a salvação como uma realidade corpórea (cf. v. 10 “muitos filhos”).
 
HEBREUS 2:6-8
6. A fórmula usada para introduzir a citação do Salmo 8 é surpreendente. Alguém, em certo lugar, deu pleno testemunho talvez sugira que o escritor não conseguir lembrar-se da referência, mas é possível que foi usada simplesmente porque a referência exata não era importante. Contra esta última opinião há o fato de que não é usada para introduzir as demais citações do Antigo Testamento no presente contexto, mas a favor dela há o fato de que Filo ocasionalmente usa uma fórmula semelhantemente vaga (de Ebrietate 61). O que parece ficar claro é a grande importância atribuída às palavras da Escritura, independentemente do seu autor humano ou do seu contexto histórico. Não há dúvida que para o escritor as próprias palavras da Escritura são autorizadas. O uso do Salmo 8 não deixa de ser interessante, no entanto, porque esta passagem nunca foi considerada como messiânica. O contexto original é o homem, não no seu estado comum, mas, sim, no seu estado ideal, indicado pelo uso do título “filho do homem.” Na ocasião da criação, o homem recebeu domínio sobre a terra, mas desde a queda tem faltado a autoridade para sujeitar. O Salmo é apenas perfeitamente cumprido, portanto, no Homem ideal, JESUS CRISTO, sendo que somente Ele tem essa autoridade. O escritor vê um cumprimento deste Salmo de uma maneira que os judeus nunca previram. O mesmo Salmo é citado por JESUS (Mt 21.16) e Paulo (1 Co 15.27),20 ambos de uma maneira que indica que seu cum primento se acha no próprio JESUS. Que é o homem? A pergunta que forma a base desta citação aqui é mais dramática quando é colocada no seu contexto original. O salmista pensa no homem contra o pano de fundo da glória da ordem criada de modo geral. O contraste é tão marcante que a situação do homem é vista na sua perspectiva verdadeira, como assunto de solicitude especial do Criador, mas, em certo sentido, eclipsada pela glória de DEUS no universo. O filho do homem fica sendo, para o JESUS CRISTO, posto que Ele usou o título tantas vezes a respeito de Si mesmo. Ademais, a única outra pessoa que já usou o título para Ele foi Estêvão (At 7.56). Esta identificação de JESUS como Filho do homem leva ao desenvolvimento da idéia na declaração seguinte. Nosso autor não está especificamente interessado em chamar JESUS por esse título, mas claramente reconhece quão apropriada é a referência a Ele no Salmo. É notável que, quando finalmente introduz um nome em 2.9, é o nome de JESUS que escolhe.
 
7. Por um pouco, menor que os anjos visa, no Salmo, ser uma marca da dignidade do homem. Indica a superioridade distintiva do homem sobre todos os outros seres criados a não ser aos anjos. Esta dignidade não está muito bem de acordo com a teoria evolucionária do desenvolvimento humano, porque o salmista vê que a dignidade do homem se deve diretamente à iniciativa de DEUS. Não há sugestão alguma de um processo paulatino. Aquilo que interessa principalmente ao salmista e até mesmo ao escritor aos Hebreus é a condição atual do homem. Mas o coroar de glória e honra, e a sujeição de todas as coisas, são claramente vistos de modo ideal mais do que palpável. Foi concretamente realizado em um só homem — JESUS CRISTO. Ele certamente foi coroado com glória, conforme Paulo indica em Filipenses 2.9ss., e a Ele todas as coisas devem ser sujeitadas, conforme demonstra Paulo em 1 Coríntios 15.27-28. O escritor reconhece aqui que o homem de modo geral não possui a autoridade sobre todas as coisas, de modo que, na seção seguinte, passa a concentrar sua atenção em JESUS.
 
8. As palavras nada deixou fora do seu domínio têm significado somente se forem aplicadas ao Filho do homem, o cumprimento perfeito do Salmo 8. Uma vez que Hebreus já disse que o Filho sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder (1.2-3), não é de se maravilhar que todas as coisas estão sob Seu controle. Quanto a isto, JESUS tem superioridade sobre os anjos. Na Sua encarnação, porém, não parecia assim, pensamento este que é ressaltado pelas palavras: ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas. Esta sujeição é considerada ainda futura, mas o escritor não tem dúvidas a respeito do seu cumprimento ulterior. Alguns consideram que a sujeição é “ao homem” e não “a CRISTO”, mas já que a primeira sujeição somente pode ser realizada através da segunda, faz pouca diferença ao significado.
 
HEBREUS 2:9
9. Agora chegamos à altura de JESUS ser chamado pelo nome, e é significante que o nome escolhido é Seu nome humano. Depois dos conceitos exaltados na primeira seção, o escritor demonstra que Ele é uma
Pessoa estreitamente identificada com o homem. Há uma mistura curiosa de ver e de não ver nesta Epístola. O escritor reconhece algumas coisas que não são vistas (cf. 2.8; 11.1-2). Apresenta uma base firme para a fé presente, naquilo que agora pode ser visto, daí a importância das palavras: vemos, todavia... JESUS. Além disto, a fim de não deixar dúvida alguma acerca do caráter da pessoa vista, combina duas idéias que parecem inicialmente ser opostas: o sofrimento da morte e coroado de glória e de honra. A idéia específica do sofrimento de JESUS entia na Epístola aqui pela primeira vez, embora seja indiretamente subentendida na referência à purificação dos pecados em 1.3. O soTrimento será um tema dominante na carta. De fato, a presente combinação de sofrimento e glória fornece a chave à compreensão do escritor quanto à fé cristã. 0 sofrimento da morte é um problema importante para todos os homens, mas é um problema muito especial para o Filho de DEUS a não ser que alguma explicação dele possa ser dada. O próprio sofrimento pertence a uma categoria um pouco menos exaltada do que a dos anjos, daí a declaração aplicada a JESUS, que, por um pouco, tendo sido feito menor qúe os anjos... (que também pode ser traduzida “que, tendo sido feito um pouco menor que os anjos”). Esta presente seção da carta é complementar à primeira seção. A glória e a honra outorgadas a JESUS são o resultado direto do sofrimento. A combinação entre as duas idéias, que é estranha ao pensamento natural, é, mesmo assim, central no Novo Testamento. Não é somente o próprio JESUS que conquista a glória através do sofrimento, mas também todos os Seus seguidores (cf. Rm 6.8ss.; 2 Tm 2.11-12). O problema da paixão de JESUS  Conforme observa Westcott: “Em ‘o Filho do homem’ (JESUS), pois, há a certeza de que a soberania do homem será ganha.” fica transformado em caminho para a glória, uma vez que é reconhecido que o DEUS que outorga a glória é Aquele que permite o sofrimento. O resultado do sacrifício e da glorificação de JESUS é declarado assim: para que, pela graça de DEUS, provasse a morte por todo homem. Posto que provar a morte é sinônimo de padecer a morte, esta declaração constitui-se em enigma para o intérprete, e muitas sugestões têm sido feitas. A questão é complicada por um texto alternativo: chòris (à parte de DEUS) ao invés de chariti (pela graça de DEUS), que é passível de várias interpretações. Aceitando “graça” como o texto melhor atestado, a ênfase no provar da morte deve cair sobre seu resultado, ou seja: “por todo homem.” É importante notar que a morte de JESUS está relacionada como homem, não somente coletivamente, como também individualmente. Embora o grego pudesse ser compreendido como sendo uma referência a “tudo,” ou “todas as coisas,” o pensamento principal na presente passagem é tão claramente pessoal que “todo homem” é o significado mais provável. Se o texto alternativo for considerado, introduziria uma declaração estranha, porque então seria dito que a morte foi provada “à parte de DEUS.” Isto presumivelmente significaria que JESUS morreu à parte da Sua divindade (o sentido em que os nestorianos o entendiam), ou que a referência dizia respeito a DEUS abandonando-0 no sentido do Seu grito de desolação na cruz (Mt 27.46), ou que somente DEUS estava isento dos resultados da morte de JESUS (cf. 1 Co 15.27). Mesmo se o próprio texto fosse melhor atestado, as possíveis explicações estão menos em harmonia com o contexto do que o texto “pela graça de DEUS,” que explica a provisão feita em prol de JESUS enquanto Ele provava a morte.
(iv) Sua obra em prol dos homens (2.10-18)
 
HEBREUS 2:10
10. Há uma conexão direta entre a declaração que acaba de ser feita e as palavras que a seguem, i.é: Porque convinha. Talvez não pareça óbvio de início porque a morte de JESUS convinha. Realmente, isto sempre tem apresentado um problema aos teólogos que se esforçaram para explicar a conveniência dos sofrimentos de JESUS. Deve ser lembrado que para Héring, pág. 17, prefere o texto “à parte de,” embora não seja apoiado por muitos MSS, poique é o texto mais difícil. Mas o texto alternativo tem tão mais apoio que deve ficar. A variante surgiu, sem dúvida, por causa do problema de pensar na graça como um instrumento da morte. R. V. G. Tasker: NTS 1 (1954-5), pág. 184, considera este último texto como uma correção baseada em 1 Co 15.27. Cf. também J. C. O’Neill: “Hebrews 11.9,” JTS 17 (1966), págs. 79-82, que o entende no sentido de “longe de DEUS” num sentido espacial. os judeus a idéia de um Messias sofredor era repugnante, e a declaração cristã de que deve ser vista neste prisma. Além disto, do ponto de vista do homem, com seu senso de necessidade, era altamente conveniente que a graça de DEUS fosse estendida na sua direção, seja qual for a razão para o método empregado. Alguns talvez sintam que julgar o que convém é um assunto por demais subjetivo, mas não é assim com DEUS, que nunca pode fazer alguma coisa indigna ou inapropriada . Seja qual for a razão da cruz, não há dúvida de que ela revela fortemente a natureza de DEUS. É neste sentido que convinha. A expressão aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem poderia referir-se ou a DEUS Pai ou a JESUS, mas tendo em vista a declaração de que o agente da criação aperfeiçoou a JESUS, o Autor (archègos), a primeira interpretação deve ser a correta. A mesma expressão é aplicada a DEUS em Romanos 11.36. A idéia da posição exaltada de JESUS (como no capítulo 1) acrescenta relevância enorme aos Seus sofrimentos (como aqui), como se a totalidade da ordem criada fosse projetada conforme o princípio de que a glória pode ser obtida através do sofrimento. É importante, outrossim, notar que a atividade criadora de DEUS é estendida da criação material para o âmbito espiritual e pessoal (conduzindo muitos filhos à glória).23 A seqüência do pensamento expressa as multiplicações da glória. Não somente o Filho foi coroado de glória, como também Sua glória é compartilhada com aqueles a quem salva. A expressão aqui é sugestiva, porque é visto que o propósito dos sofrimentos de JESUS é vicário, ou seja: atinge seu clímax no seu efeito sobre outras pessoas. A idéia de JESUS como o Autor da salvação é outra figura de linguagem sugestiva, porque a palavra (lit. “pioneiro”) significa aquele que vai à frente e mostra o caminho. A implicação é que se JESUS não tivesse marcado o caminho, não teria havia salvação alguma. O pioneiro, neste sentido, é mais do que um exemplo para os outros seguirem. Sua missão é fornecer a base sobre a qual a salvação pode ser oferecida a outros. A palavra archègos (“pioneiro,” ARA “Autor”) ocorre outra vez em Hebreus 12.2, onde, como aqui, é ligada com a idéia da perfeição. Fica claro que este conceito era importante na mente do escritor. Ocorre também em Atos 3.15; 5.31, nas duas ocasiões como uma descrição de JESUS. Neste último (23) Surge um problema, no entanto, acerca do tempo da palavra “conduzindo” (agagonta, um particípio aoristo). O aoristo parece ser usado com o sentido de um tempo presente, expressando uma ação simultânea. caso é declarado que DEUS exaltara JESUS a esta posição [“Príncipe” em ARA]. O título “pioneiro” é, portanto, um título de honra. É significante, ainda, que em Atos 5.31 é ligado com o título de “Salvador,” uma combinação de idéias que tem estreito paralelo aqui. A idéia da perfeição destaca-se nesta Epístola, mas seu significado quando é aplicada a CRISTO é diferente de quando é aplicada aos crentes. No caso dEle, Ele já era perfeito. Alguns intérpretes alegam que DEUS levou Seu Filho a uma perfeição que não tinha anteriormente.24 Mas isto parece subentender graus de perfeição, conceito este que levanta dificuldades consideráveis ao ser aplicado a JESUS CRISTO. O significado é mais “levar a um estado completo,” no sentido de que o sofrimento era necessário antes de JESUS ser o pioneiro completo da salvação, ou o Sumo Sacerdote perfeito.25 Não precisava do sofrimento para Sua própria salvação, mas era indispensável para os outros serem salvos. Sem quaisquer explicações teóricas, o escritor pressupõe, em comum com todos os escritores do Novo Testamento, que os sofrimentos de CRISTO e a salvação dos homens estão inextricavelmente vinculados entre si.
 
HEBREUS 2:11-12
11. Outro tema que volta a ocorrer nesta Epístola é o da santificação, que aqui é apresentado pela primeira vez (cf. 9.13; 10.10, 14, 29; 13.12). É importante estabelecer o significado exato da idéia. O uso comum
do teimo “santificar” é tomar santo, mas isto não pode aplicar-se a JESUS CRISTO. Nem é este significado o sentido original da palavra, porque é usada no Antigo Testamento com referência tanto às ofertas levíticas quanto ao povo ao qual as ofertas eram aplicadas. Naquele caso, “santificar” significava colocar de lado para um propósito sagrado, sentido este que certamente é mais aplicável a JESUS CRISTO. O que santifica, aqui, é o Autor da salvação, que mesmo assim santificou aos outros, leva-os para uma experiência através da qual Ele mesmo passou. Está separando-os para a salvação. Aqui o enfoque da atenção não recai, porém, no ato da santificação, mas, sim, na origem comum do que santifica e dos santificados, i.é, o próprio DEUS. Desta maneira, vê-se que a obra de CRISTO é efetuada, tanto na sua conclusão quanto na sua aplicação, pelo próprio DEUS. Além disto, enviar o Filho numa missão de sofrimento surgiu da mesma origem - do amor de DEUS para com a humanidade e do Seu desejo de fornecer um meio eficaz de salvação. A estreita conexão entre o santificador e os santificados é vista, ainda mais, no fato de que aquele não se envergonha destes. De fato, os santificados são considerados como irmãos. Isto segue a idéia semelhante em Romanos 8.29 (cf. também Jo 20.17), e o pensamento adicional de que os crentes são co-herdeiros com CRISTO (Rm 8.17). Pode-se perguntar por que a idéia de envergonhar-se é introduzida para então ser rejeitada. Uma rejeição semelhante da vergonha é achada em Hebreus 11.16, onde DEUS não Se envergonha de ser chamado o DEUS dos patriarcas que morreram na fé. Como contraste, podemos notar que JESUS disse que o Filho do homem Se envergonharia daqueles que se envergonhassem dEle (Mc 8.38). Aqueles que se identificam com JESUS compartilharão da Sua glória. Longe de Se envergonhar deles, Ele Se deleitará em considerá- los Seus “irmãos.” Não poderia haver maior contraste entre o destino dos crentes e dos descrentes. A vergonha e a glória são mutuamente exclusivas.
 
12. Seguem-se três citações, sendo que todas elas visam demonstrar o estreito relacionamento entre CRISTO e Seu povo. A primeira vem do Salmo 22, que os cristãos primitivos reconheciam como um salmo messiânico. Sua aplicação mais poderosa era a citação das suas palavras iniciais por JESUS na cruz. O clamor de abandono estava perfeitamente adaptado à situação patética do Justo que morria pelos injustos. Mas a parte do Salmo citada aqui é a declaração inicial da conclusão mais triunfante (v. 22). A despeito dos sofrimentos da primeira parte, o salmista agora irrompe numa asseveração confiante: A meus irmãos declararei o teu nome. O paralelo com CRISTO é imediatamente aparente. Ele, também, foi identificado com Seus irmãos além de passar pelo sofrimento em prol deles. Os cristãos não deixaram de perceber quão notavelmente apropriado era este Salmo ao ser aplicado a JESUS CRISTO. Que um Salmo que começa com um clamor de desolação termine com um cântico de louvor é relevante para o propósito do presente escritor, porque vê o sofrimento à luz da glória final. As palavras no meio da congregação são significantes porque a Septuaginta, que aqui é citada, usa a palavra ekklèsia (“igreja”) para descrever a companhia dos irmãos.
 
HEBREUS 2:13
13. A segunda citação pode ter sido tirada de Isaías 8.17 ou 2 Samuel 22.3, mas de qualquer forma um “eu” (ege) enfático é acrescentado. Claramente, quando é aplicada a CRISTO, a ênfase pessoal tem um significado diferente dos contextos originais. É, na realidade, uma declaração notável nos lábios do Messias — eu, até mesmo eu, o Messias, porei nele a minha confiança. Neste aspecto, o Messias coloca-Se em pé de igualdade com Seus irmãos, o que prepara o caminho para a declaração posterior no v. 14 de que compartilha da natureza deles. Esta atitude de confiança é vista amplamente na vida de JESUS e fica especialmente em evidência no Evangelho segundo João, onde todas as facetas dos Seus movimentos e pensamentos são reconhecidas como estando de acordo com a vontade de DEUS. Parece certo que o escritor tinha em mente a passagem de Isaías nesta segunda citação, porque a segue com outra citação da mesma passagem (Is 8.18). O propósito da terceira declaração: Eis aqui estou eu, e os filhos que DEUS me deu, não fica óbvio à primeira vista, porque as palavras originalmente se referiam aos filhos do próprio profeta. Isaías se via ligado com seus filhos no serviço de DEUS, porque reconhecia que os filhos eram “sinais” dados por DEUS. Esta identificação do profeta com seus filhos como sinais tem seu paralelo no pensamento do escritor com a estreita ligação entre CRISTO e Seu povo, que leva de modo natural para
a importante seção seguinte.
 
HEBREUS 2:14-15
14. O escritor reflete sobre a encarnação e a missão de JESUS. Era necessário que Ele Se tomasse homem porque Seus “filhos” eram de carne e sangue, um modo algo inesperado de expressar o fato. Mesmo assim, a idéia fica bastante clara. Vale notar que no texto grego a ordem é sangue e came. Tem sido sugerido que “sangue” se refere ao derramamento do sangue de CRISTO, que depois é citado como sendo a razão para Ele Se tomar came, i.é, a expiação exigia a encarnação. Para libertar o homem, JESUS CRISTO teve de compartilhar da natureza dEle. Aqui estamos na presença de um mistério. O fato de que destes também ele, igualmente, participou resume a perfeita humanidade de JESUS. Quando esta declaração é contrastada com as declarações no capítulo 1 acerca da Filiação divina de JESUS, o mistério se aprofunda. Sua superioridade aos anjos é contrastada com Sua igualdade com o homem. Nunca haverá uma explicação plenamente satisfatória destas duas facetas da Sua natureza, porque o homem não tem nenhum ponto de referência apropriado para pautá-las. Não existem analogias humanas. O escritor não se preocupa com o debate teológico: quer demonstrar quão estreitamente JESUS CRISTO Se identifica com Seu povo. É significante que um verbo diferente (meteschen) daquele que é usado (kekoinònèken) para descrever aquilo de que os filhos participaram é usado para descrever aquilo de que JESUS participou. Embora não haja nenhuma diferença essencial de significado, a mudança do tempo do perfeito para o aoristo sugere que a adoção por CRISTO da natureza humana é um ato específico no tempo; veio a ser o que não era antes (i.é, um homem). Mais uma vez, a morte é mencionada. É feita a declaração de que para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder de morte, que claramente ressalta o efeito poderoso da morte de CRISTO comparada com as mortes de todos os outros homens. Na Escritura, a morte é o resultado do pecado. A história de Gênesis confirma este fato. É apoiado nas Epístolas paulinas (cf. Rm 5,12). É básico para o ensino neotestamentário sobre a morte e a ressurreição de CRISTO. Por causa da ressurreição de CRISTO, a morte agora perdeu seu “aguilhão,” o que demonstra que possuía um aguilhão (1 Co 15.15), identificado por Paulo como sendo o “pecado.” Não admira que Hebreus fale do “pavor da morte.” É, portanto, paradoxal que CRISTO usou a morte como meio de destruir a malignidade da morte. Mas a diferença entre Sua morte e todas as outras acha-se no fato da Sua impecabilidade. A morte, para Ele, foi causada pelos pecados doutros homens. É difícil imaginar a transformação completa que veio às mentes dos discípulos primitivos ao avaliarem a morte quando vieram a explicar porque JESUS morreu. A idéia de que o diabo tem o poder da morte está em perfeita concordância com outras passagens do Novo Testamento a respeito do seu poder. A morte é a pior inimiga do homem, mas percebe-se que muitas outras desgraças humanas procedem da mesma origem (e.g. a mulher encurvada é descrita como tendo sido mantida presa por Satanás, Lc 13.16). O poder assim exercido não é absoluto e é aplicado apenas ao homem no seu estado nâo-redimido, como fica claro no fato de que a morte de CRISTO trouxe libertação ao homem e destruição ao diabo. Estas duas são mais potenciais do que atuais, porque o diabo ainda está ativo e a maioria dos homens ainda teme a morte. Apesar disto, a morte e a ressurreição de JESUS demonstraram de uma vez por todas que o diabo já não é senhor da morte. Para uma variação deste tema da vitória, cf. Colossenses 2.15. Nesta Epístola, a salvação envolve mais do que uma libertação do pecado, porque inclui uma libertação completa da escravidão a Satanás.
 
15. A libertação que JESUS CRISTO trouxe é para todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida. A idéia da escravidão é familiar em várias partes do Novo Testamento, mas a palavra empregada aqui (douleia) ocorre fora daqui somente em Romanos (8.15, 21) e Gálatas (4.24; 5.1); em nenhum destes casos refere-se à escravidão e a morte A maioria dos homens rejeita a noção de que está escravizada, conforme fizeram os judeus no seu debate com JESUS (Jo 8.33). Ofende seu orgulho. Esta é uma das razões principais porque o assunto da morte é tão freqüentemente evitado, porque os homens honestos teriam de confessar, doutra forma, sua escravidão ao temor dela. É o único fato que, segundo universalmente se admite, é aplicável a todos os homens. Todos os homens sabem que devem morrer, mas nem todos os homens se reconhecem como pecadores. Além disto, a morte não leva em consideração as pessoas. É a grande niveladora de todas elas. Qualquer poder, portanto, que remove seu terror é uma bênção aplicável a toda a humanidade. A abordagem cristã à morte traz libertação completa. Somente os que recusam o dom gratuito da libertação ainda estão nas suas garras.
 
HEBREUS 2:16
16. O pensamento do escritor oscila de volta para o tema dos anjos, e reconhece imediatamente que aquilo que acaba de dizer não tem relevância para eles. Surge à sua memória Isaías 41.8-9, onde “a descendência de Abraão” é mencionada como o servo escolhido de DEUS. Noutras palavras, uma servidão é trocada por outra, mas a troca é muito desigual, visto que os que servem ao diabo não têm a categoria dos que têm a descendência de Abraão. Os anjos não estão incluídos no ato da libertação, visto não terem necessidade dele. O escritor pode ter concentrado sua atenção nos descendentes de Abraão porque a Epístola é endereçada aos Hebreus. Deve ser lembrado, no entanto, que quando Paulo escreveu para a igreja predominantemente gentia em Roma, podia falar de Abraão como sendo “nosso pai segundo a carne” (Rm 4.1), ao passo1 que JESUS ressaltou que os filhos de Abraão são aqueles que fazem o que Abraão fazia (Jo 8.39). Num sentido espiritual, os filhos de Abraão incluem todos quantos participam da sua fé, e deve ser este o sentido segundo o qual esta passagem deve ser entendida (cf. também Rm 4.11). Deve também ser notado que Mateus e Lucas demonstram que o próprio JESUS, historicamente, foi um descendente de Abraão (Mt 1, Lc 3 nas respectivas genealogias).
 
HEBREUS 2:17
17. Possivelmente, foi o pensamento do Salmo 22.22, que o autor já havia citado (v. 12), que o levou a reenfatizar a necessidade de JESUS CRISTO Se tomar semelhante aos irmãos. Esta é essencialmente uma reafirmação do v. 14, e o acréscimo significante das palavras em todas as coisas chama a atenção à humanidade completa e perfeita de JESUS. Sua reafirmação a esta altura permite ao autor introduzir o assunto principal da carta, o tema do Sumo Sacerdote, embora não seja desenvolvido até o capítulo 5. A passagem interveniente prepara para o mesmo tema por outro caminho. Certos aspectos importantes do caráter e da obra do Sumo Sacerdote são mencionados, mas não são expostos aqui como o são mais tarde na carta. No que diz respeito ao Seu caráter, nosso Sumo Sacerdote (i.é, JESUS), é declarado misericordioso e fiel. A primeira destas palavras ocorre somente aqui nesta carta. Sua única outra ocorrência, realmente, é nas Bem-aventuranças, onde a misericórdia é prometida aos misericordiosos. Apesar disto, a idéia de mostrar misericórdia (o verbo e não o adjetivo) é freqüente e pode ser declarada uma característica predominante da atitude de DEUS para com os homens. A misericórdia, no entanto, não era uma qualidade exigida daqueles que serviam na ordem arônica do sacerdócio, embora, segundo 5.2, o sumo sacerdote devesse ter alguma capacidade de tratar com compaixão os inconstantes. A idéia da fidelidade é ainda mais dominante no Novo Testamento e volta a ocorrer em quatro outros lugares nesta Epístola (3.2; 5-6; 10.23; 11.11), sendo que em todas as referências, menos uma, trata-se da fidelidade de DEUS. A fidedignidade
absoluta é indispensável para que a missão de JESUS seja permanente, e o escritor não tem dúvida alguma de que Ele é completamente fidedigno. Desenvolve este tema à medida em que estende sua discussão
no capítulo seguinte. A fidelidade no caso de nosso Sumo Sacerdote é especificamente ligada às coisas referentes a DEUS (ta pros ton Theon), i.é, aqueles aspectos da obra de um sacerdote que são dirigidos a DEUS, sendo que o aspecto mais notável é fazer propiciação pelos pecados do povo. O verbo usado (hilaskomai) não é, de modo geral, seguido por um objeto que denota a coisa propiciada. Este é, portanto, um uso lingüístico notável. O significado é “fazer propiciação pelos pecados.” O verbo ocorre no Novo Testamento somente em Lucas 18.13, embora haja muitas ocorrências do seu uso na Septuaginta. Em Lucas, é usado no clamor do publicano, implorando misericórdia. Quando é relacionado com os pecados, sua função é fornecer um terreno comum para o pecador e Aquele contra quem o pecado foi cometido. Vale notar que a propiciação (idéia expressa em linguagem sacrificial típica, altamente apropriada para o conceito do sacerdócio), conforme é declarado, é pelos pecados do povo ao invés de “pelo pecado” de modo abstrato. O plural toma a providência mais pessoal. Muitos estudiosos fazem objeção à tradução “propiciação” para o grego hilaskomai, porque faz surgir idéias de aplacar uma divindade irada. Mas isto nunca está em vista no uso da palavra no Novo Testamento, onde é o próprio DEUS quem faz a propiciação (cf. Rm 3.25) com Seu profundo amor para com a humanidade (Rm 5.8). Os substantivos cognatos são usados em Hebreus 9.5; Romanos 3.25 e 1 João 2.2; 4.10. Em todas estas ocorrências o propósito da propiciação é a restauração de um relacionamento previamente quebrado entre DEUS e o homem, ocasionado pelo pecado do homem.
 
HEBREUS 2:18
18. Um pensamento totalmente diferente conclui este capítulo, embora decorra do fato de JESUS CRISTO ter sido feito como Seus irmãos. O problema da tentação sempre está presente com o homem, mas até que ponto é possível pensar em CRISTO sendo tentado da mesma maneira? Nosso escritor está convicto de que a capacidade de CRISTO de ajudar aqueles que são tentados depende da Sua experiência da tentação. Para compreender a presente declaração (Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado), é essencial notar que a tentação é ligada com o sofrimento. Tem sido sugerido que os sofrimentos de JESUS eram aqueles causados pela fraqueza humana: o medo, a mágoa e a dor causados por ferimentos físicos.29 Mas os sofrimentos de JESUS foram principalmente aqueles envolvidos no Seu cargo messiânico, e incluíam mais do que o sofrimento físico. Posto que o sofrimento é especial, assim também é a tentação. O ponto de contato entre JESUS CRISTO e Seu povo não é tanto em paralelos
entre a natureza e a forma da tentação, mas, sim, no fato de que os dois sofrem uma experiência da tentação. A consideração é ressaltada mais claramente em 4.15. Ao comentar aquele versículo será discutido o problema teológico levantado pela tentação de CRISTO. Por enquanto, o pensamento importante é que CRISTO é poderoso para socorrer, porque o tema principal desta primeira parte da Epístola é demonstrar a perfeita adequação de CRISTO para ser o representante do Seu povo no seu relacionamento com DEUS.
 
