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Pentateuco I
Conteúdo:
 Agradecimentos
  Introdução
  Comentários
  a. A preparação para a unção (8:1-5)
  b. A cerimônia propriamente dita (8:6-13)
  c. A oferta da consagração (8:14-36)
  d. Regras para as ofertas (9:1-7)
  e. Os sacrifícios de Arão (9:8-24)
  f. Nadabe e Abiú (10:1-7)
  g. Proibidos os sacerdotes bêbados (10:8-11)
  h. Regras para comer alimentos consagrados (10:12-20)
  Conclusão
  Bibliografia
  Ilustração
 
                              
   
I.B.A.D.I.- Instituto Bíblico da Assembléia de Deus de Imperatriz – MA.
 
Pentateuco I  Leis Referentes ao Sacerdócio
     
Agradecimentos
             Ao meu DEUS PAI, que nos ouviu o pedido de ajuda,
 A JESUS CRISTO, seu filho, que nos orientou,
 Ao ESPÍRITO SANTO, que nos ensinou;
            Aos mestres do IBADI
   
Introdução:
 
                     Para melhor assimilarmos os ensinos referentes às Leis Sacerdotais passaremos a estudar do capítulo oito do Livro de Levítico até o capítulo 10, onde temos um resumo das normas para o Sacerdócio entre o povo de Israel.
 
»LEVÍTICO [8]
1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Toma a Arão e a seus filhos com ele, e os vestidos, e o óleo da unção, e o novilho da oferta pelo pecado, e os dois carneiros, e o cesto de pães ázimos, 3 e reúne a congregação toda à porta da tenda da revelação. 4 Fez, pois, Moisés como o Senhor lhe ordenara; e a congregação se reuniu à porta da tenda da revelação. 5 E disse Moisés à congregação: Isto é o que o Senhor ordenou que se fizesse. 6 Então Moisés fez chegar Arão e seus filhos, e os lavou com água, 7 e vestiu Arão com a túnica, cingiu-o com o cinto, e vestiu-lhe o manto, e pôs sobre ele o éfode, e cingiu-o com o cinto de obra esmerada, e com ele lhe apertou o éfode. 8 Colocou-lhe, então, o peitoral, no qual pôs o Urim e o Tumim;  9 e pôs sobre a sua cabeça a mitra, e sobre esta, na parte dianteira, pôs a lâmina de ouro, a coroa sagrada; como o Senhor lhe ordenara. 10 Então Moisés, tomando o óleo da unção, ungiu o tabernáculo e tudo o que nele havia, e os santificou;  11 e dele espargiu sete vezes sobre o altar, e ungiu o altar e todos os seus utensílios, como também a pia e a sua base, para santificá-los. 12 Em seguida derramou do óleo da unção sobre a cabeça de Arão, e ungiu-o, para santificá-lo.  13 Depois Moisés fez chegar aos filhos de Arão, e os vestiu de túnicas, e os cingiu com cintos, e lhes atou tiaras; como o Senhor lhe ordenara. 14 Então fez chegar o novilho da oferta pelo pecado; e Arão e seus filhos puseram as mãos sobre a cabeça do novilho da oferta pelo pecado;  15 e, depois de imolar o novilho, Moisés tomou o sangue, e pôs dele com o dedo sobre as pontas do altar em redor, e purificou o altar; depois derramou o resto do sangue à base do altar, e o santificou, para fazer expiação por ele. 16 Então tomou toda a gordura que estava na fressura, e o redenho do fígado, e os dois rins com a sua gordura, e os queimou sobre o altar. 17 Mas o novilho com o seu couro, com a sua carne e com o seu excremento, queimou-o com fogo fora do arraial; como o Senhor lhe ordenara.  18 Depois fez chegar o carneiro do holocausto; e Arão e seus filhos puseram as mãos sobre a cabeça do carneiro.  19 Havendo imolado o carneiro, Moisés espargiu o sangue sobre o altar em redor. 20 Partiu também o carneiro nos seus pedaços, e queimou dele a cabeça, os pedaços e a gordura.  21 Mas a fressura e as pernas lavou com água; então Moisés queimou o carneiro todo sobre o altar; era holocausto de cheiro suave, uma oferta queimada ao Senhor; como o Senhor lhe ordenara.  22 Depois fez chegar o outro carneiro, o carneiro da consagração; e Arão e seus filhos puseram as mãos sobre a cabeça do carneiro; 23 e tendo Moisés imolado o carneiro, tomou do sangue deste e o pôs sobre a ponta da orelha direita de Arão, sobre o polegar da sua mão direita, e sobre o polegar do seu pé direito. 24 Moisés fez chegar também os filhos de Arão, e pôs daquele sangue sobre a ponta da orelha direita deles, e sobre o polegar da sua mão direita, e sobre o polegar do seu pé direito; e espargiu o sangue sobre o altar em redor. 25 E tomou a gordura, e a cauda gorda, e toda a gordura que estava na fressura, e o redenho do fígado, e os dois rins com a sua gordura, e a coxa direita; 26 também do cesto dos pães ázimos, que estava diante do Senhor, tomou um bolo ázimo, e um bolo de pão azeitado, e um coscorão, e os pôs sobre a gordura e sobre a coxa direita; 27 e pôs tudo nas mãos de Arão e de seus filhos, e o ofereceu por oferta movida perante o Senhor. 28 Então Moisés os tomou das mãos deles, e os queimou sobre o altar em cima do holocausto; os quais eram uma consagração, por cheiro suave, oferta queimada ao Senhor.  29 Em seguida tomou Moisés o peito, e o ofereceu por oferta movida perante o Senhor; era à parte do carneiro da consagração que tocava a Moisés, como o Senhor lhe ordenara. 30 Tomou Moisés também do óleo da unção, e do sangue que estava sobre o altar, e o espargiu sobre Arão e suas vestes, e sobre seus filhos e as vestes de seus filhos com ele; e assim santificou tanto a Arão e suas vestes, como a seus filhos e as vestes de seus filhos com ele. 31 E disse Moisés a Arão e seus filhos: Cozei a carne à porta da tenda da revelação; e ali a comereis com o pão que está no cesto da consagração, como ordenei, dizendo: Arão e seus filhos a comerão.  32 Mas o que restar da carne e do pão, queimá-lo-eis ao fogo. 33 Durante sete dias não saireis da porta da tenda da revelação, até que se cumpram os dias da vossa consagração; porquanto por sete dias ele vos consagrará. 34 Como se fez neste dia, assim o senhor ordenou que se proceda, para fazer expiação por vós. 35 Permanecereis, pois, à porta da tenda da revelação dia e noite por sete dias, e guardareis as ordenanças do Senhor, para que não morrais; porque assim me foi ordenado. 36 E Arão e seus filhos fizeram todas as coisas que o Senhor ordenara por intermédio de Moisés.
»LEVÍTICO [9]
1 Ora, ao dia oitavo, Moisés chamou a Arão e seus filhos, e os anciãos de Israel,  2 e disse a Arão: Toma um bezerro tenro para oferta pelo pecado, e um carneiro para holocausto, ambos sem defeito, e oferece-os perante o Senhor. 3 E falarás aos filhos de Israel, dizendo: Tomai um bode para oferta pelo pecado; e um bezerro e um cordeiro, ambos de um ano, e sem defeito, como holocausto; 4 também um boi e um carneiro para ofertas pacíficas, para sacrificar perante o Senhor e oferta de cereais, amassada com azeite; porquanto hoje o Senhor vos aparecerá. 5 Então trouxeram até a entrada da tenda da revelação o que Moisés ordenara, e chegou-se toda a congregação, e ficou de pé diante do Senhor. 6 E disse Moisés: Esta é a coisa que o Senhor ordenou que fizésseis; e a glória do Senhor vos aparecerá. 7 Depois disse Moisés a Arão: Chega-te ao altar, e apresenta a tua oferta pelo pecado e o teu holocausto, e faze expiação por ti e pelo povo; também apresenta a oferta do povo, e faze expiação por ele, como ordenou o Senhor. 8 Arão, pois, chegou-se ao altar, e imolou o bezerro que era a sua própria oferta pelo pecado. 9 Os filhos de Arão trouxeram-lhe o sangue; e ele molhou o dedo no sangue, e o pôs sobre as pontas do altar, e derramou o sangue à base do altar;  10 mas a gordura, e os rins, e o redenho do fígado, tirados da oferta pelo pecado, queimou-os sobre o altar, como o Senhor ordenara a Moisés. 11 E queimou ao fogo fora do arraial a carne e o couro.12 Depois imolou o holocausto, e os filhos de Arão lhe entregaram o sangue, e ele o espargiu sobre o altar em redor. 13 Também lhe entregaram o holocausto, pedaço por pedaço, e a cabeça; e ele os queimou sobre o altar. 14 E lavou a fressura e as pernas, e as queimou sobre o holocausto no altar. 15 Então apresentou a oferta do povo e, tomando o bode que era a oferta pelo pecado do povo, imolou-o e o ofereceu pelo pecado, como fizera com o primeiro. 16 Apresentou também o holocausto, e o ofereceu segundo a ordenança. 17 E apresentou a oferta de cereais e, tomando dela um punhado, queimou-o sobre o altar, além do holocausto da manhã. 18 Imolou também o boi e o carneiro em sacrifício de oferta pacífica pelo povo; e os filhos de Arão entregaram-lhe o sangue, que ele espargiu sobre o altar em redor,  19 como também a gordura do boi e do carneiro, a cauda gorda, e o que cobre a fressura, e os rins, e o redenho do fígado;  20 e puseram a gordura sobre os peitos, e ele queimou a gordura sobre o altar; 21 mas os peitos e a coxa direita, ofereceu-os Arão por oferta movida perante o Senhor, como Moisés tinha ordenado. 22 Depois Arão, levantando as mãos para o povo, o abençoou e desceu, tendo acabado de oferecer a oferta pelo pecado, o holocausto e as ofertas pacíficas. 23 E Moisés e Arão entraram na tenda da revelação; depois saíram, e abençoaram o povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o povo, 24 pois saiu fogo de diante do Senhor, e consumiu o holocausto e a gordura sobre o altar; o que vendo todo o povo, jubilaram e prostraram-se sobre os seus rostos.
»LEVÍTICO [10]
1 Ora, Nadabe, e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário e, pondo neles fogo e sobre ele deitando incenso, ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que ele não lhes ordenara. 2 Então saiu fogo de diante do Senhor, e os devorou; e morreram perante o Senhor.  3 Disse Moisés a Arão: Isto é o que o Senhor falou, dizendo: Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo. Mas Arão guardou silêncio.  4 E Moisés chamou a Misael e a Elzafã, filhos de Uziel, tio de Arão, e disse-lhes: Chegai-vos, levai vossos irmãos de diante do santuário, para fora do arraial.  5 Chegaram-se, pois, e levaram-nos como estavam, nas próprias túnicas, para fora do arraial, como Moisés lhes dissera.  6 Então disse Moisés a Arão, e a seus filhos Eleazar e Itamar: Não descubrais as vossas cabeças, nem rasgueis as vossas vestes, para que não morrais, nem venha a ira sobre toda a congregação; mas vossos irmãos, toda a casa de Israel, lamentem este incêndio que o Senhor acendeu. 7 E não saireis da porta da tenda da revelação, para que não morrais; porque está sobre vós o óleo da unção do Senhor. E eles fizeram conforme a palavra de Moisés. 8 Falou também o Senhor a Arão, dizendo: 9 Não bebereis vinho nem bebida forte, nem tu nem teus filhos contigo, quando entrardes na tenda da revelação, para que não morrais; estatuto perpétuo será isso pelas vossas gerações, 10 não somente para fazer separação entre o santo e o profano, e entre o imundo e o limpo, 11 mas também para ensinar aos filhos de Israel todos os estatutos que o Senhor lhes tem dado por intermédio de Moisés. 12 Também disse Moisés a Arão, e a Eleazar e Itamar, seus filhos que lhe ficaram: Tomai a oferta de cereais que resta das ofertas queimadas do Senhor, e comei-a sem levedura junto do altar, porquanto é coisa santíssima. 13 Comê-la-eis em lugar santo, porque isto é a tua porção, e a porção de teus filhos, das ofertas queimadas do Senhor; porque assim me foi ordenado. 14 Também o peito da oferta movida e a coxa da oferta alçada, comê-los-eis em lugar limpo, tu, e teus filhos e tuas filhas contigo; porquanto são eles dados como tua porção, e como porção de teus filhos, dos sacrifícios das ofertas pacíficas dos filhos de Israel. 15 Trarão a coxa da oferta alçada e o peito da oferta movida juntamente com as ofertas queimadas da gordura, para movê-los como oferta movida perante o Senhor; isso te pertencerá como porção, a ti e a teus filhos contigo, para sempre, como o Senhor tem ordenado.  16 E Moisés buscou diligentemente o bode da oferta pelo pecado, e eis que já tinha sido queimado; pelo que se indignou grandemente contra Eleazar e contra Itamar, os filhos que de Arão ficaram, e lhes disse: 17 Por que não comestes a oferta pelo pecado em lugar santo, visto que é coisa santíssima, e o Senhor a deu a vós para levardes a iniqüidade da congregação, para fazerdes expiação por eles diante do Senhor? 18 Eis que não se trouxe o seu sangue para dentro do santuário; certamente a devíeis ter comido em lugar santo, como eu havia ordenado. 19 Então disse Arão a Moisés: Eis que hoje ofereceram a sua oferta pelo pecado e o seu holocausto perante o Senhor, e tais coisas como essas me têm acontecido; se eu tivesse comido hoje a oferta pelo pecado, porventura teria sido isso coisa agradável aos olhos do Senhor?  20 Ouvindo Moisés isto lhe pareceu razoável.
 
