Lição 6 - DISCIPULADO 2 - TEMPERANÇA
Gl 5.22 Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade.
23 a mansidão, o domínio próprio; contra estas coisas não há lei.
TEMPERANÇA é basicamente a virtude do ESPÍRITO SANTO que nos ajuda a ter domínio próprio; ou seja capacidade de dominar nossas ações em qualquer situação, seja no vestir ou no falar, ou no agir.
O FRUTO DO ESPÍRITO
O DOMÍNIO PRÓPRIO (TEMPERANÇA)
(Gálatas 5.16-25 )
1. INTRODUÇÃO
Não podemos esquecer, como tenho repetido aqui, que a vida cristã é aquela
vivida no Espírito Santo. Na verdade, a vida cristã só é possível no Espírito.
Fora dEle, nossa vida é como a de qualquer pessoa.
Entre as virtudes cristãs, elencadas pelo apóstolo Paulo, está a do domínio
próprio. Quando relaciona as qualidades de um cristão, Paulo inclui o domínio
próprio (Tito 1:8), junto com hospitalidade, benignidade, sobriedade, justiça
e piedade. O apóstolo Pedro segue na mesma trilha, colocando como uma das
virtudes a ser buscada pelo cristão, ao lado do conhecimento, da perseverança
e da piedade. (2Pedro 1.6)
Esta é uma palavra bastante problemática para nossa geração, acostumada à
idéia de que a felicidade decorre do desprezo à idéia de disciplina e
auto-controle. Colocando esta escolha em outros termos, podemos dizer que, para
boa parte das pessoas, se a escolha for entre felicidade e auto-controle, talvez
ouçamos alguém se dizer cansado de auto-controle e que agora pretende viver a
vida com toda a sua adrenalina. Prevalece a idéia que autocontrole e alegria são
incompatíveis
No entanto, a Bíblia nos adverte a não permitir que o pecado tenha domínio
sobre nós (Romanos 6.14), já que não estamos mais debaixo da lei, que nos
leva a produzir, mas sob a graça, que nos deve levar a frutificar, além do domínio
próprio, em alegria, amor, benignidade, bondade, fidelidade, longanimidade,
mansidão e paz.
2. O SENTIDO DO DOMÍNIO
PRÓPRIO.
O apóstolo dava muita importância ao termo ((egkrateia), uma vez que o usa várias
vezes. Em 1 Coríntios 9.25, trata-se da virtude de um atleta em disciplinar seu
corpo em busca da vitória; em 1 Coríntios 7.9, trata-se da capacidade do cristão
em controlar sua sexualidade.
É curioso que, quando comparece perante o procurador romano Antonio Felix, que
governou a Judéia de 52 a 60, o acusado apóstolo se defende falando de justiça,
de juízo final e de domínio próprio, para irritação do representante de
Nero. (Atos 24:25)
A expressão "domínio próprio" aparece sob diferentes palavras nas
versões bíblicas, tendo então como sinônimos principais auto-controle e
temperança. Não tem nada a ver, portanto, com endereço particular na
internet...
Podemos entender melhor o que é domínio próprio pensando no seu oposto. Quem
tem domínio próprio se autodomina. Quem não tem é dominado por algo ou por
alguém. Quem tem domínio não permite que sentimentos e desejos o controlem;
antes, controla-os, não se permitindo dominar por atitudes, costumes e paixões.
Domínio próprio, portanto, é a capacidade de efetiva que o cristão deve ter
de controlar seu corpo e sua mente. Quando fez o homem, Deus deu-lhe o privilégio
de dominar sobre todas as coisas: também disse Deus: Façamos o homem à nossa
imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar,
sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e
sobre todos os répteis que rastejam pela terra. (Gênesis 1.26)
O salmista relembra esta competência humana, ao dizer que Deus deu ao homem domínio
sobre todas as obras das suas mãos e dos seus pés (Salmo 8.6)
Esta competência, no entanto, nem sempre se realiza quando se trata de homem
dominar a si mesmo. Embora possa estar em nós desejar fazer o bem, nem sempre o
fazemos. Afinal, como aprendemos também com Paulo, na nossa carne, não habita
bem nenhum, pois o querer o bem está em cada um de nós; não, porém, o efetuá-lo,
porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço.
(Romanos 7.18-19) Por isso, parecemos, por vezes, em cidades derrubadas, pois
que cidade que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio.
(Provérbios 25:28)
Esta percepção não pode é um convite à passividade, mas um desafio a nos
conhecermos mais e a nos esforçarmos mais para viver segundo o padrão de Deus,
por difícil que seja.
3. DESENVOLVENDO O
AUTOCONTROLE
Antes, somos convidados a ter domínio sobre nossos sentimentos, sobre nossos
desejos e sobre as circunstâncias que nos envolvem.