HEBREUS 3:1
C. A SUPERIORIDADE DE JESUS A MOISÉS (3.1-19)
Por causa da grande importância de Moisés como legislador, uma
comparação entre ele e JESUS teria sido de grande relevância para os cristãos
judeus bem como para os cristãos gentios, mas especialmente para
aqueles. O escritor demonstra que a posição de Moisés como servo era
muito inferior à posição de JESUS como Filho. Além disto, a despeito
da sua grandeza, Moisés nunca conseguiu sua intenção de levar os israelitas
para a terra prometida; este fato, também, está em forte contraste
com a obra completa de CRISTO, que é fortemente ressaltada mais tarde
na Epístola.
(i) Moisés o servo e JESUS o Filho (3.1-6)
1. Talvez pareça, à primeira vista, haver bem pouca conexão entre o
tema de Moisés e o tema do capítulo 2. Mesmo assim, o escritor tinha a intenção
de ligar as duas idéias, porque começa, dizendo: Por isso, santos irmãos,
que depende da sua declaração de JESUS como Sumo Sacerdote. Há,
também, uma seqüência na menção de “irmãos” em 2.11, sua repetição
em 2.12, 17 e a descrição dos leitores com a mesma palavra aqui. Duas vezes
mais a mesma descrição é usada (10.19 e 13.22), mas somente aqui é
que o adjetivo “santos” é acrescentado. É surpreendente neste contexto.
Demonstra ao mesmo tempo familiaridade e respeito. É uma combinação
que os cristãos fariam bem em acalentar. Sem dúvida, há outras coisas
ou pèssoas descritas nesta Epístola como sendo santas (cf. as muitas ocorrências
da menção do ESPÍRITO SANTO, do santo lugar, do SANTO dos Santos).
O escritor não está aplicando a palavra levianamente aos irmãos. É,
naturalmente, usada de modo ideal, conforme ocorre quando se toma um
substantivo para descrever os crentes (os santos), como em 13.24.
Esta descrição dos irmãos passa, então, a ser seguida por uma definição
para excluir qualquer possibilidade de confusão. São as pessoas que
participam da vocação celestial. Isto, aliás, introduz outro tema característico
desta carta, a palavra “celestial.” O escritor fala também do dom
celestial (6.4), do santuário celestial (8.5), das coisas celestiais (9.23), da
pátria celestial (11.16) e da Jerusalém celestial (12.22). Em todos os casos,
o “celestial” é contrastado com o terrestre, e em todos os casos o celeste
é o superior, a realidade comparada com a sombra. Se a vocação celestial
for compreendida da mesma maneira, deve significar uma vocação que tem
uma direção espiritual e não material. Esta palavra para “vocação” (klèsis,
“chamada”) é especialmente característica do apóstolo Paulo, que a emprega
91
HEBREUS 3:1
nove vezes. Ocorre alhures somente em 2 Pedro 1.10. Nffo há apoio para a
opinião de que a chamada vem do interior do homem, porque em todos
os casos a chamada vem de DEUS. A parte do homem é tomar-se um cooperador
ao responder a ela. A idéia de compartilhar volta a ocorrer em 3.14,
onde se diz que os cristãos são “participantes de CRISTO.” A frase que o
escritor usa no presente contexto é repleta de significado. Participar de
uma chamada celestial é ficar estreitamente identificado com Aquele que
chama, i.é, DEUS. Não admira que tais pessoas são chamadas “santas.”
O Novo Testamento dá a entender que esta é a norma para os cristãos.
São um povo chamado para fora.
Na declaração seguinte acerca de JESUS, os leitores são exortados
a considerar (katanoeò) a Ele, ou seja: concentrar a mente inteiramente
em direção a Ele (o mesmo verbo é usado em 10.24). Para uma idéia semelhante,
embora os verbos sejam diferentes, podemos comparar 12.2-3,
onde, mais uma vez, o objeto da consideração é JESUS. Nalgum sentido,
o escritor está dando em forma epigramática sua intenção inteira — a de
dirigir seus leitores a examinarem as reivindicações de CRISTO quanto ao ser
o Sumo Sacerdote superior. Por enquanto, contenta-se em descrever CRISTO
como o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão. Não somente
é esta a única ocorrência da palavra “apóstolo” nesta carta, como também
é a única ocasião no Novo Testamento em que é usada para CRISTO. É notável
que o mesmo termo usado para os homens aos quais JESUS escolhera
é usado para o próprio JESUS. Não é, nó entanto, tão inesperado quando as
próprias palavras de JESUS são consideradas: “Assim como tu me enviaste
ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo 17.18); sem dúvida, vale
a pena notar que a idéia de JESUS sendo enviado é freqüente no Novo Testamento.
Noutras palavras, eles se tomaram apóstolos porque Ele foi um
Apóstolo. Ele é o perfeito cumpridor do encargo. Todos os demais são
pálidas imagens.
Há, além disto, uma estreita conexão entre o apóstolo e o sumo sacerdote.
Os dois foram “constituídos” e não tomaram o cargo sobre si.
Os dois eram cargos de representação, em que os detentores agiam em
prol doutras pessoas. O apóstolo representava JESUS CRISTO, e o sumo sacerdote
representava DEUS diante dos homens e os homens diante de DEUS.
Haja vista que uma comparação entre CRISTO e Moisés segue imediatamente,
é digno de nota que Moisés realizou a função de um apóstolo ao agir
como representante de DEUS diante do povo e a função de um intercessor
diante de DEUS em prol do povo. Nunca é especificamente chamado de
apóstolo ou sacerdote. Seu irmão Arâo foi, de fato, nomeado ao cargo
92
HEBREUS 3:1-2
de sacerdote ao invés dele. CRISTO é visto como sendo superior a Moisés
por cumprir perfeitamente as duas funções.
Mas porque os cargos são qualificados pelas palavras “da nossa confissão?"
O substantivo homologia (“confissão”) não é freqüente no Novo
Testamento, sendo que ocorre uma vez em 2 Coríntios (9.13), duas vezes
em 1 Timóteo (6.12-13) e três vezes em Hebreus (aqui e em 4.14; 10.23).
Na presente declaração, é usado subjetivamente, i.é, JESUS a quem professamos.
Algum reconhecimento extemo da nossa lealdade é evidentemente
pretendido, embora esta deva ser considerada em termos de uma confissão
constante de CRISTO e não seja restrita a um único ato. Hebreus 4.14
tem um uso semelhante da palavra, porque os leitores são ordenados a
conservarem firme a sua confissão, mais uma vez com referência a JESUS
como Sumo Sacerdote. De modo semelhante, em 10.23 há outra exortação
no sentido de guardar firmemente a confissão. A idéia dominante em
Hebreus é que os crentes têm uma confissão maravilhosa para fazer, e que
devem vigiar cuidadosamente para não negligenciarem aquilo que DEUS
lhes providenciou.
2. Outra característica do nosso Sumo Sacerdote é que Ele era fiel.
Este fato é especialmente focalizado a esta altura da discussão, já tendo sido
mencionado em 2.17. É feita uma comparação entre a fidelidade de JESUS
e a fidelidade de Moisés. Semelhante comparação terá muito valor para
aqueles que vieram do judaísmo e que transportaram para o cristianismo
altíssimo respeito pelo antigo legislador. Sem dúvida, até mesmo os
cristãos gentios aprenderiam rapidamente, da sua crescente familiaridade
com o Antigo Testamento, que Moisés é um nome de máxima influência
na história antiga do Antigo Testamento. A fidelidade de Moisés é subentendida
em Números 12.7, londe o Senhor menciona que Moisés era fiel
em toda a Sua casa. É este aspecto que fornece uma comparação apropriada
com JESUS CRISTO.
As palavras àquele que o constituiu (i.é, a JESUS) são literalmente:
“que o fez” (grego poiêsanti). Pode ser que o verbo fosse sugerido por 1
Samuel 12.6, onde a Septuaginta o usa no sentido de “constituir” que
parece ser o significado aqui. Diz-se que a fidelidade de Moisés era em
toda a casa de DEUS, que parecer ser uma expressão figurada para todas as
responsabilidades confiadas a ele em prol da comunidade teocrática. O texto
em toda a casa de DEUS (em comparação com a alternativa: “na casa de
DEUS”) ressalta sobremaneira a extensão da fidelidade de Moisés. Apesar
disto, esta fidelidade obtém seu maior renome quando serve de padrão para
a fidelidade de CRISTO, que até mesmo sobrepuja o padrão.
93
HEBREUS 3:3
3. Há uma conexão direta entre o v. 3 e o versículo anterior, conforme
é mostrada pela conjunção todavia (gar). As palavras JESUS, todavia,
tem sido considerado digno citam a razão porque os leitores devem considerar
(katanoèsate) a Ele (v. 1). É um digno objeto de pensamento. Se
Moisés era tão altamente respeitado pelos judeus e pelos cristãos judeus
igualmente, quanto mais JESUS devia ser honrado! A comparação é ressaltada
pela declaração de que aquele que estabeleceu a casa é maior do que
a própria casa. Embora a glória de Moisés seja indisputável e seja ressaltada
noutras passagens neotestamentárias (especialmente 2 Co 3), ele não era
o inovador do sistema legal, mas simplesmente o agente através de quem
foi dado. A descrição vívida no Antigo Testamento das tábuas da lei sendo
escritas pelo dedo de DEUS imediatamente coloca Moisés na sua perspectiva
certa, quase como um espectador que foi, pessoalmente, afetado intimamente
por aquilo que viu.
Mas quem é aquele que a estabeleceu que tem mais honra do que a
casa que estabelece? Há duas interpretações, (i) Pode referir-se a JESUS, já
que Ele está sendo comparado com Moisés. Neste caso, a comparação é
entre JESUS, o edificador da casa, e Moisés, a casa que Ele eficiou. Esta interpretação,
porém, levanta dificuldades por subentender um conceito
da pré-existência de JESUS e da Sua identificação com a outorga da Lei,
que introduz um novo pensamento para o qual não houve preparativo
nos capítulos anteriores. A glória e a honra atribuídas a JESUS são mediante
o sofrimento e a morte (2.9), não através do poder criador (embora
este seja referido em 1.2). (ii) A interpretação alternativa identifica DEUS
como o edificador, o que é apoiado pelo v. 4. Embora (ii) se encaixe no
contexto melhor do que (i), há verdade na idéia de JESUS CRISTO como
Fundador da Sua casa, i.é, a igreja. Bruce pensa que nenhuma distinção
pode ser feita entre o Pai e o Filho aqui, porque é DEUS quem funda Sua
própria casa, mas o faz através do Seu Filho.30
Deve ser notado que a combinação de glória e honra neste versículo
corresponde não somente à citação do Salmo 8 em 2.7, como também
ao louvor ao Cordeiro pelos seres viventes em Apocalipse 5.12-13
(cf. também Ap 4.9, 11; 7.12). Mesmo assim, no presente versículo “glória”
é aplicada às pessoas e “honra” à casa e ao edificador, presumivelmente
porque “glória” seria uma idéia menos apropriada a aplicar a
uma construção ou ao seu construtor.
(30) Cf. Bruce: Comm., pág. 57.
94
HEBREUS 3:4-5
4. Este versículo é um parêntese, porque faz uma declaração geral
que visa reforçar aquilo que acaba de ser dito. A conjunção pois (gar)
demonstra a conexão. Toda casa é estabelecida por alguém; esta é
uma declaração genérica que dificilmente precisa ser feita a não ser que
haja razões para disputá-la, e estas razões podem ser achadas naquilo
que, bem possivelmente, era uma abordagem contemporânea à Lei. Certamente
havia perigo em certos ambientes judaicos de um respeito excessivo
por Moisés, às expensas de reconhecer que DEUS era o originador da
Lei. Mas o presente contexto, em que se fala de DEUS, é muito mais amplo
do que isto. Ele é aquele que estabeleceu todas as coisas, não meramente
a “casa.” É parte da semelhança a DEUS o ser o inovador de todas as
coisas. Podemos rejeitar a opinião de que a segunda parte do versículo é
uma glosa que desfaz o contexto31 O propósito do autor em fazer esta
consideração é ressaltar a glória de JESUS que foi nomeado por DEUS para
Seu cargo (v. 2). Algumas pessoas restringem “todas as coisas” a questões
que dizem respeito à igreja,32 mas é melhor entender a expressão mais
abrangente a respeito da totalidade da criação material, bem como do estabelecimento
da nova comunidade espiritual.
5-6. Outra linha de argumento agora é introduzida para reforçar a
posição superior de CRISTO sobre Moisés — a diferença entre um Filho e
um servo.33 Mais uma vez, a fidelidade de Moisés é enfatizada de uma
maneira que sugere nada mais de que um servo. A palavra traduzida “servo”
aqui não é o teimo usual doulos que é usado noutras partes do Novo
Testamento, mas, sim, therapôn que ocorre somente aqui. Refere-se a
um “serviço pessoal prestado gratuitamente.”331 É uma palavra de mais
temiira do que doulos e não subentende as implicações de servilidade desta
última palavra. Mesmo assim, o assistente pessoal não pode compartilhar
da mesma categoria do Filho. No caso de Moisés, o servo tinha uma
tarefa importante a realizar, para dar testemunho do que havia de se se(
31) Cf. Héring: Comm., pág. 25.
(32) Calvino: Comm., pág. 36.
(33) Pode-se perguntar por que o autor se dá o trabalho de demonstrar a superioridade
de CRISTO a Moisés. Alguns pensam que a resposta possa ser achada no desenvolvimento
de um tipo inadequado de cristologia, baseada por demais estreitamente
sobre a predição do profeta vindouro em Dt 18.15ss. Para este tipo de cristologia
mosaica, cf. E. L. Allen: “JESUS and Moses in the New Testament,” E xT 17
(1955-56), págs. 104ss.; H. H. Schoeps: Theologie und Geschichte des Judenchristentums
(Tübingen, 1949), págs. 87ss.
(33a) Westcott: Comm., pág. 77.
95
HEBREUS 3:6-7
guir. Noutras palavras, aquilo que Moisés representa na história judaica
não é completo em si mesmo. Apontava para o futuro, para uma revelação
mais plena de DEUS num tempo posterior, i.é, diz respeito a coisas
que haviam de ser anunciadas, expressão esta que deve indicar o tempo
de CRISTO. A missão do servo, por mais grandiosa que fosse, prepara o caminho
para a missão muito maior do Filho.
A fidelidade de CRISTO é repetida para ressaltar sua superioridade
à de Moisés, em virtude da Sua Filiação. Como Filho ecoa o tema principal
da parte inicial da Epístola. O escritor está impressionado pelo pensamento
de que nosso Sumo Sacerdote não é outro senão o Filho de
DEUS. Isto ficará evidente em vários momentos no desenvolvimento da
sua discussão. Para ele, a Filiação de JESUS acrescenta dignidade incomparável
ao ofício sumo-sacerdotal.
Enquanto ainda pensa na casa de DEUS, fica sendo mais específico
e identifica seus leitores com a casa, mas estabelece uma condição ao assim
fazer: se guardamos firme até ao fim a ousadia e a exultação da esperança.
As declarações condicionais nesta Epístola são significantes. O escritor
deseja tomar claro que somente aqueles que são coerentes com
aquilo que professam têm qualquer direito de fazer parte da “casa”. A
palavra traduzida “ousadia” ou “confiança” (parrèsia) é outra idéia característica
nesta Epístola. Aqui a implicação é que temos uma certeza
sólida à qual podemos apegar-nos. A palavra neotestamentária para “esperança”
é muito mais enfática do que o uso normal em português, onde
quase não significa mais do que um piedoso desejo que talvez não tenha
base real nos fatos. Tal tipo de esperança dificilmente forneceria uma base
satisfatória para a exultação. Ninguém vai exultar numa coisa que não tem
certeza de que irá acontecer. O escritor está suficientemente convicto da
certeza da esperança cristã para usar uma expressão enfática (tokauchéma,
jactância exultante) para descrever a atitude do cristão para com ela.
Vale notar que a ousadia da qual aqui se fala é referida outra vez no fim
da discussão teológica e no começo da aplicação (cf. 10.19). A mesma
idéia de “guardar firme” que é usada aqui ocorre lá na forma de uma
exortação.
(ii) Enfoque sobre o fracasso do povo de DEUS sob Moisés (3.7-19)
7. A idéia de que é possível uma nova interpretação da ilustração
da casa — uma transferência dos israelitas como sendo a casa de Moisés
para a igreja como sendo a casa do Messias — levou o autor a refletir mais
sobre a falta de Israel de herdar as promessas. A intenção disto é obvia96
HEBREUS 3:7-8
mente reforçar a importância da condição que acaba de ser imposta, i.
é, a de guardarmos firme a nossa confiança. O escritor tem consciência
do fato de que alguns dos seus leitores estavam correndo perigo de fazer
aquilo que os israelitas tinham feito. Um breve interlúdio histórico,
portanto, não está fora de lugar aqui.34
Começa com uma citação bíblica de Salmo 95.7-11, introduzida
pelas palavras: Assim, pois, como diz o Espirito SANTO. Esta expressão,
juntamente com 10.15-16, é uma indicação clara que o escritor considera
que as palavras do Antigo Testamento são inspiradas pelo ESPÍRITO.
Embora não o declare explicitamente ao introduzir outras citações, pode
ser considerado que este conceito subjaz a totalidade da sua abordagem
do Antigo Testamento. Certamente a sua doutrina do ESPÍRITO em
relação à Escritura abrange a relevância da linguagem figurada usada,
conforme demonstra 9.8. Ao introduzir assim o texto bíblico, dá tremenda
autoridade às palavras que cita, por conterem uma forte advertência.
As primeiras palavras da citação captaram a imaginação do escritor
de modo especial, porque as repete três vezes (w. 7-8; 3.15 e 4.7). Vê o
Hoje inicial como sendo relevante, por permiti-lo a aplicar as palavras aos
seus leitores atuais. Embora se volte para a história, sua mente está fixada
no cenário contemporâneo. Sem dúvida, as palavras se ouvirdes a sua
voz enfatizam esta relevância presente, sendo que Sua voz é a voz de DEUS
em CRISTO. Além disto, o contexto nos Salmos é especialmente apropriado,
porque o Salmo 95.7 diz: “nós somos povo do seu pasto, e ovelhas
de sua mão,” que se enquadra bem no conceito cristão da igreja como o
rebanho de DEUS. Mas a exortação subseqüente contra a imitação do
exemplo dos israelitas introduz uma nota severa de advertência.
8-9. A idéia do endurecimento do coração ocorre freqüentemente
como uma descrição da desobediência de Israel, e é uma lembrança permanente
contra adoção de uma atitude fixa de desobediência a DEUS. Es(
34) É esta seção que foima o âmago da teoria de Käsemann de um fundo histórico
gnóstíco paxa esta Epístola (cf. Das wandernde Gottesvolk). O. Hofius: Katapausis:
Die Vorstellung vom endzeitlichen Ruheort im Hebräerbrief, nega uma origem
gnóstica e alega um backgraound apocalíptico. A tese de Hofius é que o lugar
de descanso falado nesta seção é o SANTO dos Santos. G. Theissen: Untersuchungen
zum Hebraerbrief, págs. 128ss., critica o apelo de Hofius à apocalíptica. Muitos exegetas
concordariam com a interpretação do povo de DEUS como um povo peregrino,
sem aceitarem a teoria gnóstica de Käsemann.
97
HEBREUS 3:9-10
se endurecimento é realmente visto em várias fases da história do Antigo
Testamento. Começou, conforme deixa claro a passagem citada, durante
as peregrinações no deserto. A provocação (ou “a rebelião”) refere-se a
incidentes tais quais aqueles que foram registrados em Êxodo 15.22*25;
17.1-7 e 32.1ss. De fato, o texto hebraico do Salmo citado menciona
Meribá e Massá. Estas foram duas ocasiões clássicas que se destacam
na história de Israel como ocorrências de rebelião contra DEUS. A palavra
usada para rebelião (parapikrasmos) ocorre no Novo Testamento somente
aqui e no v. 15, e vem da raiz pikros (“amargo”); pode ter sido sugerida
pelo incidente em Meribá, onde a água foi achada amarga. Parece ter
sua origem na própria Septuaginta, para expressar de modo deliberado a
provocação contra DEUS. Deve ser distinguida da palavra paralela em SI
95.10 (ARA desgostado), que significa “ter nojo de, aborrecer,” MM).
O dia da tentação talvez se refira ao início, e os quarenta anos à
duração. Aquilo que apareceu numa determinada ocasião como sintoma
desenvolveu-se num hábito fixo da mente; isto levou a uma atitude de
indignação da parte de DEUS, a despeito do fato de que no Antigo Testamento
DEUS é revelado como Aquele que não é facilmente provocado,
mas, sim, é “longânimo” - lento para Se irar. Tem sido sugerido
que o escritor desta Epístola talvez tenha entendido por conta própria
os “quarenta anos” como o período que decorrera desde a crucificação
de JESUS, durante o qual o povo judaico de modo geral tinha continuado
a rejeitá-Lo. Mas não chama atenção especial a esta parte da citação. O
ponto principal da passagem inteira é advertir contra uma repetição de
rebelião semelhante contra DEUS. Outra sugestão é que os quarenta anos
talvez tenham tido relevância especial para o escritor, conforme parece
ter tido entre os Pactuantes de Cunrã. Estes últimos relacionavam seu futuro
com um período de quarenta anos contados após a morte do Mestre
da Justiça.35
10-11. Se acharmos estranho que DEUS possa ser provocado, deve ser
lembrado que muitas dificuldades surgem quando qualquer tipo de resposta
emocional é atribuída a DEUS. As analogias humanas são o único meio
de expressão disponível, mas estão carregadas com o perigo de que DEUS
seja reduzido a termos humanos. Quando DEUS é provocado, o é de modo
inteiramente diferente da maior parte da provocação humana, porque a
ira nunca surge na mente de DEUS sem justa causa, ao passo que isto acontece
freqüentemente nas mentes humanas. A descrição dos israelitas re(
35) Cf. Bruce: Comm., pág. 65, n. 57 para os pormenores.
98
HEBREUS 3:11-12
calcitrantes é dupla: seu desvio habitual de DEUS, e sua ignorância (“Estes
sempre erram no coração; eles também não conheceram os meus caminhos”).
Uma destas coisas aumenta a outra. A ignorância dos caminhos
de DEUS naturalmente leva as pessoas a desviar-se deles. Mas o escritor do
Salmo menciona-as na ordem inversa, como se a atitude habitual de desviar-
se contribuíra à sua ignorância. Um estado endurecido de mente torna-
se impenetrável à voz de DEUS e leva à ignorância cada vez maior dos Seus
caminhos, não porque DEUS nâío os faça conhecidos, mas, sim, porque
a mente endurecida não tem disposição alguma para escutar. O que era
verdadeiro para os israelitas é um comentário sobre todos aqueles que
resistem às reivindicações de DEUS.
O veredito sobre os rebeldes no Salmo é conclusivo, expresso na forma
de um juramento. Uma passagem do Antigo Testamento que parece
estar refletida aqui é Números 14.21, onde DEUS dá Sua palavra com um
juramento. O contexto desta passagem do Antigo Testamento é a ocasião
em que os espias voltaram para Cades-Baméia e o relatório da maioria foi
desfavorável. As palavras do juramento: Não entrarão no meu descanso,
são introduzidas por uma cláusula com “se" (ei), que, por causa de não ser
seguida por uma cláusula “então” serve como uma forte negação. O significado
de “descanso” é discutido ainda mais no capítulo 4. O que é importante
aqui é que os rebeldes efetivamente se colocam fora da provisão de
DEUS. Não são elegíveis.
12. Segue-se agora uma discussão, baseada na citação, que é claramente
relacionada com a situação histórica dos leitores. Parece mais provável
que entre eles houvesse alguns que estavam sendo tentados a afastarse
de DEUS. Tende cuidado (blepete) como exortação aos leitores ocorre
outra vez em 12.25, e nos dois casos há uma questão séria envolvida. Assim
como os israelitas se tomaram presa da descrença, assim também seus
sucessores, os cristãos, devem ter cuidado para não cair na mesma armadilha.
O escritor resume o estado de mente dos israelitas no Salmo como
sendo de perverso coração de incredulidade, e vê a possibilidade da mesma
condição nalguns dos seus leitores. A ordem das palavras, no grego como
em ARA, deixa em aberto se a perversidade antecede a incredulidade ou
vice-versa. O escritor não está interessado em tais distinções minuciosas.
O que lhe preocupa é que a descrença invariavelmente leva a conseqüências
malignas. A descrença leva as pessas a afastar-se do DEUS vivo. A palavra
usada para “afastar-se” (apostènai) é a raiz da qual é derivada “apostasia.”
Envolve um desvio da verdade. Afastar-se do DEUS vivo é a maior
99
HEBREUS 3:12-13
apostasia possível. Este título específico para DEUS, que é familiar no Antigo
Testamento, ocorre várias vezes no Novo Testamento, e freqüentemente
sem o artigo, como aqui. A forma sem o artigo chama a atenção
mais vividamente ao adjetivo “vivo.” Os cristãos nos ambientes pagãos vibrariam
com o contraste entre o DEUS vivo, a quem adoravam, e os ídolos
mortos do paganismo (cf. At 14.15). O título era igualmente atraente a
um discípulo judeu, como na confissão de Pedro em Cesaréia de Filipe
(Mt 16.16), ou a um sumo sacerdote judeu, conforme demonstra o juramente
em Mateus 26.63. Há outros lugares em Hebreus onde o mesmo
título é usado (9.14; 10:31; 12.22). As palavras transmitem a idéia de
um DEUS dinâmico e são especialmente relevantes em quaisquer comentários
acerca dos homens que se desviam dEle (cf. especialmente 10.31). Semelhante
DEUS, além disto, está em comunicação constante com os homens.
Se a apostasia em questão for uma volta ao judaísmo, em que sentido
ela poderia ser descrita como um afastamento do DEUS vivo, já que os
judeus realmente reconheciam a DEUS? A resposta deve ser que os “apóstatas”
neste sentido não achariam a DEUS no judaísmo, tendo voltado suas
costas ao caminho melhor providenciado em CRISTO.36 Se o escritor considera
que JESUS é DEUS, conforme é o caso, rejeitar a CRISTO seria considerado
uma apostasia de DEUS.37
13. Ao pensar na passagem que acaba de ser citada, o escritor imediatamente
transfere o hoje do Salmo para os dias dos seus próprios contemporâneos.
Desta maneira, toma o Salmo relevante a eles, de modo
que assume um sentido duplo: uma aplicação imediata e uma estendida.
Sem dúvida, o hoje é estendido para representar a totalidade da presente
era da graça, uma vez que os leitores modernos desta Epístola conseguem
estendê-lo ainda mais a eles mesmos. O conselho: exortai-vos mutuamente
cada dia demonstra a mentalidade prática do escritor em aplicar
uma citação do Antigo Testamento. Este é um convite para a constante
vigilância contra a possibilidade do “endurecimento.”
O escritor reconhece que seus contemporâneos são tão passíveis
deste processo de endurecimento quanto foram os israelitas. Atribui-o
ao engano do pecado. O pecado aqui parece ser personificado, usando
o engano como meio de desenvolver uma atitude endurecida nos seus
aderentes. Se alguns dos cristãos hebreus estavam enganando a si mes(
36) Cf. Bruce: Comm., pág. 66.
(37) Cf. Montefiore: Comm., pág. 77.
100
HEBREUS 3:13-14
mos ao ponto de pensarem que o cristianismo pudesse ser contido nos
odres velhos do judaísmo, estariam adotando uma posição inflexível
semelhante, que seria contrária à revelação de DEUS mediante CRISTO.
Uma atitude endurecida não é uma aberração repentina, mas, sim, um
estado mental habitual. 0 pecado usa o manto do engano com efeito
devastador contra os que têm a propensão de cair presos nos seus encantos.
Foi a fascinação das riquezas que sufocou a semente na parábola
do semeador (Mt 13.22). Um aspecto importante da advertência contra
o engano do pecado é que é endereçada ao indivíduo — a fim de que nenhum
de vós seja endurecido, Ê certamente mais fácil para os indivíduos
serem enganados em isolamento doutros cristãos do que quando
compartilham da comunhão dos irmãos na fé. O fato de que havia uma
tendência para os leitores deixarem de congregar-se com os outros (Hb
10.25) lança luz sobre a presente passagem. É impossível exortar-se mutuamente
a não ser que se faça parte de uma comunhão. No presente caso,
um endurecimento do coração é estreitamente ligado com o “pecado”
e esta deve ter sido uma tendência no caso dos hebreus que eram tentados
a desviar-se do cristianismo.
14. Como contraste com este endurecimento do coração, há a posição
daqueles que estSo estabelecidos em Cnsto. Têm uma base firme e
estável, porque o escritor diz: Porque nos temos tomado participantes
de CRISTO. A palavra metochoi (“participantes”) poderia ser entendida
no sentido ou de “participantes de CRISTO” ou “participantes com CRISTO.”
Este último sentido certamente é melhor adaptado ao contexto,
onde a estreita conexão do crente com CRISTO já foi ressaltada (cf. 3.6:
“somos a su casa”). Além disto, o uso de metochoi com o genitivo (como
aqui) tem o significado de “confederado com” no uso lingüístico da
Septuaginta e do koinê (cf. MM). Tem o mesmo sentido em Lucas 5.7.
É geralmente concordado que “participantes com CRISTO” não é o
equivalente da frase mais expressiva “em CRISTO” nas Epístolas de Paulo.
Apesar disto, embora seja diferente sua maneira de expressar a união
com CRISTO, a idéia básica é a mesma. Pode ser preferível pensar na participação
como sendo uma participação do reino celestial.
Note-se que nenhuma indicação é dada quanto à maneira de participarmos
em ou com CRISTO, porque o escritor está mais interessado nas
condições da nossa participação. Expressa-as como se fosse uma cláusula
com “se” : se de fato guardarmos firme até ao fim a confiança que desde
o principio tivemos. A conjunção grega eanper que introduz esta cláusu101
HEBREUS 3:14-15
la ocorre apenas duas vezes no Novo Testamento (aqui e em 6.3). Significa
“se pelo menos” ou “se de fato.” È uma partícula intensiva (MM),
que chama atenção especial à condição. Embora se fale da participação
como se fosse um ato completado, não deixa de tomar por certo que as
respectivas pessoas continuariam na comunhão com CRISTO. Esta condição
é compreensível, tendo em vista a lembrança vívida que o escritor
tinha da herança perdida dos israelitas, que comenta na passagem seguinte.
A palavra traduzida confiança (hypostasis) ocorre em 1.3 e 11.1.38
Parece que, no presente contexto, tem ligação com a certeza que o dono
de um imóvel pode ter porque possui o documento de propriedade, sentido
este queé possível em 11.1 (q.v.). Mas 1.3 tem um sentido diferente
(i.é, “natureza”). Podemos seguir ainda mais longe esta linguagem figurada
ao sugerir que a idéia é assegurar-nos que as escrituras do imóvel não
escapem do nosso domínio. O escritor usa três vezes nesta Epístola a mesma
expressão “guardar fiime” (katechõ, cf. 3.6 e 10.23). É reforçada, outrossim,
pela palavra firme (bebaiosj, outra palavra predileta em Hebreus
2.2; 3.6; 6.19; 9.17 (“é confirmado”). Não é sem relevância que seu significado
usual refere-se a um penhor legalmente garantido (MM). Logo, neste
contexto ressalta a necessidade de segurarmos com firmeza a nossa “participação”
em CRISTO. Enquanto exercermos a fé temos a certeza de que
nossa participação não nos pode ser tirada, assim como outra pessoa não
pode alegar ter a posse do nosso imóvel se ela não possuir os documentos
de propriedade.
15-17. O versículo anterior realmente era um parêntese de qualificação,
porque o pensamento agora volta à citação do Salmo 95. Até mesmo
as palavras cruciais são repetidas de uma parte anterior do capítulo
(w. 7b, 8). Este fato não somente serve para enfatizar sua importância,
como também fornece ao escritor uma oportunidade para acrescer seus
comentários sobre elas. Faz uma série de cinco perguntas, das quais a
segunda e a quarta virtualmente respondem à primeira e à terceira, ao
passo que a quinta contém sua própria resposta. Este método oferece
um exemplo fascinante de exegese do Novo Testamento. O escritor claramente
toma por certo que seus leitores não precisarão de uma explicação
da situação histórica geral à qual o Salmo se refere, mas sua primei(
38) Héring, pág. 28, considera que o genitivo hypostaseòs pode significar o
“começo da fé,” ou o “princípio da fé,” ou como uma explicação, i.é, “a base, que
é a fé.” ra pergunta: Quais os que, tendo ouvido, se rebelaram?, diz respeito à
identidade (ou melhor, à extensão) dos ouvintes rebeldes. A segunda
pergunta, retórica no seu caráter: Não foram, de fato, todos os que saíram
do Egito por intermédio de Moisés?, meramente indica aquilo que
os leitores já devem ter sabido: i.é, que a revolta foi total. Não pode deixar
de refletir na liderança de Moisés em comparação com a superioridade
de JESUS. Moisés era honrado por ser o libertador do seu povo do
Egito, mas o próprio povo que ele libertou virou-se em rebelião contra
DEUS. A palavra todos não é afetada pelo fato de que dois, Josué e Calebe,
realmente entraram na terra prometida. Foi a massa total da rebelião
que impressionou o escritor.
As duas perguntas seguintes ensinam a mesma lição. Baseadas na
próxima seção do Salmo, fixam-se nos quarenta anos para chamar a atenção
à extensa duração da provocação. A rebelião contra DEUS foi tão
persistente que perdurou pelo período inteiro das peregrinações dos israelitas
no deserto. Não foi contra os que pecaram? é uma pergunta que
define firmemente a atitude dos israelitas como sendo “pecado” (o verbo
ocorre outra vez nesta Epístola somente em 10.26). O pecado é a causa
radical, da qual a rebelião e a provocação eram manifestações específicas.
O resultado para os pecadores é vividamente resumido: cujos cadáveres
caíram no deserto, evidência decisiva da indignação de DEUS contra eles. O escritor ressalta, desta maneira, que não foi somente a descrença,
mas também a realidade mais profunda da rebelião ativa a responsável
pelo fracasso dos israelitas.
 