  
Pentateuco I  -    Leis Referentes ao Sacerdócio
 
  Comentários:  
A CONSAGRAÇÃO DOS SACERDOTES (8:1 - 10:20)
  A primeira seção de Levítico estava em estreito relacionamento com as passagens em Êxodo que tratavam da seleção dos aronitas como a família sacerdotal oficial (Êx 28:1), as vestes que deviam usar (Êx 28:2-43), e o modo da sua consagração (Êx 29:1-46). Esta matéria seguiu as instruções acerca da planta e a edificação do tabernáculo do deserto (Êx 25-27), e, por sua vez, era seguida pela legislação da aliança (Êx 30-34) e pelas descrições da maneira segundo a qual o tabernáculo foi finalmente construído e mobiliado (Êx 35-40). Agora, uma grande seção de Levítico trata da consagração dos sacerdotes ao seu importante cargo medianeiro, e narra como as instruções de Êxodo 29 foram executadas.
Poderia parecer à primeira vista que um sentido melhor de ordem poderia ter sido realizado por meio de descrever a consagração dos sacerdotes em conjunção com estes preceitos rituais, mas a organização interna do sistema sacrificial exigia que as várias classes de ofertas fossem enumeradas antes de os sacerdotes serem consagrados de fato e os cultos do Tabernáculo instituídos. A seqüência que foi adotada revelou-se bem apropriada, tendo em vista que o sacrifício devia primeiramente ser oferecido por Moisés em prol destes sacerdotes como parte dos seus ritos de consagração, e somente quando os sacerdotes possuíssem o manual sacrificial na sua inteireza, e a autoridade de levar a efeito as suas instruções, é que poderiam oficiar segundo a sua vocação .Em etapa alguma nestas narrativas há qualquer desvio da propriedade ritual.
 
 
a. A preparação para a unção (8:1-5)
 
1-2. Assim como no caso das informações a respeito das várias ofertas do sistema sacrificial, as instruções para a consagração vieram da parte de Deus, e, portanto, levavam consigo o mais alto grau da autoridade moral e espiritual. A narrativa relembra Êxodo 29:4-37, e descreve a maneira segundo a qual aquela matéria foi implementada. As vestes consistiam em um peitoral, uma estola sacerdotal, uma sobrepeliz, uma túnica bordada, mitra e cinto (Êx 28:4). As respectivas vestes são as que devem ser usadas por Arão, o primeiro Sumo Sacerdote de Israel, e pêlos seus sucessores, e seu estilo ornamentado teria honrado qualquer templo ou corte real na antiguidade. É importante notar, no entanto, que à parte de serem designadas como sendo santas (Êx 28:2), a saber: reservadas especificamente para o serviço no tabernáculo e, mais tarde, no templo; nenhum significado específico cultual ou litúrgico era atribuído às várias vestes. O decorrer do tempo tornou difícil entender o que alguns dos termos realmente descreviam, e o resultado é que algumas das interpretações devem ser consideradas, na melhor das hipóteses, um pouco conjecturais. Porque o registro original era de origem contemporânea, o escritor pressupunha uma familiaridade da parte dos leitores e seus descendentes “com os respectivos objetos. Esta familiaridade seria reforçada no decurso dos séculos mediante o contato visual com eles, vantagem esta que infelizmente não possuímos.
Tal é a situação da estola sacerdotal, que no caso de Arão era uma veste feita de tecido ricamente bordado, em comparação com as estolas sacerdotais mais simples de linho usadas pêlos demais sacerdotes (cf. l Sm 2:18). Era segurada na sua posição certa por cima dos ombros com duas correias, mas se a estola sacerdotal cobria o peito, o abdômen, ou ambos,
não se sabe. Nas ombreiras havia pedras de ônix, gravadas com os nomes das tribos de Israel. Por cima da estola sacerdotal havia uma bolsa ou "peitoral" (Hebraico hósen) que continha o Urim e o Tumün, que eram aparentemente objetos sagrados usados para lançar sortes. O termo "estola sacerdotal" também era usado ocasionalmente para descrever um ídolo (cf. Jz 8:27; 17:5) que era empregado no culto familiar, mas exatamente porque tal imagem era descrita por um nome usado para um objeto bem-atestado no culto israelita no tabernáculo não se sabe. O "peitoral" era uma quadra de tecido esmeradamente bordado, engastada com quatro fileiras de pedras. Visto que era essencialmente um saquinho, a tradução de hósen por "peitoral" é inteiramente conjetural. O artigo talvez possa ser considerado um paralelo do peitoral ornamental de ouro que foi descoberto no túmulo de um soberano da Idade de Bronze em Biblos.33
A sobrepeliz de Êxodo 28:4, 31-34 tinha a cor violeta, e aparentemente era usada debaixo da estola sacerdotal. Era primorosamente enfeitada com romãs bordadas, e tinha pequenas campainhas de ouro em derredor da parte inferior. O tecido parece ter sido trabalhado de uma só peça, um pouco como a túnica que Cristo estava usando na Sua crucificação. Se for assim, a referência em João 19:23 pode ser interpretada como uma alusão a Cristo como o grande Sumo Sacerdote, no momento de apresentar-Se como a oferta suprema para o pecado humano. A sobrepeliz, normalmente usada no Oriente Próximo por pessoas de certa posição social, era feita de tecido listrado ou de estofo tecido numa forma configurada. O cinto era mais corretamente uma faixa que era freqüentemente usada no Egito pêlos faraós e pêlos oficiais nacionais, bem como por membros do sacerdócio. A mitra, ou turbante, era um longo pedaço de tecido que era enfaixado ao redor da cabeça, conforme se faz até aos dias de hoje, e havia ligada na frente dela uma pequena placa de ouro gravada com a inscrição "Santidade ao SENHOR" (Êx 28:36).
Por mais esmeradas que fossem estas vestes, mormente tendo em vista sua origem no ambiente do deserto, sua própria função era lembrar os israelitas de que um Deus poderoso, santo e justo estava realmente presente com eles, à medida que se sustentava que quem usava as vestes estava ligado com Ele. Esta associação de vestes elaboradas com uma divindade também era um aspecto tradicional da adoração cultual cananéia, como, por exemplo, em Ugarite, onde o manto de deusa Anate era descrito como sendo 'epod. Não serviam para glorificar o cargo do sumo sacerdote ou doutros oficiais do culto, mas, pelo contrário, indicavam que havia certos padrões claramente definidos ligados à adoração dAquele que criara o universo, e caminhos específicos e exclusivos pêlos quais se podia abordar a Deus.34 O culto apressado, casual ou desordeiro não tinha lugar algum na vida religiosa hebraica antiga, seja qual tenha sido a situação nos ritos cultuais doutras nações do Oriente Próximo.
A adoração do Deus de Sinai era uma questão muito séria, visto ser Ele o único Deus vivo e verdadeiro, que podia lidar de modo rápido e certeiro com os transgressores, conforme até mesmo alguns membros da linhagem sacerdotal logo haveriam de descobrir. As formas preceituadas dos rituais hebraicos e as vestes dos sacerdotes serviam o propósito importante de manter o caráter distintivo da adoração entre o povo da aliança, e resguardavam contra a possibilidade de inovações sendo introduzidas de origens pagãs. Infelizmente, até mesmo estas precauções foram contornadas em períodos posteriores da história hebraica.
O óleo da unção (cf. Êx 30:22-33) para a consagração de Arão e dos seus descendentes era misturado por um perfumista (AV "farmacêutico’) de certo número de especiarias caríssimas, a maioria das quais decerto vinha da Arábia ou da índia. Esta mistura específica era limitada à unção dos sacerdotes, e qualquer outro uso constituía-se em delito capital (Êx 30:32-33) porque a substância era santa. Os ingredientes consistiam em mirra fluida, provavelmente tirada do arbusto Commiphora myrrha; cinamomo odoroso (Gnnamomum zeylanicum), cálamo aromático, uma das espécies de planta do gênero Cymbopogon, talvez C.schoenanthus L., que tem sido descoberta nos túmulos do Egito; a cássia, mais provavelmente Gnnamomum cássia, árvore esta que está estreitamente relacionada com o cinamomo odoroso; e azeite como o veículo.
Os animais a serem oferecidos para o sacrifício eram o novilho da oferta pelo pecado (cf. Êx 29:10-14) e os dois carneiros (cf. Êx 29:15-22), sendo que a descrição destes últimos em Êxodo indicava que eram de uma espécie de ovelhas de cauda gorda. O elemento final na preparação para a unção era o cesto dos pães asmos, descritos em Êxodo 29:2 como bolos asmos misturados com azeite, e obreias asmas untadas com azeite, todos feitos de farinha de trigo finamente moída.
3-5. Uma vez feitos os preparativos, Moisés passou a ajuntar toda a congregação à porta do tabernáculo. Visto que o rito da ordenação e da consagração do sacerdócio ao serviço
divino haveria de afetar todos em Israel, a cerimônia era pública. Os deveres de Moisés, o oficiante, seriam levados a efeito dentro do recinto do tabernáculo, talvez na presença dos anciãos. Os demais israelitas teriam de obter a melhor vista que podiam, dos proce-dimentos, talvez por meio de ficarem de pé nalgum ponto alto no sopé do Monte Sinai, onde estavam acampados neste período. É importante notar a posição de Moisés em relação às atividades de Deus aqui. Embora funcionasse como um servo, Moisés ainda estava encarregado da família de Deus (Nm 12:7; Hb 3:2), e assim forma um paralelo com a obediência e a fidelidade de Cristo, que também Se tomou servo (Fp 2:7) a fim de mediar a nova aliança. A comunhão dos crentes cristãos é tal que é possível para a pessoa principal tornar-se servo de todos (cf. Mt 20:27; 23:11; Mc 10:44), conceito este que torna qualquer hierarquia dentro da comunidade uma questão algo artificial. A Moisés foi dada a revelação no Monte Sinai, e como o líder escolhido por Deus, a ele foi confiada a tarefa de organizar a vida religiosa e comunitária do povo durante o período do deserto. Como oficial executivo principal em Israel, agiu como representante visível de Deus na cerimônia impressionante de consagração que estava para se seguir. Nesta capacidade, suas atividades estão totalmente de acordo com o gênio distinto do sistema sacrificial ao qual os sacerdotes estavam para ser dedicados, visto que a mediação da graça divina haveria de ser sua função básica. A ênfase sobre a qualidade correia com a qual todos os procedimentos e outros regulamentos haveriam de ser seguidos é subentendida pela declaração de que Moisés levou a efeito todos os seus deveres conforme o Senhor lhe ordenara. O povo foi chamado à ordem imediatamente antes da cerimônia da consagração, por uma declaração solene de Moisés: "Isto é o que o SENHOR ordenou que se fizesse”.
A proclamação toma claro, portanto, que a iniciativa para a atividade inteira viera da parte de Deus. Destarte, nenhuma acusação de favoritismo poderia ser feita contra Moisés ao consagrar um parente próximo como sumo sacerdote, visto que a escolha fora do Senhor. Uma vez que aquele fato tinha sido claramente estabelecido, a cerimônia poderia continuar de um modo totalmente democrático, e, por recomendar-se a todas as pessoas presentes como sendo legítima e autoritativa, poderia então reivindicar sua lealdade ao sacerdócio assim constituído e seu apoio a ele. A despeito destas precauções, no entanto, dentro em breve haveria de ocorrer um protesto contra a posição privilegiada dos aionitas (cf. Nm 16:1-35).
 