1. Dominando nossos
sentimentos
Somos movidos pelos nossos sentimentos. Se, por exemplo, amamos, a Deus, ao próximo
ou a nós mesmos, somos levados a querer bem, adorando a Deus, respeitando o
outro e gostando de nós mesmos. Se, doutro lado, em nós o ódio é forte, seja
a Deus pela figura do pai que representa, seja ao próximo, por ser a fonte de
nosso sofrimento (o inferno são os outros, já dizia Sartre), seja a nós
mesmos, pela incapacidade ser o que gostaríamos de ser, somos levados ao vale
do vazio.
Ter domínio próprio é fazer com que os sentimentos bons sejam fortalecidos e
canalizados para que possam ser aperfeiçoados. Assim, o amor deve alcançar o
seu objeto. Desde Platão, existe uma modalidade de amor silencioso. Há homens
que amam mulheres que jamais retribuirão o seu amor pelo simples fato de não
saberem que sem amadas. Há, pois, um amor erótico platônico. Há também um
amor fraternal platônico, que é aquele que nunca passa ao campo da ação. Há
ainda um amor espiritual platônico. Há gente que só Deus, que sonda os corações,
sabe que é amado por ela, porque dos lábios desse tipo de adorador não sai um
cântico, não sai uma palavra de gratidão ou de exaltação a Deus.
Quando temos domínio sobre o sentimento do amor, fazemos com que ele se torne
operativo.
Quando ao ódio, bem, simplesmente não devemos odiar e poderíamos encerrar a
discussão aqui. No entanto, somos também capazes de odiar; este é um gigante
da alma, como o descreveu um antigo psicólogo (Emílio Mira y Lopez). Se o Espírito
Santo habita em nosso coração, ele não pode conviver com o ódio. Contudo,
sabemos que, embora não o desejando, nós odiamos.
Por isto, a recomendação bíblica é que, mesmo nos irando, não devemos pecar
e nem permitir que o sol se ponha sobre a nossa raiva. Antes, consultemos nosso
travesseiro e sosseguemos (Salmo 4.4). Em outras palavras, o ódio não pode ser
um sentimento permanente em nós, para que não nos destrua.
O ódio é, portanto, um sentimento a ser controlado ou ele nos dominará e nos
levará a fazer o que não queremos.
A ambição é um sentimento que também deve ser controlado. Não devemos ser
acomodados; antes, devemos querer o máximo para nós. A ambição destrói
quando não vê métodos e se baseia na comparação com o que os outros são ou
alcançaram. Controle a sua ambição e ela não controlará você.
A vaidade é um sentimento que também deve ser controlado. Não devemos nos
achar que nada valemos e que os outros são melhores ou fazem as coisas melhores
que nós. Nem sempre... A vaidade mata quando nos leva a nos achar onipotentes e
oniscientes, acima da média humana. Controle a sua vaidade e ela não controlará.
2. Dominando nossos
desejos
Se os nossos sentimentos nos definem, nossos desejos nos constituem. Nós somos
aquilo que desejamos. Como ensinou Jesus, onde estiver o nosso tesouro, isto é,
os nossos desejos, aí estará também o nosso coração. (Mateus 6:21)
Desejamos coisas legítimas e coisas ilegítimas. Nem todos os nossos desejos são
pecaminosos. Sejam quais forem, no entanto, se eles nos controlarem, passam a
ser pecaminosos. Comer chocolate não é pecado. Se no entanto, não posso comê-lo
e não consigo não comê-lo, comê-lo é pecado. Ver televisão não é pecado.
Se, no entanto, eu deixo de fazer o que preciso fazer (seja ler, trabalhar,
conversar) para ficar diante dela, ela me controlou.
Desejamos coisas realmente necessárias e coisas suavemente impostas. Já não
sabemos a diferença em coisas básicas e coisas supérfluas. De qualquer modo,
no entanto, podemos dizer que grande parte de nossas necessidades simplesmente não
existe. É parte da máquina do mundo, que nos torna primeiramente consumidores
e depois cidadãos (se é que chamos a sê-los).
A maior desgraça do desejo é quando ele se converte em vício. Nada mais
blasfemo do que um cristão viciado. Há cristãos viciados em falar da vida
alheia; até reunião de oração se transforma em espaço privilegiado para a
fofoca. São cristãos que não refreiam as suas línguas. Há cristãos
viciados em guardar dinheiro; eles guardam sempre e de modo tão doentio que
nunca usufruem dele. São cristãos que não refreiam sua cobiça. Há cristãos
viciados em mentir; dizem a Deus que O estão adorando, mas estão apenas
buscando uma bençãozinha; dizem que têm apreço por seu irmão, sendo até
capazes de abençoa-los da boca para fora, mas não têm a menor disposição de
ajudá-lo a carregar as suas cargas. São cristãos escravos da aparência.
Ter domínio próprio é controlar os próprios vícios, não os vícios dos
outros, que este já é um outro vício...