 
HEBREUS 3:18-19
 
18. A quinta pergunta: E contra quem jurou que não entrariam no
seu descanso?, é respondida pelo acréscimo qualificante: senão contra os
que foram desobedientes? Os provocadores, tendo sido identificados com
aqueles que pecaram, agora são descritos como desobedientes. Este último
conceito subentende um padrão de lei do qual deliberadamente se desviaram.
O escritor está preenchendo um quadro vívido do triste estado daqueles
que agem contra a provisão que DEUS fez por eles. Está ilustrando
por meio do passado de Israel a impossibilidade de vencer através de quaisquer
outros meios senão a fé e a obediência — um comentário notável sobre
2.3. Deve ser notado que a idéia de um juramento de DEUS, colhida
aqui do Salmo 95, ocorre em 6.13, 16-17 e 7.21 (uma citação do Salmo
110.4, cf. também 4-3). Claramente, a idéia tinha considerável importância
para o escritor e falava da absoluta veracidade da palavra de DEUS. O
“descanso” (i.é, a herança) mencionado aqui é considerado de importância
suficiente para sua perda ser grave. É exposto e aplicado na passagem
seguinte.
19. A última parte da citação do Salmo, acerca de entrar no descanso
de DEUS, é expandida mais plenamente no capítulo seguinte, mas uma
declaração resumida é feita para focalizar a verdadeira razão para o debate.
A incapacidade deles de entrarem remontava à incredulidade. Isto relembra
o v. 12 onde os leitores são advertidos contra terem “coração de
incredulidade.” É instrutivo notar que no argumento desta Epístola a
exegese é tomada relevante aos leitores e constantemente ecoa seu estado
imediato. Ao dizer: Vemos, pois, que... o escritor toma por certo que seu
raciocínio será evidente em si mesmo. Seus leitores dificilmente poderiam
questionar a realidade da descrença dos israelitas, e obviamente o autor espera
que verão com igual clareza as conseqüências perigosas de semelhante
descrença da parte deles mesmos.
 