b. A cerimônia propriamente dita (8:6-13)
 
6. O grande rito da consagração começou quando Moisés levou Arão e seus filhos à porta da tenda da congregação, ao leste da qual havia a bacia de cobre feita dos espelhos das mulheres que serviam na porta do santuário nalguma atividade não especificada (Êx 38:8). Aqui, os aronitas foram lavados com água, a fim de purificá-los simbolicamente do pecado. Seria comparável ao batismo de adultos no Novo Testamento, um dos dois sacramentos que Cristo ordenou aos crentes. Alguns intérpretes judaicos têm sustentado que a lavagem de ArSo e dos seus filhos foi por imersão, conforme se exigia do sumo-sacerdote no dia da expiação (Lv 16:4), mas isto não fica claro na passagem. Numa terra em que bons suprimentos de água eram poucos, e distantes entre si, a lavagem do corpo inteiro era um evento comparativamente raro, e não menos num deserto ou ambiente ermo onde a água seria escassa a não ser nos oásis. Na prática, uma lavagem perfunctória das áreas expostas bastava, sob condições normais, para os nômades ou seminômades, ajudada pelo uso liberal de perfumes e ungüentos, especialmente no que diz respeito às mulheres. Ao passo que os sacerdotes egípcios estabeleceram um padrão de higiene para seu povo ao lavar o corpo inteiro três vezes por dia, os sacerdotes hebreus usualmente enxaguavam somente as mãos
e os pés quando começavam seus deveres no tabernáculo (ÊX 30:19-21).
 
7. Uma vez que a purificação simbólica de ArSo e dos sacerdotes tinha sido levado a efeito, realizou-se a cerimônia de vestir o sumo-sacerdote. As vestes aqui mencionadas são alistadas na ordem em que parece que foram vestidas, e isto talvez indique que um relato de testemunha ocular tivesse sido preservado com bastantes pormenores.  O processo formava uma'parte importante do procedimento mediante o qual o sumo-sacerdote era empossado no seu cargo elevado, pois por estes meios os emblemas do serviço foram formalmente outorgados a ele na presença da nação inteira. Vestido desta maneira,  intercederia anualmente no Santo dos Santos do tabernáculo em prol dos pecados involuntários do povo israelita no dia da expiação. Suas vestes cerimoniais retratavam assim as funções que, conforme a designação divina, era privilegiado a exercer em prol do povo da aliança. Por mais esmeradas que fossem, suas vestes não deveriam tomar-se motivo de orgulho pessoal, mas, sim, deveriam permanecer como lembrança a ele e ao povo da sua posição como o principal servo sacerdotal de Israel. As vestes conferiam a Arão uma qualidade distintiva visível entre seus pares como o líder espiritual e guia moral da nação. Por mais atraente que semelhante posição fosse, no entanto, traria suas próprias responsabilidades em termos de consistência do testemunho e da santidade da vida, e este fato tem apresentado um desafio a crentes em todas as eras. O selo visível da dedicação de Arão ao seu cargo era suprido de modo apropriado pela lâmina de ouro na frente da mitra, inscrita com o lema "Santidade ao SENHOR." Os sacerdotes do Senhor devem ter certeza de que seu modo de vida está em harmonia contínua com a vontade de Deus (Hb 13:21), e devem procurar exemplificar os dons do Espírito na vida diária.
 
8. Neste versículo, as pedras oraculares são descritas pêlos seus nomes oficiais. A palavra Urim é um termo plural de derivação desconhecida, mas tem sido ligado com o substantivo hebraico que significa "luz,'' e também com a raiz irar, que significa” amaldiçoar.'' Igualmente desconhecida é a origem da palavra Tumim, que sempre se acha em conjunção com Urim na Escritura. Tem sido associada, quanto ao seu significado, com a raiz tâmam, "ser perfeito," e como resultado, alguns intérpretes têm entendido que estes dois objetos indicam "luzes" (ou "maldições") e "perfeições." Na melhor das hipóteses, no entanto, estes significados são altamente conjecturais, e até mesmo podem enganar. É provavelmente melhor tomar por certo que os termos designavam as sortes sagradas sem mais especificação. O fato de que uma das palavras começava com a primeira letra do alfabeto hebraico, e a outra com a última letra, indicando, assim, algum tipo de totalidade como alfa-ômega, é, provavelmente, pura coincidência. Estes dois objetos foram usados até ao período da monarquia antiga como meios de descobrir a vontade de Deus (cf. l Sm 14:41), mas exatamente como eram empregados para obter informações não é declarado. Tem sido sugerido que eram usados da mesma maneira que dados ou pequenos palitos marcados, e que a maneira deles caírem ou sua aparência no chão revelava a vontade divina dalguma maneira. Uma explicação mais cultual tem visto os objetos como símbolos da autoridade do sumo-sacerdote para buscar o conselho direto de Deus a respeito de questões que precisavam ser resolvidas. É provavelmente melhor ver o propósito dos Urim e Tumim como meio oracular de fornecer ao inquiridor aquilo que, conforme se esperava, seria uma resposta direta, positiva ou negativa. Havia ocasiões, no entanto, quando o oráculo simplesmente não dava uma resposta (l Sm 14:37; 28:6). A primeira menção destes objetos cultuais (Êx 28:30) toma por certo que os israelitas já tinham familiaridade com eles, visto que nenhuma explicação é dada acerca da sua natureza e função. Segundo parece, eram posses  hereditárias do sumo-sacerdote, visto que passaram de Arão para Eleazar (Nm 20:28). A última referência a eles no Antigo Testamento acha-se em Neemias 7:65.Na dispensação cristã, o "lançar de sortes'' foi substituído pela orientação direta de Deus, o Espírito Santo.  
 
9-12. O vestir de Arão foi seguido pela unção e consagração do tabernáculo e dos seus móveis, como prelúdio à unção do próprio Arão. Moisés agiu como oficiante, espargiu o altar sete vezes, e ungiu seus utensílios bem como a bacia com o santo óleo da unção, cujo uso, conforme foi notado supra, era restrito à consagração dos sacerdotes. Depois, ocorreu a unção de Arão, e nesta ocasião Moisés derramou parte do óleo sagrado na cabeça do sumo-sacerdote. Precisamente por que a cabeça era ungida na antiguidade, e não as mãos, não se sabe a razão. A sugestão moderna de que a cabeça era ungida como símbolo de serem dedicados a Deus a mente e o intelecto do indivíduo não faria sentido aos hebreus antigos, visto que não entendiam a natureza nem o funcionamento do cérebro, e, pelo contrário, consideravam que o coração era a sede da inteligência, do propósito e da vontade.
 