3. Dominando-nos diante
das circunstâncias
Além dos sentimentos e desejos, que nós podemos controlar, em grau maior ou
menor, há as circunstâncias, aquelas situações que não criamos, mas que nos
atingem.
Quando nos enredam, elas provocam desânimo. Diante delas, podemos perder o
auto-controle, partindo para reações inadequadas, seja de desespero, seja com
violência. Nossa reação mostra que, na verdade, estamos sendo controlados por
elas.
Podemos ser menores que as circunstâncias, mas Deus é maior do que elas.
Embora seja difícil, é assim que devemos crer. Autocontrole é manter a
esperança no Senhor da vida.
Precisamos também aprender a lidar com as circunstâncias. Devemos fazer tudo o
que estiver ao nosso alcance, mesmo sacrificialmente, para mudar aquelas que nós
podemos transformar. Diante daquelas que não podemos alterar, temos que
aprender a conviver com elas, mesmo sob pretexto, para que não nos dominem.
Adaptar-se não é aceitar conformisticamente as adversidades, mas saber que
elas existem, mudá-las logo, mudá-las quando for possível e viver apesar
delas.
Devemos ter sempre em mente o conselho do pregador: Não há nenhum homem que
tenha domínio sobre o vento para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o
dia da morte; nem há tréguas nesta peleja; nem tampouco a perversidade livrará
aquele que a ela se entrega. (Eclesiastes 8:8)
4. PARA TER
AUTOCONTROLE
Há certas ocasiões que, antes de perceber o que está fazendo, você perde o
controle, e passa ser vítima do seu descontrole, velada ou violentamente. Os
resultados são prostituição, impureza, lascívia, que nos sobrevêm quando
perdemos o controle sobre a paixão e nos deixamos levar por ela; idolatria e
feitiçarias, quando desesperamos diante das circunstâncias e buscamos bênçãos
de todo tipo; inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções
e invejas, que nos dominam quando damos lugar aos desejos de superação do
outro; bebedices e glutonarias, quando nos deixamos escravizar pelo desejo do
nosso ventre. (Gálatas 5.19-20)
O fruto do Espírito, no entanto, é o auto-controle.
1. Conheça-se e use o conhecimento a seu respeito a seu próprio favor.
Tendemos a não perceber como somos, mas devemos nos esforçar para tal. Se você,
no trânsito, é um pé de chumbo, vigie seu comportamento, para que controle o
seu ímpeto de sair em disparada. A velocidade não é mais importante que você.
Se você se ira com facilidade, evite as situações que a provocam a sua raiva.
Desenvolva métodos para que a irritação fique em níveis aceitáveis. Use o
que você sabe a seu próprio respeito para se dominar melhor.
2. Aprenda a tomar atitudes diferentes das que toma hoje. Faça com que seus
sentimentos e desejos não redundem sempre nos mesmos atos. Você nasceu assim,
mas não precisa morrer assim. Abra-se para o diferente. Faça o que nunca fez
antes.
3. Valorize a disciplina. Quando Jesus disse que, se o nosso olho nos levar ao
escândalo, devemos arrancá-lo, ele estava lembrando que precisamos subjugar o
nosso corpo, quando este nos subjuga. Ponha objetivos na vida e se empenhe para
alcançá-los. O autocontrole é o resultado da disciplina e do esforço próprio.
4. Deixe-se conduzir pelo Espírito de Deus. O domínio próprio é um esforço
de quem vive pelo Espírito. Os homens em geral não pensam em disciplina, mas
os cristãos nos esforçamos para viver de modo organizado, coordenado e harmônico.
Neste ministério, o Espírito Santo quer nos apoiar, para nos conduzir.
Deixe-se dirigir pelo Espírito. O domínio próprio só é possível por meio
de Sua ação em nós.
5. CONCLUSÃO
O domínio próprio a que estamos nos referindo aqui não se trata de um
auto-controle que nos faz doentes, aquele falso, aquele apenas de aparência,
mas aquele resultante de desejo profundo.
Por isto, evite começar a fazer aquilo que o controla. Se você perde o
controle da sua língua, quando o assunto é a vida alheia ou quando a conversa
descamba para assuntos pouco edificantes, não entre na conversa. Recuse
participar desde o princípio.
Se já começou, deixando-se dominar por sentimentos, desejos e atitudes,
procure parar. O Espírito Santo o ajudará, se houver arrependimento no seu
coração.
Afinal, a vida cristã é aquela vivida no Espírito Santo. Na verdade, a vida
cristã só é possível no Espírito. Fora dEle, nossa vida é como a de
qualquer pessoa.
Israel Belo de Azevedo,
Pastor da Igreja
Batista Itacuruçá. Doutor em filosofia, dirige o Programa de Pós-Graduação
em Teologia (Mestrado e Doutorado) do Seminário Teológico Batista do Sul do
Brasil (Rio de Janeiro).
E-Mail: israel@openlink.com.br
Maiores informações entre em www.ebdweb.com.br