 
HEBREUS 4:1
D. A SUPERIORIDADE DE JESUS A JOSUÉ (4.1-13)
Visto que Moisés estava impossibilitado de levar os israelitas para
Canaã, o escritor reflete sobre a posição de Josué, que de fato os levou
para lá. Demonstra, no entanto, que nem sequer Josué obteve para seu
povo o descanso verdadeiro. Josué fracassou pela mesma razão que Moisés,
ou seja: por causa da descrença do povo. Isto leva o escritor exortar
seus leitores a procurarem aquele descanso superior, que, segundo passa
a dar a entender, acha-se em CRISTO.
(i) O descanso maior que Josué não podia obter (4.1-10)
1. Tendo demonstrado o fracasso dos israelitas de possuir sua herança
sob a liderança de Moisés, o escritor passa, então, ao seu sucessor,
Josué. Embora os homens no deserto tenham fracassado quanto a obter
o “descanso,” a promessa dele permanecia para seus filhos. Até mesmo é
feita a suposição de que a promessa é permanente e ainda disponível ao
escritor e aos seus leitores, daí a exortação adicional. É importante notar
que as primeiras palavras do texto grego, como de ARA, são: Temamos,
portanto (Phobèthõmen oun). A posição do verbo dá-lhe ênfase especial.
Seria salutar para os cristãos considerarem seriamente o fracasso dos israelitas,
que incorreram no desagrado de DEUS, e temer que uma calamidade
semelhante não sobrevenha aos membros da nova comunidade, o Israel
espiritual. O escritor aceita sem questionar que nos é deixada a promessa
de entrar no descanso de DEUS, presumivelmente porque sua doutri104
HEBREUS 4:1-2
na de DEUS é tal que não pode conceber que qualquer palavra dEle possa
falhar. Com isto em mente, um elemento de temor piedoso é de valor incalculável,
porque aplica a nós a solene conseqüência de subestimar a provisão
que DEUS faz para Seu povo.
0 escritor toma por certo, para si mesmo e para seus leitores que algum
tipo de descanso pode ser atingido. Nos versículos que se seguem, dá
uma explicação que nos ajuda a saber a natureza do descanso que ainda está
disponível. Há certa dúvida acerca do significado exato das palavras:
suceda parecer que algum de vós tenha falhado, visto que a palavra (dokeò),
além de significar “julgar” também pode ser traduzida parecer
(ARA), e neste caso a advertência é até mesmo contra a aparência do fracasso.
Além disto, pode significar “suceda que algum de vós pense,” e neste
caso a ênfase recai sobre um modo errado de aquilatar a situação. É possível
que alguns dos leitores estivessem pensando por demais literalmente
que o “descanso” se referia a Canaã e, portanto, não tinha relevância para
eles. Mas uma advertência do tipo que abunda nesta Epístola seria mais
apropriada para o primeiro significado; “ser julgado,” com o agente do
julgar deixado em aberto.
2. Ao atribuir aos seus leitores uma posição paralela aos israelitas,
o escritor emprega um verbo que é altamente importante, incluindo sua
própria pessoa na declaração, diz: Porque também a nós foram anunciadas
as boas novas, como se deu com eles, que significa literalmente: “o
evangelho foi pregado a eles tanto quanto a nós.” Naturalmente, o conteúdo
da mensagem era grandemente diferente, mas o fator em comum
é que nos dois casos DEUS estava Se comunicando com os homens. Quando
a revelação de DEUS aos israelitas é destacada, a mensagem é expressa
pela palavra logos, já usada em 2.2 num sentido semelhante. É uma palavra
neotestamentária favorita para a revelação de DEUS. Neste caso é qualificada
pela frase que ouviram (tès akoès, literalmente “palavra do ouvir”).
A expressão pode ser entendida no sentido da mensagem que foi simplesmente
ouvida, mas diante da qual não foi dada resposta, e este modo de
compreendê-la se adaptaria bem ao contexto. Seja qual for o significado
adotado, fica claro que o que ouviram não recebeu resposta, pelo menos
da parte dalguns. A razão dada: visto não ter sido acompanhada pela fé,
naqueles que a ouviram, também é possível de interpretações diferentes.
Logo de início, há um problema com o texto. As duas tradições textuais
mais apoiadas dizem ou “encontrar-se com” (synkekerasmenos, referindose
à mensagem), ou “unido com” (synkekramenous, referindo-se a “eles”),
e neste caso o significado seria “porque não estavam unidos pela fé com
105
HEBREUS 4:2-3
aqueles que verdadeiramente ouviram.” Qualquer dos dois textos enfatizaria
a falta de fé da parte dos ouvintes, mas o primeiro seria mais natural
do ponto de vista da gramática. Os dois ressaltariam o fato de que o ouvir
por si só não é suficiente, embora o primeiro o faça de modo mais eficaz.
W. Manson39 pensa que o segundo texto aqui subentende que o grupo endereçado
nesta Epístola talvez tenha ficado separado do grupo principal
por alguma questão de “fé.” Esta interpretação, no entanto, não teria relevância
aos israelitas mencionados no contexto, mesmo se for aplicada aos
leitores da carta. Também a nós... como se deu com eles pareceria excluir
esta opinião.
3. Os crentes estão numa posição inteiramente difrente dos israelitas
antigos aos quais se refere o Salmo 95. Mesmo assim, o escritor cita
mais uma vez o julgamento enfático de DEUS que proibiu os israelitas de
entrar em Canaâ, porque ao assim fazer coloca em enfoque mais nítido a
posição superior dos crentes. Quando diz :Nós, porém, que cremos (tempo
passado), entramos (presente) no descanso, está ressaltando que o descanso
de que está pensando é uma experiência já no processo de ser cumprida.
Não é algo simplesmente a ser esperado para o futuro. É uma parte
essencial da realidade presente para os cristãos. É estranho que a palavra
“crer” não está no tempo presente, mas o escritor evidentemente pretende
referir-se ao evento da conversão. A advertêhcia no v. 1 claramente visa
aqueles cuja experiência não ficou à altura daquilo que DEUS lhes providenciou.
Presumivelmente, os leitores originais teriam reconhecido a natureza
espiritual do “descanso,” que o escritor ainda não definiu. Apesar
disto, ele dá algum indício na declaração seguinte — embora, certamente,
as obras estivessem concluídas desde a fundação do mundo — como se
quisesse que seus leitores levassem sua atenção para além das peregrinações
no deserto, para a própria criação. O descanso da citação e as obras
do comentário claramente estão estreitamente ligados entre si. Aquilo
em que os leitores agora podem entrar não é diferente do tipo de descanso
do qual o Criador desfrutou depois de ter completado as Suas
obras, o que significa que a idéia do descanso é a da obra aperfeiçoada e
não da inatividade (mas veja o comentário sobre v. 10). É importante notar
que o “descanso” não é algo novo que não tinha sido conhecido por
experiência até à vinda de CRISTO. Tem estado disponível no decurso de
toda a história do homem. Esta referência para a criação no passado distante
coloca a idéia na base mais ampla possível, e parece sugerir que o
(39) W. Manson: The E pistle to the Hebrews, pág. 70, n. 4.
106
HEBREUS 4:3-6
descanso fazia parte da intenção de DEUS para o homem. O “descanso”
é uma qualidade que tem frustrado a busca da parte do homem, e, na realidade,
não pode ser alcançado a não ser através de CRISTO. O próprio JESUS
convidou os homens a virem a Ele para acharem descanso (Mt 11.
28-30).
4-5. Seguem-se duas citações que confirmam as considerações que
já foram estabelecidas: a realidade do descanso e a falta de Israel em obtê-
lo. A primeira citação vem de Gênesis 2.2, mas é introduzida pela fórmula
muito geral: Porque em certo lugar (pouj assim disse, é um paralelo
estreito da fórmula usada em 2.6. A autoridade da passagem tem maior
relevância do que o contexto exato. A alusão ao sétimo dia decorre daquilo
que foi dito no v. 3, e prepara o caminho para uma menção adicional
de um descanso sabático no v. 9. Esta referência ao sétimo dia levou alguns
exegetas antigos a sustentarem um conceito da história dividida em
6000 anos, durante os quais DEUS levaria as coisas à perfeição, seguindose
1000 anos de descanso (assim Ep. de Bamabé 15.4SS.).40
A segunda citação, introduzida pela fóimula: E novamente, no mesmo
lugar (i.é, SI 95), repete o que já tinha sido citado em 3.11 e ecoado
em 3.18. É obviamente importante para o escritor inculcar esta idéia
em seus ouvintes. Ressalta enfaticamente que é DEUS que em última
análise diz a derradeira palavra — e não os descrentes e os provocadores.
6-7. Embora a dedução tirada destas citações não seja declarada
com clareza lógica, as implicações não deixam de ser bastante claras.
Visto, portanto, liga o v. 6 com os w. 4-5, e deduz-se que alguns haviam
de entrar. A linha de argumento deve ser que, uma vez que os israelitas
nunca entraram (i.é, aqueles aos quais anteriormente foram anunciadas
as boas novas), alguém deve entrar, para a promessa de DEUS não
ficar nula. É estranho que a esta altura o escritor não leva em conta a entrada
em Canaã dos israelitas da segunda geração, embora introduza Josué
mais tarde (v. 8). O contraste ainda é entre Moisés, o representante
principal da antiga aliança, e CRISTO, o inaugurador da nova aliança. Mais
uma vez, o pensamento focaliza-se no fato de que os israelitas não entraram
e de que a causa era a desobediência. Somente poderiam culpar a si
(40) Bruce observa que Bamabé passa a confundir o esquema judaico do sábado
milenar com a idéia cristã de um oitavo milênio (pág. 74, n. 20). Para um expositor
moderno de um ponto de vista semelhante àquele de Bamabé, cf. G. H. Lang:
Comm., pág. 73ss.
107
HEBREUS 4:7-8
mesmos. Mas esta mudança de Moisés para CRISTO envolve outra reinterpretação
do Hoje do Salmo 95, que já foi reinterpretado alguns séculos
depois dos eventos do deserto. O escritor reintroduz este tema de hoje
com outra explicação incomum: de novo determina (horizei) certo
dia. O verbo, que significa “estabelecer os limites de,” é admiravelmente
apropriado para a introdução do sentido estendido que o escritor atribui
à citação. Embora o sujeito da ação mais uma vez é deixado indefinido,
claramente há referência ao próprio DEUS.
Falando por Davi é literalmente “em (enj Davi,” i.é, na pessoa de
Davi. Ressalte-se, assim vividamente, a combinação do divino e do humano
na produção das Escrituras. Embora se diga que a citação é das palavras
de Davi, mesmo assim, é o ESPÍRITO de DEUS que fala através delas. Além
disto, embora o endurecimento ocorresse no deserto, Davi o aplica muito
tempo depois, que demonstra a firma convicção do escritor de que as palavras
de DEUS têm validez contínua. É por isso que se preocupa em achar
alguma relevância contemporânea para elas. A repetição da primeira parte
da passagem de Salmo 95 citada no capítulo 3 acrescenta solenidade à
advertência contida nas palavras, como se fosse um sino constantemente
dobrando: “Hoje, não endureçais; hoje, não endureçais.” Conforme diz
Bruce: “Por meio da repetição nosso autor esforça-se para inculcar nos seus
leitores o fato de que a advertência divina é tão aplicável a eles quanto era
nos dias de Moisés ou de Davi.”41
8-9. Parece provável que a esta altura o escritor considera uma possível
objeção, a qual ele mais pressupõe do que declara. Alguém objetaria
que embora Moisés não pudesse levar o povo de Israel para Canaã por
causa da sua descrença, Josué conseguiu, e os “alguns” do v. 6 devem,
portanto, ser o povo que ele introduziu lá. Nesse caso, naturalmente, Josué
estaria em pé de igualdade com CRISTO, que leva Seu povo para um descanso
espiritual. Mas o escritor não pensa desta maneira. Argumenta, com base
em DEUS falar a respeito de outro dia, que o dia da ação de Josué não poderia
ter sido o cumprimento da promessa. De fato o salmista, ao relembrar
este descanso e aplicá-lo ao seu próprio dia, claramente não estava
pensando no descanso que Josué obteve. Afinal das contàs, aquilo que Josué
fez tinha importância meramente transitória comparado com o descanso
imutável de DEUS depois da criação. Na verdade, a idéia que DEUS faz do
“descanso” é totalmente diferente da idéia do homem, e o escritor aqui usa
as palavras do Salmista para voltar as mentes dos seus leitores em direção
(41) Bruce: Comm., pág. 16.
108
HEBREUS 4:9-10
a uma idéia espiritual, do tipo que verdadeiramente pode ser chamado o
descanso de DEUS.
O v. 9 introduz a conclusão com a palavra: Portanto (ara), que sugere
que é indisputável. A descrição do descanso como um “repouso de sábado”
é importante, porque introduz uma palavra (sabbatismos) que não ocorre
em nenhum outro lugar. Pode ter sido cunhada por este escritor (assim
MM), porque diferencia eficazmente entre o tipo espiritual de descanso
e o descanso em Canaã (o Salmo tem a palavra katapausis).42 Aqueles que
são elegíveis para este repouso de sábado (ARA simplesmente repouso) são
chamados o povo de DEUS, que os distingue dos israelitas descrentes. Este
é, na realidade, um termo abrangente, apropriado para a comunidade universal,
que inclui tanto os judeus quanto os gentios (cf. um uso semelhante
em 1 Pe 2.10). Este aspecto possessivo de DEUS é notável. Deleita-Se
em chamar os crentes de Seu povo. Uma nova comunidade, dedicada a
ouvir a voz de DEUS e a obedecê-la, tomou o lugar do antigo Israel que fracassou
no tempo da provação.
10. Este versículo dá uma explicação do descanso do sábado. É o
descanso de DEUS e, portanto, não tem um padrão inferior. O povo de
DEUS compartilha do Seu descanso. O que Ele faz, Seu povo faz. Ao
identificar-se com Ele, entra nas Suas experiências. Não há dúvida alguma
de que o escritor está subentendendo que o repouso sabático que o crente
já tem é tanto uma realidade quanto o descanso de DEUS. Não é uma
esperança remota, e sim, uma esperança que pode ser imediatamente realizada.
Apesar disto, o escrito ainda teme que alguns dos seus leitores
deixarão de alcançar o repouso prometido, daí a exortação no v. 11.
A glorificação do descanso (katapausis) não subentende que o trabalho
é, portanto, um infortúnio. O “descanso” aqui não deve ser considerado
como sinônimo de inatividade. Pelo contrário, esta passagem inteira sugere
que depois da criação, DEUS começou Seu descanso, que presumivelmente
ainda continua. Não há sugestão alguma de que DEUS Se retirou de
quaquer interesse adicional pela ordem criada (conforme sustentavam
os deístas). Héring comenta: “katapausis não deve invocar meramente a
noção de repouso, como também as de paz, alegria e concíodia.”43
(42) Há fraco apoio para o apelo de Kasemann ao uso gnóstico de sabbatismos
como uma emanação, posto que a única indicação provável disto é nas homílias pseudo-
clementinas. Cf. a discussão deste conceito por Hofius (op. cit., págs. 102ss.).
(43) Cf. J. Héring: Comm., pág. 32.
109
HEBREUS 4:11-12
(ii) A urgência em buscar o descanso (4.11-13)
11. Aqui há outra das muitas exortações com as quais esta Epístola
está salpicada. Esforcemo-nos, pois, por entrar é expressado numa forma
que sugere que algum esforço considerável é necessário. Não pode
ser considerado ponto pacífico. O verbo (spoudazò, “esforçar-se”) envolve
certo grau de pressa, e é em conformidade com isto que o escritor
dá suas advertências. O exemplo do povo de Israel é citado mais uma vez
como motivo principal para a exortação. O escritor claramente pensa que
há grave perigo da história se repetir, embora deva ser notado que não dá
indicação alguma de que seus leitores já tinham sido culpados do mesmo
exemplo de desobediência. O grego (en hypodeigmati) aqui pode ser
entendido de duas maneiras: “caindo no mesmo exemplo” ou “caindo segundo
o mesmo exemplo.” A primeira tradução é mais natural, mas a diferença
de significado é levíssima. Há várias indicações no Novo Testamento
de que os cristãos primitivos discerniam paralelos entre a experiência
dos israelitas antigos e a deles (cf. por exemplo 1 Pedro onde é notável
o tema do Êxodo).
12. Existe, indubitavelmente, um forte elo entre este versículo e o
anterior. A advertência foi baseada nos fatos, na natureza da revelação divina.
Esta era de tal caráter que suas reivindicações não podiam ser desconsideradas
como inconseqüentes. Pelo contrário, as qualidades poderosas
da Palavra são descritas através de uma metáfora impressionante, que enfatiza
não somente a atitividade, como também a eficácia da palavra de
DEUS. Em primeiro lugar, o significado desta frase deve ser estabelecido.
Há duas possibilidades. É usada ou num sentido geral da revelação de DEUS,
ou num sentido particular do próprio JESUS CRISTO na Sua função de Logos,
de conformidade com o uso de João. Estes dois aspectos estão estreitamente
vinculados entre si, mas o contexto imediato sugeriria que é no
sentido mais geral da mensagem de DEUS ao homem que a expressão visa
ser entendida. Um apelo enfático foi feito à revelação de DEUS ao Seu povo,
e a implicação é que ninguém pode entrar no descanso verdadeiro a
não ser aquele em quem a Palavra de DEUS assumiu pleno controle da sua
experiência. Mesmo assim, só é possível no seu sentido mais pleno através
daquela completa revelação de DEUS no Seu Filho que já formou a base da
declaração introdutória nesta Epístola (l.lss.).
As qualidades e as atividades atribuídas à Palavra — viva, eficaz, cortante,
penetrante e discemidora — são apenas parcialmente aplicáveis de
um modo pessoal. Além disto, a linguagem figurada da espada talvez não
dê, de início, a impressão de julgamento, que não é, porém, o aspecto prin110
HEBREUS 4:12
cipal aqui. A idéia da Palavra (logos) divindindo é achada em Filo (Quis
rerum divinarum heres sit, Seções 230-233). A idéia de Filo, no entanto,
difere da idéia nesta Epístola sendo que o logos dele não distingue as coisas
numa base moral, mas, sim, deixa a realização da terefa ao raciocínio
do homem. A personificação da Palavra como mandamento autêntico de
DEUS é achada em Sabedoria 18.15-16, num sentido muito mais próximo
de Hebreus do que de Filo. Aqui, porém, a idéia é mais fundamental. É
nada menos do que a permeaçâo da Palavra em todo aspecto da existência
de um homem.
Que a Palavra é viva demonstra que reflete o caráter verdadeiro do
próprio DEUS, a fonte de toda a vida. Este tipo de vida é cheio de energia
para realizar sua finalidade declarada. Esta qualidade viva é particularmente
apropriada à idéia da Palavra, especialmente quando é aplicada
ao registro da revelação, porque a noção poderia facilmente degenerar num
código morto, conforme indubitavelmente a Lei tinha se tomado para
muitos judeus. Mas uma revelação que é viva tem aplicação constante às
mentes dos endereçados. Quando JESUS declarou que as palavras que Ele
falava eram espírito e vida (Jo 6.63), era esta parte vivificante da Sua revelação
que estava sendo enfatizada. A segunda característica, eficaz
ou “ativa” (energês), serve para sublinhar a mesma idéia. Uma coisa
pode ser viva mas dormente, mas a natureza da vida verdadeira é que
explode em atividade e desafia em todas as frentes aqueles que não ficam
à altura das suas exigências. A Palavra de DEUS, nas suas exigências intelectuais
e morais, persegue os homens e clama por decisões pessoais a serem
feitas em resposta às suas exortações. Sem dúvida, o escritor está pensando
no caráter sempre presente do desafio espiritual que acaba de extrair
da sua leitura do Salmo 95.
A comparação entre a Palavra de DEUS e uma espada é achada também
em Efésios 6.17 e volta a ocorrer em Apocalipse 1.16, onde a idéia
de uma espada de dois gumes é usada para descrever a natureza das palavras
que procedem da boca do Filho de DEUS glorificado. É achada, ademais,
em Isaías 49.2 e Sabedoria 7.22. A referência em Efésios está num
contexto da armadura espiritual, e é especificamente aplicada ao ataque
contra as forças do mal. Aqui, porém, a ênfase recai sobre o caráter penetrante
da Palavra, que é expresso na descrição comparativa: mais cortante.
É a capacidade de penetração da espada de dois gumes que impressionou
o autor mais fortemente. Mas até mesmo isso não está à altura de tudo
quanto a Palavra é na sua atividade.
A seguinte descrição elucida este aspecto penetrante da Palavra.
111
HEBREUS 4:12-13
Penetra até ao ponto de dividir alma e espírito chama atenção especial
à ação divisora da Palavra de DEUS, mas qual é o sentido pretendido aqui?
Embora tenha sido sugerido que a divisão é entre a alma (psychê) e o espírito
(pneuma), parece melhor supor que a penetração é tanto dentro da
alma bem como do espírito, i.é, sua ação ressalta a verdadeira natureza
dos dois.44 Neste caso, a Palavra seria vista penetrando na pessoa como um
todo, tanto alma quanto espírito. Se a primeira interpretação for adotada,
significará que a penetração era tão eficiente que chegava à linha divisória,
notoriamente obscura, entre a alma e o espírito. Tanto a palavra para “penetrar”
(diikneomai) quanto a para “dividir” (merismos) são peculiares
a este escritor, no Novo Testamento. Esta última palavra ocorre também
em 2.4, onde diz respeito à distribuição de dons espirituais, mas claramente
o significado aqui é diferente. O uso neotestamentário de pneuma focaliza
o aspecto espiritual do homem, i.é, sua vida em relação a DEUS, ao
passo que psychê refere-se à vida do homem independentemente da sua experiência
espiritual, i.é, sua vida em relação a si mesmo, às suas emoções
e ao seu pensamento. Há uma forte antítese entre os dois na teologia de
Paulo.
Quando a atividade divisora é estendida a juntas e medulas e pensamentos
e propósitos, fica claro mais uma vez que a idéia de eficiência está
em mente. O tema de que a Palavra de DEUS nos afeta até ao ponto de
discriminar nossas intenções é um desafio para nós. Nada, nem mesmo
nossos pensamentos mais íntimos, está abrigado do discernimento da
mensagem de DEUS. Afeta, de um modo muito compreensivo, o homem
inteiro, conforme claramente ressalta o versículo seguinte.
13. O que acaba de ser dito agora é apoiado por uma declaração
acerca do relacionamento entre a criação e o Criador, embora o próprio
DEUS não seja mencionado pelo nome. Não há dúvida alguma de que a
descrição expressiva: aquele a quem temos de prestar contas, é uma referência
a DEUS. Um modo literal de entender as palavras seria: “a quem
nos é a conta,” bem interpretado por ARA supra. Isto nos faz lembrar
da derradeira prestação de contas, à luz da qual o versículo inteiro deve
ser entendido.
É uma advertência salutar que nada e ninguém pode ser ocultado das
vistas de DEUS. Declara-se que cada criatura está manifesta (gymna, literal(
44) C. Spicq: Comm. 1,'págs. 52ss., vê aqui uma distinção filônica entre a alma
e o espírito, em que este é superior àquela, sendo que somente o espírito pode
compreender o ensinamento divino.
112
HEBREUS 4:13-14
mente “nua”), que ressalta o completo desvendamento diante de DEUS.
Além disto, diz-se que é descoberta (tetrachèlismena), um termo pitoresco,
que ocorre somente aqui no Novo Testamento e não ocorre na Septuagjnta.
Significa “curvar o pescoço para trás” (como na luta livre); mas seu
sentido secundário é “desnudar,” ou ao ser vencido, ou forçado a cair
prostrado, ou, como aqui, na aplicação metafórica de “desnudar.” É como
se DEUS garantisse que ninguém poderia esconder seu rosto dos seus olhos,
sua cabeça empurrada para trás para estar à plena vista de DEUS. Este pensamento
solene prepara o caminho para a segunda parte principal da Epistola
em que o propósito e eficácia da obra sumo-sacerdotal de CRISTO são
expostos. O fato de que nada pode ser oculto toma tanto mais urgente
a necessidade de um representante eficaz que possa agir em prol dos homens.
E. UM SUMO SACERDOTE SUPERIOR (4.14-9.14)
A Lei de Moisés reconhecera e providenciara um sumo sacerdote
que pudesse mediar entre DEUS e o homem. Mas o sacerdócio de Arão tinha
várias fraquezas, e o escritor demonstra que o sumo-sacerdócio de CRISTO
é de um tipo superior. Num interlúdio desafiador, o escritor adverte os
leitores acerca das conseqüências de se desviarem da fé cristã. A questão
de qual é a ordem sacerdotal à qual CRISTO pertence leva o escritor a discutir
a ordem superior de Melquisedeque. Estreitamente vinculado com este
tema está o da Nova Aliança, cuja superioridade à antiga é demonstrada.
(i) Nosso grande Sumo Sacerdote (4.14-16)
14. Embora tenha sido declarado certo número de vezes (cf. 1.3;
2.17; 3.1) que o tema do sumo sacerdote ocupava um lugar de destaque
na mente do escritor, somente agora é que começa a plena explicação dele.
É provável que a conjunção pois (oun), que começa este versículo faça
uma ligação direta com 2.17-18, sendo que a seção interveniente é um tipo
de interlúdio que, mesmo assim, marca o tom ao chamar a atenção
dos leitores à importância do tema.
Três declarações são feitas acerca de nosso Sumo Sacerdote. Em primeiro
lugar, Ele é grande, o que O destaca como sendo superior a outros
sacerdotes inferiores. O escritor pensa primariamente na Sua superioridade
à ordem arônica do sacerdócio, questão que é tratada na passagem subseqüente.
Esta grandeza estende-se não somente ao Seu caráter como também
à Sua obra.
113
HEBREUS 4:14
A segunda característica é que penetrou os céus. Uma vez que o plural
“céus” é usado, alguns sugerem que a idéia judaica de uma série ascendente
de céus aqui está em mente. Paulo em 2 Coríntios 12.2 fala de ser
arrebatado para “o terceiro céu.” Clemente de Alexandria refere-se a sete
céus. Mas posto que era a prática regular no Antigo Testamento usar o plural
para o céu, é improvável que a idéia judaica de céus sucessivos esteja
em mira. É mais provável que a idéia seja geral e que vise contratar-se com
a entrada limitada do sumo sacerdote arônico dentro do véu. Nosso Sumo
Sacerdote penetra até à própria presença de DEUS. As palavras sugerem que
nenhum impedimento atrapalha Sua passagem. Podemos comparar a declaração
aqui com aquela em 10.19 que declara que, tendo em vista a obra
do nosso Sumo Sacerdote, agora temos confiança para entrar no “SANTO
dos Santos.” Temos participação no acesso do nosso Sumo Sacerdote.
A terceira declaração acerca dEle dá Seu nome: JESUS, o Filho de
DEUS. O primeiro dos dois nomes já apareceu em 2.9 e 3.1, onde O identifica
na Sua natureza humana para demonstrar Sua elegibilidade para o cargo
de sumo sacerdote. O nome é usado outra vez em conexão com o tema
sumo-sacerdotal em 6.20; 7.22; 10.19; 12.24; 13.12. Na verdade, o nome
de JESUS, sem quaisquer outros títulos, ocorre tão freqüentemente nesta
Epístola quanto o título independente “CRISTO” (9 vezes cada). O escritor
não dá a impressão de usar indiscriminadamente os diferentes nomes. É
altamente importante para ele estabelecer sem questão de dúvida que nosso
Sumo Sacerdote não é nenhum outro senão o JESUS histórico. Ao mesmo
tempo, reitera o que já deixou claro: que este JESUS também é o Filho
de DEUS. Embora a Filiação de JESUS seja tomada por certa na parte
anterior da Epístola, o título Filho de DEUS não é usado até esta altura
da discussão, e sem dúvida, é intencionalmente introduzido aqui para combinar
a humanidade e a divindade de JESUS como sendo as qualificações perfeitas
para um Sumo Sacerdote que teria de ser superior a todos os demais.
É usado outra vez em 6.6, 7.3 e 10.29; na primeira e na última
destas referências, Filho de DEUS descrever Aquele que é tratado com ignomínia
pelos que apostatam.
Depois da apresentação de tão grande Sumo Sacerdote, não é surpreendente
que uma exortação seja imediatamente acrescentada: conservemos
firmes a nossa confissão. O verbo aqui usado (kratõmen) significa
“apegar-se- a”, como se exigisse alguma resolução da nossa parte. A idéia,
mas com um verbo levemente diferente (katechõmen), volta a ocorrer em
10.23 em relação ao mesmo objeto: confissão. Esta última palavra já foi
encontrada em 3.1, e pode ser considerada uma idéia-chave nesta Epís114
HEBREUS 4:14-15
tola, visto haver uma ligação direta entre a presente passagem e 10.19-23.
Sem dúvida, 4.14-16 pode ser considerado o prólogo ao tema sumo-sacerdotal,
e 10.19-23 o epílogo. Nas duas passagens ocorrem as idéias
de conservar firme a confissão, de achegar-nos a DEUS através de um grande
Sumo Sacerdote, e de uma confiança (parrèsia) para fazê-lo. Os paralelos
são por demais marcantes para serem acidentais. Refletem o propósito
do autor na estrutura da sua Epístola. Seu interesse em expor seu
tema sumo-sacerdotal não é teórico, mas, sim, prático, i.é, exortar seus
leitores a se achegarem a DEUS.
15. Embora a capacidade do nosso Sumo Sacerdote de simpatizar-
Se com os que são tentados já tenha sido ressaltada (2.18), a mesma
idéia é agora expressa de um modo negativo: Não temos sumo sacerdote
que não possa compadecer-se. Por que o escritor muda da forma positiva
para a negativa? Parece mais provável que tenha consciência de uma objeção,
talvez que, dalguma maneira, JESUS CRISTO esteve demasiadamente
distante da necessidade do homem. Se for assim, apressa-se para dissipar
este temor. A declaração é dada aqui como a razão para o conservar-se
firme, conforme demonstra a conjunção porque (gar). Nossa confiança
está diretamente relacionada com a capacidade do nosso Sumo Sacerdote.
Somente nesta Epístola (aqui e em 10.34) é que o verbo simpatizar (sympatheò,
literalmente “sofrer juntamente com”) é usado no Novo Testamento.
Aqui, diz respeito à simpatia de CRISTO por Seu povo, e em 1034 à
compaixão do cristão pelos encarcerados. A capacidade do cristão para a
simpatia é baseada na capacidade de CRISTO simpatizar-se. No presente caso,
o objeto da simpatia é nossas fraquezas. Esta idéia de fraqueza (astheneia),
que subentende uma consciência de necessidade, ocorre noutros lugares
da Epístola com referência à fraqueza da ordem do sacerdócio de
Arão (5.2; 7.28), e fica em notável contraste com a ausência de tal fraqueza
da parte do.nosso grande Sumo Sacerdote. É porque Ele não tem
essa fraqueza ministerial, que Ele pode simpatizar-se com os homens em
suas fraquezas. A palavra fraquezas é suficientemente abrangente para incluir
qualquer forma de necessidade. Há simpatia para os necessitados,
mas não para os auto-suficientes.
Caso alguém pense que mesmo que o nosso Sumo Sacerdote possa
simpatizar-se conosco, não pode conhecer as tentações que assaltam os
outros homens, as tentações de JESUS agora são especificamente referidas.
Ele foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança. Este é um desenvolvimento
mais específico da declaração em 2.18, onde o fato da tentação
de JESUS é citado como garantia de que Ele pode ajudar aos outros
115
HEBREUS 4:15
nas suas tentações. Há duas asseverações adicionais aqui que levantam um
problema penetrante: que Suas tentações são como as nossas (à nossa semelhança)
I, e que se estendem a todos os aspectos (em todas as coisas). A
primeira declaração pode ser entendida no sentido de que Sua natureza é
como nossa, e não Suas tentações, mas isto evitaria as implicações da segunda
declaração. Em todas as coisas (kata panta) coloca JESUS na mesma
categoria que nós mesmos quando se trata da tentação. Isto transmite um
aspecto que é tremendamente encorajador. Podemos conseguir grande
consolo do fato de que Sua experiência se equipara à nossa.
O problema, no entanto, surge da cláusula de exceção: mas sem pecado.
Uma vez que nós somos tentados e pecamos, e Ele é tentado e não
peca, como Suas tentações podem ser iguais às nossas? Se Ele não tem a mesma
tendência ao pecado que nós temos, não está, por este mesmo fato,
numa posição privilegiada que imediatamente distingüe Sua tentação da
nossa? Para uma solução a esta dificuldade, devemos notar que a tentação,
em si mesma, não é pecaminosa. A idéia diz respeito mais ao ser exposto
à prova ou à sedução. Isto é claramente possível, e não exige que a pessoa
tentada peque. Embora certamente haja um sentido em que o fato de JESUS
ter sido exposto à tentação foi diferente das tentações dos homens,
porque Ele estava livre da tendência ao pecado, mesmo assim, num outro
sentido, Sua própria provação foi, em todos os aspectos, semelhante
à nossa. A experiência de JESUS não foi confinada às três tentações no
deserto, afetou a totalidade da Sua missão. Basta saber que Ele passou
por tensões e pressões que nenhum outro homem já conheceu. O maior
neste caso inclui o menor. O que são as minhas tentações, mesmo enfrentando
uma tendência que uma Pessoa perfeita e divina não experimentou,
comparadas com o que Ele suportou? Sua impecabilidade é demonstrada
para Seu povo, não tanto como exemplo quanto como inspiração.45
Nosso Sumo Sacerdote é altamente experiente nas provações da vida
humana.
Com esta declaração importante e específica acerca da impecabilidade
de CRISTO, podemos comparar o comentário de Paulo em 2 Coríntios
5.21. É um aspecto integral do ensino do Novo Testamento e especialmente
importante para o tema sumo-sacerdotal deste escritor (cf. as declarações
adicionais em 7.26ss.), que JESUS, embora fosse um homem, nunca pecou.
(45) Westcott: Comm., pág. 107, comenta que CRISTO participou das nossas
tentações, mas com a exceção de que “não havia nEle pecado algum para tomar-se
uma fonte de provações,”
116
HEBREUS 4:16-5:1
16. Surge uma outra exortação que, conforme já foi notado supra,
volta a ocorrer em 10.22-23. Foi a possibilidade de nos achegarmos a DEUS
que captou a imaginação do escritor. Há, aqui, certo número de aspectos
que vale a pena notar. Em primeiro lugar, a abordagem a DEUS pelò cristão
deve ser caracterizada pela confiança ou ousadia (parrèsia), por uma liberdade
de expressão e ausência do medo. Este é um dos aspectos mais
marcantes do caminho cristão para DEUS, que nem sequer é embaraçado
pelo senso humano do temor na presença de DEUS. É perfeitamente refletido
na Oração Dominical, onde o uso de um trato como “Pai Nosso”
revela uma ousadia maravilhosa. O segundo aspecto é a expressão trono
da graça. O trono representa a realeza, e certamente poderia inspirar temor
se sua característica principal não fosse a graça, i.é, o lugar onde o
favor gratuito de DEUS é distribuído. Em 8.1 e 12.2 JESUS CRISTO é visto
assentado à destra do trono. Um terceiro aspecto é a combinação da
misericórdia e da graça como favores especiais dispensados a partir do
trono. Nosso Sumo Sacerdote já foi descrito como sendo misericordioso
(cf. 2.17). Este é um tema de destaque no Novo Testamento e é característica