A unção de Arão era uma indicação de que tinha sido selecionado por Deus e designado para cumprir uma função específica. A lâmina de ouro (NEB "roseta de ouro") que era colocada na frente da mitra era provavelmente uma fita de ouro que circundava o ornato da cabeça ao nível da testa, para formar uma coroa sagrada (9), traduzida de modos variados como "diadema sagrado" (JB;NIV) e "símbolo de santa dedicação" (NEB). Certamente o ornato da cabeça era um símbolo altamente visível da consagração do sumo-sacerdote ao seu cargo em Israel. O procedimento da unção e a coroa eram emblemáticos da realeza, e ainda fazem parte das cerimônias de coroação dos monarcas britânicos. A cerimónia da consagração era impressionante, cheia de dignidade e solene, apropriada à posição e às responsabilidades daquele que a recebia. Não há registro de quaisquer palavras de instituição sendo trocadas entre Moisés e Arão, ou de qualquer bênção pronunciada sobre o novo sumo-sacerdote de Israel.
13. Seguiu-se então uma parte menos minuciosa da cerimônia da consagração, em que Moisés chamou os filhos de Arão e os vestiu de túnicas. . . cinto. . . e tiaras. Os dois primeiros itens provavelmente seriam vestes menos esmeradas do que aquelas preceituadas para o sumo-sacerdote, mas muito apropriadas para a gama usual de atividades sacerdotais, que incluíam o ensino (Dt 33:10), o lançar de sortes (Êx 28:30), e o pronunciar de decisões nos santuários (Êx 22:8), bem como o oficiar no altar de sacrifícios. Ao passo que o sumo-sacerdote usava uma mitra, os sacerdotes inferiores usavam um boné simples (tiaras), provavelmente feito de um pano dobrado, e com laços para fixá-lo na sua posição na cabeça. Este item pequeno servia a um propósito prático muito importante: proteger a cabeça do sacerdote do calor do sol enquanto oficiava ao ar livre, às vezes por horas em seguida.
Nesta parte da cerimônia, a unção tem implicações que são da máxima importância para o leitor cristão. Além do sacerdote, o profeta (cf. l Rs 19:16) e o rei (cf. 16:13, etc.) também eram ungidos enquanto assumiam seus cargos. Estas três funções foram finalmente unidas na pessoa do Messias, título este que é derivado da raiz para "ungir."
O termo "Cristo" é o equivalente grego {Christos) da palavra hebraica para "Messias.”Falar, portanto, de Jesus como sendo” Cristo “é reconhecê-Lo como sendo o Servo escolhido de Deus, o Messias que fora prometido havia muito tempo, que seria ungido não somente com óleo (Is 11:2; 42:1), na tradição da antiga aliança, mas, mais especialmente, com o Espírito Santo (Mt 3:16; Lc 4:1, 18, 21; Jo 1:32-33), que O sustentou enquanto Ele veio a ser nosso grande Sumo-Sacerdote.
 
C. A oferta da consagração (8:14-36)
Embora o tabernáculo e seu conteúdo tivessem sido ungidos com o óleo sagrado, fazendo-o, assim, um lugar consagrado, era necessário serem oferecidos três sacrifícios como expiação para Arão e seus filhos de modo que fossem completamente purificados do pecado. Estes ritos faziam parte integrante da cerimônia inteira da unção e da consagração, e todos tinham igual relevância. Visto que o propósito de Deus para Israel, conforme é expresso em Levítico, é que este seja uma nação santa; qualquer sugestão de contaminação, ou no culto ou na vida comunitária, deve necessariamente ser removida a fim de que aquele objetivo seja atingido. Logo, a área inteira do tabernáculo tinha de ser consagrada antes de adoração aceitável a Deus poder ser oferecida ali. Arão, portanto, foi consagrado num lugar cerimonialmente limpo, e seus filhos foram instalados no seu sagrado cargo no mesmo ambiente. O próprio altar foi purificado de modo que nenhuma profanação das ofertas sacrificiais ocorresse para  desfazer a santidade do santuário e da comunidade. Numa época posterior. Deus haveria de censurar Seus sacerdotes por oferecerem sacrifícios imundos no Seu altar (Ml 1:7), invalidando, assim, o conceito total da adoração. A importância da propriedade ritual é ressaltada mais uma vez aqui, sendo que os sacerdotes devem primeiramente obter a expiação para si mesmos antes de poderem pretender obtê-la em prol doutros israelitas.  Nenhum sacerdote em qualquer era pode levar seus seguidores a um ponto de desenvolvimento espiritual que ele mesmo não atingiu.
 
14-17. Os aronitas puseram as mãos sobre o novilho da oferta pelo pecado (14), identificando-se com o animal que haveria de ser abatido em prol deles, e depois disto Moisés, na sua função de oficiante, seguiu os procedimentos estipulados para sacrificar a oferta pelo pecado (4:1 — 5:13). Untou os chifres do altar do holocausto (cf. 4:25, 30, 34), purificou o altar, e depois derramou o resto do sangue à base do altar, para o consagrar e fazer expiação por ele. Consumir os tecidos gordurosos seguiu o padrão normal das ofertas pacificas e pelo pecado (cf. 3:9-10, 14-15; 4:8-9, etc.), com uma  correspondência verbal apropriada no texto. O resto do animal era levado para fora do arraial para um lugar limpo, i.é, consagrado, onde era queimado de acordo com os
regulamentos que regiam a oferta pelo pecado (cf. 4:12).
   
18-21. O holocausto de um carneiro seguiu a orientação de Levítico 1:3-13, que os sacerdotes recém-consagrados dentro em breve estariam observando pessoalmente. Moisés imolou o animal, espargiu seu sangue, e queimou a cabeça e outras partes juntamente com a gordura. Depois de terem sido lavadas as entranhas e as pernas, elas também foram queimadas como holocausto ao Senhor (21). Neste sacrifício os sacerdotes demonstraram sua completa obediência à vontade de Deus, e proclamaram seu desejo de renovar e manter a comunhão com Ele.
 
22. Depois desta oferta veio um sacrifício restrito a um ato de consagração (cf. Êx 29:19-20). Nesta .cerimónia, Moisés tomou o segundo carneiro da consagração (22), e depois de os sacerdotes terem posto as mãos sobre ele, imolou-o, e untou com parte do sangue a orelha direita da Arão, e o polegar da sua mão direita, e o polegar do seu pé direito. O mesmo procedimento foi seguido para os filhos de Arão, e depois disto o restante do sangue foi espargido sobre o altar do holocausto.  O termo para "consagração" (modernamente "ordenação") é derivado de uma raiz que significa "encher," e em Êxodo 29:9 é traduzido pela expressão técnica "encher a mão." Esta frase também ocorre na tradição mesopotâmia nalguns textos de man- datados em cerca de 1750 a.C., onde a alusão parece ter sido à divisão dos despojos entre os vitoriosos. O texto hebraico pode dar a entender que os sacerdotes do santuário tinham o direito de participar das ofertas sacrificiais que eram trazidas para o tabernáculo, mas, conforme já foi deixado claro, a provisão para as necessidades deles era um elemento importante no sistema sacrificial. Em Levítico 8:22 NEB diz: "o carneiro para a instalação dos sacerdotes," e esta expressão transmite o sentido de admissão aos direitos e privilégios do cargo. Parece um pouco diferente do significado original de "encher a mão" que, segundo parece, referia-se àquelas ofertas que eram colocadas nas mãos dos sacerdotes na ocasião da sua consagração, que lhes conferiam a autoridade de realizar deveres sacerdotais. A diferença é aquela entre colocar uma Bíblia na mão de um candidato na ocasião da ordenação, e a subseqüente nomeação daquela pessoa a alguma função pastoral com seus respectivos direitos e emolumentos.
 
23-25. Colocar sangue sobre partes específicas dos corpos de Arão e seus filhos era um gesto altamente simbólico, com aplicação direta ao sacerdote e sua obra. De modo simbólico o corpo inteiro foi consagrado ao serviço do Senhor, e, ao aceitar a aplicação, o sacerdote reconhecia as obrigações inerentes no simbolismo. A partir de então, deve escutar cuidadosamente os pronunciamentos de Deus de modo que possa proclamá-los devidamente. Suas mãos devem ser dedicadas inteiramente àquelas coisas que têm conexão com a obra do Senhor, de tal maneira que não seja tentado a realizar atos malignos. Seus pés devem sempre ser dirigidos de tal maneira que andarão continuamente nos caminhos do Senhor. O uso do sangue neste ritual separava o sacerdote das preocupações mundanas e dedicava-o completamente ao serviço de Deus. Este procedimento específico é rico em sentido para o sacerdócio cristão de todos os crentes consagrados pelo sangue de Jesus Cristo para ouvir a Palavra de Deus, para realizar obras de graça e misericórdia, e para andar segundo a orientação do Senhor.
 
26-29. Um procedimento restrito à oferta da consagração ocorreu quando Moisés tomou toda a gordura do carneiro, juntamente com sua coxa direita, e as colocou nas mãos de Arão e dos seus filhos. Este era um "encher das mãos" formal que todos podiam ver, e a santidade
do cargo ao qual os sacerdotes tinham sido nomeados foi proclamada pelo fato de que as ofertas colocadas na custódia deles incluíam as partes mais santas do sacrifício que pertenciam exclusivamente a Deus. Em conjunção com estas porções sacrificiais havia ofertas do cesto dos pães asmos (26), do qual foram tirados um bolo asmo, um que tinha sido misturado com azeite, e uma obreia. Estes foram colocados sobre a gordura e a coxa direita do animal sacrificial, e os sacerdotes passaram então a fazer o gesto de apresentação da oferta movida em direção ao altar antes de devolver estas partes seletas a Moisés. Este último passou então a queimá-las no altar em conjunção com o holocausto para produzir, conforme a fraseologia antiquada do ritual, um aroma agradável. . . ao SENHOR (28).
Porque Moisés tinha, pelo momento, oficiado como um substituto do sumo-sacerdote, era-lhe necessário apresentar uma oferta a Deus por si mesmo. A porção que tocava a Moisés do carneiro da consagração consistia na dianteira, e esta, também, foi apresentada ao Senhor como oferta movida antes de ser queimada. A oferta da consagração, como a oferta pacífica (cf. 7:15-18), podia ser comida por aqueles em prol dos quais tinha sido sacrificada, mas, mais uma vez, a regra de que os sacerdotes não podiam comer daquilo que tinha sido oferecido em prol deles tinha de ser inculcada. A coxa representava a porção atribuída aos sacerdotes, ao passo que a parte dianteira era aquilo que pertencia a Moisés na sua capacidade de oficiante temporário. Uma vez que estas porções tinham sido queimadas, o restante do sacrifício poderia ser comido por Arão e seus filhos. Assim como ocorria com outros aspectos do ritual, estes procedimentos foram seguidos meticulosamente, como o SENHOR ordenara a Moisés (29).
 
30-36. Moisés já levara a efeito os ritos de untar os corpos de Arão e dos sacerdotes, separando-os simbolicamente para coisas santas e assegurando-se de que a plenitude das forças deles seria dedicada ao serviço do Senhor. Ainda na sua capacidade como oficiante, Moisés espargiu uma mistura de óleo da unção e de sangue sobre as vestes cerimoniais de Arão e seus filhos como um ato adicional de consagração. Os sacerdotes estavam, portanto, espiritualmente seguros nos seus cargos, porque foram protegidos pelo sangue do animal sacrificial, assim como os próprios israelitas tinham sido quando a primeira páscoa foi celebrada no Egito (ÊX 12:23). Porque Cristo foi sacrificado como nosso cordeiro pascal, Seu sangue remove os pecados dos crentes e lhes dá a certeza da salvação eterna, vivendo eles de acordo com a Sua vontade.
A cerimónia da consagração terminou com instruções dadas por Moisés a Arão no sentido de a carne sacrificial ser cozida, e os pães asmos serem comidos, fora da porta do santuário propriamente dito. (31).
Este era um meio simbólico mediante o qual a aliança estabelecida entre Deus e o sacerdócio seria selada na presença da congregação inteira. A partir de então, os sacerdotes deviam dedicar-se exclusivamente ao serviço do Senhor ao ministrar à nação de Israel. Não deviam ocupar-se com trabalhos manuais, nem ser sujeitados a outras considerações mundanas que poderiam desviar sua atenção e energias das coisas de Deus. Seu sustento deveria vir inteiramente do altar do tabernáculo, e deviam ser separados para ministrar coisas espirituais. Paulo deu um exemplo aos crentes ao declarar como sua vocação a convicção de que era separado para o evangelho de Deus (Rm 1:1). A separação futura dos sacerdotes hebreus das atividades seculares e sua consagração ao tabernáculo era simbolizada pela exigência de que, durante os sete dias seguintes, não deviam sair da porta da tenda da congregação (33). Somente depois do decorrer de uma semana é que o sumo-sacerdote e seus filhos poderiam considerar-se verdadeiramente ordenados.  Ao serem limitados a uma só área pequena do átrio do tabernáculo, era impossível para os sacerdotes ficarem contaminados de qualquer maneira, ou de serem distraídos das atividades sacerdotais que faziam parte do processo da ordenação.
 
O v. 35 indica que em cada um dos sete dias seguintes, Moisés deveria oferecer, em prol de Arão e seus filhos, os mesmos sacrifícios que tinham marcado a grande cerimónia da consagração (cf. Êx 29:35-36). Este procedimento envolvia alguma modificação nos procedimentos estipulados para as ofertas pacíficas ou do bem-estar, que permitiam que a carne fosse comida no dia depois daquele em que fora sacrificada (7:15-16). Nas circunstâncias especiais ligadas com a ordenação e a consagração, tudo quanto sobrava da carne ou dos pães asmos devia ser queimado no dia em que era oferecido (32). Não há qualquer registro dalguma oportunidade ser dada aos sacerdotes para meditarem sobre a natureza da vocação para a qual foram escolhidos, mas o caráter dos ritos sacrificiais, por si só, lhes daria oportunidades para o arrependimento, a confissão do pecado, e a adoração de um Deus cujas misericórdias estão continuamente sobre todas as Suas obras (SI 145:9). Tudo quanto foi preceituado para os sacerdotes deve ser observado meticulosamente, para que estes não morram por causa da desobediência. O cargo de sacerdote era de natureza muito responsável, pois aqueles que o detinham poderiam influenciar a nação para o bem ou para o mal, conforme se tornou evidente subseqüentemente na história dos hebreus. Por esta razão, os sacerdotes eram advertidos periodicamente quanto às conseqüências sérias que lhes adviriam se desconsiderassem os regulamentos de Deus. A obediência está no coração tanto da antiga aliança quanto da nova, e esta, mais do que o amor, é a exigência primária que Deus faz dos Seus seguidores. O cristão é conclamado a trazer todo pensamento à obediência de Cristo (2 Co 10:5), e a ver a obediência como uma das marcas de uma personalidade santificada (l Pé 1:2). A esta altura, Arão e os sacerdotes estão unidos numa disposição para seguir as instruções divinas, e para dar início à história longa e às vezes turbulenta do serviço sacerdotal à nação.
 
d. Regras para as ofertas (9:1-7)
1-2. Tendo decorrido o período da consagração, o novo sacerdócio israelita entrou no seu ministério público. Até esta altura, os sacrifícios tinham sido oferecidos por Moisés, mas agora o trabalho é atribuído àqueles que foram escolhidos e dedicados a ele. Na sua capacidade de líder do povo, Moisés chamou, ou, melhor, "conclamou" (cf. 1:1), os aronitas e os anciãos de Israel, sendo que talvez estes últimos tivessem estado dentro do recinto do tabernáculo durante o período da consagração, embora não estivessem no mesmo estado de santidade cerimonial que os próprios sacerdotes. Nesta ocasião específica, os aronitas são responsivos a toda ordem de Moisés, mas não passaria muito tempo antes de algo menos do que a obediência completa ser prestada às suas instruções (cf. Lv 10:16-18). O ministério mediador de Arão começa quando Moisés o ordena a tomar um bezerro sem defeito, de dois anos, como oferta pelo pecado, e um carneiro para um holocausto(2), e sacrificá-los diante do SENHOR. Estes dois animais deviam ser oferecidos em prol de Arão e o sacerdócio, e é significante que eram ofertas pelo pecado. Até mesmo a pessoa mais dedicada e consagrada ainda peca e fica muito aquém da glória de Deus (Rm 3:23; 5:12). Quanto mais perto as pessoas vivem da vontade do Senhor, tanto mais têm consciência deste corolário da existência humana real.
 
3-5. Arão é ordenado a requerer da parte da congregação um bode, um bezerro e um cordeiro, sem defeito e de um ano de idade. A atenção consistente a detalhes que o sistema sacrificial levítico requer é ilustrada pela menção do cordeiro que, para ser considerado como tal, deve ter menos de um ano de idade; depois deste tempo fica sendo carneiro. Os w. 2 e 3 consistem das únicas ocasiões na tarifa sacrificial em que um bezerro é preceituado para o sacrifício. Intérpretes judaicos posteriores sugeriram que o bezerro foi incluído aqui como uma expiação pêlos eventos de Êxodo 32, mas embora isto seja possível, é, na melhor das hipóteses, incerto. Além disto, o povo devia trazer animais para sacrifícios pacíficos ou de bem-estar, e fornecer uma oferta de manjares misturada com azeite. Estas exigências abrangiam as formas principais de sacrifícios, e marcam a altura em que o povo começou a participar do sistema de ofertas. As exigências feitas aos israelitas nesta etapa das peregrinações no deserto são modestas, e bem dentro das capacidades deles para cumpri-las. Ilustra-se, assim, um princípio importante da vida espiritual, a saber: Deus não impõe sobre o crente qualquer fardo que é pesado demais para suportar, em contraste com as práticas dos fariseus (Mt 23:4; Lc 11:46) e dos seus sucessores espirituais.
 
6-7. A razão porque o povo deve ser purificado bem como os sacerdotes agora fica aparente. A glória do Senhor deve ser revelada à comunidade, e Sua presença acrescentará um selo visível de aprovação às cerimônias de consagração que acabaram de ser concluídas. Para aqueles que passaram pela experiência do estremecer do Monte Sinai (Êx 19: 18), esta seria uma perspectiva ao mesmo tempo emocionante e amedrontadora. A palavra aparecerá está no tempo perfeito em Hebraico, sendo falada como se já tivesse acontecido, porque não havia dúvida na mente de Moisés de que ocorreria. Quando tudo estava em estado de prontidão, Moisés mandou Arão começar seus deveres sacerdotais ao fazer expiação por si mesmo e pelo povo, de acordo com as instruções do Senhor. xAté que isto tivesse sido feito, a presença de Deus não honraria nem os procedimentos nem os participantes. Sua glória já tinha descido sobre o tabernáculo acabado (ÊX 40:34), e agora ela estava a ponto de ratificar o ministério a ser realizado ali.
 
e. Os sacrifícios de Arão (9:8-24)
Esta seção apresenta aquilo que era o padrão normal da adoração sacrificial israelita, em que o ritual da oferta pelo pecado precede naturalmente o holocausto,36 e indica o modo segundo o qual Deus deseja  que os adoradores se aproximem dEle. Antes de mais nada havia a necessidade de purificação do pecado, de tal modo que o transgressor pudesse ficar imaculado diante de Deus. O holocausto simbolizava a obediência e a submissão da pessoa que já se identificava manualmente com seu sacrifício como meio de obter o favor divino, ao passo que a oferta pacífica ou de bem-estar visava promover o bem-estar do ofertante enquanto continuava em comunhão com seu Senhor. Há uma pequena variação dos detalhes dos regulamentos que regem a oferta pelo pecado do sumo sacerdote (4:5-7), onde todo o sangue foi jogado na base do altar ao invés de parte ser espargido diante do véu do santuário e untado nas projeções do altar de incenso. Esta divergência pode ser esclarecida ao relembrar que Arão ainda teria que entrar na tenda da congregação pela primeira vez (23). Além disto, os procedimentos descritos em conexão com a oferta pacífica (cf. 3:1-17) variam um pouco, pois o peito, que normalmente ficava sendo a posse do sacerdócio (7:31) e a coxa direita, que era a prerrogativa do sacerdote oficiante (7:32), nesta ocasião foram apresentados como oferta movida (NEB "uma dádiva especial") a Deus.
 
8-11. Arão sacrificou primeiramente sua própria oferta pelo pecado, visto que sua pureza estava estreitamente ligada com a da congregação, da qual ele era o exemplo. Este fato reflete os padrões de obediência, de pureza e de santidade estabelecidos por Jesus que o cristão é conclamado a seguir (l Pé 2:21-24). Os filhos de Arão ajudaram no ritual de untar o sangue nas projeções do altar do holocausto; depois, o resto do sangue foi derramado à base do altar, e os tecidos gordurosos foram queimados da maneira normal. Os pedaços da carne e do couro também eram queimados fora do arraial, de acordo com os procedimentos exigidos para a oferta pelo pecado (Lv. 4:11-12).
 
12-14. Tendo sido imolado o holocausto, seu sangue foi espargido sobre o altar, sendo que, mais uma vez, Arão foi ajudado pêlos seus filhos neste processo. Os deveres destes eram passar para ele as várias seções do animal sacrificial. Estes pedaços foram então queimados juntamente com a cabeça, as entranhas e pernas lavadas, conforme a maneira preceituada (Lv 1:6-9). A cerimónia de passar o sacrifício para Arão, pedaço por pedaço, era sem dúvida uma parte impressionante do ritual, mas também indicava que, à medida em que os pedaços componentes eram abrangidos pela totalidade, assim também o sacerdócio inteiro era representado pelo sumo-sacerdote oficiante.
 
15-17. O bode para a oferta pelo pecado do povo foi então imolado e apresentado ao Senhor. Seguiu-se, então, o holocausto, que tambem foi sacrificado de acordo com as diretrizes (o rito; RSV "ordenança"). Os rituais que envolviam as ofertas de manjares foram cuidadosamente observados, sendo que a narrativa menciona a queima das porções memoriais (cf. Lv 2:2) no momento apropriado na cerimónia. Embora a recapitulação tediosa dos regulamentos seja evitada nos resumos de procedimentos apresentados aqui, fica sendo óbvio que os vários sacrifícios são oferecidos de rigoroso acordo com os procedimentos preceituados. A obediência explícita, e nato o individualismo ou a inovação, era o que Deus requeria do adorador.
 
18-21. Os sacrifícios pacíficos ou de bem-estar foram imolados em seguida, e mais uma vez, os filhos de Arão entregaram a ele o sangue do boi e do carneiro para espargir no altar. Todos os órgãos que eram cobertos de gordura foram consumidos pelo fogo, mas o peito e a coxa direita foram dedicados a Deus, empregando os gestos apropriados de apresentação. A ordem dos sacrifícios descritos nos preceitos rituais constitui-se em guia importante para os cristãos no que diz respeito aos princípios da espiritualidade que subjazem o culto divino. Dos três conceitos enunciados, aquele que tinha prioridade dizia respeito à purificação do pecado, denotada pela oferta pelo pecado. Quando a expiação apropriada tivesse sido feita, o adorador devia entregar sua vida e obra a Deus, conforme é indicado pelo holocausto e a oferta de manjares. Finalmente, devia desfrutar da comunhão com Deus dentro do contexto de uma refeição de comunhão, que era fornecida pela oferta pacífica. Não há conflito de interesse aqui com os rituais de Levítico 1—5, visto que, dos cinco tipos enumerados, nada menos que três dizem respeito, dalguma maneira, à remoção do pecado e da culpa. Oportunidades também são fornecidas mediante os preceitos sacrificiais para a dedicação, ações de graças e comunhão pessoais. Alguns cristãos gentios primitivos em Corinto, que não tinham familiaridade com as condições espirituais que regiam a adoração judaica, não observavam esta ordem, e, portanto, não conseguiram discernir o corpo do Senhor (l Co 11:20-21, 29).
 