especial das Espístolas paulinas. A quarta consideração é a ajuda
que está disponível em ocasião oportuna. O fornecimento da graça é irrestrito,
sendo que a única condição prévia é a disposição para recebê-la,
um senso da sua indispensabilidade.
(ii) A comparação com Arão (5.1-10)
1. Os quatro primeiros versículos do capítulo 5 são históricos e dizem
respeito à ordem de Arão. Se a Epístola é dirigida a cristãos judeus,
as declarações vêm como lembrança para servir de pano de fundo para a
introdução de uma ordem superior. Tendo já declarado que JESUS CRISTO
é um grande Sumo Sacerdote, alguma comparação com a ordem arônica é
inevitável e pode, na realidade, ter dois alvos. Pode demonstrar que JESUS
preenche todas as condições do sumo-sacerdócio e pode demonstrar, ainda
mais, quão superior Ele é à linhagem de Arão. Se este último alvo não
tivesse sido incluído, o significado verdadeiro da ordem de Melquisedeque
teria ficado desapercebido.
A discussão começa com uma declaração bem geral acerca do ofício
sumo-sacerdotal. Esta declaração, ademais, segundo se percebe, tem alguma
conexão com a seção introdutória no fim do capítulo 4, conforme demonstra
a conjunção inicial Porque (gar). Certamente, a capacidade de
nosso Sumo Sacerdote de socorrer depende até que ponto Ele cumpre as
117
HEBREUS 5:1-2
condições. Há várias características específicas mencionadas, (i) O sumo
sacerdote é essencialmente um representante do homem; é tomado dentre
os homens. É porque é identificado por natureza com os homens que pode
agir e pleitear em prol deles. Isto era fundamental ao sacerdócio arônico.
Não havia questão da tarefa ser entregue a um ser sobre-humano. Necessitava
de um homem que pudesse compreender os homens e sentir por eles.
(ii) É constituído (kathistatai). Como o verbo é passivo, e' subentendido
que a nomeação do sumo sacerdote é feita por DEUS. A ordem arônica não
fez disposições para a eleição democrática, mas, somente para nomeações
teocráticas autoritárias, (iii) Sua nomeação e' nas coisas concernentes a
DEUS (ta pros ton Theon). Sua obra de Mediador, para agir em prol de
DEUS para com os homens e em prol dos homens para com DEUS, é vista
claramente aqui. Esta é uma função essencial do sacerdócio, (iv) Seu propósito
é oferecer assim dons como sacrifícios pelos pecados. Esta cláusula
(uma cláusula com hina) ressalta o resultado dEle estar tão estreitamente
identificado tanto com DEUS quanto com os homens. As duas palavras
até mesmo são ocasionalmente usadas intercambiavelmente, mas aqui há
distinção entre elas. Neste caso os dons (dòra) devem referir-se às ofertas
de cereais e os sacrifícios (thysias) às ofertas de sangue. O sumo sacerdote
arônico, na realidade, estava se aproximando de DEUS por causa dos pecados
dos homens. Aqui a declaração “pelos pecados” é significante, porque
não é restrita aos sacrifícios, como também diz respeito aos dons. É melhor,
portanto, entender que esta expressão refere-se à gama total da obra
do sumo sacerdote. Seu desempenho inteiro como representante do seu
povo tem valor expiatório, i.é, tem a ver com os pecados das pessoas que
representa.
2. Depois destas funções gerais do ofício, o aspecto mais pessoal é
enfocado: a capacidade do sumo sacerdote de condoer-se (ou “tratar mansamente”
metriopathein) dos ignorantes e dos que erram.*6 Embora
não seja dito nada no Antigo Testamento acerca das qualidades morais, o
escritor deduziu esta qualidade de mansa compreensão do fato básico de
que o sumo sacerdote é essencialmente um homem entre homens. E muito
fácil ver-se livre dos ignorantes e dos que erram, ou pelo menos não
lhes dar a mínima consideração. São um estorvo em qualquer sociedade
bem-organizada. Mas numa sociedade teocrática não podem ser deixados
(46) Vale a pena notai que a qualidade da mansa modetação mencionada aqui
não teria sido estimada nos círculos estóicos, onde era considerada inferior à ausência
da paixão. Cf. Williamson: Philo and the Epistle to the Hebrews, págs. 26-27.
118
HEBREUS 5:2-3
fora de consideração. Deve ser dada atenção a eles. O sumo sacerdote não
era apenas o representante das melhores seções da sociedade, era também
das piores. As duas descrições — ignorantes (agnoousi) e os que erram (planòmenois)
talvez indiquem a origem e a característica do tipo de pecado
com o qual o sumo sacerdote pode lidar. Os pecados da ignorância eram
cuidadosamente distinguidos dos pecados deliberados, para os quais a
lei não fazia provisão. Os que erram são aqueles que se desviaram do caminho
de DEUS, mas querem voltar. Não são os rebeldes endurecidos. O sumo
sacerdote tinha um ministério especial de mansidão para com aqueles que
tinham consciência da sua necessidade. É com estes que podia identificarse
nas suas fraquezas. Neste aspecto, porém, a linhagem de Arão difere
de nosso Sumo Sacerdote que tem ainda mais capacidade de tratar com
mansidão o Seu povo, por causa da Sua força e não por causa da Sua fraqueza.
Nunca foi ignorante, nem errou, mas tem perfeita compreensão
daqueles que são assim. Mesmo assim, as palavras traduzidas rodeado de
fraquezas podem ser entendidas no sentido de “embrulhado em fraqueza.”
Neste caso, pode-se pensar no sumo sacerdote como estando vestido das
fraquezas do seu povo; se este for o significado, há um paralelo mais estreito
com nosso grande Sumo Sacerdote. Todavia, o primeiro sentido, que
contrasta a fraqueza de Arão com a força de CRISTO, é mais provável.
3. Há uma divergência ainda mais evidente neste versículo entre JESUS
CRISTO e a ordem de Arão. O sumo sacerdote arônico, sendo ele mesmo
um homem pecaminoso, deve oferecer sacrifícios pelos pecados... como de
si mesmo. Uma parte importante dos procedimentos do Dia da Expiação
era que o sumo sacerdote devia primeiramente, oferecer um sacrifício como
expiação pelos seus próprios pecados (cf. Lv 16.1 lss.). Na mente do
escritor parece haver uma estreita conexão entre a fraqueza e o pecado,
embora não decorram necessariamente um do outro. No caso dos homens,
no entanto, i.é, todo homem menos o Homem perfeito, a fraqueza tem como
resultado o pecado. O exemplo perfeito de uma forma impecável de
fraqueza física é a cruz. Mas a ordem arônica não fazia provisão para esse
tipo de fraqueza nos seus sacerdotes, a não ser talvez idealmente, no seu
sistema sacrificial. Mas, conforme esta Epístola passará a demonstrar, ao
passo que Arão tinha de oferecer um animal, CRISTO ofereceu a Si mesmo.
Há claramente um fator comum entre os pecados do sumo sacerdote e
os do povo. Estava na mesma condição necessitada que eles. Mais uma vez,
porém, nosso Sumo Sacerdote destaca-Se em marcante contraste. Estando
sem pecado, não tinha necessidade de oferecer sacrifícios em prol de Si
mesmo, e isto O coloca numa categoria diferente.
119
HEBREUS 5:4-6
4. Um fator importantíssimo no ofício do sumo sacerdote é sua origem.
Era uma nomeação divina e não uma auto-nomeação ou uma nomeação
humana: Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo. 0 caso de
Arão agora é mencionado especificamente, porque foi chamado por DEUS.
A chamada divina é um fator importante no Novo Testamento como era
no Antigo Testamento, porque chama a atenção à iniciativa divina. Quando
a comparação é feita com nosso grande Sumo Sacerdote, fica evidente
que Ele também foi nomeado para Seu ofício. Somos lembrados de que
Ele reconhecia que DEUS Lhe deu a obra que viera realizar (cf. Jo 17.4).
5. Os seis versículos seguintes explicam o relacionamento entre
CRISTO e a ordem de Arão, introduzem a ordem de Melquisedeque, que
depois é desenvolvida adicionalmente após o interlúdio de 5.11-6.20.
O escritor explora primeiramente a nomeação divina de CRISTO, característica
esta que está em linha direta com a posição de Arão. É digno de
nota que o título CRISTO é usado aqui ao invés de JESUS (que é preferido
em 4.14). Isto sugere que o escritor está profundamente impressionado pelo
pensamento de que o ungido, o Messias, no Seu ofício não se glorificou
como bem poderia ter feito. O quadro neotestamentário do Messias,
no entanto, sempre revela alguém cuja missão é servir, nunca alguém que
procurou conquistar posições de honra. Em João 8.54, JESUS sustenta que
não honra a Si mesmo, mas, sim, que é honrado pelo Pai. O fato de que
foi nomeado é apoiado pelo Salmo 2, de uma passagem que já foi citada
em Hebreus 1.5. Este tema, que volta a ocorrer, e que aqui está ligado com
outra citação do Salmo 110, sugere que houve meditação sobre estes Salmos,
e que formavam uma parte vital da estrutura da Epístola. São como
linhas melódicas que se repetem numa música, sendo que cada nova introdução
delas apresenta alguma variação. O escritor quer que a idéia do sumo-
sacerdote seja estreitamente vinculada com seu conceito sublime de
CRISTO como Filho de DEUS. A nomeação por DEUS é uma indicação que
nosso Sumo Sacerdote é totalmente aceitável por DEUS. Se Ele tivesse
sido nomeado pelos homens, sempre teria havido dúvida.47
6. A segunda citação, do Salmo 110.4, é introduzida por uma fórmula
muito geral: Como em outro lugar também diz, presumivelmente para
distingui-la da primeira citação. Mesmo assim, é citada como autoritativa,
porque “diz” claramente se refere a DEUS. A nomeação divina ao ofício
de sacerdote é apoiada por esta citação, mas dois fatores inteiramente
(47) Conforme diz Montefiore: Comm., pág. 96: “Somente um Sumo Sacerdote
que é Filho de DEUS pode ter Seu lugar legítimo à destra de DEUS.”
120
HEBREUS 5:6-7
novos também são introduzidos, e demonstram que o sacerdócio de CRISTO
é diferente do de Arão. Em primeiro lugar, é para sempre, porque nunca
poderá ficar melhor do que já é. Sendo perfeito, nunca chega ao ponto de
ceder lugar a um melhor. Em segundo lugar, é segundo a ordem de Melquisedeque,
porque, conforme será exposto mais tarde, não tem sucessão
como tinha a ordem de Arão. Aconteceu de uma vez por todas, porém
é constantemente aplicável. Neste sentido é para todos os tempos.
Melquisedeque, diferentemente de Arão, é uma pessoa misteriosa. A
menção fugaz dele em Gênesis 14.18-20 mostra que era uma personagem
histórica cujo sacerdócio foi aceito por Abraão. É digno de nota que o autor
da Epístola não tira lição alguma do fato de que o relato de Gênesis
diz que Melquisedeque trouxe pão e vinho. Poderia ter atribuído importância
simbólica a isto, já que o pão e o vinho são de tão alta significância
com referência à Ceia do Senhor. Mas, ao invés disto, concentra-se no
fato histórico de que Abraão ofereceu dízimos a Melquisedeque (veja
cap~7). Poderia, ainda mais, ter citado e comentado o juramento divino
nos capítulos 3 e 4. Não obstante, reserva tal comentário para 6.13, quando,
então, faz exposição do significado do juramento. O método do autor
de introduzir a figura estranha de Melquisideque é tão misterioso quanto
a figura do próprio sacerdote. Há nele uma certa aura que é apropriada,
tendo em vista o Sumo Sacerdote exaltado que Melquisedeque tipifica.
7. Nesta Epístola há muitas surpresas na introdução de temas diferentes
que, à primeira vista, não parecem acompanhar naturalmente o
contexto. A seção seguinte (w. 7-10) é um exemplo disto. O escritor introduz
o que pode ser chamado de uma reminiscência histórica da vida de
JESUS. Podemos perguntar a nós mesmos o que isto tem a ver com Melquisedeque,
cuja ordem sacerdotal é mencionada outra vez no v. 10. É possível
que a repetição da citação do Salmo 2 tenha lembrado o escritor da
sua seqüência de pensamento onde concentra-se na Filiação divina (capítulo
1) e na humanidade de JESUS (capítulo 2). Parece que quer dissipar
qualquer idéia de que JESUS seja uma figura mística nâo-histórica por meio
de, abruptamente, lembrar aos leitores aquilo que aconteceu nos dias da
sua came. A expressão é interessante porque chama a atenção à realidade
da Sua vida humana. O escritor já deixou clara esta realidade no capítulo
2 (veja w. 14 e 17), mas a presente referência introduz muito mais vividamente
uma clara alusão ao registro histórico da vida de CRISTO. Sem dúvida,
este é um dos exemplos mais vívidos do Novo Testamento, fora dos
Evangelhos. No texto grego, o sujeito não é definido, mas deve referir-se
a JESUS, que é o sujeito desta seção inteira (cf. v. 5).
121
HEBREUS 5:7
A declaração principal acerca da vida humana de JESUS diz respeito
às Suas poderosas orações. As duas palavras usadas para isto; orações e
súplicas, são estreitamente ligadas entre si, mas não deixa de haver distinção
entre elas. A primeira (deèsis) é a palavra neotestamentária geral para
as orações, mas a última (hiketêria) tem um elemento mais forte de súplica
e é derivada da antiga prática de estender um ramo de oliveira como sinal
de apelo. Estas são palavras notáveis para descrever a oração do Filho
ao Pai, mas demonstram o quão completamente identificado Ele está com
Seu povo. O forte clamor e lágrimas parecem ser uma alusão inegável à
agonia de JESUS no jardim de Getsêmane, onde Suas orações foram acompanhadas
por um suor de sangue, revelando a intensidade interior da luta
pela qual passava. Os relatos nos Evangelhos não mencionam as lágrimas,
mas estas não estariam fora de harmonia naqueles relatos. Aquele que
podia chorar ao lado do túmulo de Lázaro não estaria longe de poder expressar-
Se de modo semelhante noutras ocasiões de profunda emoção. Embora
as lágrimas geralmente sejam consideradas um sinal de fraqueza, não
deixam de ter propriedades curativas. Nosso Sumo Sacerdote não estava
tão alto acima de nós que as lágrimas estivessem distantes dEle nas ocasiões
em que Sua mente estava cruelmente aflita.
Ao aludir-se à Pessoa a quem estas orações intensas eram endereçadas,
o escritor deliberadamente usou uma frase descritiva para chamar a
atenção à capacidade de DEUS para salvar: quem o podia livrar da morte.
Esta ide'ia de DEUS como libertador é tão característica no Novo Testamento
que não é fácil apreciar seu pleno significado. Esta Epístola já
chamou a atenção à constante escravidão do homem ao pavor da morte
(2.15). A mensagem de que a vitória é através de CRISTO tem trazido,
no passado, um desafio e nova esperança a muitas pessoas. Não é de se
admirar que o escritor volte a ela quando pensa nas orações de JESUS.
Quando diz, porém, que Ele, JESUS... tendo sido ouvido por causa
da sua piedade... não fica imediatamente claro como as palavras devem
ser compreendidas. Muitos comentaristas consideram que a forma das
palavras significa que Sua piedade — Sua Paixão — foi transformada em
meio para lançar fora todo o medo. As palavras, no entanto, pareceriam
ser uma alusão mais direta à agonia no jardim, onde o clímax era a aceitação
da vontade divina por JESUS (“contudo, não se faça a minha vontade,
e, sim, a tua”), e neste caso a palavra (apo) significaria por causa da (sua
piedade). Outro meio de entender a mesma preposição seria o significado
mais usual “fora de,” o que daria o significado: “liberto do seu temor
piedoso,” mas este pensamento parece estranho ao contexto. O escritor
122
HEBREUS 5:7-9
toma cuidado com a palavra que emprega para expressar temor (eulabeia
- piedade, ARA) e não usa a palavra mais comum (phobos). De fato, é
só nesta Epístola, em todo o Novo Testamento, que ocorre esta palavra
(cf. também 12.28 onde o significado é “reverência”). Sobre seu uso aqui,
Westcott observa: “mais comumente expressa a reverente e bem-pensada
hesitação de ser demasiadamente atrevido, que é compatível com a verdadeira
coragem.”48 A idéia, portanto, é aplicável à experiência do Getsêmane.
Tem sido imaginado que um problema surge pelo fato de os relatos
nos Sinóticos declararem que a oração no Getsêmane, pedindo a remoção
do cálice, não foi feita assunto de insistência até ao fim. Em que sentido,
portanto, JESUS foi ouvido? A resposta acha-se, decerto, na Sua perfeita
aceitação da vontade divina.
8. Esta reminiscência da experiência terrestre de JESUS, que é uma
contribuição essencial à Sua qualificação como grande Sumo Sacerdote,
leva o escritor a refletir sobre o paradoxo dos seus sofrimentos. Não seria
inteiramente ininteligível dizer que os filhos usualmente aprendem a obediência
por aquilo que sofrem, i.é, às mãos dos pais terrestres,49 mas com
CRISTO é muito diferente. Sua Filiação era perfeita e, portanto, levanta
a pergunta do porque Ele precisava aprender a obediência. Aqui somos
confrontados com o mistério da natureza de CRISTO. Ao considerar o Filho
divino, talvez seja difícil ligar qualquer sentido ao processo de aprendizagem
(aprendeu a obediência), mas ao pensar no Filho como o Homem
perfeito, fica sendo imediatamente inteligível. Quando Lucas diz que JESUS
crescia em sabedoria (2.52), quer dizer que por um processo progressivo
demonstrou pela Sua obediência à vontade do Pai um processo contínuo
de tomar a vontade de DEUS Sua própria, chegando ao seu clímax
na Sua maneira de abordar a morte. A exclamação de aceitação no jardim
de Getsêmane foi a evidência conclusiva da obediência do Filho ao
Pai. Ninguém negará que há profundo mistério aqui, mas o fato desta
aceitação toma a compreensão que nosso Sumo Sacerdote tem de nós
inquestionavelmente mais real. Há certos paralelos aqui com Filipenses
2.6ss. que também ressalta a obediência de CRISTO na forma de um servo.
Nas duas passagens, o Servo Sofredor de Isaías pode estar em mente.
9. Não menos impressionante é a idéia de um processo de aperfeiçoamento
sendo aplicado a CRISTO (como em 2.10). Como no primeiro
(48) Westcott: Comm., pág. 127.
(49) Cf. C. Spicq: Comm. I, págs. 46-47, para exemplos tirados de Filo que
revelam uma estreita conexão entre o ensino e o sofrimento (mathein/pathein).
123
HEBREUS 5:9
caso, há uma estreita vinculação entre a perfeição e o sofrimento. É através
de um caminho de sofrimento que a perfeição é conseguida. No presente
caso, é a obediência que está especialmente ligada com a perfeição,
lembrando-nos da seqüência de Filipenses 2.8-9. Não pode ser dito de
nenhum sumo sacerdote humano: tendo sido aperfeiçoado. Esta expressão
não deve ser entendida no sentido de sugerir que houve tempo em que
Ele não era perfeito. No curso da Sua vida, a perfeição que JESUS possuía
foi submetida ao teste. Essa perfeição permaneceu imaculada através de
tudo quanto ele sofreu. Conforme observa Hughes: “Seus sofrimentos
tanto testaram quanto, vitoriosamente suportados, atestaram Sua perfeição,
livre de fracasso e de derrota.”50 A ênfase recai aqui sobre a perfeição
que é uma realidade sempre presente. Deve também ser notado que
o verbo é freqüentemente usado na Septuaginta acerca da consagração
do Sumo Sacerdote ao seu ofício, idéia esta que tem alguma relevância
para o tema desta Epístola.
A perfeição de CRISTO é vista como a base da nossa salvação. De fato:
tomou-se o Autor da salvação etema. O “tomar-se” (egeneto) refere-se à
efetivação da salvação e, por este motivo, é expressado com um tempo passado.
Historicamente, parece referir-se àquele momento no tempo quando
JESUS assumiu o ofício de Sumo Sacerdote. A palavra traduzida “Autor”
(aitios) ocorre somente aqui no Novo Testamento e significa “causa.” Pode
referir-se a uma causa boa ou ruim, mas aqui é totalmente boa, e “origem”
ou “Autor” traduzem bem este sentido. Não há maneira de fazer um
cuito circuito nos meios da salvação. Aquilo que não vem através de JESUS
não é nenhuma salvação verdadeira. Para nosso escritor, há significância
especial na idéia das coisas eternas. Fala do juízo eterno (6.2), da etema
redenção (9.12), do ESPÍRITO eterno (9.14), da etema herança (9.15),
da etema aliança (13.20). É óbvio que deseja lançar alicerces permanentes,
em contraste com o cenário em constante mudança de qualquer sacerdócio
e método terrestres para abordar a DEUS. Há algo de estável e duradouro
na salvação que JESUS CRISTO fornece. Podemos comparar a ocorrência
freqüente da idéia da vida etema no Evangelho segundo João.
Fica bem claro que há condições estabelecidas para aqueles que desejam
valer-se desta salvação. Estas são resumidas como a obediência, o equivalente
daquilo que o Filho já aprendeu (v. 8). A obediência, nesse sentido,
envolve uma aceitação completa da vontade divina. No que diz respeito
aos cristãos, isto resume a resposta do homem à provisão de um meio
(50) Hughes: Comm., pág. 188.
124
HEBREUS 5:9-11
de salvação que DEUS fez. É digno de nota que os que são elegíveis para
a salvação são todos os que lhe obedecem, que significa todas as classes dos
obedientes, judeus e gentios, ricos e pobres, eruditos e incultos, livres e escravos
(cf. por exemplo a declaração de Paulo em G1 3.28). A universalidade
do evangelho é refletida na eficácia universal do ofício do Sumo Sacerdote.
10. Agora é usada outra palavra que é única no Novo Testamento
para descrever a outorga pública de um nome ou título, que ARA traduz
como nomeado (prosagoreuó — “designar”). A proclamação de uma nova
ordem de sacerdócio é feita por DEUS, fato este que chama a atenção
à nomeação divina, conforme já foi mencionada nos w. 4-5. De qualquer
maneira, a ordem de Melquisedeque não é uma ordem com uma sucessão
hereditária, conforme demonstra o escritor em 7.3, e, portanto, ninguém
poderia ser consagrado nesta ordem a não ser pelo próprio DEUS. É, além
disto, uma ordem sem igual, sendo que ninguém mais pertenceu a ela a
não ser CRISTO. A palavra incomum mencionada supra é especialmente
apropriada para a categoria do nosso Sumo Sacerdote, por ser Ele de uma
ordem totalmente diferente da de Arão.
A esta altura no desenvolvimento do seu argumento, o autor deixa
seu tema de Melquisedeque para tratar dalguns problemas sérios que afetavam
seus leitores. Parece ser uma digressão planejada, que volta paulatinamente
ao tema de Melquisedeque no fim do capítulo 6 através de uma discussão
do juramento a Abraão.
(iii) Um interlúdio desafiador (5.11-6.20)51
11. De modo inesperado, o escritor passa repentinamente a refletir
sobre a capacidade dos seus leitores de captar aquilo que acaba de dizer
e aquilo que pretende expor adiante. Isto revela inconfundivelmente que
está se dirigindo a pessoas genuínas cuja situação lhe é conhecida. Tem
consciência de que são tardios em ouvir, presumivelmente num sentido
espiritual. Talvez pense que sua discussão da ordem de Arão e da sua inferioridade
a Melquisedeque soará por demais acadêmica e teórica e alguns
dos seus leitores. Parece, pelo menos, reconhecer que há dificuldades na
sua exposição por enquanto, e que ainda haverá dificuldades maiores;
sabe, porém, que não devem apresentar obstáculos a homens de mentes
maduras. Apesar disto, tem problemas sérios no tocante aos leitores, e re(
51) Sobre esta seção, cf. H. P. Owen: ‘The ‘Stages of Ascent” in Hebrews
v. ll-vi.3,’JVre 3(1956-57), págs. 243ss.
125
HEBREUS 5:11-12
solve interromper seu discurso principal para emitir uma forte advertência.
Quando diz: A esse respeito temos muitas coisas que dizer, e difíceis de
explicar, refere-se especialmente ao tema de Melquisedeque, que não deve
ter sido um dos temas mais familiares no judaísmo contemporâneo,
embora haja alguma menção dele nos escritos de Filo, e nos documentos
de Cunrã. Pode ser notado aqui que um relacionamento direto e' pressuposto
entre a condição espiritual e o entendimento. Este último não é meramente
uma questão de intelecto. A dificuldade é essencialmente um problema
de comunicação, como expressar verdades de uma maneira que fique
dentro do alcance dos leitores. Indubitavelmente, o problema que o escritor
enfrenta é enfrentado por todo expositor da verdade divina.
12. A crítica acerca deles serem tardios em ouvir daria a impressão
e não ter motivo, e por isso precisa de alguma justificativa. Tendo isto
em mente, é exposta a razão da avaliação. A primeira coisa é a falta
notável dos leitores de cumprirem aquilo que era esperado deles: devíeis
ser mestres. A razão porque se esperava deles que ensinassem é que tinham
sido cristãos por tempo suficiente para terem adquirido os conhecimentos
básicos necessários para poder passá-los a outras pessoas. Surge aqui a
questão da identidade destas pessoas. Parece razoável supor que não pode
ser uma alusão a todos os membros de uma igreja, porque todas as igrejas
contêm aqueles que não são aptos para ensinar. Sugere que está em mente
um grupo de pessoas que tinha o potencial para ensinar os outros, mas
que, mesmo assim, não tinha o entendimento básico necessário. Eles mesmos
precisavam voltar às questões elementares. Formavam provavelmente
um pequeno grupo de intelectuais ao qual faltava percepção espiritual.
Vale observar que o verbo traduzido devíeis (opheilontes) subentende
uma obrigação e não apenas uma característica desejada. A comunicação
de uma compreensão plena da mensagem cristã só pode acontecer se os
cristãos maduros instruírem os cristãos imaturos. É uma situação grave,
portanto, em qualquer comunidade, quando seus mestres em potencial
são ainda cristãos imaturos.
A necessidade destes leitores passa, então, a ser especificada: de alguém
que vos ensine de novo quais são os princípios elementares dos oráculos
de DEUS. Parece claro que estas pessoas não tinham meramente
avançado: chegaram mesmo a perder seu entendimento dos princípios elementares.
Precisavam voltar à estaca zero. A instrução exigida era tão básica
assim. É um comentário trágico sobre sua compreensão espiritual. Não
admire que o escritor acha dificuldade em comunicar sua mensagem. É
de se admirar que não dedicou a totalidade da sua Epístola a uma exposi126
HEBREUS 5:12-13
ção do Evangelho ao invés de laboriosamente comunicar seu tema do Sumo
Sacerdote. A resposta talvez seja que o tema do sumo sacerdote, tão
integral para os modos judaicos de pensar, era uma das causas principais
dos leitores deixarem de se desenvolver. A frase dos oráculos de DEUS (tòn
logiõn tou Theou) é usada noutras partes do Novo Testamento para descrever
o Antigo Testamento (cf. At 7.38; Rm 3.2). Aqui, no entanto, parece
significar o ensino básico do evangelho, porque é usada em conjunção
com “princípios elementares” (stoicheia), palavra comumente usada
para descrever o A.B.C. de uma coisa. Se os “oráculos” forem compreendidos
no mesmo sentido que noutros lugares, a referência pode, possivelmente,
dizer respeito a um fracasso da parte dos leitores de compreenderem
os princípios básicos da interpretação do Antigo Testamento, o que
os estava levando a conceitos errôneos acerca da singularidade do cristianismo.
Precisavam voltar ao pensamento básico acerca disto.
O contraste entre leite e alimento sõlido não visa tomá-los mutuamente
exclusivos, mas, sim, sugerir um desenvolvimento normal de um
para outro. A fase do leite é tão essencial quanto a fase do alimento sólido,
mas aqueles que nunca chegam a esta última etapa estão tristemente deficientes.
A parte física tem um paralelo exato na parte espiritual. Há vários
graus de entendimento, e é altamente desejável que o homem de mentalidade
espiritual avance nos conhecimentos. Este uso metafórico do leite
e do alimento sólido também é empregado em 1 Coríntios 3.1-2.
13. Neste versículo, uma explicação mais detalhada da metáfora do
leite passa a ser dada. O cristão “de leite” é aquele que é inexperiente na
palavra da justiça, expressão esta que merece comentário. Em primeiro
lugar, a palavra “inexperiênte” (apeiros) significa literalmente “não
provado,” e daí, “inexperiente,” e sugere que a falta de perícia estava ligada
com a falta de prática. É uma situação distinta de um estado de completa
ignorância. As coisas de DEUS exigem algo mais do que um mero conhecimento
casual. O escritor não hesita em colocar seus leitores na categoria
do leite. Nunca chegaram a desenvolver as habilidades necessárias.
O segundo comentário diz respeito à frase palavra da justiça. No grego
não há artigos aqui, e a frase não deve ser entendida no sentido de
qualquer corpo específico de doutrina, mas, sim, do tipo de palavra (logos)
que tem o caráter da justiça. Isto concordaria com o uso do mesmo
termo (logos) em 6.1 onde se refere à doutrina. O escritor talvez esteja
pensando do uso especial da justiça (dikmosyne), que descreve aquilo
que é obtido pela fé em CRISTO, mas que também pode referir-se à idéia
mais geral da retidão. Estas duas interpretações estão ligadas entre si
127
HEBREUS 5:13-14
de qualquer maneira, porque o homem não pode ter qualquer idéia daquilo
que é certo senão através da retidão de CRISTO. Indubitavelmente, quando
os homens passam a crer pela primeira vez, não ganham de imediato
a capacidade de apreciar este tema, mas alguma interpretação deste tipo
é necessariamente indispensável a qualquer pessoa que deseja ser madura.
A descrição final da pessoa tipo leite como sendo uma criança decorre
naturalmente da metáfora usada. A criança deve anteceder o homem.
Ninguém quer ficar sendo criança perpetuamente. Há um paralelo a esta
linguagem figurada em 1 Coríntios 13.11 onde Paulo diz: “Quando cheguei
a ser homem, desisti das coisas próprias de menino.” Os homens feitos
não são sustentados com uma dieta de leite.
14. Há um comentário igualmente valioso sobre os adultos (teleiòn
“maduros”). A idéia da maturidade está ligada com a perfeição, embora
certamente não esteja identificada com ela a não ser no caso de CRISTO.
A maturidade aqui é vista como o desenvolvimento desejável a partir da
infância espiritual. Esta é uma idéia familiar nas Epístolas paulinas (cf.
Ef 4.13ss. — note especialmente “cresçamos em tudo;” cf. 1 Co 2.6;
3.1; 14.20). O Novo Testamento retrata a vida cristã na sua plenitude como
uma vida íntegra completa. O cristão experiente sabe que precisa de
carne forte para chegar a este tipo de maturidade.
O pensamento é desenvolvido ainda mais quando os maduros são
definidos como aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas.
Há uma referência ao hábito no grego aqui. Na verdade, as palavras
pela prática (dia tên hexin) poderiam ser traduzidas “pelo hábito,” o que
ressaltaria mais claramente, talvez, a edificação da experiência mediante
um processo contínuo no passado. A palavra ocorre somente aqui no Novo
Testamento. A maturidade espiritual não advém dos eventos isolados nem
de uma grande explosão espiritual. Advém de uma aplicação regular da
disciplina espiritual. Outra palavra sem paralelos no Novo Testamento é
a usada aqui para faculdades (ta aisthètèria), que denota aquelas faculdades
especiais da mente que são usadas para o entendimento e o julgamento.
Dentre todos os homens, é o cristão que têm conhecimento das coisas
espirituais porque sua mente é treinada na arte da compreensão. Este processo
de treinamento é achado em Hebreus 12.11; 1 Timóteo 4.7 e 2 Pedro
2.14, embora neste último caso ocorra no sentido adverso de treinamento
na avareza. O poder de distinguir entre o bem e o mal tem sido procurado
desde os tempos de Adão e Eva, mas alcançá-los não ocorre facilmente
até mesmo para aqueles com algum conhecimento de CRISTO. Esta
128
HEBREUS 5:14-6-1
perícia imediatamente demonstra a diferença entre o maduro e o imaturo.
Deve ser reconhecido que os cristãos, especialmente entre os gentios, teriam
de forjar um novo código da moral a fim de não serem maculados pelo
mundo.
6.1. O contraste entre o homem maduro e a criança passa agora a ser
desenvolvido por uma descrição daquilo que a criança espiritual deve
deixar para trás a fim de amadurecer. O escritor introduz uma exortação
dupla: pondo de parte e deixemo-nos levar. Estão incluídos, portanto, um
olhar para trás e outro olhar para a frente. Todo o progresso é assim.
Aqueles que nunca vão além dos inícios nunca amadurecem. Quais, porém,
são estes princípios, na mente do autor? São descritos assim: os princípios
elementares da doutrina de CRISTO (ho tès archès tou Christou logos), expressão
que representa palavras passíveis de diferentes interpretações. O
significado poderia ser “a palavra do início de CRISTO”, ou como aqui na
ARA, que aplica o princípio (archès) à doutrina e não a CRISTO.52 Não há
dúvida de que a primeira maneira de entender o grego é mais natural, por
causa da ordem na qual as palavras ocorrem. Mas o que significa aqui
“o início de CRISTO”? Um paralelo pode ser visto em 5.12 onde são mencionados
“os princípios elementares dos oráculos de DEUS.” Evidentemente,
alguns aspectos básicos de CRISTO devem estar em mira aqui. O “princípio,”
portanto, seria a compreensão inicial da posição cristã que a diferenciava
do judaísmo.
A segunda injunção positiva: deixemo-nos levar para o que é perfeito,
é expressa no grego, de modo um pouco inesperado, numa forma passiva,
no sentido de: “sejamos levados para a maturidade (ou a perfeição).”
Esta forma sugere um elemento de entrega a uma influência mais nobre,
como se o processo da maturação não fosse uma questão da nossa engenhosidade.
A maturidade espiritual não é do tipo que pode ser recebido
mediante pedido, mas, sim, requer poderes superiores às capacidades naturais
do homem. Apesar disto, este escritor está profundamente consciente
da responsabilidade do próprio homem, como demonstram suas declarações
subseqüentes neste capítulo. Há, claramente, fatores na experiência
espiritual de um homem que podem, efetivamente, cortar ocrescimento.
Não pode ser “levado para o que é perfeito” se não tem desejo algum de
ser perfeito.
(52) J. C. Adams: “Exegesis of Hebrews vi.1-2,” NTS 13 (1967), págs. 378ss.,
considera que o genitivo “de CRISTO” é subjetivo e argumenta que aqui a religião
judaica básica está em mente. Mas cf. Hughes: Comm., pág. 195, n. 33, para uma resposta
adequada a esta idéia.
129
HEBREUS 6:1-2
Há seis fatores na descrição das doutrinas elementares de CRISTO:
o arrependimento e a fé, os batismos e a imposição das mãos, a ressurreição
e o juizo. 0 agrupamento em três partes pares provavelmente não é
acidental. Os dois primeiros são básicos para o caráter essencial de uma fé
cristã viva. É importante que estes até são chamados uma base, que, por
sua própria natureza, não precisa de renovação. A estultícia de um construtor
cuja obra é tão insatisfatória que deve começar de novo pelos alicerces
é evidente em si mesma. Mas o escritor está sugerindo que seus leitores
talvez não estivessem recebido o alicerce verdadeiro no início das