22-24. Arão agora exerce sua prerrogativa sacerdotal ao invocar a bênção de Deus sobre o povo. A tradição judaica posterior sustentava que ele empregou a fraseologia magnífica da bênção sacerdotal em Números 6:24-26, em que o poder, a presença e a paz de Deus para os que estavam sendo abençoados perfazem a intenção do pronunciamento. Depois disto, tanto Moisés quanto Arão entraram no lugar santo da tenda da congregação. Talvez nesta ocasião Moisés formalmente transferisse as responsabilidades do santuário a Arão, e lhe desse instruções na realização daquelas tarefas que ele mesmo empreendera anteriormente. Quando saíram para o átrio do tabernáculo, os dois oraram, pedindo a bênção de Deus sobre a nação de Israel. Como resposta a isto, a glória do Senhor tomou-se visível ao povo, provavelmente da mesma maneira que em Êxodo 40:34, em que uma nuvem e a "glória" (esta última palavra deriva de uma raiz "ser pesado') continuava a indicar a presença de Deus. Parece haver pouca dúvida que os fenômenos da nuvem e do fogo, destacados no tempo do êxodo (Êx 13:21), desceram sobre o tabernáculo a esta altura. O fogo flamejou do meio da nuvem e consumiu os pedaços sacrificiais que pertenciam a Deus, colocando, assim, um sinal inconfundível de aprovação divina nos procedimentos (cf. Gn 15:17; Jz 13:
 
19-20; l Rs 18:38; 2 Cr 7:1). Um conceito de larga aceitação nos círculos liberais, de que este fenômeno milagroso foi um acréscimo posterior, visto que os sacrifícios tinham sido queimados no altar, já foi repudiado por Porter como sendo "de mentalidade por demais liberalista.” 37 O que parece ter acontecido é que o fogo de Deus consumiu totalmente os sacrifícios que já estavam em processo de queima. O aspecto importante e assustador que chamou a atenção, no entanto, foi a origem divina do fogo que queimou no altar dos sacrifícios. Nas Escrituras, o fogo é freqüentemente empregado como símbolo da presença e das atividades de Deus (cf. Dt 4:24; SI 18:8-14; Ez l:4; Ap 1:14). Em Malaquias 3:2, o Messias vindouro foi assemelhado a um fogo de ourives que removeria as escórias e refinaria o metal até ele ter alto grau de pureza. João Batista levou esta idéia uma etapa adiante ao prometer que, ao vir, o Messias balizaria com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3:11; Lc 3:16). A manifestação do Espírito Santo no Pentecostes foi descrita como sendo "línguas de fogo" pairando sobre os apóstolos, e assim foram cumpridas de modo espetacular as predições de João. A linguagem figurada em Malaquias está relacionada no pensamento de Paulo ao aquilatamento final das atividades do crente no dia do juízo (l Co 3:13-15), quando, então, será examinado em termos dos padrões mais exigentes. O fogo que Cristo veio lançar sobre a terra (Lc 12:49) deve consumir tudo quanto é iníquo e indigno no crente se é que os ministros do Senhor realmente vão tomar-se em chamas de fogo (Hb 1:7). A natureza dramática da teofania levou o povo a gritar alto, reação esta que, sem dúvida, foi induzida por uma mistura que incluía o medo, a surpresa, a alegria e as ações de graças. Mostraram-se sobre os seus rostos (24) diante de Deus, adulando um método característico do Oriente Próximo de demonstrar submissão total a um suserano. Além do holocausto e o sacrifício de bem-estar que acabaram de ser apresentados a Deus em prol do povo pelo sacerdócio recém-ordenado, aos israelitas foi oferecida uma oportunidade totalmente inesperada para a adoração espontânea e uma expressão de gratidão a Deus.
 
f. Nadabe e Abiú (10:1-7)
Mal tinham terminado as cerimônias da consagração, e os sacerdotes entrado nas suas funções sagradas, e um ato de sacrilégio foi perpetrado pêlos filhos mais velhos de Arão, Nadabe e Abiú. O capítulo 9 mostra a maneira segundo a qual o povo devia aproximar-se de Deus na adoração, e as bênçãos e os benefícios que resultariam. O capítulo 10 torna claro quão rapidamente a retribuição divina veio sobre aqueles que se recusaram a seguir a orientação, e que insistiram, ao invés disto, em seguir um curso independente. O que tão recentemente tinha sido um tempo de felicidade e esplendor para a nação é estragado por uma tragédia desnecessária. A situação ficou sendo ainda mais lastimável por causa da posição privilegiada que estes dois homens tinham desfrutado quando, juntamente com Moisés, com o pai deles, Arão, e setenta dos anciãos de Israel, tiveram licença de ver uma manifestação do Deus de Israel no Monte Sinai (Êx 24:1, 10). Os abusos que se permitiram foram de natureza muito séria, visto que foram induzidos pela desobediência.
 
1-2. Os dois homens começaram seus deveres no tabernáculo ao tomarem seus próprios incensários, que consistiam em panelas de forma achatada em que eram lavados carvões em brasa, e lhes deitaram fogo. Depois, colocaram incenso sobre as brasas, e, segundo parece apresentaram este fogo estranho a Deus, de uma maneira que não tinha sido preceituada. Há vários elementos deste' procedimento que violavam todas as instruções para o sacrifício que Moisés recebeu da parte de Deus. Em primeiro lugar, não há indicação alguma de que as brasas foram tiradas do altar do holocausto (cf. Lv 16:12), cujo conteúdo fora aceso pelo fogo divino quando o Senhor santificou o tabernáculo na ocasião das cerimônias de consagração dos sacerdotes. Até este ponto, portanto, uma mudança significante tinha sido feita nos rituais sacerdotais, e algo que não era santo, i.é, não consagrado ao serviço de Deus tomou-se um intruso entre os demais elementos consagrados. Em segundo lugar, nada há nos preceitos pormenorizados do sacrifício que declarasse que qualquer pessoa senão o próprio sumo-sacerdote devesse colocar incenso num incensário de brasas e apresentá-lo a Deus. Até mesmo aquela cerimónia era restrita ao dia da expiação quando, uma vez por ano, o sumo-sacerdote entrava no Santo dos Santos do santuário para cobrir o propiciatório com uma nuvem de incenso. Logo, ao se comportarem assim Nadabe e Abiú estavam usurpando de maneira espalhafatosa e imperdoável as responsabilidades da pessoa principal da hierarquia sacerdotal.  Suas ações podem ter sido o resultado do orgulho, da ambição, dos ciúmes, ou da impaciência, e, se for assim, sua motivação estava muito longe da intenção de quem procurava viver uma vida de santidade ao Senhor. Em terceiro lugar, fica óbvio que nem Moisés nem Arão tinham sido consultados acerca da mudança repentina de procedimento, e, portanto, as ações de Nadabe e Abiú consistiram de um ato de desobediência aos desejos conhecidos dos seus superiores, conforme são expressos na legislação sacerdotal, sem nada dizer quanto ao fato de constituir-se em ato de desafio contra Deus. Logo, a penalidade de ser "cortado", preceituada em Números 15:30 para os pecados de intenção deliberada contra os regulamentos da aliança, entrou em vigor de modo dramático. Além disto, o ato de colocar incenso sobre as brasas vivas poderia muito bem ter sido interpretado como sendo parte de um ritual simples de oferecer enceno a um deus pagão, tal como aquele em que se ocupavam as mulheres de Jerusalém nos tempos de Jeremias (Jr 44:25). Porque ser santo ao Senhor envolvia uma separação de todas as formas de mundanismo (cf. 2 Co 6:14-17), este tipo de inovação ritual era a própria antítese daquilo que Deus preceituara para a adoração a Ele. Outros fatores que podem muito bem ter entrado na transgressão incluíam a possibilidade de que o incenso não tinha sido composto de acordo com as instruções dadas por Deus a Moisés (Êx 30:34-38); que os dois homens usaram seus incensários domésticos ao invés daqueles que tinham sido consagrados especificamente para o uso no tabernáculo; ou que a oferta fora feita de modo impróprio, de modo que usurpasse as funções do altar de incenso (ÊX 30:7-8). Talvez o mais importante de tudo seja a possibilidade de que Nadabe e Abiú estivessem num estado ébrio ao entrarem nos seus deveres, e que esta condição influísse no seu são juízo. Nesta conexão, a proibição no v. 9 é muito relevante. À luz do que foi dito supra, parece difícil acreditar que o delito cometido fosse puramente acidental na sua natureza. A inversão de valores, mediante a qual aquilo que era profano foi oferecido ao Senhor como se fosse algo sagrado e consagrado é totalmente oposta a tudo quanto à aliança do Sinai representava. Ironicamente, foi pelo fogo que os transgressores morreram (2), mortos por uma chama consumidora que é característica da natureza de Deus (Hb 12:29), que exige a adoração aceitável com reverência e santo temor. Não se sabe exatamente como o fogo matou Nadabe e Abiú, ou se a palavra "fogo" era um sinônimo para um raio de relâmpago. Muitos daqueles estudiosos que atribuem uma data pós-exílica de composição a Levítico têm pressuposto que durante o exílio houvesse uma migração a Jerusalém de "grupos Sacerdotais" da área do norte, presumivelmente numa tentativa para estabelecer um sacerdócio do norte no reino do sul. Embora estes sacerdotes alegassem estar na tradição arônica, esta narrativa deixou claro que somente os filhos obedientes, Eleazar e Itamar, realmente transmitiram o sacerdócio legítimo de Arão, ao qual os sacerdotes israelitas apóstatas claramente não pertenciam. Para aqueles que sustentam este ponto de vista, a presente narrativa consiste de uma "história etiológica" '•que procura explicar a base lógica das condições que existiam num período subseqüente. Uma suposição deste tipo depende de atribuir, arbitrariamente, uma data na era do segundo templo a Levítico, proposição esta que foi asseverada muitas vezes por estudiosos liberais, mas ainda falta uma demonstração pêlos fatos. Mais significante de tudo é a falta total de evidência no Antigo Testamento para qualquer movimento de sacerdotes de santuários fora de Jerusalém para a capital de Judá a fim de substituir aqueles sacerdotes que foram levados para o cativeiro. Depois de 581 a.C. a área em derredor de Jerusalém ficou desolada, e a própria cidade era uma ruína, se é que se pode acreditar na evidência de Lamentações. Quando os cativos voltaram do exílio entre 538 a.C. e cerca de 525 a.C., a oposição que encontraram não vinha de círculos sacerdotais rivais, que se destacam pela sua ausência das narrativas relevantes, mas, sim, de indivíduos ou grupos com interesses políticos, tais como Sambalá, os árabes, os amonitas e os asdoditas (Ed 4:4; Ne 4:7).
 