suas vidas cristãs? As palavras não lançando de novo parecem militar contra
essa idéia. A sugestão é que o alicerce já foi lançado e que o necessário
é desenvolver uma estrutura adequada.
A expressão arrependimento de obras mortas é única. Em nenhum
outro lugar, a não ser em 9.14, que fala em purificar a consciência de obras
mortas, a idéia de morte é aplicada às obras. É, no entanto, aplicada à fé
(Tg 2.17), ao corpo (Rm 8.10) e aos homens (Rm 6.11; Ef 2.1,5; Cl 2.13).
Em cada caso a morte indica um estado de não-funcionamento. Quando a
fé está morta, não está cumprindo seu propósito verdadeiro. Julgada por
sua inutilidade, seria a mesma coisa se ela não existisse. As obras mortas,
segundo a mesma analogia, seriam as obras que tinham apenas a aparência
de obras, mas às quais faltava qualquer poder eficaz. No presente caso,
pode haver uma alusão à idéia judaica de atingir a justificação mediante as
obras, que de um ponto de vista cristão seriam consideradas “mortas” por
serem ineficazes. Todos aqueles que se voltassem do judaísmo para o cristianismo
necessitariam de arrepender-se da sua confiança nas boas obras.
Num sentido mais geral, o primeiro passo para todos os que se voltam
para o cristianismo é o arrependimento, conforme demonstram João Batista,
o próprio JESUS, e os pregadores primitivos.
O mesmo pode ser dito acerca da exigência básica da fé em DEUS
(epi Theonj, que ressalta fortemente a direção da fé: “em relação a DEUS.”
Todas as várias partes do Novo Testamento testificam da necessidade da fé
em qualquer abordagem a DEUS. Esta Epístola tem, em certos aspectos,
um uso distintivo de “fé” (cf. 4.2; 6.12; 10.22, 38, 39; 11.1-39; 12.2;
13.7). Aqui, o significado deve ser a resposta da fé à provisão de DEUS.
No capítulo 11, a ênfase é colocada na atividade da fé. Não se pode
negar o caráter dinâmico da fé, vista através dos olhos deste escritor.
2. As duas doutrinas elementares que se seguem são, por contraste,
atos externos de um tipo cultual. Os batismos e a imposição de mãos
têm seu paralelo no judaísmo, mas claramente tinham um significado
130
HEBREUS 6:2
diferente ao serem aplicados ao cristianismo. As “abluções” (RSV) dizem
respeito literalmente a batismos (baptismòn). O plural demonstra que não
é simplesmente um só ato; pelo contrário, várias purificações rituais estão
em mente. Deve ser notado que a comunidade de Cunrã observava alguns
tipos de purificações rituais, mas não há evidência de que este tipo de ritual
era praticado na igreja cristã. Não é impossível que o escritor tenha
usado o plural para sugerir uma comparação entre a prática cristã do batismo
e a idéia judaica da lavagem,53 porque a palavra é usada noutros trechos
no sentido geral de lavagens cultuais (Hb 9.10 - “abluções” ARA).
Uma vez que estas práticas são introduzidas pela palavra ensino, que também
se estende à terceira copla, parece que o escritor está negando a necessidade
de qualquer ensino básico adicional sobre estas facetas cristãs
elementares.
A imposição de mãos, que na prática judaica era vinculada com a
transmissão de uma bênção, na igreja adquiriu um novo sentido.54 Há
muitas ocorrências em que a imposição de mãos está ligada com a cura
(cf. Mc 16.18; At 28.8, onde tem conexão com a cura cristã por este
meio). O sentido aqui, no entanto, é mais específico. Provavelmente
incluísse a transmissão de dons específicos (cf. At 8.17; 13.3; 19.6;
1 Tm 4.14).
A prática aqui é de caráter básico, e presumivelmente tem relacionamento
com todos os cristãos, e não simplesmente com aqueles que são
chamados para tarefas especiais (como na ordenação). Pode ter, portanto,
seu paralelo em Atos 8.17; 19.6, sendo que nos dois casos houve o
acompanhamento do dom do ESPÍRITO.
Os outros dois fatores são de caráter doutrinário. A ressurreição
dos mortos e o juízo eterno nem por isso deixam de ser uma parte constituinte
essencial do ensino cristão. O primeiro destes fatores é tão essencial
que os pregadores primitivos não podiam pregar sem introduzilo.
Nunca mencionam a morte de CRISTO sem incluir a Sua ressurreição.
Além disto, a aplicação da mesma idéia aos crentes é implícita (cf.
At 23.6 e especialmente 1 Co 15.12ss.). O Novo Testamento não faz sen(
53) Para o batismo noutras escolas judaicas de pensamento, cf. D. Daube:
The New Testament and Rabbinic Judaism (Londres, 1956), págs. 106-140; também
M. Black: The Scrolls and Christian Origins (Londres, 1961), págs. 99ss., 114-5.
(54) Cf. Mishna, Sanhedrin 4.4, para a prática judaica. Deve ser notado, além
disto, que a imposição das mãos é achada no AT, tanto no comissionamento (Nm
27.18, 23; Dt 34.9) como no ritual levítico (Lv 1.4; 3.2;4.4; 8.14; 16.21).
131
HEBREUS 6:2-4
tido se a ressurreição dos mortos for negada. O escritor nío argumenta sobre
esta questão. Considera-a suficientemente óbvia para ser incluída nas
doutrinas elementares. O mesmo se aplica ao julgamento. O uso do adjetivo
“eterno” pode ser comparado com Marcos 3.29, onde é mencionado
o conceito do “pecado eterno.” É possível que a expressão aqui pretenda
ter um sentido abrangente, para incluir o ensino escatológico básico que
todos os cristãos receberiam. Cada crente deve ter algum conhecimento
tanto da ressurreição quanto do julgamento, porque os dois estão ligados
a uma consciência das exigências bem como da gloriosa provisão de DEUS.
Este tema de julgamento não é infreqüente em Paulo.
Parte do problema que os Hebreus enfrentavam era a semelhança
superficial entre as doutrinas elementares do cristianismo e as do judaísmo,
que tomava possível aos judeus cristãos pensar que poderiam sustentar
as duas coletâneas de doutrinas. O perigo da apostasia era muito maior
para eles do que para os convertidos do paganismo.
3. As palavras: Isso faremos, se DEUS permitir podem ser entendidas
como uma exortação: “Façamos assim, se DEUS permitir,” conforme alguns
manuscritos. Mas, entendidas como uma resolução específica da parte
do escritor, confiantemente ligando seus leitores consigo mesmo, as palavras
têm mais aplicação. Certamente o escritor não duvida que DEUS deseja
que Seu povo avance na vida espiritual. A única outra ocasião no Novo
Testamento em que uma frase paralela é usada é em 1 Coríntios 16.7, onde
Paulo a emprega em relação aos seus planos propostos. Já que o escritor
passa na seção seguinte a falar da apostasia, talvez esteja pensando nas
condições em que DEUS permite o progresso. Neste caso, a condição é a
acrescentada como lembrança de que avançar para a maturidade não é
mecânico nem automático, mas, sim, envolve levar em conta as condições
de DEUS. Não poderia ter havido dúvida alguma na mente do autor de que
DEUS deseja a maturidade no Seu povo. Seria contrário à natureza de DEUS
conforme é vista nesta Epístola supor doutra forma.
4. Que há uma conexão específica entre a declaração que acaba de
ser feita e a discussão acerca da apostasia fica claro por causa da conjunção
pois (gar). Há pelo menos uma possibilidade teórica de que a maturidade
espiritual possa revelar-se inatingível. É importante para uma compreensão
verdadeira deste versículo reconhecer este contexto. É igualmente importante
notar que a declaração depende do cumprimento de uma condição,
conforme demonstra a cláusula com “se” no v. 6.
As várias maneiras que este autor adota no uso da palavra impossível
(adynatonj são instrutivas. Aqui, emprega-a para a impossibilidade do
132
HEBREUS 6:4
arrependimento em certas circunstâncias; em 6.18, acerca da impossibilidade
de DEUS revelar-Se falso; em 10.4, acerca da incapacidade do sangue
dos animais de remover o pecado; e em 11.6, acerca da impossibilidade de
agradar a DEUS sem fé. Em cada caso, não há provisões para um meio-termo.
Todas estas declarações são absolutas. A presente declaração, no entanto,
é a que causa mais dificuldade e pode ser corretamente compreendida
somente quando todas as facetas do caso forem examinadas na sua totalidade.
Há quatro verbos para descrever os sujeitos da impossibilidade:
(i) iluminados (phõtisthentas), (ii) provaram (geusamenous), (iii) se
tomaram participantes (metochous genêthentas), (iv) provaram a boa palavra
(kalon geusamenous). Aparentemente, os três últimos verbos visam
tomar claro o sentido em que o primeiro é usado. A idéia da iluminação
é característica do Novo Testamento em relação à mensagem de DEUS ao
homem (cf. também 10.32 na outra passagem sobre a apostasia). Isto é
especialmente verdadeiro no que diz respeito ao Evangelho segundo João
em que JESUS declara ser a luz do mundo (8.12; cf. 1.9). Outro paralelo
é 2 Coríntios 4.4, que diz: “o deus deste século cegou os entendimentos
dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória
de CRISTO.” Sempre que a luz tem brilhado nas mentes individuais,
tem vindo alguma compreensão da glória de CRISTO. Bruce55 acha tentadora
a opinião de que a iluminação se refira ao batismo e ao provar a
eucaristia, mas aceita, especialmente neste último caso, uma referência
mais ampla também. Hughes56 cita exemplos de escritores patrísticos que
adotaram este tipo de interpretação. Ele mesmo, porém, prefere um
sentido metafórico, i.é, o sentido de experimentar a bênção. Aqueles
que são referidos aqui, portanto, devem ter alguma revelação inicial de
JESUS CRISTO. Este conceito é reforçado pelas outras três declarações que
são feitas.
A idéia de provar o dom celestial subentende mais do que um mero
conhecimento da verdade. Subentende a experiência dela. Este é um uso
lingüístico do Antigo Testamento (cf. SI 34.8). No Novo Testamento, 1
Pedro 2.3 contém a mesma idéia. Há um desenvolvimento entre saber
acerca do alimento, até mesmo gostar da aparência dele, e realmente
prová-lo. Ninguém pode apenas fingir provar um alimento. Naturalmente,
nem sempre o provar é agradável, e no caso hipotético que o escritor
estava supondo, claramente não o era. O dom celestial não foi apreciado.
(55) Bruce: Comm., pág. 120.
(56) Hughes: Comm., pág. 208.
133
HEBREUS 6:4-5
Mas o que significa esta expressão? Em nenhuma outra parte do Novo Testamento
“o dom celestial” (tès dõreas tês epouraniou) é mencionado, embora
a idéia de um dom de DEUS ocorra várias vezes, principalmente em
relação ao ESPÍRITO SANTO (cf. At 10.45; 11.17). Noutros casos, é ligado
com a graça de DEUS (Rm 5.15; Ef 3.7; 4.7), onde abrange a totalidade
da dádiva da salvação. Na presente declaração, o conteúdo do dom não
é definido, mas a sua origem não fica em dúvida. Embora tenha sido
sustentado que “celestial” descreve, não a origem, mas, sim, a esfera em
que o dom é exercido, ainda demonstraria que o dom não é de feitio humano.
Deve ser notado que a palavra usada aqui para “dom” é usada
exclusivamente para dons espirituais no Novo Testamento.
A terceira declaração está estreitamente vinculada com a anterior,
porque o tipo de pessoa que o escritor está imaginando consiste daqueles
que se tomaram participantes do Espirito SANTO, o que se harmoniza
com o dom do ESPÍRITO. Mesmo assim, é provável que isto seja visto como
um aspecto distintivo na sua experiência. Já encontramos a palavra
para “participantes” (metochoi) em 1.9; 3.1, 14, e a encontraremos outra
vez em 12.8. A única outra ocorrência da palavra no Novo Testamento é
em Lucas 5.7, onde significa “companheiros.” Visto que em 3.1 o escritor
está se dirigindo àqueles que participam de uma vocação celeste, o
mesmo sentido deve ser pretendido aqui. A idéia de participar do ESPÍRITO
SANTO é notável. Isto imediatamente distingue a pessoa daquela que
não tem mais do que um conhecimento superficial do cristianismo.
5. A quarta declaração: e provaram a boa palavra de DEUS, introduz
ainda outro aspecto da experiência cristã. A repetição da metáfora
do “provar” demonstra a importância que o escritor ligava a ela. Mas esta
vez é uma questão de provar a “bondade” (kalon), palavra esta que incorpora
em si alguma noção de beleza. Inclui a atratividade bem como a
bondade moral. É contrastada com o mal em 5.14. Descreve uma boa
consciência em 13.18. É algo altamente desejável. Isto se encaixa bem com
a metáfora. É agradável ao paladar. Além disto, não é por acidente que
o que é provado não é a própria palavra de DEUS, mas, sim, a sua bondade.
A distinção é importante. É possível abordar a palavra de DEUS de
modo sincero, mas sem efeito. No presente caso, os que provavam a
bondade estavam bem imersos na experiência cristã. A frase descritiva
“palavra de DEUS” (Theou rhèma) ocorre outra vez em 11.3 e nalguns outros
lugares no Novo Testamento, mas não é tão freqüente quanto a expressão
mais geral, porém paralela (Jogos tou Theou), que ocorrre nesta
Espístola em 4.12 e 13.7. A presente frase chama a atenção mais a uma
134
HEBREUS 6:5-6
comunicação específica de DEUS do que a uma mensagem geral de DEUS.
De fato, pode, mais provavelmente, referir-se à experiência de DEUS que a
pessoa conhece na conversão, quando a maravilhosa condescendência de
DEUS para com os pecadores raia sobre a alma em toda a sua beleza resplandecente.
Mas o provar também chega “à bondade dos poderes do mundo
vindouro, ” que parece uma idéia estranha. Se a era do porvir ainda é futura,
conforme sugerem as palavras (mellontos aiònos), não pode ser que
o escritor quer referir-se a uma esperança remota. Visto que emprega
“estes últimos dias” (1.1) para denotar os dias da inauguração do Messias,
é bem possível que aqui esteja pensando no antegozo presente de
uma experiência que não chegará ao seu clímax até à segunda vinda. De
qualquer maneira, está mais interessado nos poderes da era vindoura, o
que sugere a operação das mesmas influências poderosas que terão pleno
domínio naquela era futura.
6. Finalmente, a parte condicional da frase aparece: “se então cometerem
a apostasia” (no grego, o condicional é expresso por um particípio:
parapesontas - ARA: e caíram). A declaração que segue é aplicável
somente quando a experiência da iluminação e da participação é ligada
com uma apostasia completa (conforme é indicado pelo tempo do
aoristo). A idéia da apostasia é expressa por um verbo que ocorre exclusivamente
aqui no Novo Testamento. O significado da sua raiz é “cair
para o lado,” i.é, o desvio de um padrão ou caminho aceito. A declaração
subseqüente neste caso toma clara a natureza irrecuperável da apostasia.
É dito que de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de
DEUS, e o verbo composto empregado (anastaurountas) demonstra que o
escritor está pensando em uma repetição da crucificação. Não poderia ter
expressado a seriedade da apostasia em termos mais enfáticos ou mais
trágicos. Enquanto pensa naquilo que os inimigos de JESUS fizeram a Ele,
até mesmo vê aqueles que se desviam dEle como igualmente responsáveis.
Talvez esteja pensando que tais apóstatas seriam mais culpáveis do que
aqueles que originalmente clamaram “crucifica-o,” que nunca conheceram
coisa alguma acerca da maravilhosa graça de DEUS através de CRISTO.
Qualquer pessoa que voltasse do cristianismo para o judaísmo se identificaria
não somente com a descrença judaica, como também com aquela
maldade que levou a crucificação de JESUS. As palavras para si mesmos
ou “por conta própria” tomam claro que devem assumir a plena responsabilidade
pela crucificação. Além disto, o escritor explica que o efeito
desta ação é este: expondo-o [CRISTO] à ignominia (paradeigmatizontas,
135
HEBREUS 6:6
outra palavra achada somente aqui no Novo Testamento). Não poderia haver
maneira mais vívida de identificar a posição dos apóstatas com aqueles
cujo ódio a CRISTO os levou a exibi-Lo como objeto de desprezo numa
odiada execução romana. A condenação destas pessoas é tão forte que
nada senão a atuação mais grave da parte deles poderia explicá-la. Subentende
uma atitude de hostilidade incessante.
Esta passagem tem causado extensos debates, e tem resultado em
muitos mal-entendimentos. O problema principal é se o escritor está dando
a entender que um cristão pode cair tão longe da graça ao ponto de ser
culpado do pior delito possível contra o Filho de DEUS. Se a resposta for
“sim,” como explicaremos aquelas outras passagens que sugerem a segurança
eterna dos crentes? As seguintes considerações podem nos ajudar a compreender
a mente do escritor a esta altura:
(i) Calvino, convicto de que DEUS vigiava Seus eleitos, somente podia
supor que o ato de “provar” mencionado aqui era meramente uma experiência
parcial e que as respectivas pessoas não corresponderam a ela.S7 A
dificuldade com semelhante hipótese é que não está à altura das palavras
da Epístola, que não dão impressão alguma de iluminação incompleta.
Calvino fala dalguns vislumbres de luz. Faz uma distinção entre a graça recebida
pelos réprobos e a que é recebida pelos eleitos.S8
(ii) Do outro lado, pode ser alegado que, tendo em vista as declarações
desta Epístola, permanece a possibilidade para qualquer crente apostatar
da mesma maneira descrita aqui? Isto tomaria menos certa qualquer
garantia da fé. Até mesmo tem sido sugerido que a severidade da advertência
aqui talvez forme uma ligação com o pecado imperdoável contra o
ESPÍRITO SANTO. Alguns têm ficado profundamente perturbados, perguntando-
se se já cometeram semelhante pecado, mas ninguém com um estado
de mente tão endurecido ao ponto de expor o Filho de DEUS à ignomínia
se preocuparia em qualquer momento com uma questão desta natureza.
A própria preocupação é evidência de que o ESPÍRITO SANTO ainda está
ativo.
(iii) Deve ser levado em conta que nenhuma indicação é dada nesta
passagem de que qualquer dos leitores tinha cometido o tipo de apostasia
mencionada. Parece que o escritor está refletindo sobre um caso hipotético,
muito embora, na natureza do argumento inteiro, deve ser suposto que
era uma possibilidade real. A intenção, claramente, não é fazer uma disser(
57) Cf. Calvino: Comm., pág. 76.
(58) Calvino:Instituías, III.ii.ll.
136
HEBREUS 6:6-8
tação sobre a natureza da graça, mas, sim, dar uma advertência nos termos
mais enfáticos possíveis. A passagem inteira é vista do lado das responsabilidades
do homem e deve, portanto, ser considerada limitada. Noutras palavras,
o lado divino deve ser contrastado com esta passagem para ser obtido
um equilíbrio verdadeiro.
(iv) A passagem, além disto, declara a impossibilidade em termos de
restaurar os transgressores a uma nova condição de arrependimento (w.
4-6). Surge a pergunta acerca do escopo do arrependimento aqui. Referese
ao ato inicial de um homem quando vem a DEUS, no sentido em que
parece ser usado no v. 1? Se for assim, é claramente impossível uma segunda
realização de semelhante ato inicial, embora seja certamente possível
lembrar-se dele. Visto que o arrependimento é um ato que envolve a
auto-humilhação do pecador diante de um DEUS santo, fica evidente porque
um homem com uma atitude de desprezo para com CRISTO não tem
possibilidade de arrependimento. 0 processo do endurecimento fornece
uma casca impenetrável que remove toda a sensibilidade para com o pleitear
do ESPÍRITO. Chega-se a um ponto de nenhum retomo, quando, então,
a restauração é impossível. Embora o escritor esteja expondo um caso
extremo, tem confiança nos seus leitores (v. 9). Apesar disto, acha necessário
voltar a advertir severamente no cap. 10.
7-8. O que acaba de ser dito ilustra um princípio que pode ser apoiado
pela natureza. Negligenciar o cultivo da terra leva a resultados sem valor,
da mesma maneira que a recusa de apegar-se às provisões da graça de
DEUS leva à bancarrota espiritual. O Novo Testamento contém muitos
exemplos de ilustrações agrícolas sendo usadas para recomendar verdades
espirituais. Baseia-se parcialmente no conceito de que as leis naturais estão
ligadas com as leis espirituais, porque os dois tipos de leis têm o mesmo
originador e, por esta razão, os fenômenos naturais podem servir de
analogias espirituais. Ninguém se queixa dos espinhos e dos abrolhos que
se devem à negligência, mas todo agricultor espera que, dada a condição
correta de umidade, a terra cultivada produzirá a erva útil. Estranhamente,
a ação humana não é mencionada, mas a frutificação é julgada pela sua
utilidade aos agricultores e mesmo para outras pessoas. No âmbito espiritual,
algum tipo de frutificação é essencial para o mais pleno cultivo da experiência
espiritual. Aqueles indivíduos ou grupos que não produzem nada
para compartilhar com os outros são estéreis (cf. 5.12, que sugere que os
leitores enfrentam uma tentação deste tipo). Vale notar que é a terra,
e não o povo que, segundo se diz, recebe bênção da parte de DEUS, o que,
presumivelmente, significa que sua própria produtividade á aumentada
137
HEBREUS 6:8-9
por DEUS. Sem dúvida, o conceito bíblico da ceifa e' que DEUS dá o crescimento.
Os espinhos e abrolhos são uma lembrança direta de Gênesis 3.17-
18, onde a maldição sobre a terra tomaria esta forma e a labuta do homem
seria exigida para dominá-los e cultivar a terra. Conforme sabem todos os
agricultores, uma colheita de ervas más só serve para ser queimada. É importante
notar que as palavras perto está da maldição são menos enfáticas
do que teria sido sem a palavra “perto” (engys), mas não deixam de chamar
a atenção à iminência constante do fim. A queima das ervas más não
seria atrasada por muito tempo se elas persistissem.S9 A palavra traduzida
rejeitada (adokimos) ocorre em 1 Coríntios 9.27 no sentido de desqualificado,
e em 2 Coríntios 13.5 no sentido de não passar no teste. Não é nenhuma
rejeição arbitrária, mas, sim, o resultado do exame apropriado. Neste
caso, a terra revela-se inútil pela ausência de frutificação efetiva.
9. A esta altura o escritor volta-se para o encorajamento. Suas advertências
severas chegaram ao fim, por enquanto, e quase se apressa para
assegurar os leitores que não considera que eles chegaram à posição extrema
da qual falara. As palavras: Quanto a vós outros (peri hymòn) marcam
um forte contraste com os supostos apóstatas, o que acrescenta peso
à sugestão de que estes últimos eram hipotéticos. O escritor até mesmo repetinamente
chama os leitores de amados, o que não faz em nenhuma outra
parte desta Epístola, e isto transmite um senso de calor especial. Obtém
mais força por causa do seu contraste com as advertências anteriores.
Há usos semelhantes da palavra nas Epístolas paulinas (e.g. 1 Co 10.14;
2 Co 12.19). Realmente, Paulo a usa em todas as suas cartas a não ser Gálatas,
2 Tessalonicenses e Tito, e ocorre na maioria dos demais livros do
Novo Testamento. Pode-se dizer, portanto, que é um termo predileto de
afeição cristã. Não é sem certa significância que os Evangelhos Sinóticos
registram ocasiões em que JESUS foi chamado de “amado” por uma voz celestial.
No presente caso, o uso desta palavra demonstra a verdadeira solicitude
do escritor para com seus leitores.
Estamos persuadidos (pepeismetha) aparece como a primeira palavra
no texto grego, e, portanto, leva mais ênfase do que a tradução sugere. De
fato, o tempo perfeito revela que não se trata dalguma decisão do momento,
mas, sim, do resultado permanente da consideração passada. Esta forte
(59) Héring: pág. 48, n. 16, cita o velho Plínio como evidência da prática de
queimar a teria para destruir ervas más. Mas Westcott: Comm., pág. 153, vê aqui o
quadro da desolação total causada pelas forças vulcânicas.
138
HEBREUS 6:9-10
persuasão subjazia todas as advertências que acabaram de ser dadas. Parece
ter sido derivada do conhecimento pessoal que o escritor tinha dos leitores.
A referência às coisas que são melhores está em harmonia com o uso característico
da palavra “melhor” nesta Epístola. Neste caso, o contraste está
com os apóstatas. A posição cristã verdadeira sempre está do lado do “melhor”
em comparação com o “pior.” As “coisas” são especificadas como
sendo as pertencentes à salvação, que literalmente significa as que “se apegam”
à salvação. O que parece que o escritor está dizendo é que suas convicções
acerca deles dizem respeito à esfera inteira da salvação e, realmente,
isto fica claro no versículo seguinte.
10. Como base para sua firme persuasão, o escritor cita dois fatores:
(i) a justiça de DEUS e (ii) as obras dos leitores. Sua consciência da justiça
de DEUS, ou, melhor, a convicção de que DEUS não pode ser injusto
(porque é expressada aqui com uma dupla negação, ou gar adikos), é outra
parte integrante da teologia do escritor. Pode citar com aprovação Deuteronômio
4.24, que DEUS é um fogo consumidor (12.29), mas não O
considera um tirano que não presta atenção à justiça. Em 1.9 cita a atribuição
paralela do salmista a DEUS: do amor à justiça e do ódio da iniqüidade.
A palavra de DEUS é uma palavra de justiça (5.13) e o escritor diz
que a disciplina divina produz fruto pacífico da justiça (12.11). O escritor
não pode conceber que DEUS pode ficar esquecido do trabalho e do
amor que, na sua opinião, procederam da graça. Esta combinação entre
vosso trabalho e o amor que evidenciastes é importante, porque o trabalho
é expressado em termos do amor, e não deve ser considerado independente
dele. É tomado por certo que aqueles que demonstram amor
por meio de servir aos santos estão exibindo os resultados das coisas que
são melhores.
, As palavras adicionais para com o seu nome demonstram que DEUS
considera que atos de bondade praticados ao Seu povo são feitos para Ele
mesmo. O impacto das palavras no grego ressalta vividamente este fato,
visto que o amor é dirigido para (com) o seu nome (eis to onoma), e, portanto,
“para Ele”. Não há comparação nem contraste com a oferta de esmolas
pelos judeus aqui, embora possa ser notado que, para os judeus,
o amor não era muito importante.60 O amor cristão para com os santos
(60) Para a abordagem judaica às esmolas, cf. os artigos sobre a caridade na
Encyclopaedia Judaica 5 (1972), págs. 338-354 e em The Jewish Encyclopaedia 3,
págs. 667ss. A caridade era considerada um dever, e aqueles que não davam às pessoas
mais pobres, podiam ser obrigados a fazê-lo. Ao mesmo tempo, todos os esforços
139
HEBREUS 6:10-12
vai muito além de dar esmolas, embora esta última ação não deva ser negligenciada.
O serviço baseado no amor é totalmente diferente do serviço que
é realizado para acumular mérito. O fato de que aqueles leitores estavam
tão solícitos para com seus irmãos cristãos diz muita coisa a favor deles.
É a convicção do escritor que estas ações demonstravam que a graça de
DEUS ainda estava ativa entre eles.
11-12. Embora o amor deles seja recomendável, há outras áreas
em que o mesmo espírito poderia ser exercitado, e o escritor nota algumas
destas. O verbo Desejamos (epithymoumen) é enfático, e expressa
mais do que um desejo piedoso. Sua forma plural acrescenta intensidade,
porque o escritor está expressando aquilo que, segundo sabe, será compartilhado
pelos cristãos de modo geral. O desejo é a plena certeza da esperança
(plèrophoria), palavra que volta a ocorrer no clímax da exposição
(10.22), onde a possibilidade de semelhante “plena certeza” é inquestionvel
à luz do sacrifício de JESUS. O forte desejo do escritor é que os leitores
possam ter plena certeza da esperança, isso sugere que, no momento,
está faltando. É possível que o conflito sobre a atração do judaísmo
estivesse despojando-os da alegria desta certeza. É possível os cristãos
terem grande amor para com seus irmãos e ainda ter falta de certeza para
si mesmos. Oxalá a diligência do amor transbordasse para a certeza! É
um fato triste que muitos daqueles que são mais ativos nas obras cristãs
têm falta de convicções. Pode ser, em muitos casos, porque estão dependendo
das obras para contribuírem para sua salvação, abordagem esta
que nunca poderia levar à certeza, visto que nunca poderiam saber se suas
obras eram suficientes. Outro aspecto interessante é que o forte desejo é
dirigido a cada um de vós, tomando, portanto, individual tanto a diligência
quanto a plena certeza. Estas duas são experiências que não têm sua
origem em grupos.
Para que não vos tomeis indolentes dá o complemento à diligência.
A palavra aqui traduzida indolentes (nõthroi) já foi aplicada aos leitores
em 5.11, onde são chamados “tardios em ouvir.” Semelhante lerdeza, se
não for refreada, se desenvolverá numa incapacidade de fazer qualquer
progresso. Embora acabe de emitir uma advertência grave, o escritor não
fala agora como em 5.11, como se fosse um fato consumado. Pelo contráeram
feitos para evitar sentimentos de vergonha entre os que recebiam a ajuda. O
amor não era um motivo dominante, que é o que acontece na caridade cristã, mas
o Rabino Aquiba considerava a caridade um meio de transformar o mundo numa
só família de amor (veja The Jewish Encyclopaedia 3, pág. 668).
140
HEBREUS 6:12-14
rio, mostra como semelhante indolência pode ser evitada.
Outro alvo alternativo é um tipo certo de imitação. O Novo Testamento
tem muita coisa a dizer acerca deste assunto de imitadores. No ensino
de JESUS, Seus discípulos são conclamados a seguir Seu exemplo (e.g.
Jo 13.15). Paulo, em mais de uma ocasião, conclamou seus convertidos a
imitá-lo (1 Co 4.16; 11.1; 1 Ts 1.6; 2.14), usando a mesma palavra que
aparece aqui. Semelhante imitação era de grande valor prático para aqueles
que não tinham as Escrituras do Novo Testamento para fornecer padrões
adequados. Os homens de DEUS que tinham aprendido novas idéias
morais e espirituais ficavam sendo guias valiosos para os menos maduros.
No presente caso, o padrão era providenciado da parte daqueles que,
pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas. Tem sido sugerido que
a exortação no sentido de imitar a fé dos herdeiros da promessa refere-se
aos homens do Antigo Testamento e que antecipa Hebreus 11. Não parece,
porém, haver razão alguma porque os cristãos também não possam ser
incluídos. A combinação entre a fé e a longanimidade é sugestiva porque,
embora o fato da fé por si só garanta a herança, até que esta seja possuída
é necessária a paciência. A palavra usada para “paciência” (makrothymia)
significa longanimidade e em Hebreus ocorre somente aqui, mas várias
vezes em Paulo e umas poucas vezes noutros lugares. É uma qualidade
divina (Rm 9.22) que não é natural do homem, mas fica sendo característica
dos seguidores de JESUS. Está alistado por Paulo no fruto do ESPÍRITO
em Gálatas 5.22. Os herdeiros da promessa são mencionados outra vez
no v. 17.
13. A esta altura da discussão, o pensamento volta para Abraão que
já foi mencionado em 2.16. Esta seção (w. 13-20) serve de prelúdio para
a exposição do tema de Melquisedeque. O que o escritor está preocupado
em demonstrar é (i) a solenidade das promessas de DEUS, (ii) Seu caráter
imutável, e, portanto, (iii) a absoluta certeza da Sua palavra. Esta é realmente
uma explicação da base da “plena certeza da esperança” do cristão.
A promessa a Abrão foi confirmada por um juramento. Muitas vezes
a promessa foi feita sem haver menção do juramento, mas a referência
em Gênesis 22.16 faz a declaração específica: “Jurei por mim mesmo.”
Esta é claramente a base da presente declaração: jurou por si mesmo. O
escritor elabora o tema: visto que não tinha ninguém superior por quem
jurar, que é o equivalente de dizer que Sua própria palavra bastava. Filo
(Legum Allegoriae 3.203) tem um comentário semelhante sobre Gênesis
22.16.
14-15. A promessa de que Abraão seria abençoado e multiplicado
141
HEBREUS 6:15-17
tem significância adicional quando é colocada lado a lado com o mandamento
no sentido de sacrificar Isaque. Quando a obediência de Abraão
foi aceita no lugar do ato, deve ter vindo com força adicional quando
DEUS reforçou a promessa com um juramento. Há um indício disto no v.
15. Abraão, depois de esperar com paciência, claramente se refere à sua
provação no assunto de Isaque, como resultado da qual obteve a promessa.
Há um eco do v. 12, supra. Abraão é um exemplo por excelência de
quem ganhou sua herança com fé e paciência. Mesmo que os leitores não
pudessem pensar em qualquer outro exemplo, Abraão ilustraria admiravelmente
o que o escritor queria dizer.
16. Ao apelar aos juramentos humanos, o escritor demonstra que a
promessa divina é superior à palavra do homem. A limitação da palavra
do homem acha-se no fato de que sua palavra não é suficiente em si mesma.
A própria necessidade de um juramento para apoiar uma declaração
reflete o caráter da pessoa que a faz. Deve ser lembrado que JESUS criticava
os homens cuja palavra era tão indigna de confiança que juramentos
eram usados para reforçar suas declarações. Exortou Seus seguidores assim:
“Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não , não” (Mt 531). Há, portanto,
uma diferença entre a abordagem cristã e a convenção contemporânea.
O escritor aqui se refere ao conceito contemporâneo. Sua declaração:
Pois os homens furam pelo que lhes é superior, reflete a abordagem
natural do homem ao assunto. A não ser que houvesse alguém maior, em
condições de confirmar o juramento, a atividade não teria valor. Embora
a palavra “superior” possa ser neutra e, portanto, incluir objetos além de
pessoas, o contexto claramente revela que a forma masculina é a mais
provável.
Uma vez que um juramento é confirmado, não poderá haver mudança.
Neste sentido é o fim de toda contenda. Afirma positivamente aquilo
que apóia e exclui eficazmente aquilo que nega. Em quaisquer contendas
(antilogiai) é conclusivo. Esta natureza obrigatória dos juramentos humanos
é usada pelo escritor para transferir seu pensamento, por excelência,
à palavra divina.
17. Ao explicar a razão de um juramento divino, este escritor mostra
que é uma concessão à convenção humana. Não havia necessidade de
DEUS confirmar Sua palavra. Era inviolável. Mas se os homens eram melhor
persuadidos por um juramento, Por isso (en hõj... se interpôs com
juramento. Presumivelmente o interpor-Se (mesiteuein, somente aqui no
Novo Testamento) era entre DEUS e Abraão. É importante notar que o
juramento era para o benefício dos herdeiros da promessa, embora fosse
142
HEBREUS 6:17-18
realmente dado a Abraão. Aquilo que é real para Abraão é real para sua
descendência também. Os “herdeiros” é um termo compreensivo para os
verdadeiros filhos de Abraão, e não é exclusivamente uma referência ao
povo de Israel. JESUS, ao dirigir-Se aos judeus que alegavam ser filhos de