3. Moisés empregou este incidente para ilustrar exatamente aquilo que Deus queria dizer por santidade e separação, a fim de que o pai desolado e o povo como um todo compreendesse. Ao passo que para os povos pagãos contemporâneos o conceito da santidade significava nada mais do que uma pessoa ou um objeto ser consagrado ao serviço de uma divindade, para os israelitas a santidade era um atributo ético do caráter divino que tinha de ser refletido nas suas próprias vidas e no seu próprio comportamento, visto que eram ligados pela aliança ao Deus de Sinai. Há dois aspectos básicos deste relacionamento que deveriam estar sempre em primeiro plano nas mentes dos israelitas: o primeiro era que a aliança procedia do amor de Deus (hesed); o segundo, que exigia dos israelitas uma resposta de obediência sem hesitação e sem qualificações.  
Visto que certos membros da linhagem sacerdotal aparentemente se recusaram a levar a sério à resposta humana ao amor de Deus conforme a aliança, todos deveriam aprender uma lição que, pela sua natureza visual, faria uma impressão duradora sobre as mentes individuais. Dai a declaração de Moisés de que Deus demonstrará a natureza e o significado da santidade. As palavras de Moisés não consistem de uma citação literal de pronunciamentos registradas na Tora, mas, sim, refletem seus ensinos acerca dos requisitos da santidade para o cargo de sacerdote (cf. Êx 19:22; 29:1, 44, etc.) e o aforismo de Samuel de que a obediência é preferível ao sacrifício (l Sm 15:22). Porque a santidade é um dos atributos espirituais mais característicos de Deus, forçosamente há de ser manifestada entre aqueles que estão associados com Ele. O Novo Testamento está em harmonia com esta proposição na sua insistência em que os crentes em Cristo vivam vidas de consagração e santidade (Rm 12:1; Ef5:27; l Pé 1:15-16, etc.). Quanto mais estreitamente a pessoa está associada com a obra de Deus no mundo, tanto mais necessário é assegurar-se de que o relacionamento com Deus não é estragado por máculas espirituais, senão, o crente não pode funcionar adequadamente como canal para a graça saneadora de Deus. Uma situação deste tipo também exige que aqueles que têm dons especiais, ou que ocupam posições de grande responsabilidade na sociedade, devem ser especialmente escrupulosos no que diz respeito à sua conduta geral. Um número grande demais de pessoas que vivem em todos os níveis da vida comunitária imaginam que o destaque social ou político isenta, dalguma maneira, o indivíduo das exigências da lei moral. Em contraste, o Novo Testamento ensina que o juízo será aplicado mais rigorosamente àqueles que foram ricamente dotados com capacidade e conhecimento do que a outros numa situação menos afortunada (cf. Lc 12:48). O fato de que este julgamento começará pela casa de Deus (l Pé 4:17) exige que cada crente deva confirmar sua vocação e eleição (2 Pé 1:10). Os filhos de Arão tinham ocupado por um período muito breve uma posição privilegiada como líderes espirituais da nação, mas não tinham levado suas responsabilidades tão a sério quanto exigia um Deus justo e santo. Como resultado, era impossível para Deus ser glorificado diante de todo o povo. A consistência do testemunho cristão pêlos lábios e pela vida é vista na insistência de que os crentes individuais glorificassem a Deus nos seus corpos (l Co 6:20), i.é, com suas personalidades inteiras. O impacto desta virada dramática dos eventos sobre Arão é percebido no seu silêncio enquanto a lição estava sendo assimilada. Sem dúvida, estava numa condição de choque severo, mas de qualquer maneira, dificilmente poderia ter justificado o comportamento dos seus filhos por qualquer motivo que fosse. Se no seu coração reconhecia que o castigo fora justo, embora fosse rápido e severo, sua única resposta poderia ser a da aceitação humilde da vontade de Deus (cf. SI 39:9).
 
4-5. Para a tarefa de remover os cadáveres da área do tabernáculo, Moisés chamou dois primos em primeiro grau de Arão; Misael e elzafã, acerca dos quais nada mais se sabe senão que não eram sacerdotes. Nenhuma pessoa consagrada poderia ter tocado nos mortos sem ficar contaminada, e este fato proibiu o pai desolado de entrar em contato físico com seus filhos mortos. Presumivelmente os primos de Arão eram os parentes mais próximos, e, portanto, podiam tratar dos ritos do enterro. Os cadáveres deveriam ser enterrados nalgum local além do arraial israelita propriamente dito, porque assim seria evitada a contaminação cerimonial de qualquer pessoa que acidentalmente chegasse ao local do enterro. Em terreno rochoso o sepulcro seria marcado por um monte de pedras empilhado sobre os corpos para evitar que estes fossem mutilados por animais ou aves predatórias. Os mortos estavam sendo aparentemente enterrados envoltos nas suas túnicas sacerdotais de linho (Heb. ktonet) tecidos com obra bordada (Ex 28:39), o que indica que, qualquer que fosse o dano feito a eles pelo fogo na ocasião da morte, não tinha queimado suas roupas externas até consumi-las.
 
6-7. Moisés proibiu Arão e seus dois filhos sobreviventes, Eleazar e Itamar, de lamentarem a morte súbita de Nadabe e Abiú. Deixar os cabelos desgrenhados e rasgar as vestes eram indicações comuns de grande pesar entre os israelitas (cf. Gn 37:29-30; 44:13). Outros membros da congregação poderiam lamentar a calamidade desta maneira se assim desejassem, mas se os sacerdotes consagrados sobreviventes fizessem assim, dariam a entender que não estavam dando prioridade às suas responsabilidades sacerdotais. Tal atitude traria sobre eles o mesmo tipo de castigo da parte de Deus, porque pareceria que estavam disputando ou desafiando, dalguma maneira, o julgamento que fora executado. Esta proibição deve ter colocado uma pressão tremenda sobre o controle-próprio de Arão e dos seus dois filhos sobreviventes, especialmente porque os israelitas respondiam de modo muito emotivo à incidência da morte. Os demais aronitas também foram proibidos de deixar a área do santuário, porque estavam num estado de consagração ritual. Violar esta condição santa traria a morte sobre eles, e a ira punitiva sobre o povo de Israel. Mesmo num tempo de grande calamidade, os sacerdotes do Senhor deviam dar um exemplo à nação, de rigorosa obediência à vontade de Deus, e da fidelidade sem desvios às leis que regiam os rituais do tabernáculo. Fossem quais fossem seus sentimentos pessoais, não deviam permitir que coisa alguma interferisse com a obra do ministério. Ao cumprir a vontade do Seu Pai, Jesus Cristo não permitiu que considerações pessoais de qualquer tipo se pusessem no caminho da Sua obra redentora do Calvário. Como tal. Ele fica sendo um modelo da dedicação e devoção que se espera que o cristão exemplifique.
 
g. Proibidos os sacerdotes bêbados (10:8-11)
 
8. Esta seção começa com uma declaração direta de Deus para Arão, ao invés de para Moisés, acerca de ingerir bebidas inebriantes. No futuro, sejam quais forem as circunstâncias, os sacerdotes oficiantes estavam proibidos de beber inebriantes antes de empreenderem seus deveres sacrificiais no tabernáculo. A desobediência a esta proibição resultaria na morte do transgressor. A santidade cerimonial e a autodisciplina deviam, portanto, ir de mãos dadas. A presença de uma delas não garantiria que a outra estaria ali automaticamente. O fato de que o sacerdote foi consagrado de acordo com os rituais divinamente revelados não o impedia de fazer suas próprias decisões, para o bem ou para o mal. O desenvolvimento do caráter cristão exige que a vontade do indivíduo seja entregue para o propósito de Deus para sua vida, seguindo o exemplo dado por Cristo (f o 4:34; 5:30). Baseado nestes fatos, a tradição rabínica de que os dois filhos de Arão cometeram sacrilégio ao oficiarem no tabernáculo enquanto estavam sob a influência do álcool parece ter considerável substância.
 
9. Vinho e bebida forte parecem ter sido as bebidas principais para os adultos no Oriente Próximo antigo, visto que nem chá nem café tinham sido introduzidos naquela área neste período. O vinho (Heb. yayin) era feito do suco espremido e fermentado das uvas, que bem possivelmente foram cultivadas primeiramente na região de Ararate. 38 A bebida forte (Heb. fêkar) era um termo freqüentemente usado em associação com o vinho, e as duas palavras parecem ter descrito bebidas alcoólicas de potência variada. Talvez a "bebida forte" fosse o produto da destilação, e como tal, fosse um licor alcoólico e não uma bebida fermentada tal como o vinho ou a cerveja. Esta última era fermentada tanto da cevada quanto das tâmaras, e era especialmente favorecida pêlos egípcios e pêlos filisteus. Porque os fornecimentos de água apropriada para o consumo humano não eram de modo algum abundantes no Oriente: Próximo, parece ter havido pouca coisa disponível para beber a parte das bebidas alcoólicas dalgum tipo. Em tais condições, não era fácil, de modo algum, controlar a embriaguez, e somente os mais disciplinados, tais como os nazireus (Nm 6:3), conseguiam abster-se de bebidas inebriantes por períodos consideráveis de tempo. Nos dias de Isaías, parece que os sacerdotes se submetiam cada vez mais à influência do álcool (cf. Is 28:7), ao passo que o livro de Provérbios dá advertências freqüentes acerca dos perigos da embriaguez (cf. Pv 20:1; 23:30-31). O álcool etílico é uma substância que não ocorre naturalmente nos tecidos constituintes do corpo humano. Quando é ingerido, é distribuído rapidamente pelo intestino delgado, embora uma pequena quantidade passe do estômago diretamente para a corrente sanguínea. Um máximo de 10% do álcool consumido é desfeito pêlos processos normais físicos, sendo que o restante é metabolizado por certos órgãos do corpo, principalmente o fígado. Aqueles que bebem pequenas quantidades de álcool regularmente durante um período prolongado de tempó não parecem sofrer maus efeitos significantes, provavelmente porque, quando o álcool é ingerido, é grandemente diluído pêlos fluidos do próprio corpo como parte do processo de absorção. O álcool opera diretamente sobre o sistema nervoso central, e embora seu efeito em doses grandes e sempre mantidas seja o de um depressível, pode produzir certas formas de excitação quando é ingerido em quantidades pequenas. Neste último estado, a perda de inibições é claramente notada, o que indica que o efeito imediato do álcool influi em funções mentais avançadas como o pensar e o fazer julgamentos. Desde os tempos muito antigos, o álcool tem sido bebido para aliviar a tensão ou o grande pesar, acreditando-se que as tristezas pudessem ser "afogadas" (cf. Pv 31:6-7), ou para agir como carminativo em casos de dispepsia ou de gastrite branda (cf. l Tm 5:23), além de servir como a bebida normal em várias culturas. Certo texto médico babilônico descreveu uma condição por demais comum naqueles tempos: "Se um homem tiver bebido demais de vinho forte, e se sua cabeça estiver confusa, se  esquecer das suas palavras e se sua fala ficai embaraçada, se seus pensamentos divagarem e seus olhos ficarem vidrados. . ." F. Küchier, Beitrage zur Kenntnis der Assyrisch-Babylonischen Medizin Ocasionalmente, médicos modernos receitam a ingestão oral de álcool em doses semelhantes às clínicas, mas esta prática é rigorosamente uma sobrevivência da medicina folclórica.  Suprimentos abundantes de vinho eram considerados no Antigo Testamento como uma das bênçãos de Deus. (cf. Gn 27:28, etc.), trazendo alegria ao coração e alívio aos tristes (SI 104:15; Pv 31:7). O que, no entanto, era encarado com reprovação, era a embriaguez que formava uma parte integrante dos ritos religiosos pagãos em Canaã e noutros lugares, e embora os sacerdotes hebreus tivessem licença de ingerir bebidas alcoólicas como parte de uma refeição, eram proibidos de imitar as atividades ébrias dos seus pares cananeus, ou o comportamento de profetas cultuais tais como os muhhu, cujos  pronunciamentos oraculares, segundo parece, eram inspirados pelo menos parcialmente pelo álcool.
Os Nazireus refletiam as práticas antigas da separação e de uma abstinência auto-imposta, a fim de realizar algum tipo especial de dever religioso (Nm 6:1-21). Um dos três aspectos distintivos principais dos nazireus era a total abstinência do vinho e das uvas. Conforme Amos 2:11-12, Deus dera os nazireus ao Israel apóstata como exemplos e instrutores espirituais, mas o povo comprometera o testemunho deles. Outro grupo que parece ter surgido contra o luxo e a corrupção da Judá dos séculos VIU e VII a.C. era conhecido como os recabitas, uma ordem fundada por Recabe, da tribo de Judá. O descendente de Recabe, Jonadabe, impusera uma proibição contra a ingestão do vinho, sem dúvida como parte da tradição familiar, e os membros do grupo foram ferrenhos quanto à sua posição quando Jeremias, mediante a ordem recebida de Deus, testou a autodisciplina deles (Jr 35:1-11). O profeta passou, então, então, a usar a obediência deles ao seu ancestral como exemplo de fidelidade verdadeira, e demonstrou o forte contraste com a apostasia e desobediência dos israelitas ao seu Pai espiritual (Jr 35:12-19). O cristão é advertido de modo semelhante contra o uso intemperante de bebidas alcoólicas (l Co 6:10; Ef 5:18), visto que a personalidade deve estar em todos os tempos sob o controle completo de Cristo.
 
10-11. Porque os sacerdotes precisam dar conselhos que afetam as vidas dos israelitas, devem ter plena posse das suas faculdades enquanto cumprem seus deveres. Nada deve ter licença de interferir com seus processos mentais, senão, serão incapazes de discernir e mediar a vontade de Deus para Seu povo. Se estiverem sob o efeito do álcool, a distinção entre o santo e o profano logo ficará ofuscada, talvez até ao ponto de perder seu significado. Tal coisa frustraria um propósito importante do relacionamento da aliança, que visava, entre outras coisas, tornar os israelitas o grupo mais distintivo no mundo antigo (cf. Dt 7:6; 14:2). Teoricamente, este aspecto distintivo capacitaria o povo, ao receber perguntas, a testificar da sua fé no Deus vivo do Sinai, que, acima de todas as demais divindades no Oriente Próximo antigo, era único e sem igual. Destarte, o povo da aliança poderia testificar àqueles ao seu redor quanto ao significado verdadeiro da santidade. Enquanto este povo se conformava progressivamente ao mundo da cultura secular (cf. Rm 12:2), sua qualidade distintiva desapareceu, e seu testemunho foi transigido de modo correspondente. Visto que o sacerdote também era um mestre da Tora, era questão de grande importância para ele n3o meramente saber os regulamentos cerimoniais e rituais, mas também ser convencido na sua própria mente quanto à diferença entre o bem e o mal, o comportamento moral e imoral, o sagrado e o profano. Jesus no Seu ensino tinha conselhos semelhantes para Seus discípulos (cf. Mt 7:6), de modo que, tendo a capacidade de distinguir entre o santo e o comum, não profanarias as coisas sagradas. Como resultado de uma visão (At 10:10-16), o apóstolo Pedro foi relembrado da capacidade de Deus de purificar aquilo que era comum, atividade esta que é característica do evangelho cristão. As leis a respeito do imundo e o limpo são citados com pormenores em Levítico 11 - 15. O dever do sacerdote como instrutor do povo nos caminhos do Senhor é inculcado em Arão (11). O sacerdote não é um oficiante mecânico, programado para seguir automaticamente uma série de regulamentos cultuais, mas, sim, é uma pessoa autoconsciente, consagrada ao serviço do Senhor, e, conseqüentemente, encarregado de responsabilidades espirituais importantes. Ao invés de pronunciar blasfêmias ou profanidades, seus lábios ensinarão o conhecimento de Deus. Longe de ser influenciado pelo gênio distinto do mundo pagão, o sacerdote se deleitará em fazer a vontade de Deus (SI 40:8), e conhecerá tão bem a lei de Deus que poderá indicar aos outros a direção que suas vidas devem seguir (cf. Ml 2:7). Não é, portanto, por acidente que o Novo Testamento emprega o conceito do sacerdócio para descrever o grupo dos crentes em Cristo, porque fala da dedicação, da entrega, da santidade, e comunhão estreita e contínua com o Senhor.
 
h. Regras para comer alimentos consagrados (10:12-20).                   
 
12-13. Estas instruções devem ser lidas em conjunção com os eventos descritos no capitulo 9, visto que tratam do modo de dispor das porções sacerdotais das ofertas. A oferta de manjares era aquela que se misturava com azeite (Lv 9:4), e que tinha sido apresentada na ocasião do holocausto. Porque era coisa santíssima tinha de ser comido junto ao altar, e sendo parte da oferta do povo (Lv 9:17), era a prerrogativa dos sacerdotes somente, mediante a especificação divina,
 
14-15. Em contraste com as restrições impostas sobre o comer da oferta de manjares, os sacerdotes têm licença de compartilhar com os membros das suas famílias o peito ("da dádiva especial" NEB) e coxa ("da contribuição" NEB), apresentados como ofertas pacíficas.Estas porções não eram descritas como "coisas santíssimas" e, portanto, podiam ser comidas em qualquer lugar limpo. A carne tinha sido consagrada pela forma especial de apresentação diante de Deus (ver notas sobre Lv 9:18-21), e, portanto, devia ser restrita aos sacerdotes. Era apropriado que tais pedaços seletos fossem a recompensa das pessoas que confiavam totalmente em Deus para seu sustento.                      
 
16-20. A referência ao bode da oferta pelo pecado obviamente diz respeito ao sacrifício apresentado pelo povo no término das cerimônias da consagração (Lv 9:3, 15). Parece, por estas palavras, que este último sacrifício acabara de ser completado antes de morrerem Nadabe e Abiú. O bode deveria ter sido oferecido segundo os procedimentos de Levítico 9:8-11, onde os pedaços que não foram queimados no altar de bronze foram destruídos fora do arraial israelita. Não fica claro na narrativa se foram envolvidas duas queimadas separadas, mas certamente havia outras irregularidades rituais. Em Levítico 9:15, Arão tinha apresentado esta oferta e, portanto, era tecnicamente responsável para supervisionar o seguimento correio dos procedimentos. Mas foi provavelmente por respeitar a grande tristeza do sumo-sacerdote que Moisés chamou a atenção dos dois filhos sobreviventes. Segundo as regras estipuladas em Levítico 6:26, a oferta pelo pecado devia ser comida dentro do recinto do lugar santo. O que não foi declarado naquela passagem foi à razão que subjazia o fato de os sacerdotes comerem a oferta, a saber: para levardes, a iniqüidade da congregação, para fazerdes expiação por eles.  Fica sendo claro, portanto que os sacerdotes são mediadores da graça divina, ajudando o povo a fazer expiação pelo pecado e depois participando da oferta, indicando assim sua plena aceitação por Deus e a restauração do povo à comunhão com Ele. Nalgumas versões, do v. 18, mel. ARC e AFIA) o Hebraico é traduzido como uma declaração direta, ao passo que NEB introduz um elemento condicional: "Se o sangue não for trazido para dentro do recinto sagrado, comereis a oferta pelo pecado ali conforme me foi ordenado.”Esta interpretação do Hebraico é difícil de se sustentar. A quebra dos procedimentos litúrgicos pêlos dois filhos talvez não tenha sido especialmente obstinada. Devido à tragédia que tinha sobrevindo à família tão pouco tempo após as cerimônias da consagração, os filhos sobreviventes talvez tenham sentido que realmente não poderiam comer, por causa do choque e da tristeza. É também possível que tenham pensado que fossem dalguma forma maculados pela transgressão pêlos irmãos deles, e, portanto, que tivessem medo de serem eles também abatidos de repente. Do outro lado, é possível que tenha seguido o exemplo do próprio Arão na sua abstinência da oferta pelo pecado. Parece que Arão estava totalmente desnorteado pela incidência da calamidade, especialmente tendo em vista que parecia que as regras de procedimento foram seguidas de perto (19). Por motivos de decoro, desculpou seu próprio comportamento e o dos seus dois filhos sobreviventes, explicação esta que foi aceitável a Moisés. Com este evento trágico, terminou a segunda seção principal de Levítico. Os sacerdotes foram consagrados, e os três membros sobreviventes da família já agora estão dolorosamente conscientes das condições rigorosas de comportamento que governam seu cargo. O restante de Levítico consiste em regulamentos, procedimentos cerimoniais e leis rituais, que o sacerdócio tinha a responsabilidade de administrar. O caráter destas ordenanças demonstra que todos os aspectos da vida submissa a Deus são sagrados.
 
   Conclusão:
 
     O Sacerdócio é algo tremendamente sério e de maior responsabilidade entre todos os ofícios, pois é um relacionamento direto entre o homem e DEUS e em favor dos homens (intercessão) e não como um relacionamento entre um governante e o povo. Não são coisas efêmeras (terrenas) que são tratadas neste relacionamento, mas coisas espirituais (eternas).
      Sabemos pela palavra de DEUS que a responsabilidade do sacerdócio não é mais apenas daqueles que são separados para o ofício, mas de todos nós que representamos CRISTO na terra.
1 Pe  2. 9 Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;
 
Bibliografia:
 
 Bíblia de Estudo Pentecostal – CD-Rom – CPAD – 2000 – Rio de janeiro – RJ
Sociedade Religiosa Edições Vida Nova – Cid.Dutra – 04810-020 São Paulo-SP – Comentado por Roland K.Harrison, Ph.D.,D.D.
 
       
 
       
 
    http://www.jesusnet.org.br/tabernaculo/altb.htm 
 
               ILUSTRAÇÕES:
 
     
 
     
 
     
 
     
 
    
                                 
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