Abraão, disse: “Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão” (Jo
8.39). O apóstolo Paulo, ao escrever aos Romanos, pode referir-se “ao que
é da fé que teve Abraão (porque Abraão é pai de todos nós...)” (Rm 4.16).
Os herdeiros da promessa, portanto, são diferentes dos descendentes
naturais.
Ao falar da intenção divina, o escritor, em comum com muitos escritores
do Novo Testamento, usa a palavra grega mais forte (boulomenos)
ao invés da mais fraca (thelein). A intenção de DEUS é mais do que uma inclinação
ou uma vontade; é uma resolução específica. Fica ainda mais forte
quando é apoiada pelo advérbio perissoteron (mais firmemente). Na Sua
graciosa compreensão da necessidade que o homem tem de evidências que
não podem ser refutadas, DEUS a toma duplamente convincente. O caráter
imutável do Criador já foi ressaltado no cap. 1, e agora o enfoque recai sobre
a imutabilidade do seu propósito. Este é um desenvolvimento adicional,
concentrando-se especialmente na mente de DEUS. A palavra “imutável”
(amethatetetos) é usada somente aqui (e no v. 18) no Novo Testamento.
Há evidência (conforme MM) de que era usada num sentido técnico
acerca da natureza imutável de um testamento. 0 propósito imutável de
DEUS separa-0 das divindades pagãs contemporâneas caprichosas e toma
todas as Suas promessas totalmente fidedignas. Certamente, o conceito
cristão de DEUS exige que Ele honre tudo quanto tem dito. O juramento,
embora não acrescente nada a esta convicção, também não lhe tira nada.
Sua palavra ainda teria sido verdadeira sem o juramento.
18. O escritor vê alguma relevância no juramento, no entanto, porque
vê uma combinação de duas coisas mutáveis (i.é, a natureza de DEUS
e Seu juramento, ou a promessa e o juramento). Uma vez que nenhuma
destas duas coisas pode mudar, é impossível que DEUS minta. Esta é a âncora
grande da convicção do cristão. Sabe que sua certeza depende, não
da estabilidade nem da força da sua própria fé, mas, sim, da absoluta
fidedignidade da palavra de DEUS.
Os herdeiros agora são mais especificamente descritos como nós
que já corremos para o refúgio, que não somente toma o argumento relevante
para os leitores, como também inclui o escritor. Talvez seja surpreendente
que estas pessoas sejam descritas como sendo fugitivas. O único
outro lugar onde a mesma palavra é usada é Atos 14.6 onde descreve
143
HEBREUS 6:18-19
a fugra de Paulo dos seus perseguidores. Mas no presente contexto a fuga
é definida pela expressão: a fim de lançar mão da esperança proposta. Parece
denotar, portanto, o abandono urgente do estado de desencorajamento
e apatia. Talvez indique uma certa urgência da parte deles, que deveria,
então, ser colocada no contexto da forte advertência acerca da
apostasia. Do outro lado, o escritor pode estar restringindo o encorajamento
àquele grupo dos seus leitores que fugiu daquela posição perigosa
em que outros se colocaram.
Não há dúvida na sua mente acerca do caráter do encorajamento.
É agarrar a esperança proposta. A idéia de agarrar subentende segurar e
manter-se firme de modo resoluto, o que também ressalta a suprema importância
da açâo. A esperança é de tal natureza que é preciso tenacidade
para retê-la. Nâo acontece por conta própria. É exposta como uma
realidade objetiva a ser agarrada e também uma realidade suhjetiva a ser
pessoalmente experimentada. Nosso escritor já mencionara duas vezes a
esperança (veja o comentário sobre 3.6 e cf. 6.11), e ocorre mais duas
vezes, em 7.19 (esperança superior) e 10.23 (a confissão da esperança).
É outro dos seus temas prediletos.
19. Meditar no tema da esperança leva-o a comentar certas características
da esperança. A primeira é sua imobilidade que é vividamente
ilustrada pela figura de uma âncora. Em nenhuma outra parte do Novo
Testamento a âncora é usada de modo metafórico. É uma figura de linguagem
riquíssima. O serviço da âncora é permanecer fixa no fundo do
mar sejam quais forem as condições marítimas. De fato, quanto mais violento
o tempo, tanto mais importante é a âncora para a segurança e a estabilidade
do barco. É um símbolo apto da esperança cristã. Era, na realidade,
usada como símbolo entre os cristãos primitivos, e era freqüentemente
ligado ao símbolo do peixe. É surpreendente que nenhum outro
escritor do Novo Testamento faça uso dele. Talvez seja por demais imaginativo
sugerir que o escritor tivera experiência do mar e que pessoalmente
aprendera a dar valor à âncora em tempos de perigo. Segundo a
ARA, é a âncora que é segura e firme, mas os adjetivos poderiam referir-se
à esperança. Faz pouca diferença ao significado. O primeiro adjetivo significa
“seguro” (asphalê), incapaz de ser movido. O segundo (bebaian),
seguro em si mesmo, é praticamente um sinônimo do outro. É traduzido
por “confiança” em 3.14, e em 3.6 aparece na margem de UBS. No
pensamento neotestamentário em geral, como aqui, a confiança e a esperança
estão estreitamente ligadas entre si.
O lado mais estranho desta metáfora é que a âncora penetra além do
144
HEBREUS 6:19-7:1
véu (i.é, para dentro do SANTO dos Santos). O escritor ou deliberadamente
misturou suas metáforas, ou rapidamente transferiu seu pensamento acerca
da esperança para um cenário diferente em que uma âncora parece incongruente.
Alguns dos comentaristas patrísticos contrastavam a âncora
natural no fundo do mar com a âncora espiritual no lugar celestial. Mas
parece melhor supor que o pensamento transferiu-se do mar para o tabernáculo,
como meio de introduzir outra base da esperança, bem mais firme,
i.é, o tema do Sumo Sacerdote. Por este meio, o escritor introduz
sua exposição da ordem de Melquisedeque.
20. A idéia de que JESUS... entrou além do véu é altamente sugestiva.
A cortina é o véu no tabernáculo (e no Templo) que separava o SANTO
dos Santos do SANTO Lugar. A alusão diz respeito ao fato de que somente
o sumo sacerdote podia penetrar além do véu, e mesmo assim,
somente uma vez por ano. Somos lembrados que o véu do Templo se rasgou
de alto abaixo quando JESUS morreu (Mt 27.51). Nosso escritor, no
entanto, está preocupado com uma realidade espiritual mais profunda.
É um fato consumado que nosso Sumo Sacerdote está “além do véu,” i.é,
na presença direta de DEUS. A estreita conexão entre a esperança cristã
e nosso Sumo Sacerdote exaltado é um dos temas principais desta Epístola.
A esperança é baseada na obra completa, porém sempre contínua,
de JESUS como Sumo Sacerdote.
É descrito primeiramente como precursor (prodromos), palavra que
ocorre somente aqui no Novo Testamento, e que era usada para uma parte
avançada de um exército, de reconhecimento. Um precursor, portanto,
pressupõe outros para seguir. É uma grande inspiração perceber que aquilo
que JESUS fez, fê-lo por nós, declaração que ressalta fortemente o Seu
caráter representativo e que pode, ademais, subentender um papel de
Substituto.
A declaração*final, acerca de Melquisedeque, forma uma ligação com
5.10 e encerra o interlúdio de advertência. O único fator novo é que CRISTO
é sumo sacerdote para sempre, tema desenvolvido na seção seguinte.
(iv) A ordem de Melquisedeque (7.1-28)
1. Até agora, o escritor não deu pormenor algum a respeito de
Melquisedeque.61 Quase toma por certo que seus leitores estarão familia(
61) Uma tradição samaritana sustentava que Melquisedeque foi o primeiro
sacerdote do monte Gerizim. Na literatura de Cunrã Melquisedeque não tinha função
sacerdotal, mas é tanto rei como juiz (cf. Theissen, pág. 18; cf. também M. de
145
HEBREUS 7:1
rizados com ele, embora passe agora a dar uns poucos pormenores históricos
que lhe darão vida, mas isto de modo muito misterioso. Considera que
os pormenores que oferece possuem uma relevância espiritual que vai além
do contexto histórico original. Chega perto da alegorização, sem propriamente
chegar a ela.
Este primeiro versículo é uma declaração de fatos em harmonia
com o relato em Gênesis 14.17-20. Fala da posição de Melquisedeque, tanto
como rei de Salém quanto como sacerdote do DEUS Altíssimo. Esta
combinação entre dignidade real e o sacerdócio revela-se significativa
para o propósito do escritor, conforme demonstram os versículos seguintes.
Não importa par ele a localização de Salém. Há uma forte tradição
que a identifica com Jerusalém. Bruce62 cita as evidências em prol desta
tradição e demonstra que a conexão da etimologia de Jerusalém com shalom
(paz) é bem fundamentada. O escritor, no entanto, está mais interessado
no significado simbólico do nome. O título aqui atribuído a DEUS vale
ser notado, porque é achado não somente em Gênesis 14.18, como também
em Deuteronômio 32.8 e vários outros lugares no Antigo Testamento,
especialmente nos Salmos. Chama a atenção ao caráter exaltado de
DEUS. Qualquer sacerdócio é avaliado de conformidade com a categoria
da divindade que é servida, o que significa que o de Melquisedeque deve
ter sido de um tipo muito exaltado.
O encontro entre Melquisedeque e Abraão é o aspecto que traz aquele
para a história bíblica. Acontece na conclusão da participação de Abraão
num conflito entre duas confederações de reis. A vitória notável de
Abraão, no entanto, não é o que ocupa o interesse do autor, mas, sim, o
fato dele ser abençoado por Melquisedeque, o que imediatamente colocou
este último numa posição de superioridade a Abraão. Isto em si mesJonge
e A. S. van der Woude: “ 11 Q Melchizedek and the New Testament,” NTS
12 (1945-6), págs. 301-326; J. A. Fitzmyer: “Further Light on Melchizedek from
Qumran Cave 11,” JBL 86 (1967), págs. 25-41. Este último acha alguma evidência
para uma função sacerdotal, que aqueles negam). Filo faz uma exposição sobre o tema
de Melquisedeque, mas seu tratamento revela poucos pontos de contato com
Hebreus. Há pouca alegorização nesta Epístola, ao passo que Filo acha oportunidades
extensivas para ela. Cf. o tratamento de Spicq aqui. Segundo Windisch, págs.
61-63, a especulação sobre Melquisedeque em Hebreus foi usada para substituir o
sacerdócio levítico. Entende que é semelhante ao tipo de apocalíptica de Enoque.
Para um tratamento completo deste assunto, cf. F. L. Horton: The Melchizedk Tradition,
1976.
(62) Bruce: Comm., pág. 136, n. 16.
146
HEBREUS 7:1-3
mo teria sido considerado uma alta dignidade pelos judeus cristãos, bem
como pelos judeus ortodoxos, não-cristãos, que tinham altíssima estima
por Abraão (veja o desenvolvimento desta consideração no v. 4).
2. O pormenor adicional a respeito do dízimo que Abraão deu a
Melquisedeque, tirado da narrativa de Gênesis, reforça a superioridade
deste último. Ao fazer assim, Abraão reconheceu o direito de Melquisedeque
de receber este dízimo. Tendo anunciado os fatos históricos, o escritor
passa, então, a fazer uma exposição deles.
O primeiro comentário baseia-se no significado do nome, i.é, rei de
justiça. Este hino de exegese teria um impacto especial sobre os leitores
judeus, para os quais os nomes eram significantes, porque aceitava-se que
os nomes denotavam a natureza bem como a identidade da pessoa. A validade
de “Melquisedeque” como descrição da natureza de JESUS como nosso
Sumo Sacerdote teria apelo imediato ao escritor. Investiria a ordem de
Melquisedeque com uma qualidade especial de justiça. Como Melquisedeque
adquiriu seu nome não é discutido, mas o escritor claramente mencionou
o amor que o Filho tem à justiça (1.9) e isto para ele é a consideração
crucial na sua presente exposição.
O escritor vê significância adicional no nome da cidade do sacerdote-
rei, i.é, paz, outra dedução simbólica daquilo que parece ser fato histórico.
Deve ser reconhecido que sua exegese volta das características conhecidas
de CRISTO para a analogia do Antigo Testamento. Embora não tenha
anteriormente ligado “paz” com JESUS CRISTO, a totalidade da sua apresentação
da obra de CRISTO subentende tal ligação. Há indubitavelmente algum
significado simbólico na ordem em que as características são mencionadas,
porque a justiça deve ser a base de toda a paz verdadeira. Na sua carta
aos Efésios, (2.14), Paulo chama JESUS CRISTO “nossa paz.”
3. É quando o escritor baseia sua exposição no silêncio da Escritura
que seu método de. exegese parece mais estranho aos leitores modernos.63
Porque não há menção da origem nem da morte de Melquisedeque no relato
de Gênesis, o escritor deduz que está sem pai, sem mãe, sem genealogia.
Obviamente tirou da narrativa uma interpretação que não aparece na superfície
do relato de Gênesis. Mas a seqüência do seu pensamento é clara.
(63) Alguns têm considerado que o v. 3 está na forma de um hino. Cf. O. Michel:
Comm., pág. 259. Detecta uma forma semelhante no v. 26. G. Schille: “Erwägungen
zur Hohepriesterlehre des Hebräerbriefes,” ZMW46 (1955), págs. 81-109, no
entanto, vê um hino em três estrofes contido nos w. 1-3. Theiessen: op. cit., págs.
21-22, não apóia este ponto de vista, mas faz sua própria tentativa de reconstruir o
hino subjacente (págs. 24-25).
147
HEBREUS 7:3-4
Diferente dos sacerdotes arônicos para os quais a descendência levítica era
necessária para a elegibilidade ao cargo, a ordem de Melquisedeque é de
um tipo totalmente diferente. Não há histórico do seu pai nem dos seus
filhos. Fica misteriosamente à parte de qualquer necessidade de estabelecer
a sua genealogia. Por esta razão, mais uma vez, é admiravelmente
apropriado para ser comparado com JESUS CRISTO.
Quando, no entanto, o escritor acrescenta que Melquisedeque não
teve principio de dias, nem fim de existência, leva ainda mais longe seu
argumento baseado no silêncio. Tomada literalmente, sua exegese sugeriria
que Melquisedeque deve ter sido um ser celestial,64 e neste caso a narrativa
histórica deve ter sido espiritualizada, porque não há sugestão alguma
na narrativa de Gênesis de que Melquisedeque fosse outra coisa senão
carne e sangue. A idéia de basear a exegese no silêncio é familiar nos escritos
de Filo, e, por si só, não teria parecido estranha aos leitores judaicos.
Mas é um pouco inesperado ver que Melquisedeque é considerado
um sacerdote para sempre, exatamente como o Filho de DEUS.
A verdadeira chave para o método exegético do escritor é achada
na frase feito semelhante ao Filho de DEUS. A palavra traduzida feito
semelhante (aphòmoiòmenos) ocorre somente aqui no Novo Testamento.
É uma palavra sugestiva, usada no ativo para “uma cópia ou modelo
fac-símile” e no passivo para “ser feito semelhante a.” É porque JESUS
CRISTO é da ordem de Melquisedeque que o representante da ordem é visto
como modelo do verdadeiro. Noutras palavras, é o sacerdócio de CRISTO
que é o padrão, não o de Melquisedeque. Esta passagem chega perto
de ser alegórica. Mas o fator importante que o escritor quer estabelecer
é o sacerdócio eterno do Filho de DEUS e não o de Melquisedeque, embora
este último seja subentendido. O que toma perpétua a ordem de Melquisedeque
é que a Escritura nada diz acerca da sucessão. Aquilo que toma
perpétuo o sacerdócio de CRISTO, no entanto, é sua própria natureza. O
cumprimento é mais glorioso do que o tipo. O título Filho de DEUS leva
o pensamento de volta para 4.14, onde JESUS, nosso Sumo Sacerdote tem
este títuto atribuído a Ele (cf. também 6.6 e 10.29, duas passagens de
advertência).
4. A razão para a exposição histórica é fornecer uma comparação
entre Abraão e Melquisedeque. A declaração neste versículo resume este
ponto de vista. Considerai, pois, como era grande esse... Esta exortação
(64) Sobre a preexistência de Melquisedeque, cf. G. R. Hammerton-Kelly:
Pre-existence, Wisdom and The Son o f Man (CUP, 1973), págs. 256ss.
148
HEBREUS 7:4-7
a um estudo especial da grandeza de Melquisedeque é baseada na sua superioridade
à grandeza reconhecida de Abraão. Destacava-se no palco
da história. Agora, surge outros, a quem Abrão oferece um dizimo, ação
esta que demonstra sua estima por Melquisedeque. Mesmo assim, a grandeza
já foi demonstrada nos w. 1-3.
A posição das palavras no texto grego ressalta o contraste, porque
a palavra o patriarca aparece bem no fim, como se fosse para enfatizar a
dignidade daquele que ofereceu os dízimos. A palavra ocorre no Novo Testamento,
fora daqui, somente em Atos 2.29, onde é aplicada a Davi, e
em Atos 7.8, a Jacó e seus filhos. É especialmente apropriada como
título para Abraão, porque era considerado não somente o pai de Israel,
como também de toda a família dos fiéis (Rm 4.11,16).
5. A comparação que o escritor pretende fazer não é entre Abraão
e Melquisedeque, mas, sim, entre Arão e Melquisedeque. São as duas
ordens do sacerdócio que ele tem em mente. Isto explica a referência repentina
a Levi. Todos os sacerdotes arônicos tinham de ser filhos de Levi,
que imediatamente se contrasta com Melquisedeque, que não tinha
descendentes. Os sacerdotes levíticos tinham um direito legal, um mandamento
de recolher, de acordo com a lei, os dízimos do povo. Números
18.26-27 propõe estes direitos. Nosso autor está ocupado somente com
os sacerdotes, embora houvesse disposições especiais para- os levitas nãosacerdotais
(cf. Dt 10.8-9). Na questão de direitos, Melquisedeque era diferente
dos sacerdotes levíticos por ter recebido dízimos, não por mandamento,
mas, sim, pela ação espontânea de Abraão. Nenhuma tentativa
é feita nesta Epístola para explicar porque Abraão deu um dízimo dos
seu despojos. O escritor se contenta em deixar esta questão de lado. O que
o impressiona é a superioridade total de Melquisedeque. Os sacerdotes de
Arão, além disto, cobram dízimos dos seus irmãos, que, como eles, têm
descendido de Abraão. O contraste agora está entre os descendentes de
Abraão e o próprio Abraão. O escritor dá a entender que as ofertas de
Abraão devem ser maiores do que as ofertas feitas por seus descendentes.
Mas este é um contraste válido? O princípio básico parece ser que a
categoria de quem recebe determina a categoria de quem dá, porque quem
recebe é sempre superior a quem dá (conforme declara o v. 7).
6-7. A genealogia era um fator indispensável no sistema sacerdotal
judaico. O escritor obviamente anseia por demonstrar que, embora Melquisedeque
esteja sem genealogia, mesmo assim, recebeu dízimos e abençoou
uma personagem não menor do que o próprio Abraão. Além disto, visto
que Abraão já recebera as promessas de DEUS, a bênção recebida através
149
HEBREUS 7:7-9
de Melquisedeque era um acréscimo que teria sido prezado somente no caso
de, reconhecidamente, vir de uma fonte equivalente. E assim foi mesmo,
porque Melquisedeque era sacerdote do DEUS Altíssimo, cuja bênção
transmite. Vale notar que o tempo perfeito é usado para o recebimento
dos dízimos (dedekatõken) por Melquisedeque, que chama a atenção, não
somente ao evento histórico, como também à sua signiflcância permanente.
O escritor está, por assim dizer, transportando o evento para os tempos
dos próprios leitores para demonstrar a continuidade desta ordem de sacerdócio.
Continua no seu perfeito cumprimento em CRISTO. O escritor sublinha
a superioridade de Melquisedeque a CRISTO no v. 7. Chama-a fora
de qualquer dúvida (chôris pasès antilogias), expressando-se nos termos
mais compreensivos. Espera que seus leitores aceitem esta posição sem
questioná-la. É um elo essencial no seu argumento em prol da superioridade
de Melquisedeque sobre Arão, conforme demonstram as declarações
que se seguem.
8. O contraste entre aqui e ali é uma referência à linhagem de Arão
em contraste com a de Melquisedeque, com um contraste adicional entre
homens mortais e aquele de quem se testifica que vive. Embora a ordem
levítica fosse disposta por DEUS, os sacerdotes eram, afinal das contas,
homens mortais. O máximo que poderim esperar seria uns poucos anos
para o serviço de DEUS. A ordem de Melquisedeque, do outro lado, era
inteiramente diferente, porque o escritor sustenta que sua vida é contínua.
Assim faz, apelando para o texto específico de Gênesis, com a fórmula:
de quem se testetifica (martyroumenos). O verbo ocorre sete vezes
nesta carta. Em duas outras ocorrências (7.17 e 10.15) é usado, como
aqui, em referência a citações diretas do Antigo Testamento. Seu uso aqui
é uma lembrança delicada de que o escritor está baseando sua declaração
numa fonte autorizada.
9-10. O argumento adota uma linha diferente à medida em que o
relacionamento entre Levi e Abraão é exposto. Para um judeu ortodoxo,
a ordem de Arão seria a única ordem sacerdotal autêntica, porque Abraão
não era um sacerdote. Mas o autor sugere que, visto que Levi era um descendente
de Abraão, pode ser dito que já estava nos lombos de Abraão
(ARC). Sente que este método é algo estranho, daí sua fórmula introdutória:
E, por assim dizer (hõs eposepein), uma expressão que não é achada
em nenhum outro lugar no Novo Testamento. Parece estar preparando
seus leitores para um modo de pensar que talvez não lhes seja familiar. A
idéia é claramente que os descendentes de Abraão estão identificados no
seu antepassado e, portanto, que a ordem levítica estava, com efeito, re150
HEBREUS 7:10-11
conhecendo a superioridade de Melquisedeque. A força deste argumento
teria mais impacto em mentes familiarizadas com a idéia da solidariedade,
como era o caso dos hebreus, do que naquelas que estão dominadas pela
idéia da individualidade. Nem o pai nem os filhos poderiam ser independentes
uns dos outros. O pagamento dos dízimos feito por Abraão podia
ser transferido para seu descendente Levi e, a partir dele, para a ordem
inteira do seu sacerdócio. Sem dúvida, o pagamento de dízimos
que Levi fez através de Abraão avoluma-se tão importantemente quanto
seu direito de receber dízimos doutras pessoas, ou talvez até mais importante.
Desta maneira, um equilíbrio delicado é sugerido entre a dívida que
o homem tem para com seu passado e sua responsabilidade pelo presente.
Alguns aspectos da idéia da solidariedade são inescapáveis.
11. Agora que demonstrou a superioridade de Melquisedeque à ordem
levítica, o escritor passa a demonstrar a necessidade de haver um sacerdote
que pertence àquela ordem superior do sacerdócio. A superioridade
pessoal de Melquisedeque não o estabeleceria, por si mesmo, como
substituto de Arão. Alguém poderia imediatamente objetar que a ordem
de Melquisedeque era fogo de palha, por mais misteriosa que fosse, ao
passo que a de Arão era uma linhagem que já havia muito era estabelecida
e respeitada. O escritor antecipa semelhante objeção ao indicar as insuficiências
da linhagem e, portanto, a necessidade de um sucessor em
Melquisedeque. Reconhecidamente, o padrão do escritor não é nada menos
do que a perfeição. A frase condicional: se... a perfeição houvera sido...
que necessidade haveria ainda...?, depende de duas suposições prévias.
Pressupõe que a “perfeição” é um fim desejável, e também pressupõe que
o sacerdócio levitico e com ele a lei não poderia produzir tal perfeição.
A primeira suposição faz parte do fundo básico da Epístola. Até
mesmo as pessoas mais nobres na história de Israel (conforme demonstra
o capítulo 11) não poderiam atingir a perfeição por si mesmas (cf. 11.40).
Todos os anseios do homem por DEUS são uma expressão deste profundo
desejo da perfeição. O sistema levitico era uma disposição especial mediante
o qual os imperfeitos podiam aproximar-se de DEUS por meio de ofertas
vicárias. Não possuía dentro de si mesmo o poder de aperfeiçoar os adoradores.
A lei não tinha nenhum mandato para um alvo tão positivo. Tem sido
sugerido que a legislação divina não poderia ter outra finalidade senão
a perfeição (assim Westcott). Mas os argumentos de Paulo em Romanos
7.7ss. são suficientes para demonstrar que, na prática, a lei trazia somente
a frustração. A lei, na realidade, nada mais poderia fazer senão revelar as
faltas do homem. A necessidade de sucessor de Melquisedeque, portanto,
151
HEBREUS 7:11-14
baseia-se na incapacidade da ordem de Arão de produzir a perfeição. É
bem possível, conforme indica Bruce, que a vinculação da perfeição com
a ordem levítica teria sido inteligível somente para os leitores judeus, que
talvez ainda estivessem inclinados, depois da sua conversão ao cristianismo,
a ver algum valor no ritual antigo.65
12. A estreita conexão entre o sacerdócio arônico e a Lei é ressaltada
outra vez. Tendo em vista a santidade da Lei nas mentes judaicas, havia
real dificuldade em aceitar qualquer outro sacerdócio do que o de
Arão, e este é o problema que o escritor tem em mente ao sustentar que
um sacerdócio diferente envolve uma lei diferente. Somente assim poderia
apoiar a ordem de Melquisedeque. Pensa de um modo muito semelhante
ao argumento usado por Paulo em Romanos no sentido de que a promessa
a Abraão antecedeu a outorga da lei em cerca de quatrocentos anos.
O escritor aqui está argumentando hipoteticamente, porque a própria lei
não pode ser alterada. Tem primariamente em mente a lei que afeta o sacerdócio
arônico.
13. Porque aquele, de quem são ditas estas coisas refere-se ao versículo
11, anterior, onde está em mente um sucessor de Melquisedeque —
uma alusão preparatória a JESUS CRISTO que é introduzido no versículo seguinte
como “nosso Senhor.” Este modo um pouco indireto de argumentar
era necessário para justificar a identificação como sacerdote de alguém
que pertence a outra tribo, i.é, a tribo de Judá. Ninguém desta tribo já
exercera o cargo sacerdotal. Mais uma vez, o escritor está prevendo objeções
à sua tese principal de JESUS como sumo sacerdote superior a Arão. O
fato de que se dá tanto trabalho com cada pormenor do seu argumento
demonstra a importância que atribuía à totalidade do seu tema sumo-sacerdotal.
14. As palavras pois é evidente subentendem que era bem conhecido
a qual tribo nosso Senhor pertencia. Mesmo assim, somente aqui e em
Apocalipse 5.5 é que especificamente se diz que Ele pertencia a esta tribo,
embora seja subentendido na narrativa do nascimento registrado em
Mateus (2.6). Isto sugere que a descendência do Senhor de Judá era uma
parte reconhecida da tradição. As genealogias em Mateus e Lucas apoiariam
este fato. Além disto, o fato de que muitas vezes JESUS é mencionado
no Novo Testamento como Filho de Davi é testemunho adicional, porque
Davi era o representante mais ilustre da tribo de Judá. A palavra usada
aqui para a descendência, “procedeu” (anatetalken) às vezes é usada
(65) Cf. Bruce: Comm., pág. 144.
152
HEBREUS 7:14-16
para uma planta que brota da sua semente, e às vezes para o levantar do
sol. Ao passo que o versículo anterior apela ao costume do passado que
excluía Judá, este versículo termina com um apelo ao silêncio de Moisés
acerca de sacerdotes da tribo de Judá. Para aqueles que consideravam
conclusivo o testemunho de Moisés, esta era uma dificuldade considerável,
mas é contrabalançada pelo apelo adicional ao testemunho do Salmo
110 (v. 17).
15. O escritor volta ao pensamento da ordem de Melquisedeque.
Assim diz porque sua mente está fixa em outro sacerdote (i.é, JESUS CRISTO).
A combinação entre a descendência de Judá e a semelhança de Melquisedeque
é considerada uma base suficiente para um novo tipo de sacerdócio.
Neste versículo, as primeiras palavras: E isto é ainda muito mais
evidente, demonstram que o pensamento do escritor remonta do sacerdócio
de CRISTO, que considera indisputável, para a existência de uma ordem
anterior que o acomodaria. É importante levar isto em conta no curso
da sua exposição. O direito de CRISTO ao cargo sacerdotal baseia-se em
fundamentos totalmente diferentes do sacerdócio levítico. O direito
dEle é inerente, e transcende as qualificações tribais e acha um paralelo
numa figura misteriosa fugaz do período patriarcal. Realmente, uma
mudança aqui da “ordem” para a semelhança é significante, porque indica
que em certo sentido Melquisedeque era considerado na sua pessoa
um prenúncio do seu sucessor que Arão nunca foi. Aqui há, sem dúvida,
um eco da sua origem e destino misteriosos já mencionados no v. 3 e ressaltados
especificamente outra vez no v. 16.
16. Ao passo que no versículo anterior outro sacerdote “se levanta”
(anistatai), aqui diz que é “constituído (gegonen), sacerdote, referindo-
se à Sua aceitação histórica do cargo. O sacerdócio de CRISTO está inextricavelmente
ligado com a Sua encarnação. Conforme já foi indicado nesta
carta, é elegível para ser sacerdote do Seu povo somente porque compartilha
da natureza deste (2.17-18).
Um duplo contraste é visto aqui. .4 lei do mandamento é contrastada
com o poder, e a descendência camal com a vida indissolúvel. O primeiro
contraste é entre a obrigação externa e a dinâmica interna que imediatamente
coloca a nova ordem de sacerdócio numa base diferente. A exigência
da lei concentrava-se na hereditariedade mais do que na qualidade pessoal.
Por melhor que tenha sido o cargo sacerdotal, não poderia ser garantido
que os descendentes de Arão seriam dignos dele. Faltava a idéia de
poder pessoal interior. No caso de JESUS CRISTO não era assim. Ele era a
concretização do poder vivo. A palavra traduzida camal (sarkinês) literal153
HEBREUS 7:16-18
mente significa “pertencente à carne ou feito da carne,” usado no Novo
Testamento em contraste com “espiritual” (pneumatikos), como, e.g.,
em 1 Coríntios 3.1. É essencialmente mortal, em contraste com indissolúvel
(akatalytou, incapaz de ser dissolvido). Esta é simplesmente uma reafirmação,
em palavras diferentes, da superioridade de CRISTO sobre o sacerdócio
de Arão, mas com ênfase especial dada à continuidade de CRISTO em
comparação com a sucessão constante causada pela morte de Arão, fato
este que é exposto ainda mais nos w. 23ss.
Embora nosso Sumo Sacerdote tenha morrido, e embora Sua morte
fizesse essencialmente parte do Seu cargo sacerdotal, ainda pode ser descrito
como sendo indissolúvel. A morte não poderia segurá-Lo. Seu cargo
sumo-sacerdotal continua em virtude da Sua vida ressurreta. Se não houvesse
outra razão, este fato por si só O colocaria incomensuravelmente acima
de todos os sacerdotes da linhagem de Arão.
17. Mais uma vez a citação do Salmo 110, que pode ser descrita como
a melodia temática desta parte da Epístola, é repetida (cf. 5.6). Aqui,
é introduzida com a frase: Porquanto se testifica, que forma um estreito
paralelo com 7.8. Como ali, acrescenta uma nota de autoridade, tirada
das palavras exatas da Escritura. A razão da repetição da citação aqui e'
chamar a atenção às palavras para sempre, que apóiam diretamente a reivindicação
da vida indestrutível feita no versículo anterior.
18-19. Em certo sentido, os w. 16-17 podem ser considerados um
interlúdio, porque os versículos seguintes continuam o tema do v. 15. Há
uma declaração contrastante em duas partes, com um comentário parentético
entre elas. Por um lado introduz a primeira parte, que tem a ver com a
fraqueza da lei no que diz respeito ao sacerdócio. As palavras traduzidas
anterior ordenança não se referem meramente a um mandamento cronologicamente
anterior, mas também a um que preparava um melhor. Tomou
o anterior desnecessário, portanto. Três declarações são feitas acerca do
mandamento: (i) é fraco; (ii) é inútil; (iii) é revogado. Embora a lei tenha
cumprido uma função vital, sua fraqueza essencial era que não podia dar
vida e vitalidade até mesmo àqueles que a guardavam, e muito menos àqueles
que não a guardavam. Na realidade, sua função não era fornecer
forças, mas, sim, fornecer um padrão mediante o qual o homem pudesse
medir sua própria categoria moral. Um sacerdócio baseado num potencial
tão limitado deve necessariamente compartilhar das mesmas limitações.
Sua inutilidade não deve ser considerada no sentido de estar completamente
sem valor, mas, sim, no sentido de ser ineficaz para fornecer um
meio constante de aproximação a DEUS baseado num sacrifício totalmen154
HEBREUS 7:19-20
te adequado (consideração esta que será elaborada adiante). É por causa
destas duas características, a fraqueza e a inutilidade, que o escritor considera
o mandamento revogado (athetêsis), palavra esta que ocorre outra
vez em 9.26 no sentido de colocar de lado (“aniquilar”) o pecado. Não há
dúvida de que o escritor não quer dizer aqui que a própria lei é anulada,
mas que pode ser descontada como meio de chegar à perfeição. Esta é a
razão para o parêntese no começo do v. 19. É característica da lei — não
meramente da lei mosaica, mas de toda a lei — que nunca aperfeiçoou coisa
alguma. Tudo quanto podia fazer era focalizar a imperfeição. De fato,
a lei mosaica ia além, e demonstrava na sua aplicação que a perfeição era
impossível. Apesar disto, o impacto inteiro do argumento nesta Epístola
é que o homem deve esforçar-se em prol da perfeição.
A parte contrastante da declaração, por outro lado (de), fixa-se no
tema da esperança, notavelmente ausente da abordagem legalista. Além
disto, a esperança é descrita como sendo melhor, um comparativo já encontrado
em 1.4; 6.9; 7.7 e ligada aqui no versículo 22 com uma aliança
melhor. Surge a pergunta: em qual sentido a esperança introduzida por
CRISTO é melhor? A declaração significa que Sua esperança é melhor do
que a esperança trazida pelo mandamento, ou significa melhor do que o
próprio mandamento? Este último ponto de vista se adaptaria bem ao
contexto em que a fraqueza e inutilidade do mandamento já foram ressaltadas
— não o tipo de coisa que oferece muita esperança. A palavra
esperança é outra característica desta Epístola (veja os comentários sobre
3.6; 6.11, 18 e 10.23; também o uso do verbo em 11.1), embora ocorra
muito mais freqüentemente em Paulo (31 vezes). A idéia da esperança
como meio mediante o qual nos chegamos a DEUS continua o pensamento
de 6.19, que menciona o tipo de esperança que até mesmo penetra
além do véu, i.é, em aproximação direta com DEUS. Vale notar que a aproximação
a DEUS da parte do homem ocorre como a exortação final da
parte doutrinária da Epístola (10.22). A despeito de um conceito impressionante
de DEUS em 12.29, ainda há o encorajamento para aproximar-se
em adoração. Somente um sistema melhor do que o velho poderia estimular
semelhante encorajamento.
20-21. Outra distinção entre os sacerdotes arônicos e a ordem de
Melquisedeque é que para esta última, era necessário um juramento para
estabelecer quem exerceria o mesmo tipo de sacerdócio, ao passo que para
aqueles, nenhum juramento assim foi dado. O argumento parece depender
do fato de que quando DEUS acrescenta um juramento à Sua própria
palavra a questão fica duplamente garantida (cf. 6.18). Comparado com is155
HEBREUS 7:21-25
to, a ordem levítica dependia somente da lei. O escritor está convicto de
que isto demonstra a superioridade de Melquisedeque, também porque está
baseado na Escritura. Quando diz: mas este, com juramento, refere-se
à citação anterior no v. 17, mas agora cita a primeira metade do Salmo
110.4 que anteriormente omitira. O juramento, no Salmo, é ligado diretamente
com a imutabilidade de DEUS. Aqui o pensamento é repetido, a fim
de impressionar sobre os leitores a autoridade que subjazia esta exposição
do tema sumo-sacerdotal.
22. Numa declaração resumida que reitera a lição principal da discussão,
JESUS mais uma vez é mencionado pelo nome (a última vez foi
6.20). Além disto, no texto grego o nome fica na posição enfática no
fim da frase. É claro que o significado especial deve ser atribuído ao uso do
nome humano aqui, posto que é como o representante perfeito do homem
que Ele Se toma Fiador (engyos). Esta palavra não ocorre noutro lugar do
Novo Testamento. É comum nos papiros, nos documentos legais, no sentido
de um penhor ou em referência à fiança. Quando o pai dá o consentimento
ao casamento da sua filha, presta fiança do dote (veja MM). No presente
caso, o fiador tem relacionamento com a aliança e não diretamente
com o homem. Visto que a aliança no sentido bíblico é um acordo iniciado
por DEUS, o Fiador (i.é, JESUS) garante que aquela aliança será cumprida.
No capítulo seguinte o escritor delonga-se sobre a idéia da nova aliança,
e é claro que é ela que tem em mente ao falar de superior aliança. A antiga
aliança estava estreitamente vinculada com a lei e com a ordem levítica. A
nova aliança oferece uma esperança superior (v. 19) e sem dúvida alguma
tem um Sumo Sacerdote melhor.
23-24. A continuidade do sumo-sacerdócio de JESUS já foi ressaltada,
mas o escritor não pode deixar o assunto sem reiterar o contraste entre
aqueles... sacerdotes (a linhagem de Arão) e JESUS. A multiplicidade da
linhagem de Arão era inevitável porque todos eles são impedidos pela morte
de continuar no exercício do cargo. Era o cargo que continuava, e não
a pessoa. Por via de contraste, JESUS tem o seu sacerdócio imutável, i.é,
é inviolável. Alguns comentaristas têm procurado entender a palavra no
sentido de “intransferível,” mas este não é o sentido técnico da palavra.
Embora JESUS, nosso Sumo Sacerdote, tenha morrido, Seu sacerdócio não
cessou, nem foi passado adiante para outras pessoas, porque Sua morte
não foi um ato definitivo. Foi eclipsada por Sua ressurreição (continua para
sempre), separando-O, assim, de todos os demais sacerdotes.
25. Aqui, o resultado do sumo-sacerdócio inviolável é especificamente
declarado como sendo Sua capacidade contínua de salvar. Teria si156
HEBREUS 7:25-26
do totalmente diferente se Seu cargo sumo-sacerdotal tivesse sido apenas
temporário. Realmente, a força inteira do argumento nesta Epístola depende
da continuidade do cargo de JESUS. A capacidade de JESUS CRISTO
já fora focalizada antes nesta Epístola, mas em nenhum lugar tão compreensivamente
quanto aqui. Em 2.18, tratava-se da Sua capacidade de
ajudar, em 4.15 da Sua capacidade de simpatizar, mas aqui, da Sua capacidade
de salvar. A salvação já foi mencionada, mas somente aqui é que
o verbo usado é aplicado a JESUS. Assim fica mais pessoal. Mas fica sendo
ainda mais compreensivo pelo fato de que Sua capacidade de salvar é, segundo
é declarado aqui “para todo o tempo” (eis to panteles). O grego
geralmente significa totalmente (ARA), mas um significado temporal
é justificado pelos paralelos nos papiros (MM). O significado parece
ser que, enquanto o Sumo Sacerdote funcionar, é poderoso para salvar,
pensamento este que é reforçado pelas palavras vivendo sempre (pantote
zòn).
Os que por ele se chegam a DEUS já foram referidos no v. 19, embora
um verbo diferente seja usado aqui. Há uma conexão recíproca entre a capacidade
de JESUS se salvar e a disposição do homem de vir. Nenhuma provisão
é feita para aqueles que vêm por qualquer outra maneira senão através
de JESUS CRISTO. Este escritor compartilha com os demais escritores
do Novo Testamento a convicção de que a salvação é inseparável da obra
de CRISTO.
Nesta carta, a obra intercessória de CRISTO já foi aludida de modo
indireto. Sua simpatia e Sua ajuda estão em harmonia com esta obra, mas
é nesta passagem que é ressaltada mais claramente. A palavra para interceder
(entynchanein) não ocorre em qualquer outro lugar nesta Epístola,
mas é usada por Paulo para a intercessão do ESPÍRITO (Rm 8.27) e para a
intercessão de CRISTO (Rm 8.34). A função do nosso Sumo Sacerdote é
pleitear a nossa causa. Isto, também, Ele pode fazer de modo mais eficaz
do que Arâo ou qualquer dos descendentes deste poderia fazer. Este ministério
intercessório de CRISTO demonstra Sua atividade atual em prol do
Seu povo e é uma continuação direta do Seu ministério terrestre.
26. Aqui o escritor passa a resumir algumas daquelas qualidades que
são características específicas de um sumo sacerdote ideal e que são vistas
perfeitamente em JESUS CRISTO.
Anteriormente nesta Epístola o escritor usou a mesma fórmula -
convinha (eprepen) que é usada aqui, i.é, em 2.10. Nos dois casos referese
à perfeição das atividades de JESUS CRISTO. Aqui, subentende que nenhum
outro tipo de sumo sacerdote cumpriria as exigências. Este fato
157
HEBREUS 7:26
não somente se aplica às qualidades que serão mencionadas, como também
àquelas já mencionadas no v. 25, porque a palavra de ligação (grego
gar) com efeito olha para trás e para a frente. É tomado por certo que a
declaração acerca do sumo sacerdote é relevante somente para os cristãos,
conforme subentende o nos (hèminj. Não parece ser apropriado para todos,
mas somente àqueles que se chegam a DEUS mediante JESUS CRISTO (como
no v. 25).
Em primeiro lugar, são mencionadas três características pessoais do
sumo sacerdote ideal, sendo que todas elas estão estreitamente ligadas entre
si — santo, inculpável, sem mácula. A primeira refere-se à santidade pessoal.
Tem um aspecto positivo, um cumprimento perfeito de tudo quanto
DEUS é e tudo quanto Ele requer, um caráter que nunca poderá ser acusado
de erro ou de impunidade. As outras qualidades dizem respeito ao impacto
do seu caráter sobre outras pessoas. Ninguém pode acusá-lo de apostasia
moral ou de corrupção. A palavra inculpável (akakos) significa “inocente”
no sentido de não ter dolo, ao passo que a palavra sem mácula
(amiantos) significa “incontaminado.” As três palavras se combinam entre
si para oferecer um quadro completo da pureza de nosso Sumo Sacerdote.
Ele não somente é inerentemente puro, como também permanece
puro em todos os Seus contatos com os homens pecaminosos.
Ao passo que anteriormente na Epístola o escritor deu-se ao trabalho
de ressaltar a identificação de JESUS CRISTO com Seus “irmãos,” aqui enfatiza
que estava separado dos pecadores. Isto é verdadeiro em dois sentidos.
Seu caráter isento de pecado imediatamente O coloca à parte doutros homens,
sendo que todos eles são pecadores. Além disto, Seu cargo também
0 coloca à parte, porque somente o sumo sacerdote, até mesmo na ordem
levítica, tinha licença de entrar no SANTO dos Santos, e isto somente depois
de purificar seu próprio pecado. É um aspecto principal do Novo Testamento
que JESUS CRISTO, a despeito da Sua semelhança aos homens, não
deixa de ficar acima deles, de ser sem igual. É somente quando esta singularidade,
é reconhecida que a plena glória do ministério de JESUS em prol dos
homens pode ser apreciada.
A expressão feito mais alto do que os céus descreve a posição presente
de nosso Sumo Sacerdote e relembra a declaração em 1.3 acerca dEle
assentado à destra da Majestade nas alturas. Há muitas passagens no Novo
Testamento que são paralelos deste pensamento (cf. Ef 4.10; At 1.10-11;
1 Pe 3.22). A exaltação de JESUS é vividamente ressaltada por Paulo em
Filipenses 2.9. Em contraste com a glória limitada do sacerdócio levítico,
158
HEBREUS 7:27-28
a glória de CRISTO acha-se na Sua exaltação etema. Não há ninguém comparável
a Ele.
27. Sua superioridade aos sacerdotes arônicos é vista, ainda mais,
no fato de que nenhum sacrifício diário (todos os dias) é necessário nem
para Ele nem para Seu povo. Suige um problema a respeito da aplicação
da expressão todos os dias (kath hémeran) aos sacerdotes arônicos, porque
se o escritor tem em mente o ritual do Dia da Expiação, este era realizado
somente uma vez ao ano, e não diariamente. Bruce66 pensa que a oferta
ocasional pelo pecado talvez estivesse na mente do nosso autor quando usou
a expressão “todos os dias.” Do outro lado, Davidson67 considera que o
Dia da Expiação resume todas as ofertas ocasionais no decurso do ano. Mas
o problema pode ser resolvido ao restringir as palavras ao ministério de JESUS,
e neste caso as palavras acompanhantes com os sumos sacerdotes se
refeririam somente à necessidade de os sacerdotes oferecerem sacrifícios.
A frase inteira pode, entao, ser traduzida: “Ele não tem necessidade, no
Seu ministério diário, de oferecer sacrifícios por Si mesmo como faziam
aqueles sacerdotes...” Este modo de entender a expressão todos os dias estaria
de acordo com as declarações anteriores já feitas no v. 25 acerca do
caráter contínuo da intercessão de CRISTO. O fato de que o sumo sacerdote
arônico precisava de um sacrifício tanto para ele quanto para seu povo
demonstra uma nítida distinção da ação de CRISTO, que a si mesmo se ofereceu
uma vez por todas. O sacrifício no caso dEle não era para Si mesmo,
porque não tinha pecado algum. Além disto, o sacrifício era uma vez por
todas, e não precisava de repetição. É importante notar que a razão da
diferença é achada exclusivamente no caráter do Sumo Sacerdote e não no
Seu cargo.
28. Aqui temos um resumo dos dois versículos anteriores. O contraste
entre as duas ordens é resumido como sendo um contraste entre a
lei e o juramento. Trata-se de tirar uma conclusão do argumento a partir
de 6.13ss. Diz-se que os dois constituem, embora fique claro que esta nomeação
vem da parte dAquele que constituiu tanto a lei quanto o juramento.
A diferença aqui é explicada pela diferença do caráter daqueles que
foram nomeados. Homens sujeitos à fraqueza contrasta-se fortemente com
o Filho, perfeito para sempre, especialmente porque a natureza humana do
Filho já foi ressaltada mais de uma vez nesta Epístola. A lei somente podia
usar o tipo de pessoa disponível para o cargo de sumo sacerdote, e
(66) Bruce: Comm., pág. 157.
(67) Davidson: Comm., pág. 144.
159
HEBREUS 7:28-8:1
quem era escolhido sofria das fraquezas que todos os homens têm em comum.
Isto inevitavelmente fazia o sistema legal de sumos sacerdotes igualmente
fraco. O propósito do escritor, no entanto, não é censurar a ineficácia
da linhagem de Arão, mas, sim, glorificar a superioridade da de CRISTO.
A ordem de Melquisedeque, estando livre dos embaraços de sucessão
humana, estava isenta da fraqueza inerente no sistema de Arão, e podia
ser concentrada numa única pessoa sem igual.
A declaração acerca da palavra do juramento, que foi posterior à
lei parece surpreendente à primeira vista, tendo em mira 6.13ss. que demonstra
que o juramento foi feito a Abraão. Este juramento, portanto,
antecede a lei em vários séculos. Mas aquilo que o escritor evidentemente
tinha em mente aqui é a nomeação de CRISTO para o cargo de Sumo
Sacerdote, que historicamente coloca-o séculos depois da lei. 0 escritor
pode ter sido influenciado pela referência ao juramento no Salmo 110,
já citado nos w. 20-21. O pensamento principal, no entanto, diz respeito
à perfeição, introduzida na Epístola pela primeira vez em 2.10. Com o
Sumo Sacerdote perfeito, o cargo fica sendo permanente, porque nada
há para tomá-lo inválido. O cristão pode aproximar-se com confiança, visto
que tem tal Sumo Sacerdote.
(v) O ministro da Nova Aliança (8.1-13)
1. Visto que o escritor já discursou com bastante detalhes a respeito
de CRISTO como Sumo Sacerdote, pode-se querer saber o que ainda falta
para sua exposição. Por enquanto, porém, não explicou como nosso Sumo
Sacerdote leva a efeito Seus deveres. Este é realmente o tema dos
próximos dois capítulos e meio (até 10.18), mas outra questão importante,
a Nova Aliança, é introduzida no decurso da discussão. No presente
capítulo, o ministério de JESUS e a necessidade de uma nova aliança
estão ligados entre si. A frase inicial revela o essencial da discussão anterior
(Ora, o essencial das coisas que temos dito, é que...). A palavra poderia
significar “resumo”, mas o contexto revela que “essencial” é melhor,
porque o enfoque recai sobre aquilo que o Sumo Sacerdote tem para oferecer
e onde realiza seu ministério.
Em primeiro lugar, no entanto, é dada uma declaração breve acerca
das características peculiares do nosso Sumo Sacerdote, (i) Ele se assentou
à destra do trono da Majestade nos céus. Esta consideração já foi
feita em 1.3 a respeito do Filho, mas agora é repetida com aplicação direta
ao tema sumo-sacerdotal. Isto demonstra quão cuidadosamente o escritor
trabalhou sua tese, constantemente dando indícios que são jóias
160
HEBREUS 8:1-3
em si mesmos, mas que reluzem com novos significados quando são vistos
contra um pano de fundo diferente. Na verdade, esta idéia de CRISTO
assentado ocorre outra vez em 10.12 e 12.2. Sjignifica uma obra feita bem
e verdadeiramente. A idéia é baseada no Salmo 110.1. À parte da presente
declaração e a redação paralela em 1.3, o único outro lugar onde o termo
Majestade é usado é Judas 25, onde ocorre como um atributo de DEUS,
mas não como um título. O fato de que nosso Sumo Sacerdote está sentado
à destra de DEUS ressalta Sua categoria em comparação com a linhagem
de Arão, cujos sacerdotes somente podiam ficar de pé na presença
de DEUS, sendo que sua tarefa nunca estava definitivamente completa.
2. A segunda característica é que (ii) é ministro do santuário e do
verdadeiro tabernáculo. Isto parece estranho à primeira vista, porque
segue o ato de sentar-Se. Chama a atenção, no entanto, à obra contínua
de CRISTO. A palavra traduzida “ministro” (leitourgos) ocorreu uma vez
antes nesta Epístola em 1.7, referindo-se aos anjos numa citação de Salmo
104.4. Paulo usa a palavra para seu próprio ministério cristão (Rm
15.16) e para o serviço de Epafrodito (Fp 2.25). Até mesmo a usa para
as autoridades seculares em Romanos 13.6. No presente contexto, no
entanto, o ministério em vista diz respeito especialmente às coisas santas,
conforme demonstra o contexto. O santuário (tòn hagiòn) pode ser especialmente
entendido a respeito do SANTO dos Santos, como em 9.3. A conexão
entre este e a idéia da tenda (tabernáculo) é significante, porque
demonstra que a base da linguagem figurada do escritor não é o Templo,
mas, sim, o tabernáculo. O adjetivo verdadeiro visa formar um contraste
com o símbolo terrestre. O lugar do ministério de CRISTO é real e espiritual,
comparado com o ministério da linhagem de Arão num tabernáculo
meramente temporário. Mais uma vez, é ressaltado um contraste entre o
aparente e o real, sendo que aquele é erigido pelo homem, ao passo que o
último é erigido pelo Senhor.
3. A função principal dos sumos sacerdotes terrestres agora é transferida
para nosso Sumo Sacerdote. O escritor deseja demonstrar que CRISTO
cumpre as funções usuais do cargo, mas de uma maneira muito melhor
do que a linhagem de Arão as cumpriu. A declaração: Pois todo sumo sacerdote
é constituído, é um eco exato de 5.1, mas ao passo que a nomeação
ali é para um propósito de representação, aqui é mais especificamente
para oferecer dons e sacrifícios, i.é, no cumprimento da respectiva função.
Estes sacrifícios são uma alusão direta às ofertas levíticas e possivelmente
tenham principalmente em vista o Dia da Expiação. Haverá uma exposição
mais completa deste último no capítulo seguinte. Aqui, o propósito
161
HEBREUS 8:3-5
imediado é comentar sobre o sacrifício espiritual que nosso Sumo Sacerdote
ofereceu. A esta altura, a oferta não é definida, mas o escritor já demonstrou
em 7.27 que o sacrifício era o próprio CRISTO, e expande esta
idéia posteriormente. Fala da necessidade de nosso Sumo Sacerdote fazer
uma oferta.68 Esta é a única ocorrência no Novo Testamento onde a palavra
aqui traduzida necessário (anankaios) é usada a respeito de CRISTO. É
usada para a obra necessária de qualquer sumo sacerdote, mas tem um
significado mais profundo quando é aplicada a CRISTO, porque havia uma
necessidade divina para Ele Se oferecer como sacrifício. Deve ser notado,
além disto, que o princípio da oferta sacerdotal é expresso numa forma
impessoal — o que (ti) - que se toma pessoal somente quando é aplicada
à oferta do próprio CRISTO.
4. Ocorre ao escritor que talvez suija alguma confusão na mente dos
seus leitores a respeito da co-existência de duas ordens de sacerdócio. Passa,
portanto, a demonstrar que o sacerdócio de JESUS não foi estabelecido
na terra. A consideração principal que está fazendo é que é impossível para
JESUS cumprir as condições, quer na questão da genealogia, quer na natureza
exata dos dons, que estão estipuladas na Lei Mosaica. Assim passa
à sua tese de que o sacerdócio superior é aquele que opera no céu, não
na terra. Esta linha de argumento faz uma grande contribuição na direção
de explicar porque JESUS nunca cumpriu nenhuma função sacerdotal durante
o Seu ministério. Mas deve ser notado que embora Sua obra sumosacerdotal
esteja no céu, Seu sacrifício de Si mesmo ocorreu na terra. O
ministério terrestre deve ser considerado a preparativa para a obra celestial.
O versículo seguinte explica a base da conexão entre o culto levítico
e a obra de CRISTO.
5. A tese que subjaz esta Epístola está baseada na existência dalguma
correspondência entre o culto ritual em Levítico e a obra espiritual
de CRISTO, mas o movimento sempre é do menor para o maior. As duas palavras
empregadas aqui para expressar a idéia — figura (hypodeigma) e
sombra (skia) - igualmente subentendem uma realidade mais profunda
por detrás daquilo que é visto. Uma cópia de uma grande obra-prima de
(68) Westcott: Comm., ad. loc., rejeita com razão o conceito de que CRISTO
continua a oferecer sacrifícios. Semelhante pensamento é estranho ao ponto de
vista do autor de que a oferta de CRISTO é completa (de uma vez para sempre). Montefiore:
Comm., pág. 134, demonstra que a idéia de uma oferta de sangue no
céu também era estranha ao judaísmo helenístico, que postulava ofertas de um tipo
diferente. Somente mais tarde, no judaísmo cabalístico, é que surge a idéia de
um sacrifício literal no céu.
162
HEBREUS 8:5-6
arte não é o objeto legítimo, mas dá alguma ide'ia de como é o original.
A semelhança é incompleta e não é até que seja visto o original que a
glória inteira é reconhecida. De modo semelhante, uma sombra não pode
existir na realidade a não ser que haja um objeto para lançá-la. Há alguma
correspondência, mas a sombra é inevitavelmente um quadro distorcido
e quase sem detalhes do verdadeiro. O propósito do escritor não é
reduzir a glória da sombra, mas ressaltar a glória da sua substância. 0 que
está especialmente em mente é “o santuário celeste” (epouraniõn). Somente
a palavra “celestes” aparece no grego, no entanto, e é melhor,
por isso, tratá-la de modo geral como sendo coisas celestiais (ARA), sendo
que a palavra “tabernáculo” é subentendida a partir do v. 2, e pelo
uso da palavra skènè (“tenda, tabernáculo”) tanto ali quanto aqui. Fica
especialmente evidente a partir da declaração acerca de Moisés que é o
pano de fundo bíblico, e não o pano de fundo do judaísmo, com seu
Templo central, que está em mente.
A mente do autor remonta a Êxodo 25.40, onde é citada a instrução
de DEUS a Moisés. No judaísmo alexandrino a mesma passagem de
Êxodo era exposta de acordo com princípios platônicos, em que o tabernáculo
que foi construído era considerado apenas uma cópia imperfeita
daquele que existia no céu, que o próprio Moisés viu. O tabernáculo
na terra era apenas uma sombra da realidade.69 Mas porque o escritor
desta Epístola cita a passagem a esta etapa do argumento? Talvez tenha
suposto que seus leitores não tivessem familiaridade com o fato de que
DEUS dera instruções exatas acerca dos pormenores do tabernáculo, mas
isto parece improvável. É mais provável que quisesse lembrar os seus leitores
de que até mesmo a sombra foi minuciosamente ordenada por DEUS,
a fim de que pudesse demonstrar a maior excelência do santuário celeste.
Além disto, se DEUS ordenou os pormenores do modelo (typosj, seu significado
simbólico é assegurado. Todos os pormenores meticulosos no relato
do Êxodo teriam pouco propósito se algum antítipo melhor não estivesse
sendo prenunciado por eles. A palavra traduzida instruído (kechrèmatistaij
neste versículo não é geralmente usada no Novo Testamento,
mas, sim, refere-se a um oráculo divino, uma palavra autorizada que precisa
ser obedecida. O sacerdócio arônico e as disposições para eles não
vieram a existir por acidente,«ias por desígnio.
6. Declara-se aqui que o ministério de CRISTO é tanto mais excelente
(diaphotõteras), termo este que já ocorreu em 1.4. Pode ser considera(
69) Montefiore: Comm., págs. 136-7.
163
HEBREUS 8:6-8
da um tipo de palavra-chave para expressar a superioridade de CRISTO nesta
Epístola, especialmente porque nas suas ocorrências é ligada com a palavra
superior. Neste contexto há um paralelo entre o novo ministério e o
antigo, e entre a nova aliança e a antiga. O escritor pretende expor a superioridade
da nova aliança, mas por enquanto está ocupado em demonstrar
que o ministério deve ser proporcional à aliança de conformidade com a
qual é estabelecido. O ministro é um mediador da aliança. Seu ministério
é visto no contexto da aliança, o que explica porque o escritor mudou
repentinamente para o tema da nova aliança. A idéia de mediar uma aliança
também será exposta mais plenamente no capítulo seguinte (9.15ss.).
Posto que uma aliança envolve duas partes contratantes, o mediador é
intermediário cuja tarefa é manter as partes em comunhão uma com a
outra. Num caso em que DEUS é uma das partes e o homem é a outra,
a idéia da aliança é inevitavelmente unilateral. A apostasia é sempre do
lado do homem, e, portanto, a tarefa do mediador é principalmente agir
em prol do homem diante de DEUS, embora também deva agir em prol
de DEUS diante dos homens.
A base do ponto de vista de que a nova aliança é melhor do que a
antiga é que é instituída com base em superiores promessas. Mas em que
sentido esta expressão deve ser entendida? Subentende que ambas eram
baseadas em promessas, mas que havia uma diferença qualitativa entre as
duas na natureza das promessas. Este ponto de vista, no entanto, é difícil,
se todas as promessas de DEUS são igualmente invioláveis. É preferível,
portanto, entender que “superior” refere-se ao propósito espiritual mais
sublime inerente na nova aliança, e.g., a idéia da lei escrita sobre o coração
(v. 10). As promessas que podem fazer assim devem ser melhores do que
promessas que somente podem levar à codificação da lei antiga (i.é, a lei
de Moisés).
7. É o fracasso da primeira aliança que fornece a necessidade da segunda.
Quando o escritor dá a entender que a primeira aliança não estava
sem efeito, não está sugerindo que a lei estava defeituosa, mas somente
que a experiência do homem sob a lei era defeituosa. Se, na realidade, a
lei tivesse sido a resposta à necessidade do homem, não teria havido necessidade
alguma de uma nova aliança. Esta declaração é o sinal para o
escritor citar uma passagem extensiva de Jeremias a fim de explicar sua
abordagem à nova aliança.
8. A função da lei na procura de falhas é claramente ressaltada
nesta citação de Jeremias 31.31-34, que é introduzida pela palavra característica
diz (legei). Isto, como já foi notado, indiretamente faz com
164
HEBREUS 8:8-9
que as palavras da Escritura sejam as palavras faladas por DEUS. Esse escritor
não está interessado em declarar o nome do profeta, porque para ele
o fator crucial e' a autoridade divina por detrás da idéia que está transmitindo.
A tríplice repetiçSo de diz o Senhor nesta citação reafirma este
fato. O contexto da passagem demonstra o povo de DEUS na etapa da restauração
após as provações do cativeiro. A nova situação exige uma nova
abordagem no relacionamento entre DEUS e Seu povo — em resumo, uma
nova aliança.
Em primeiro lugar na citação há uma declaração de intenção. Vêm
dias... e firmarei... tem um tom de autoridade que não deixa lugar para dúvidas.
Semelhante ação é tão certa quanto a palavra de DEUS, embora
séculos haveriam de passar antes do seu cumprimento. Nosso escritor não
tem dúvida alguma de que a declaração confiante desta profecia do Antigo
Testamento aplica-se à era messiânica e diz respeito diretamente ao ministério
de JESUS. É bem possível que tivesse em mente a referência à nova
aliança na instituição da Ceia do Senhor (cf. Mt 26.28).
Outro aspecto da aliança é sua aplicação tanto a Israel quanto a
Judá. Historicamente, isto envolvia o saneamento da brecha que trouxera
tamanha desgraça na história antiga do povo judaico. Mas até mesmo
nesta passagem não há indício de uma nova aliança que pudesse estenderse
a todas as pessoas, tanto aos gentios como aos judeus, conforme o que
aconteceu como resultado do evangelho. Realmente, vale notar que este
aspecto universal do evangelho não acha lugar nesta Epístola, mas uma explicação
suficiente disto seria sua destinação restrita a uma audiência judaica.
A palavra traduzida nova (kainè) aqui, indica alguma coisa que é nova
em comparação com aquilo que a antecedeu, ao passo que o adjetivo
alternativo (neos), aplicado à mesma aliança em 12.24, indica seu frescor,
em comparação com alguma coisa velha e esgotada. Os dois aspectos estão
cheios de significado.
9. O contraste entre a nova aliança e a antiga é visto numa referência
específica às circunstâncias em que a antiga aliança foi celebrada. O
pensamento israelita constantemente remontava à libertação do Egito,
porque era a partir daquele ponto na história que se podia dizer que
datava a existência independente de Israel como nação. É notável aqui
que o próprio DEUS fez a aliança. Não consultou os homens. Além disto,
a expressão os tomei pela mão ressalta, mais uma vez, a iniciativa divina.
Embora o grego fale de “minha mão” e ressalte assim o antropomorfismo,
não deixa de ser vividamente expressivo. É uma maneira poética
de deixar claro que o povo estava incapacitado até que DEUS, por assim
165
HEBREUS 8:9-10
dizer, colocou Sua mão na deles para os conduzir atê fora da terra do Egito,
o lugar do seu cativeiro.
Uma aliança normalmente envolve a plena cooperação das duas
partes. Se uma parte contratante falhar, a aliança toma-se nula. Foi virtualmente
isto que aconteceu com a antiga aliança. Os israelitas não
continuaram na... aliança, o que significa que não cumpriram suas condições.
Os pronomes “eles” e “eu” são enfáticos nos dois casos, enfatizando,
mais uma vez, a prerrogativa divina. Este fato é visto igualmente
na descrição da aliança como sendo minha aliança. Quando DEUS declara:
eu não atentei para eles, não se deve pensar que se trata de um ato
arbitrário de falta de solicitude, mas como a conseqüência inevitável de
Seu povo virar as costas à aliança da graça que Ele fizera para o benefício
e a bênção deles.
10. Agora vem uma exposição da prometida nova aliança. Tem várias
características dignas de nota. Diz respeito à casa de Israel, expressão
esta que idealmente inclui a totalidade do povo de DEUS, embora,
no contexto de Jeremias, principalmente o povo judaico. Entrará em
vigor depois daqueles dias, que forma uma ligação com “estes últimos
dias” mencionados em 1.2 e refere-se à era cristã.
O texto hebraico deste versículo tem o singular “lei,” que, por alguma
razão, foi traduzida pela Septuaginta como leis, no plural, como
aqui. Isto é bastante significativo porque em nenhuma outra ocasião a
Septuaginta traduz o singular hebraico desta maneira. É possível que o
tradutor quisesse enfatizar as diferentes partes da lei de DEUS para distinguir
estas partes da lei de Moisés como uma unidade completa. A passagem
contém um contraste subentendido entre a lei escrita nas tábuas
de pedra e as leis colocadas nas suas mentes. Não pode haver dúvida de
que estas últimas são superiores àquela, porque aquilo que está na mente
não pode deixar de afetar a atividade. A declaração dupla: nas suas
mentes e sobre os seus corações, um exemplo de paralelismo poético hebraico,
enfatiza o caráter interior da nova aliança. Dos dois termos, o mais
abrangente no uso hebraico é coração, que envolvia não somente a vontade,
como também as emoções. Os dois termos nesta citação são melhor
considerados num sentido corporativo, como se o escritor tivesse em mira
o caráter coletivo do outro parceiro na aliança feita por DEUS. Há um
sentido em que as novas leis são impressas na mente e no coração do povo
como um todo.
Embora a antiga aliança tivesse demonstrado que DEUS era o DEUS
de Israel e que consideraria Israel como Seu povo, há um sentido mais pro166
HEBREUS 8:10-13
fundo em que isto poderia ser realizado num sentido plenamente espiritual
somente na nova aliança. Ressalte-se de modo significante os
pronomes seu (autois = “deles”) e meu (moi). O grego oferece uma expressão
sucinta: “Eu serei para eles como DEUS, e eles serão para mim como
povo.” O relacionamento deve ser íntimo e mútuo.
11. Outro aspecto da nova aliança é que o conhecimento de DEUS
agora pode vir diretamente, sem a necessidade de intermediários. A comunhão
com DEUS será tal que todos entre Seu povo O conhecerão. Este
fato exclui imediatamente a idéia de uma classe privilegiada de iniciados
especiais que seriam os únicos que pudessem ensinar os outros, conforme
existiam, por exemplo, nas religiões de mistério, e que certamente era alimentada
até certo ponto pelo sistema dos escribas no judaísmo. Além
disto, na comunidade da nova aliança não haveria distinções de classe devidas
à idade ou à categoria, porque o conhecimento de DEUS estaria disponível
para a gama inteira, desde o menor deles até ao maior. A verdadeira
comunidade cristã tem a intenção de ser um grupo em que todos
estão em pé de igualdade através de uma experiência comum e pessoal
do Senhor, porque todos me conhecerão.
12. A citação termina com uma explicação da base espiritual da
nova aliança. DEUS revela Seu próprio caráter: usarei de misericórdia.
Não há sugestão alguma de que este seja um novo desenvolvimento no caráter
divino, porque a antiga aliança era baseada na misericórdia. O homem
nunca poderia chegar a DEUS se não fosse a misericórdia dEle. Mas
na nova aliança a misericórdia de DEUS destaca-se mais claramente. Fornece
um fundamento seguro para Seu povo aproximar-se dEle. A segunda
revelação: e dos seus pecados jamais me lembrarei, é reconfortante porque
significa que o perdão é completo. Já não haverá possibilidade de pecados,
uma vez perdoados, serem levantados contra o povo de DEUS. Todas as
garantias neste sentido, antes da era cristã, eram baseados na eficácia daquele
sacrifício perfeito ainda a ser oferecido, do qual as ofertas levíticas
eram apenas uma sombra. Semelhante certeza direta do perdão divino
deve ter sido como o som de música para um povo exilado cujas ofertas
sacrificiais já não eram possíveis.
As linhas paralelas que se referem às iniqüidades (adikiai) e aos pecados
(hamartiai) são outro caso de paralelismo poético semítico. A segunda
palavra é mais geral e abrangente que a primeira, mas as duas se
complementam mutuamente ao enfatizarem a idéia de perdão completo.
13. Tendo completado sua citação de Jeremias, o escritor agora
dá seu comentário sobre ela, e, ao assim fazer, vai além do propósito ori167
HEBREUS 8:13-9:1
ginal da passagem. Entende que a exposição da nova aliança subentende
que a antiga é obsoleta. Olhando a passagem a partir do limiar da era cristã,
vê mais nas palavras do que era possível para Jeremias. A palavra traduzida
antiquado (pepalaiõken) está no tempo perfeito, o que sugere que
a primeira aliança já se tomara obsoleta, e que o resultado disto ainda está
evidente no presente. O mesmo verbo é usado na segunda frase como
um particípio do presente, se toma antiquado, porque o escritor quer ressaltar
que embora teoricamente a antiga já se tornou obsoleta, na prática
é um processo paulatino. A combinação entre este pensamento com o de
tomar-se envelhecido ressalta a inevitabilidade do processo. Assim como
as pessoas envelhecem e morrem, ilustrando, assim, o seu caráter efêmero,
igualmente a antiga aliança é efêmera.
Uma palavra interessante é usada para descrever o fim da antiga
aliança, i.é, prestes a desaparecer (engys apanismou). A forma verbal da
mesma palavra é usada para a efemeridade da vida humana em Tiago 4.14,
como um vapor que aparece repentinamente e desaparece com igual rapidez.
É fundamental na teologia crista que a antiga aliança já cumpriu sua
função e que agora cedeu lugar à nova. Historicamente a continuação do
ritual do Templo foi tomada impossível pela destruição daquele Templo
pelo general romano, Tito, mas de qualquer maneira, os dias do ritual já
estavam contados.
(vi) A glória maior da nova ordem (9.1-14)
1. Caso qualquer dos leitores pense que o escritor estava subestimando
o antigo, agora sublinha algumas das glórias do tabernáculo antigo.
Fica impressionado com a boa ordem das disposições dentro do culto levítico,
e pretende aprensentar este fato a fim de demonstrar a maior glória
do novo. É bem possível que saiba que alguns dos seus leitores, que foram
criados na atmosfera de glorificar o passado, considerem que a posição
não tem substituto para oferecer em troca da dignididade do culto
ritual. Mas embora ele pessoalmente não deixe de apreciar as glórias do
passado, quer levar seus leitores a uma apreciação mais verídica das glórias
superiores da fé cristã.
Ocupa-se em primeiro lugar com os preceitos de serviço sagrado. A
palavra traduzida preceitos ou “regulamentos” (dikaiõma) tem muitos
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